sábado, 22 de outubro de 2016

Capitulo XI - Os Donos da Vida

Capitulo XI 


   

 Miguel entrou no Hotel Açores Lisboa conhecedor do caminho. O sorriso caridoso que a recepcionista lhe dirigiu, fê-lo endireitar-se, mas foi o pensamento dela que o tocou. Nunca tinha suscitado pena em ninguém. E naquele momento aquela rapariga com uma longa noite de trabalho pela frente sentia compaixão por ele. “Coitado, deve ter tido um dia difícil. Não lhe gabo a sorte”. Miguel sorriu com o pensamento daquela rapariga de estatura baixa e um pouco redonda e abanou a cabeça com a ironia da situação. Ela que tinha de trabalhar para sustentar sozinha um filho adolescente traquina que lhe dava muita despesa e dores de cabeça, não invejava a sorte dele, que é um Deus na terra.
Miguel subiu sozinho no elevador e quando chegou ao quarto, sentiu uma familiaridade que só aquele hotel lhe conseguia proporcionar. As plantas que cobriam a fachada transmitiam a sensação de calma e harmonia de uma grande família camponesa. O conforto interior do quarto quase o obrigava a descalçar os sapatos Stefano Bemer, feitos à mão e por medida, a enfiar uns chinelos confortáveis e um roupão quente, a sentar-se junto à varanda e a ler o jornal diário sem pressa. Miguel ligou a cafeteira para aquecer água e fazer um chá. Que chá usaria Cristiano para esta angústia que sentia? Sorriu perante esta interrogação involuntária. Tinha gostado do homem. Era um homem sério como já não conhecia há muito tempo nos cenários da política. Miguel optou por um chá de tília. Sentou-se na poltrona sabiamente colocada em frente à janela e esticou as pernas sobre uma mesinha que teria outra utilidade qualquer. Bebericou o chá quente e deitando a cabeça para trás, fechou os olhos. Tinha demasiada informação a rondar-lhe a mente e não conseguia organizá-la.
Em momentos muito pouco vulgares, como este, questionava-se sobre a necessidade do ritual de yesod. Depressa varria esta incerteza da sua mente. Este ritual permitia acesso ao subconsciente de todos. E os Donos do Mundo têm de ter acesso a toda a informação necessária de forma a poderem proteger a humanidade o melhor possível. O Homem é um ser auto destrutivo, mas utiliza formas de destruição encobertas e complexas sempre com o falso justificativo de preservar o homem de bem. São a sua principal ameaça. E é aqui que a ordem tem um papel fundamental. Têm de manipular o mundo para que o ser humano, criado à imagem de Deus, não deixe de existir. A humanidade é o projecto de Deus, e ele e os seus irmãos são os seus soldados. Têm de ter acesso às mentes alheias de forma a poderem antecipar, preparar e manipular acontecimentos.
O ritual era assim essencial para a missão da ordem. De trinta em trinta anos tinha de ser executado. O mestre indicava a escolhida. Tratava-se sempre de alguém sensível, com uma percepção para além do corriqueiro. Charlotte era assim. Tinha uma sensibilidade, uma premonição que não sabia usar. Era doce e inocente. Conheceu-a havia já sessenta anos. Ela era ruiva com uma pele branca como o leite e umas sardas que a desgostavam. Viu-a nas ruas de Londres desamparada e a desfalecer abraçada pelo fumo que inundava a cidade.



Decorria então o ano de 1952. Mais concretamente o dia 5 de Dezembro de 1952. Londres palpitava vida naquela manhã fresca e calma. O frio cortante obrigava a passos apressados nas ruas. Todos cobriam-se com camadas de roupa quente sem ligar a modas. O frio era mais incomodativo do que a aparência. Miguel lembra-se de passear ao longo do rio Tamisa. O céu azul e permissor de um sol longínquo não aquecia os necessitados. Almoçou uma sopa quente num café escuro e preparou-se para o que o esperava. Reviu as feições redondas de Charlotte na sua mente de forma a reconhecê-la quando chegasse o momento. No final da tarde daquele início de Dezembro, a temperatura baixou abruptamente e cada um se refugiou na quentura dos brasidos das suas casas. Um nevoeiro cerrado desceu sobre a cidade e depressa se transformou numa cortina de fumaça perfurada por uns insistentes raios de sol formando colorações florescentes nunca antes vistas naquela cidade. Não fosse o sinistro daquele negrume abrasador que obrigava ao uso de lenços sobre o nariz e a boca, e os londrinos teriam apreciado com gosto este fenómeno. E então o íntimo perverso do homem sobrepôs-se ao civilizado que era obrigatório num quotidiano domesticado. A escuridão trouxe consigo atropelamentos e acidentes em que os culpados desapareciam no meio da neblina e as vítimas sucumbiam perante a falta de auxílio. As pilhagens deram lugar à monotonia da vida corriqueira de Londres e o fumo cada vez mais negro e denso era cúmplice dos culpados. Todos corriam. Todos tossiam. Todos se protegiam. Ninguém auxiliava quem precisava. Foi neste cenário que Miguel encontrou Charlotte, com um lenço de um branco conspurcado amarrado à volta da face. Os olhos pretos arregalavam-se na esperança de ver um pouco mais além. Encolhida sobre si mesma desviava-se como podia dos carros tresloucados e dos ladrões de ocasião. Miguel correu para ela e envolvendo-a nos seus braços mesmo antes de ela desmaiar e carregou-a até o seu hotel.
Miguel descaiu o corpo na poltrona de forma a encostar a cabeça, e fechou os olhos regressando a esta doce lembrança de Charlotte.
Ela estava esticada em cima da cama gigante do hotel quando abriu os olhos com esforço como se tivesse a acordar de um longo sono. Miguel gostou daqueles olhos pequenos e perspicazes que percorreram o quarto antes de se depositarem nele. Ela disfarçou o medo numa atitude autoritária. Levantou-se de um salto e uma nuvem de poeira saltou com ela.
- Quem és tu? – Foram as primeiras palavras que Miguel ouviu da sua boca. A sua voz era rouca e arrastada.
- Sou o teu salvador. – Miguel sorriu-lhe e gostou da tremura que lhe provocou. – Estavas desmaiada no meio da rua. Não te podia deixar no meio desta confusão que se abateu sobre Londres.
Ela aproximou-se da janela e afastou o pesado cortinado. Sobressaltou-se com o que viu. Lojas e casas saqueadas. As pessoas apressavam-se de um lado para o outro. Não havia diferença entre os passeios e a estrada. Todos se atropelavam. Os transportes públicos estavam parados e abandonados. As pessoas usavam máscaras de gás como nos tempos da grande guerra.
- Estamos a ser alvo de um ataque químico? – Este era um medo herdado da guerra. Era uma realidade camuflada que a Europa esperava a qualquer momento.
- Não! – Miguel continuava a olhá-la. Era baixa e um pouco redonda demais para o seu gosto. Mas havia algo nela que lhe suscitava interesse. Os pensamentos dela pareciam um furacão à solta. Ela pensava em inúmeras coisas ao mesmo tempo, e Miguel tinha dificuldade em acompanhá-la. Mas o que o podia ajudar, ele já tinha captado. Ela tinha uma baixa auto-estima. Sentia-se atraiçoada pelo seu corpo redondo e pelas sardas. Era carente… Era uma presa fácil. E Miguel sorriu perante este pensamento.
- Então o que se passa? O que significa este fumo?
- Ninguém sabe. Surgiu assim do nada. – Miguel sentou-se numa cadeira de vime que estava ao lado da janela. – Moras aqui perto?
Charlotte olhou-o desconfiada. Ela sentia-se atraída por aquele homem de imagem forte, mas também sentia um arrepio de aviso. Miguel sentia a sua desconfiança e então deixou descair um pouco os ombros, tornando-se menos imponente e sorriu-lhe afavelmente, roçando uma quase humildade que lhe era tão pouco característica.
- Tens alguém lá fora à tua espera? Precisas de avisar alguém?- Miguel levantou-se graciosamente e colocou-se ao lado da rapariga olhando para aquele cenário de guerra que a vista da janela lhe oferecia. A diferença das suas alturas estava evidenciada e Charlotte sentiu-se pequena na sua estatura e na sua pessoa. – Acho que não é prudente sair.
Ela sorriu-lhe um sorriso envergonhado baixou os olhos e deu a resposta que Miguel já conhecia.
- Não tenho ninguém à minha espera. – Ela finalmente olhou-o nos olhos e Miguel soube que tinha a sua missão cumprida.
Charlotte olhou-se ao espelho e envergonhou-se pelas roupas gastas e sujas. Miguel antecipando este seu medo de desiludi-lo, encheu a banheira com água morna e deixou-a à vontade para se arranjar. Ela entrou na casa de banho e fechou a porta. Olhou pela primeira vez para o luxo. Nunca tinha estado dentro de uma casa de banho. Vivia em East End, ou seja, no que sobrou dos bombardeamentos da Grande Guerra. Vivia com gente que mal conhecia onde as crianças mirravam de frio e fome e os adultos apodreciam em vida. Lia a vida das damas em cartas para se sustentar e era muito procurada, mas sempre mal paga. Tinha uma sensibilidade para ler a alma dos outros que entorpecia e entretinha os fúteis. E assim se arrastava nos dias que compunham a triste melodia da sua vida. Mal podia acreditar que estava naquele hotel, na companhia daquele homem distinto. Sabia, sentia que ele tinha segundas intenções com ela. Mas ela também teria segundas intenções. Se voltasse para a rua morreria no meio do caos. Ali estava protegida e num conforto desconhecido. Viveria aqueles momentos e guardá-los-ia num recanto da sua memória de forma a reconfortá-la quando voltasse para a realidade e a miséria que a esperavam. Tomou um banho demorado. Descobriu o cheiro agradável a alfazema que emanava do sabonete. Esfregou o cabelo emaranhado como se fosse um tapete velho. E quando saiu da banheira olhou-se com um pouco mais de orgulho ao espelho. Vestiu a camisa de noite que Miguel lhe tinha deixado delicadamente em cima de um banco. A camisa de seda contornava os seios de forma sedutora e ela sentiu-se mulher pela primeira vez. Saiu corada e um pouco a medo, mas ganhou um pouco mais de confiança quando Miguel lhe dirigiu um olhar aprovador. Tinham à sua espera um tabuleiro com bolos e chá e Charlotte rendeu-se nesse exacto momento.
- Nem pareces a mesma Charlotte. – Ela abriu muito os olhos e voltou a fechar a sua cortina de desconfiança.
- Eu ainda não te disse o meu nome.
Miguel percebeu que tinha cometido uma gafe. Mas nada que o atrapalhasse. Olhou-a profundamente nos olhos e disse lentamente para que a sua mente absorvesse esta nova e alterada verdade.
- Claro que me disseste. Quando nos apresentámos há pouco. – Fez uma pausa verificando que esta informação se instalava no seu cérebro. – Eu disse que era Miguel e tu disseste-me que te chamavas Charlotte.
Charlotte riu alto e sem pudor.
- Claro que sim… Desculpe. Ainda estou um pouco confusa com tudo o que está a acontecer.
- É melhor descansares. – Miguel levantou-se da mesa cortês. – Parece que não há mais quartos no hotel. Por isso é melhor ficares aqui na cama e eu durmo na poltrona.
Charlotte levantou-se atrapalhadamente da mesa entornando o chá e provocando um riso involuntário em Miguel. Ele gostou desta nova liberdade e desta espontaneidade que ela lhe provocava.
- Nem pense nisso senhor Miguel. Eu estou habituada a dormir em qualquer canto… O senhor é que fica na cama… - Ela soprou uma mecha de cabelo revolto que teimava em tapar-lhe o olho direito. – Acredite que este chão é o maior conforto que já conheci em toda a minha vida.
Miguel sabia daquela realidade que ela lhe descrevia. Mas dita pela boca suave de Charlotte parecia demasiado cruel.
- Hoje és a rainha deste castelo Charlotte. Vais dormir nesta cama e não se fala mais nisso.
Pegou-lhe ao colo como se ela não pesasse mais do que uma almofada, aconchegou-a na cama, cobriu-a e depositou-lhe um beijo demorado na face. Charlotte fechou os olhos e deixou escapar uma lágrima libertadora, tocando uma parte do espírito de Miguel que ele desconhecia.
Miguel demorou a adormecer, apreciando o sono profundo daquela pequena ruiva de gestos brutos e linguagem fácil. Ela merecia o mundo, mas só tinha um punhado de nada. Era uma sobrevivente que ele começava a admirar. Finalmente fechou os olhos e voltou a sorrir um sorriso não premeditado.
O dia surgiu sem o acompanhamento da claridade desejada. Londres continuava mergulhada na escuridão, mas agora o fumo tinha um odor a dióxido de enxofre e uma coloração esverdeada. Miguel encostou-se à ombreira da porta desconfortável. Charlotte depositou-se ao lado dele sem olhar para a rua.
- Pareces preocupado.
Ele olhou-a sem pudor. Ela parecia uma selvagem, com o cabelo todo revirado e os olhos inchados. Então Miguel sucumbiu pela primeira vez a um impulso animal que desconhecia. Pegou-lhe pela cintura e beijou-a de uma forma mais possessiva do que amorosa. Ela correspondeu, apesar da evidente falta de experiência. De forma apressada, ele fê-la colocar as suas pernas à volta da sua cintura. Rodopiou com ela assim enroscada e envolvida naqueles beijos animalescos e finalmente atirou-a para cima da cama. Ela olhou-o com paixão e de forma permissiva.
Miguel sentiu o sangue ferver ao vê-la assim vulnerável na sua cama. O ritual tinha de ser bem executado e a luxuria nem sempre era uma boa ajudante. Então fechou os olhos com força e apertou a cana do nariz com o polegar e indicador da mão direita. Respirou fundo e afastou-se.
- Peço-lhe desculpa pela minha inexperiência. – Os olhos da rapariga estavam dilatados e húmidos reflectindo a humilhação que sentia.




Passados todos aqueles anos, Miguel ainda a recordava com carinho e sentia um peso no peito e uma dor na alma sempre que se lembrava de Charlotte, a sua doce Charlotte que lhe oferecera o melhor de si e que acabou desprezada. Miguel abriu os olhos. Não se permitia recordar para além dos momentos bons. Recordar tudo fazia-o sentir um incómodo nas entranhas que não sabia identificar.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Capítulo X - Os Donos da Vida

Capitulo X

Maria da Luz fechou os olhos e permitiu-se a reviver aquela noite ventosa, fustigada por uma chuva gelada que escorria de um vento Norte, que se deslocava cínico e desafiante. A cave translúcida tremia ao sabor das chamas dos archotes e as vozes invocavam proteção divina e conhecimento para uma causa nobre. As vozes confundiam-se num coro perfeito quando o grito estridente de Ângela arrancou os participantes daquela meditação conjunta. Os olhos arregalaram-se de terror antes que os braços fosses estendidos numa ajuda inútil. Ângela gritava por socorro tapando os ouvidos e enrolando o corpo sobre si mesma enquanto rebolava no chão.
- Eu já tinha presenciado aquela cena demasiadas vezes e sabia que não valia a pena tentar ajudá-la. Então fiz o que sempre fazia. Sentei-me num canto com os braços a rodearem-me os joelhos e os meus lábios rezavam baixinho pedindo a Deus que a livrasse daquele tormento. Nesse dia a minha amiga Estela estava comigo e rezou comigo. Mas os gritos aumentavam e os seus olhos abriram-se num espasmo de horror, enquanto todo o seu corpo se contorcia. Demorou mais tempo do que normalmente durava. Então ela levantou-se com um olhar desnorteado de pânico e lançou-se sobre a mesa tosca de madeira onde jazia a faca manchada com o sangue do cordeiro sacrificado e num desespero profundo mutilou o olho direito, enquanto gritava “larguem-me demónios malditos… larguem-me…” e depois enterrou a faca no olho esquerdo. “Essas imagens são só minhas… Ladrões… Ladrões… Nunca mais verão o que eu vejo… Ladrões”.
Miguel sentiu-se estranho e ergueu a mão para coçar o rosto. A sua mão molhou-se, enquanto os seus lábios saboreavam o sal de uma lágrima. Olhou a mão molhada pelas suas próprias lágrimas e surpreendeu-se. Ele chorava juntamente com Maria da Luz. Não se lembrava da última vez que chorara. Havia já muito tempo.
Maria da Luz abriu os olhos e arrancou-se daquela recordação dolorosa. Ainda sentia a mesma culpa que sentiu quando se aproximou do rosto da mãe ensanguentado e a abraçou com força, chorando uma angústia antiga. Então sentiu o sabor metálico do sacrifício da mãe e soube que ela já não estava atormentada.
- Depois deste ato da Ângela percebemos que ela nunca mais foi atormentada. – Cristiano falava com uma falsa calma com as mãos enroscadas no seu colo e com o olhar perdido no passado. Recordou o rosto do médico jovem e constrangido quando comunicou à família que ela havia perdido a visão na sua totalidade. Recordou o sorriso pálido e consolador de Ângela quando se levantou da cama do hospital pela primeira vez mergulhada numa profunda escuridão. Os dedos longos esticavam-se à sua frente tentando substituir os seus olhos perdidos. Recordou o calor do braço dela, apertado no seu numa dependência precoce. Recordou os passos débeis de bebé que estudavam a disposição da sua própria casa como se lhe fosse desconhecida. Recordou aqueles olhos permanentemente fustigados incapazes de ver, mas capazes de gerar muitas lágrimas, sempre escondidas de Maria da Luz. É uma mulher fantástica que lhe despertou um respeito sublime. Uma mulher, mesmo que frágil, é capaz de sacrifícios imensos por aqueles que ama, impensáveis para o homem mais forte do mundo.
– Este foi o primeiro sinal do caminho que devíamos seguir. Mas apesar de ela não ser invadida pelos devoradores de mentes, a avó de Maria da Luz passou a ser mais assediada. Mas como ela tinha a mente trabalhada para não fornecer informação importante, começaram a violar a mente de Estela. Ela era apenas uma menina em idade escolar.  – Cristiano continuava o seu relato sem levantar o seu olhar perdido.
Miguel pareceu incrédulo com aquele comentário.
- Isso é impossível. Não lemos a mente de crianças. – Depois de refletir um pouco, corrigiu a sua afirmação. – Principalmente daquelas que são mais sensíveis e que sentem a leitura. Simplesmente não o fazemos.
Maria da Luz lançou-lhe um olhar feroz.
- Leitura? Leitura? – A voz dela saiu-lhe esganiçada da garganta estrangulada. – Não se tratava de sussurros ao ouvido, de histórias de encantar, mas de uma violação. De um ato hediondo. De um roubo do que de mais íntimo nós temos. Vocês roubavam de forma violenta e cobarde os pensamentos alheios. – Ela riu alto. Um riso de escárnio. – Leitura dizes tu… Vê-se logo que o Deus Miguel nunca foi lido.
Miguel enterrou-se um pouco mais na cadeira sentindo-se alvo de um ataque pessoal. Mas pior do que isso era a sensação de culpa, como se ela tivesse razão. Tentou defender-se novamente, mas sem a convicção que acompanha os justos.
- Mas sendo a Estela uma criança sensível, não podia ter sido… - ele engoliu a palavra lida. – invadida.
- Mas foi! – Maria da Luz percebeu a sua agressividade e baixou a cabeça, enterrando-a nas mãos abertas, fazendo um esforço para se acalmar.
Cristiano levantou-se numa tentativa de forçar uma pausa reparadora.
- Vou buscar mais chá. – Já na ombreira da porta com o tabuleiro pouco seguro nas suas mãos trémulas sussurrou. – Recomponham-se. Ainda não terminámos.

A sala estreitou-se e as suas paredes pareciam afunilar-se. Maria da Luz não se atrevia a erguer o olhar, sentindo a respiração de Miguel irregular como se ele estivesse nervoso. Queria muito recuperar a calma e cativar Miguel de forma a contar com o seu apoio. Lembrou-se dos primeiros tempos de cegueira da mãe. Tinha medo de se aproximar dela porque ela não a via e podia assustar-se e magoar-se. Sentiu um vazio a primeira vez que chegou a casa da escola e abriu os braços à mãe como fazia sempre e ela não reagiu. Estava de pé ao lado do sofá, virada para ela como fazia sempre, mas não respondeu ao abrir de braços de Maria da Luz. Ela lembra-se de ter chorado baixinho nessa noite. Noutra ocasião Maria da Luz ligou a televisão e estava a dar o filme preferido da mãe, Pretty Woman com a Julia Roberts, e Luz calou a sua voz antes de chamá-la para ver, lembrando-se que ela já não o podia fazer. Começou então a ter o cuidado de ligar a televisão apenas no horário dos noticiários. Com o passar do tempo, a mãe começou a cozinhar novamente. Ela nunca teve muito jeito para a cozinha, mas Maria da Luz tinha saudades de comer simplesmente esparguete com queijo ilha azul, ou linguiças com bolo de milho. Voltaram a passear na praia e até a nadar. A mãe voltou a rir alto e a correr sobre a areia deixando-se cair de costas como se estivesse a ver as nuvens passar. A vida recomeçou num novo ritmo. O sacrifício parecia compensar a ausência daquele medo permanente que as perseguia e as atacava sem aviso prévio.
- A Estela andava na escola primária. A mãe dela pertencia à nossa ordem, mas num nível mais baixo. Só entrou para a ordem para proteger a minha mãe. – Maria da Luz começou a falar com a cabeça ainda enterrada nas suas mãos abertas. – Elas eram muito amigas… Assim como eu e a Estela. Eram inseparáveis… Mas tudo mudou quando a Estela começou a sofrer as invasões. Tornou-se uma criança atormentada. Acontecia-lhe em qualquer lado. No super mercado, na escola… E todos ficavam a olhar para ela. Os sussurros daquela ilha elevaram-se sobre a Estela e ela começou a não querer sair de casa para não ter de enfrentar os olhos por vezes piedosos, outras vezes acusadores, mas muitas vezes trocistas. Então a mãe de Estela começou a culpar-nos pelo que tinha acontecido à filha.
Maria da Luz calou-se subitamente, perdida num passado doloroso. Levantou-se da cadeira e dirigiu-se até à janela estreita e alta. Afastou a cortina pesada e encostou-se à ombreira da janela. Então de costas viradas para Miguel continuou o seu relato.
- Então num dia de Primavera, que antecedia as férias da Páscoa, estávamos sentadas no refeitório da escola. A Estela começou a ter espasmos e a revirar os olhos. Percebi que ela tentava controlar uma invasão, mas o invasor é que a controlou a ela, como sempre acontecia. Então ela começou a gritar com as mãos nos ouvidos e o pânico rolava nas suas pupilas. Ela percebia que todos os olhares estavam depositados nela. Sabia que devia parar, mas não conseguia. Então entre os seus gritos roucos e o desespero da vergonha ela agarrou numa faca de serra que servia para cortar o bife de vaca que comíamos e rasgou a sua face numa tentativa de imitação do que a minha mãe fizera quase um ano antes. Ela não acertou no olho, mas rasgou a face desde a base do olho até ao canto da boca. A invasão terminou instantaneamente. Ficou apenas a humilhação.
Miguel enterrou-se mais da cadeira.
- Lamento muito! – As palavras foram fracas mas sinceras. Ele ainda não sabia bem o que pensar. Quem seria o invasor da mente de Estela? Seria o mestre? Ou seria algum dos seus irmãos?
- Também eu Miguel! Também eu! – Maria da Luz encarou-o finalmente e o seu coração acalmou-se perante o ar perdido dele.
- O que é certo, é que depois deste ato da Estela a sua mente nunca mais foi lida também. – Cristiano entrou novamente na sala com a chaleira de chá fumegante e cheirosa. – Então tivemos a confirmação que o sacrifício de sangue humano era a resposta.
- No entanto não podíamos mutilar todas as pessoas que eu conhecia. – Maria da Luz voltou a sentar-se e serviu-se de mais um pouco de chá. – Sinto-me muito cansada. Acho melhor continuarmos amanhã.
Aquelas palavras pareceram arrancar Miguel de uma letargia melancólica. Levantou-se atrapalhado e balbuciou qualquer coisa sem sentido.
- Sim! Amanhã vemo-nos novamente. – Miguel esticou as pernas dormentes e coçou o topo da cabeça num constrangimento desconhecido. – Tenho muita informação para processar… Amanhã então!

E saiu sem olhar para trás.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Capitulo IX - Os Donos da Vida

Capitulo IX

A sala mergulhada numa penumbra bafienta provocava uma intimidade incómoda entre os presentes, deixando Miguel desconfortável. Ele estava curioso para conhecer a história de Maria da Luz. Era a primeira vez que sentia esta ansia de saber o que lhe estava vedado. Era a primeira vez que sentia curiosidade, e saboreava este novo sentimento que se assemelhava a uma espécie de fome, mas uma fome da alma e não do corpo. Sentia-se a pairar sobre o desconhecido e o desejo de aterrar num novo conhecimento fazia-o estremecer. Ele lia a mente de Cristiano com facilidade, mas não conseguia aceder a nenhuma informação que estivesse relacionada com Maria da Luz. Miguel surpreendeu-se quando viu nas memórias daquele secretário de estado a mãe de Maria da Luz. Ainda jovem e linda. Se não a tivesse conhecido nesse dia, aquelas memórias tinham-lhe passado despercebidas, uma vez que em momento nenhum conseguia uma ligação entre aquela mulher e a filha. Apenas via-a a rir alto e a olhá-lo com uns olhos brilhantes e saudáveis que em nada se pareciam com os olhos baços e fustigados por cicatrizes antigas. Miguel interrompeu aquela intromissão à mente de Cristiano. Nunca sequer havia questionado o seu direito de colher toda a informação que uma mente humana lhe pudesse dar. Mas agora parecia-lhe errado estar a colher o amor que unia Cristiano a Ângela. Um amor que tinha sobrevivido ao tempo e às adversidades. Parecia-lhe errado aquela invasão à intimidade de Cristiano e Miguel fechou os olhos com força e concentrou-se apenas em Maria da Luz.
- Sou a única filha daquela mulher que conheceste hoje. O meu pai era um estrangeiro que nunca conheci. Um dos muitos que atracam o seu veleiro na marina da horta para beberem uns gins no café Peter’s e engatarem umas mulheres locais. E foi assim que fui concebida. A minha avó materna era uma mulher sábia, mas pouco instruída. Era para alguns uma vidente que procuravam com o coração cheio de esperança. Para outros era tida como uma bruxa que afastavam como se ela transportasse em si maus presságios. O poder tem este efeito nos outros. Uma pessoa poderosa ou é venerada ou é temida, porque é difícil de aceitar aquilo que apenas se sente, aquilo que apenas existe, sem ser acompanhado por uma realidade corpórea. Era impossível ficar-se indiferente na presença da minha avó. Ela falava com as pessoas sem mexer os lábios e só o destinatário da conversa era capaz de a ouvir. Por vezes os mortos pediam-lhe para ela entregar recados. E ela fazia-o sem receios, mesmo quando tinha de procurar aqueles que a temiam. E foi a minha avó que soube que a minha mãe estava grávida de mim, antes mesmo de esta poder percebê-lo. E foi a minha avó que soube o meu destino assim que me olhou nos olhos pela primeira vez. Ela dizia que eu trazia inscrito nos olhos todo o sofrimento do mundo. Nunca percebi esta frase até olhar para ti no aeroporto. Nesse momento senti a revolta de todos os que sofrem de impotência dentro de mim. Aqueles que querem alimentar os filhos e não podem apesar de estarem dispostos aos maiores sacrifícios para fazê-lo. Aqueles que são vitimas de injustiças e encontram-se castigados sem que ninguém lute pela verdade deles. Aqueles que sabem muito e que são calados sem hipótese de erguerem a sua voz. Aqueles que se escondem em cantos escuros à espera que uma salva de tiros termine, sem perceberem o motivo daquela guerra que os faz sofrer. A manipulação está a ofender o mundo, fazendo com que a maior parte da humanidade vá alimentando uma frustração perigosa que vai sendo convertida em desprezo pelos poucos que beneficiam de tudo o que o mundo lhes pode proporcionar. Não imaginas como é querer muito fazer algo, saber que podemos fazer algo, desejar que alguém nos dê a oportunidade de melhorar um pouco as feridas do mundo e não sermos ouvidos… E gritamos alto ao ouvido daqueles que têm o poder e eles não nos ouvem e vamos ficando roucos e amargos… E vamos murchando as muitas capacidades que tínhamos. E agora eu transporto tudo isto dentro de mim.
Maria da Luz baixou o olhar e inspirou. Precisava de um momento para organizar as ideias na sua cabeça. Tinha muita coisa para dizer e não queria perder o sentido. Cristiano deu-lhe o tempo que ela precisava.
- Já ouviste falar em sacrifícios de sangue?
Miguel desviou o olhar para Cristiano como se estivesse admirado por ouvir a sua voz.
- Claro que sim!
Cristiano acenou devagar a cabeça e recolheu a chávena de chá fumegante sentindo o aroma quente e prometedor de conforto. Deu um gole e fechou os olhos permitindo-se a um segundo de puro prazer.
- A humanidade esqueceu-se dos sacrifícios de sangue, apesar de o invocarem todos os dias. Por exemplo na Eucaristia quando invocam o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. – Cristiano falava sem abrir os olhos como se o chá ainda lhe estivesse a satisfazer o palato. – No antigo testamento por várias vezes Deus exige sacrifícios de sangue. Temos a história de Caim e Abel no livro de Gênesis. Ambos os irmãos apresentaram ofertas a Deus que eram fruto do seu trabalho árduo. Caim como era agricultor ofereceu frutos da terra, e Abel, sendo pastor de ovelhas ofereceu a sua melhor ovelha. Deus rejeitou a oferta de Caim e aceitou o sacrifício do animal de Abel. Porque era um sacrifício de sangue. Os sacrifícios de cordeiros eram recorrentes em muitas religiões. Até mesmo os sacrifícios humanos eram aceites. E não só nos antigos Maias ou Astecas ou outros povos que ofereciam vidas humanas para alegrar os deuses ou apaziguá-los quando estavam zangados. Os Cristãos também praticaram o sacrifício humano.
Cristiano fez uma pausa. Os cristãos aceitavam o sacrifício humano e usufruíam dele, mas refugiavam-se na hipocrisia de o rejeitarem. Todos os dias os cristãos bendizem o sacrifício humano e invocavam-no, mas escondem-se numa fachada de humanidade que repudia esta ideia.
- A morte de Jesus Cristo foi proclamada como o sacrifício do filho de Deus para salvação da humanidade. E todos os cristãos aceitam esta morte por amor à humanidade. Jesus Cristo morreu na Cruz para limpar o pecado do mundo. Por isso é que o Deus temeroso que existia antes de Jesus Cristo que exigia sacrifícios de sangue se tornou misericordioso. Porque o sacrifício do seu filho se tornou suficiente para salvação da humanidade.
- Assim não é necessário continuar a sacrificar animais cada vez que queremos pedir perdão divino ou alguma intenção ou mesmo agradecer alguma graça. O sacrifício do filho de Deus tornou-se suficiente para a humanidade. – Miguel sentia-se frustrado naquela conversa que ainda não lhe tinha dado nenhum conhecimento novo.
Cristiano sorriu-lhe.
- Exatamente, por isso é que na eucaristia fazem a seguinte invocação “cordeiro de Deus que tirais o pedaço do mundo, tende piedade de nós” e assim estão a solicitar o perdão divino pelos pecados mundanos do homem. Depois continuam “cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, acolhei a nossa súplica” e assim cada um pede que Deus interceda pelas suas intenções. E por fim “cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz”, em que cada um quer viver sem grandes percalços.
Miguel encostou-se no sofá desmoralizado com as palavras de Cristiano. Ainda não sentia a excitação da novidade. Foi Maria da Luz que começou a abrir um pouco a cortina.
- Eu nasci marcada e as pessoas que me amavam começaram a sofrer. A minha mãe e a minha avó sempre tiveram uma sensibilidade superior às outras pessoas. Enquanto a maioria das mentes é assaltada sem que ninguém o sinta, elas sentiam-se mal fisicamente sempre que as suas mentes eram invadidas. Sentiam-se principalmente mal, quando informação acerca de mim lhes era arrancada à força. – Maria da Luz emocionou-se quando se materializou na sua cabeça a imagem da mãe com as mãos a tapar os ouvidos e os olhos cerrados com uma força excessiva que lhe enrugava o nariz. E então ela gritava por socorro. Gritava um desespero que não podia ser acudido. Maria da Luz enroscava-se num canto e abraçava os joelhos enquanto rezava baixinho para que aquilo não durasse muito. Mas o poder de decidir o tempo que durava cada assalto, cada violação era do invasor. – Maria da Luz olhava agora Miguel com um olhar acusador que o penetrou, fazendo-o revirar-se na cadeira. – A minha avó também sofria com estas invasões. Mas foi sempre mais forte e conseguia controlar-se melhor. Sentava-se como se estivesse a meditar. E assim ela conseguia controlar a informação que lhe era sacada, concentrando-se em pequenos pensamentos. Então o invasor, tal qual um parasita oportunista focou-se no elemento mais fraco e passou a atormentar apenas a minha mãe.
Maria da Luz sentia as lágrimas a formarem-se numa ardência que lhe enevoava a vista, e Cristiano retomou a palavra dando-lhe espaço para ela se recompor.
- A nossa ordem já tinha percebido que quando queríamos passar alguma informação secreta sem que os Donos da Vida tomassem conhecimento, poderíamos fazê-lo através de um sacrifício de sangue. Sacrificávamos um cordeiro e durante um espaço de tempo estávamos seguros de invasões. Mas não podíamos estar a sacrificar cordeiros de hora a hora para protegermos a Maria da Luz. – Cristiano olhou para Maria da Luz, mas ela ainda tremia. Ele sabia o quão doloroso era para ela contar aquela verdade que a envergonhava e que a torturava com uma culpa profunda. – Então a avó da Luz pediu-me ajuda, e eu fui para aquela pequena ilha sem hesitações. Foi então que conheci a Ângela. Ela era diferente de todas as mulheres que já tinha conhecido. Possuía um despreendimento das coisas mundanas que me invejava e vivia a vida na sua própria paz. O nascimento de Maria da Luz trouxe-lhe uma tortura que ela não conhecia. Ela queria proteger a filha de um destino cruel e desesperava perante a sua incapacidade para fazê-lo. Então, nessa primeira viagem que fiz ao Faial, a avó de Maria da Luz reconstruiu uma pequena casa de pedra que tinha perto do vulcão dos Capelinhos. – Cristiano pousou a chávena vazia a lançou a Miguel um olhar casual como se estivessem a ter uma conversa banal. - Creio que já tiveste a oportunidade de conhecer a casa. – Miguel limitou-se a acenar. - A casa tinha um alçapão que dava acesso a uma cave húmida e escura. Então começamos a utilizar essa casa para os nossos encontros e a cave para os nossos rituais e troca de ideias. Protegíamo-nos sempre com o sangue de um cordeiro. Mas depressa chegamos à conclusão de que não seria fácil. Precisávamos de estudar melhor a situação e pedir ajuda a outros membros rosacrucianos. Então voltei para Lisboa e pesquisei mais sobre sacrifícios de sangue. Encontrávamo-nos uma vez por ano, pela páscoa e fechávamo-nos por horas na cave, experimentando e discutindo novas formas e teorias que protegessem a Maria da Luz.
Cristiano mergulhou num silêncio saudosista e recordou a sua Ângela. Ansiava esses dias na ilha do Faial como um toxicodependente anseia a próxima dose. E quando desembarcava no pequeno aeroporto e a via de braços abertos para ele, deixava-se enroscar naquele aperto quente e então era feliz. Davam longos passeios na Praia do Almoxarife com a ilha do Pico a exibir-se para eles enquanto molhavam os pés. Em cada passeio que davam Cristiano amava-a, guardando na sua memória um novo cabelo branco ou uma nova ruga ainda tímida, mas prometedora.
- Demoraram anos, mas conseguiram encontrar uma solução. Afinal de contas a Maria da Luz desapareceu das mentes humanas a partir de um determinado momento. – Miguel sentia a curiosidade queimar-lhe as entranhas e aquele silêncio que Cristiano lhe impunha era dolorosamente insuportável.
- Eu tinha seis anos quando fizemos o primeiro… - Maria da Luz retomou a palavra mas parecia perturbada. - … o primeiro avanço.
- Maria da Luz! – Cristiano percebeu o nervosismo dela e tentou poupá-la ao relato daquela noite. – Não precisas… Eu conto o que aconteceu.

- Não Cristiano! Esta batalha é minha. Eu conto-lhe exatamente como conseguimos fechar-me aos invasores de mentes.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Capitulo VIII - Os Donos da Vida

Capitulo VIII

As lágrimas indisciplinadas teimavam em reivindicar uma liberdade angustiante. O vidro gelava-lhe a testa que estremecia ao ritmo do andamento do autocarro. Ela sentia a respiração de Miguel ali ao seu lado. Não sabia ao certo o que lhe dizer. Nem conseguia olhá-lo depois do que ele presenciara. Apetecia-lhe gritar e acusá-lo de todas as suas dores. Queria esmurrá-lo. Fazê-lo sentir a sua miséria. Mas sabia que não valia a pena. Seria uma perda de tempo e de energia. Existem vontades que devem ficar reprimidas, desejos que não se devem realizar.
Maria da Luz desceu do autocarro e sentiu-se perdida. Não queria levar Miguel para casa. Mas ainda era cedo para se despedir dele. Então sentou-se no degrau de uma casa degradada, numa rua estreita e suja, sentindo-se mais compreendida naquele cenário. Ela reparou que Miguel sentou-se ao seu lado sem hesitações. Sem olhar para a poeira que ficaria agarrada nas suas calças impecáveis. Sem torcer o nariz aos graffitis grosseiros que tinham por paisagem. Apenas sentou-se ao seu lado a olhar em frente. E finalmente ele tirou-a daquela dormência atirando uma moeda de cinquenta cêntimos para os seus pés. Maria da Luz soltou uma gargalhada tapando a boca logo de seguida como se tivesse cometido algum tipo de sacrilégio.
- Uma moeda pelos teus pensamentos. – Miguel sorriu com o irónico deste pedido. – Nunca pensei ter de pagar pelos pensamentos de alguém. Acho que entendo agora a frustração daquele que têm de pagar por sexo.
Ambos riram.
- É realmente frustrante. Estou aqui sentado ao teu lado com o rabo frio e dormente a tentar adivinhar o que te vai na mente, mas sem grande sucesso.
Maria da Luz olhou em redor e pareceu surpreendida pelo cenário deprimente que os rodeava.
- Neste momento estou a pensar que quero sair daqui.
Miguel abriu a boca numa surpresa exagerada.
- E eu a pensar que estavas a prolongar a nossa estadia aqui de propósito só para estares assim encostada a mim. – Revirou os olhos e abanou a cabeça com um sorriso malandro. – Não sou mesmo bom nisto de ler mentes.
Maria da Luz levantou-se fazendo um esforço para não se voltar a rir. Caminharam lado a lado em silêncio.
- Não é pecado rires ou sentires alegria.
Maria da Luz olhou-o surpreendida. Ele tinha o olhar preso na calçada disforme e suja e não o levantou para encará-la.
- Pensei que não conseguias ler a minha mente.
Nenhum dos dois riu.
- Como é possível não conseguir ver-te na mente dos outros? – Miguel coçava a parte de trás do pescoço. – É como se não existisses no mundo. Como se só existisses na minha cabeça.
Maria da Luz olhava-o e via agora um homem. Um homem com dúvidas, e sem respostas, exatamente como qualquer outro ser humano.
- Infelizmente o mérito não é meu. – Maria da Luz reviveu o dia em que os outros se sacrificaram por ela. – É doloroso dar-te uma resposta sincera.
- Então mudemos de assunto.
- Não! – Maria da Luz não admitia piedade e Miguel respeitou-a esperando que ela continuasse. - Lembras-te do que é ter pais? – Maria da Luz perguntou sem grande esperança na resposta.
- Por vezes quero muito lembrar-me. Mas sinceramente esqueço mais do que aquilo que lembro… - Miguel tinha o olhar perdido num ponto distante. – Sinceramente não me lembro com clareza. Mas sinto saudades. – Ele agora pousou os olhos nela numa interrogação dolorosa. – Como posso ter cada vez mais saudades de uma lembrança cada vez mais remota? Cada pormenor que esqueço cria um vazio dentro de mim. E faz com que por vezes feche os olhos e me force a lembrar os pormenores dos rostos deles. E então sinto apenas frustração. Lembro-me do cheiro do cabelo da minha mãe, mas já não me lembro da cor exata. Talvez fosse louro escuro ou um castanho suave. Lembro-me do toque áspero das mãos do meu pai, mas não te sei precisar o tamanho delas. – Miguel estava perdido nos seus pensamentos e Maria da Luz podia jurar que lhe via um pouco de humanidade naquela expressão triste. – Quando desenvolvi esta capacidade para ler mentes, lia constantemente as mentes daqueles que se lembravam deles melhor do que eu. – Miguel tinha agora um olhar escuro e uma ruga formou-se na sua testa alta. . Mas acabaram todos por morrer e não restam memórias alheias dos meus pais para eu poder assaltar.
Maria da Luz apreciou aquele momento de partilha. De intimidade.
- Reparaste nos olhos da minha mãe?
Miguel regressou e surpreendeu-se com a pergunta.
- Sim.
- Já não me lembro bem de como eram antes. Sei que ela tinha olhos castanhos-claros que pareciam amarelos nos dias de muito sol. Mas não me lembro do tom exato. – Maria da Luz arrancava as peles dos cantos das unhas. – Todos diziam que ela tinha um olhar sempre sonhador como se não pertencesse a este mundo. Lembro-me de comermos caramelos ao pequeno-almoço só porque nos apetecia ou de dormirmos na varanda para termos as estrelas por companhia. Alguns diziam que ela tinha uma certa loucura. Eu apenas achava que ela era especial. – Maria da Luz enfrentou o olhar de Miguel.
 - Parece uma pessoa especial. – Miguel sentiu a pele de Maria da Luz eriçar-se num arrepio de final de tarde. – Queres ir jantar a qualquer lado?
Maria da Luz pensou naquela proposta. Ela precisava de ajuda para contar a sua história. Precisava de uma voz amiga que a substituísse sempre que a sua ameaçasse falhar. Precisava de um olhar reconfortante que lhe confirmasse que estava no caminho certo. Era importante chegar ao coração de Miguel, mas ela sabia que era difícil. Quem vive demasiado tempo vê demasiadas coisas e torna-se mais passivo perante a dor alheia. E afinal de contas ele é um Deus na terra. Um Deus poderoso e imortal, para quem os problemas alheios são apenas ninharia na grandeza do tempo e do mundo.
Dirigiram-se então para casa de Cristiano que abriu-lhes a porta sem surpresas. Pelo contrário Miguel sentiu-se agradavelmente surpreendido quando viu o conhecido secretário de estado a abrir-lhe a porta de sua casa. Maria da Luz tinha esta capacidade impossível de o surpreender e ele descobriu que afinal gostava de ser surpreendido. Ser detentor de todo o conhecimento é deveras entediante. Mas entrar no desconhecido e ter a oportunidade da descoberta é avassalador.
Sentaram-se na sala gasta com a penumbra por companhia e um chá de flor de lótus, anis, canela e alcaçuz. Cristiano estudava o rosto de Miguel de forma discreta protegido pelos óculos redondos que descaiam até à ponta do nariz.
Passadas as apresentações e os cumprimentos formais que na realidade todos dispensavam, Maria da Luz bebericou um pouco do seu chá fumegante, inspirou fundo e começou aquela difícil conversa.
- Como já deves saber, eu pertenço a uma ordem antiga. A Ordem da Rosa Cruz. Somos uma ordem discreta e estamos no vosso domínio como todas as outras ordens.
Miguel interrompeu-a.
- Por isso mesmo não compreendo o porquê de estares fechada à nossa mente, uma vez que a vossa principal função é servir e proteger os Donos da Vida.
- Nós sabemos qual é a nossa função! – Maria da Luz parecia ofendida com aquela insinuação. Ele é que não fazia ideia dos sacrifícios e das decisões difíceis que por vezes têm de ser tomadas para cumprirem a sua missão. Os Donos da Vida estão na posição confortável de não precisarem de lidar com muitas dificuldades. Alguém trata dos assuntos difíceis. Alguém toma decisões importantes e desgastantes para poupá-los. Os poderosos têm acesso ilimitado e facilitado às suas vontades. Todos os outros têm outra realidade de vontade ação e consequência. – Nós existimos para proteger e servir os seis descendentes de Salomão. Não estamos dispostos a incluir parasitas neste processo.
Maria da Luz reparou que a maçã de Adão de Miguel subiu e desceu com dificuldade. Ele pousou a chávena de chá ainda meio cheia sobre a mesa e recostou-se no sofá.
- Também não acreditas no meu mestre?
Cristiano vendo as faces de Maria da Luz demasiado afogueadas interveio na conversa de forma a que ela tivesse tempo para se recompor.
- Diz-me sinceramente Miguel. O que há para acreditar?
Miguel calou-se desviando os olhos daquele homem com os ombros descaídos e o cabelo em desalinho, tão diferente da imagem poderosa que passava frequentemente na televisão.
Maria da Luz retomou a conversa adivinhando que Miguel não responderia a Cristiano.
- Descobrimos uma forma de nos protegermos dos intrusos. De bloquearmos a nossa existência na mente da humanidade. Mas este processo exige sacrifícios humanos, pelo que não podíamos proteger todos os membros da ordem. Assim escolhemos apenas um. Eu.
- Porquê? – Miguel tentava seguir o raciocínio de Maria da Luz, mas continuava a não fazer sentido.
- Porque eu sou uma peça fundamental para o teu mestre. Porque estás aqui para cumprir o ritual de yesod. Porque assim ele não e manipulou para vos facilitar o ritual. Porque eu sou a única que te pode mostrar o caminho.
Um silêncio profundo instalou-se. Maria da Luz queria que ele processasse toda a nova informação da forma certa. Ele era a sua esperança e se ele decidisse executar o ritual de yesod, ela não conseguiria travá-lo. Teria de ser ele a abdicar do ritual.

- E agora Miguel, creio que já estás preparado para ouvires a minha história.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A aberração das más-línguas



A aberração das más-línguas





    A maledicência é uma arte antiga e de tal forma generalizada que se tornou vulgar. Todos sabem desenvolvê-la com técnicas sofisticadas e com a imaginação e desenvoltura que se exige a um espetáculo de artes. Com tantos artistas de exceção esta arte tornou-se corriqueira. No entanto cada vez mais apreciada sendo considerada uma arte gratuita e de rua fazendo parte do nosso folclore.
    Vou aqui reproduzir a grandeza desta arte numa demonstração simples.
    Numa aldeia pacata e desinteressante, descansava parte da população na única esplanada disponível tentando tornar um domingo à tarde solarengo e entediante num acontecimento de entretenimento. “A moça estrangeira que está na pousada a passar férias é muito bonita”. “ Pois é! É pena ser demasiado magra”. “Também reparaste nisso? É só pele e osso”. “ Dá para contar os ossinhos todos que ela tem no peito”. “ Até parece ter os braços demasiado compridos e desengonçados de tanta magreza”. A voz do cidadão que lançou o primeiro elogio nem queria acreditar do que diziam todas as outras vozes. Será que estavam a falar da mesma rapariga? Então ele tentou atenuar os comentários desfavoráveis sem ser desagradável. “ Mas têm de admitir que aquele cabelo louro e comprido lhe dá um ar angelical. Até parece que ela emana uma luz divina”. “ É verdade o cabelo fica-lhe razoavelmente bem. É pena estar demasiado estragado nas pontas”. “ Estava todo espigado”. “ Parecia palha seca colada naquela cabeça demasiado oval.” A voz positiva fez mais uma tentativa elevando um pouco o tom de voz para que o ouvissem. “Ah! Mas têm de admitir que ela tinha um sorriso lindo. Uns dentes perfeitos que brilhavam de tão brancos.” As vozes do resto da população quase não o ouviam de tão entusiasmadas que estavam com a conversa. “ Era um brilho quase demoníaco”. “Eu cá fiquei assustado quando ela sorriu para mim.” “ E tinha uma borbulha mesmo por cima do lábio…”. “Notava-se que toda a sua pele era macilenta.” “Era realmente uma pele estranha”. “ Como se estivessem furúnculos a surgir por debaixo dela”. A voz positiva emitia pareceres cada vez mais altos, mas com cada vez menos ouvintes “ Ela tinha um corpo escultural… Parecia uma daquelas modelos internacionais…” E a voz positiva foi sendo cada vez mais abafada até que já ninguém a ouvia. “ Nunca tinha visto uma coisa assim”. “Quando a viu, a minha menina até se arrepiou de medo”. “ O meu rapaz desatou num berreiro”. “Não acho bem que uma aberração dessas venha para aqui incomodar pessoas de bem”. “Tens razão. Mas o que havemos de fazer?” “Devemos escorraçá-la”. As vozes em uníssono concordaram em acabar com tamanha ameaça. “Vamos dar uma lição nessa aberração”. “Nunca mais assustará as nossas crianças”.
    Os archotes ergueram-se acima das cabeças pouco iluminadas e a perseguição começou. A aberração estava à porta da pousada onde se hospedara. Iniciou-se então uma chuva de pedras lançada pela multidão ainda distanciada da aberração. Mas a vontade de acabar com aquele medo que a aberração lhes causava deu-lhes coragem para se aproximarem e enxovalharem, agredirem e denegrirem a aberração. A aberração encolhia-se e defendia-se conforme podia sentindo-se humilhada e injustiçada. Por fim sem forças para lutar contra aquilo que não compreendia deixou-se cair inerte no chão. A população não sentiu felicidade com aquela vitória. Não sentiu satisfação por uma causa ganha. Não fazia parte do processo. Apenas foram embora.

    Uma última voz curiosa perguntou. “Sabem como se chamava a aberração?” Apesar de já quase todos a terem esquecido houve alguém que se lembrou. “ Ouvi ela dar um nome estrangeiro na pousada… Era Claudia Shiffer”.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Capitulo VII - Os Donos da Vida

Capitulo VII

O aeroporto da portela era um local de passagem, reencontro e despedidas profundas. Era um local de emoções que apenas lhe chegavam através de mentes alheias. Ele sentia as emoções dos míseros mortais com uma dimensão diferente. Não processava apenas informação, mas sentia… Até aquele momento ele nunca sequer soubera que o saber era diferente do sentir. Mas ele sentia-se sensível a tudo e então soube a diferença entre sentir e saber. Sentir é um saber tão profundo que se reflete na pele como eletricidade estática.
Miguel procurava com os olhos a imagem que lhe ficara gravada no aeroporto da Horta. Estela garantiu-lhe que Maria da Luz estaria ali à sua espera, e ele não duvidou disso até àquele momento. Mas agora que ali estava sentia-se ansioso por vê-la. Era assustador sentir-se assim tão vulnerável a um simples desejo de ver aquela mulher. O seu peito enchia-se, a cada segundo que passava, de uma ansiedade que se confundia com um medo de não a encontrar ali. Era um sentimento tão humano que, Miguel duvidou da sua imortalidade naquele exato momento. Os seus olhos exploravam cada centímetro daquela zona de espera. Os seus lábios estavam cerrados num desejo trémulo de acabar com aquele suplício da espera. Os nós dos dedos estavam brancos da força exercida sobre a pega da mala de viagem. E de repente todo este sentimento que lhe apertava o peito dissolveu-se em nada, assim que os seus olhos a viram ali, encostada a um pilar redondo, a olhar distraidamente as pessoas que passavam à sua frente. Só quando ela lhe devolveu o olhar é que Miguel voltou a sentir o peito cheio de qualquer coisa inexplicável. E um nervosismo miudinho impediu-o de descer a rampa com a superioridade e majestade que desejava.
- Olá Miguel! – Maria da Luz estava ali à sua frente com uma calças de ganga escuras e justas, uma botas grosseiras por fora das calças e uma camisola de algodão de gola alta. Estava desprovida de qualquer maquilhagem ou outro artificio que a pudesse embelezar ou deslumbrar… e mesmo assim Miguel deslumbrou-se sem querer, sentindo-se tontamente humano. – É melhor vestir o casaco porque está muito frio lá fora.
Ela estendeu-lhe a mão num cumprimento que lhe pareceu demasiado frio. A pele da sua mão era suave e os dedos pequenos escorregaram-lhe demasiado depressa. Sentiu-lhe um breve arrepio que o alarmou. Queria que fosse um arrepio de prazer, mas o mais provável é que fosse um arrepio de repúdio. Deslocaram-se até a um carro pequeno de apenas dois lugares que estava estacionado no parque do aeroporto. O silêncio incomodava-o, mas em nenhum momento se atreveu a quebrá-lo.
- Podes colocar a mala aqui na bagageira. – Maria da Luz não o olhava, fazendo-o sentir-se incomodado.
- Obrigado! – Limitou-se a dizer.
Ele tentou penetrar a mente dela mas sem sucesso. Depois tentou ler-lhe as expressões do rosto e do corpo, e percebeu que não tinha essa capacidade. Nunca precisou de interpretar sinais. Bastava-lhe vasculhar as mentes alheias, sem olhar para os sorrisos tristes disfarçados. Sem se comover com olhos brilhantes. Sem se preocupar com rugas nas testas. Sem se compadecer de um descair de ombros… Só conseguia ver a beleza que ela tinha. Os cabelos entrançados numa trança desleixada eram quase brancos e luminosos. Os olhos azuis e amendoados que desejava que se depositassem em si. Os lábios não eram demasiado cheios, mas salientavam-se naquele rosto cor de mel. Miguel gostava do que via, mas mesmo assim sentia-se incomodado.
- Queres dizer-me alguma coisa? – Maria da Luz interrompeu o silêncio que invadia a pequena viatura enquanto entrava cautelosamente num grande rotunda.
- Porque é que me perguntas isso? – Miguel mexeu-se no banco do carro procurando uma posição mais confortável. – Há alguma coisa que queiras que te diga?
- Estavas a olhar para mim de forma persistente… pensei que me quisesses dizer alguma coisa. – Maria da Luz falou-lhe sem sequer olhá-lo. Ele queria acreditar que se devia ao facto de ela estar a conduzir, mas sabia que ela estava a evitá-lo.
- É estranho não conseguir saber o que te vai na cabeça… O que estás a pensar. – Mais valia ser honesto do que fingir que tinha as rédeas daquela situação.
- Não esperava que o admitisses em voz alta… - Maria da Luz olhou-o pelo canto do olho pela primeira vez. – Não sabes o que estou a pensar, mas podes agir como o resto dos humanos. Pergunta o que queres saber… É uma forma mais educada de obter informação.
- Mas assim nem sempre obtemos a verdade.
- Eu não te vou mentir… Por isso podes perguntar.
Miguel encostou a cabeça no banco do carro e sorriu.
- Achas-me um homem atraente?
- Nem por isso… - Miguel fixava o seu rosto corado e percebeu que a garganta subiu e desceu numa ansiedade falsa.
- Estás a ver como nem sempre obtemos a verdade às perguntas que fazemos… - Maria da Luz não resistiu e riu alto, fazendo Miguel perceber que tinha conseguido quebrar o gelo sem recorrer a artimanhas… E sentiu-se verdadeiro pela primeira vez na sua longa existência.
Estacionaram o carro e caminharam num silêncio menos constrangedor. Ao entrarem na cervejaria Trindade, Miguel não deixou de perceber a ironia. Sentaram-se numa mesa longe da porta de forma a evitar o frio.
- Bela escolha do lugar! – Miguel sorriu-lhe um sorriso irónico.
- Também pensei o mesmo quando entrei aqui pela primeira vez. Mas a verdade é que esta cidade está cheia de simbolismos demasiado expostos a tantos olhares cegos.
- Pois! Lisboa é uma cidade feita muito para além dos lisboetas. É uma cidade feita para o mundo. – Miguel esticou os cotovelos sobre a mesa colocando-se numa posição mais confortável. – Podes não acreditar, mas Lisboa é a minha cidade preferida… Sempre foi.
- Também estou a gostar de conhecer a cidade. - Miguel olhou-a mais profundamente. Havia algo mais do que beleza naquele rosto. Havia uma serenidade que o contagiava.
Os cafés foram servidos acompanhados pelo silêncio. Ambos olhavam-se com curiosidade e ao mesmo tempo com cautela. O que esperavam do outro lado era incerto, misterioso e ao mesmo tempo estimulante.
- Vou ver a a minha mãe. Queres vir comigo?
Miguel engasgou-se. Não esperava aquele convite que parecia revestido de hospitalidade e até mesmo de alguma intimidade. Sentiu-se um pouco nervoso.
- Claro que sim! Seria um prazer. - Ele lembrou-se da sua tarefa. Tinha de conquistá-la num curto prazo de tempo. Sentiu um prazer intimo e amargo naquela tarefa. A sua consciência tremeu numa dor aguda que ele rapidamente afastou.
Já há muito tempo que Miguel não utilizava transportes públicos. O metro estava apinhado de gente, contrariando a ideia romântica que os filmes lhe haviam gravado na memória. Uma imagem doce e triste de um rosto encostado ao vidro com um ar perdido e desligado da parede escura e húmida que corre incansavelmente em frente aos olhos vidrados. Mas a realidade estava longe desta imagem triste e calma. O metro encontrava-se apinhado de gente desconhecida que roçavam os corpos uns nos noutros sem qualquer emoção ou cumplicidade. Os corpos encostavam-se, enquanto as almas permaneciam longe, e dançavam em conjunto ao ritmo instável daquele transporte até ao embate final. E no fim a porta abre-se e aqueles corpos libertam-se daquela intimidade sem um olhar, um sorriso ou uma promessa de repetição. Apenas um cigarro aceso na ponta dos lábios e a libertação de uma fumaça vulgar.
Miguel surpreendeu-se ao ver grades altas a protegerem uma casa senhorial recuperada. A casa pareceu-lhe demasiado grande e fria para uma mãe. Entraram e a rececionista apontou os nomes e entregou umas placas com a palavra visitante. Só quando entraram num corredor longo e branco é que Miguel percebeu que se encontrava num hospício. Uma senhora de idade estava virada para a parede e começou a gritar quando o sentiu nas suas costas. Miguel percebeu que ela no meio da sua loucura sabia quem ele era. Espreitando a mente daquela mulher frágil e assustada soube que ela o chamava devorador de mentes. Maria da Luz parou em frente a um quarto que tinha a porta entreaberta. Como ela não se decidia entrar, Miguel tomou a iniciativa. Estava uma mulher sentada numa cadeira de baloiço com o rosto virado para uma janela que se alongava até ao chão de olhos fechados sentindo o calor do sol no rosto. A sua mente também lhe estava bloqueada. A semelhança com Maria da Luz fê-lo perceber que se tratava da mãe dela.
- Boa tarde! – Miguel aproximou-se da mulher que não se moveu um único milímetro. – Eu sou o Miguel. Um amigo da sua filha.
Miguel estendeu a mão à mulher que não abriu os olhos nem lhe respondeu. Por uns escassos segundos ele pensou que a mulher estivesse morta e aproximou a mão estendida para o seu rosto. Ela agarrou-lhe o punho numa agilidade que o surpreendeu. E então abriu os olhos e Miguel deu um salto para trás. Assustou-se quando viu os olhos vazios perdidos numa neblina branca que o fitavam como se o vissem.
- Então tu é que és o perseguidor da minha filha!
Miguel não respondeu. Não era uma pergunta.
- Pensei que fosses diferente!
Miguel não conseguia ver nenhum pensamento daquela mulher. Não conseguia um pequeno pressentimento sequer. Então atreveu-se a revelar novamente a sua voz com uma cautela excessiva como se a voz fosse um ele de ligação permanente entre os dois.
- Diferente como?
- Pensei que fosses mais arrogante, com excesso de confiança. Afinal pareces apenas um homem. – A mulher endireitou-se na cadeira. – A minha filha está contigo?
Miguel olhou para Maria da Luz que parecia uma criança enroscada num canto a tremer de medo.
- Estou aqui!
Ângela sorriu.
Entra e senta-te aqui ao pé de mim.
Miguel afastou-se percebendo que aquela mãe e filha tinham uma história para ser resolvida. Queria dar-lhe privacidade, mas não se atreveu a sair do quarto com medo de perder Maria da Luz. Limitou-se a encostar-se à ombreira da porta olhando para aquelas duas mulheres.
Maria da Luz aproximou-se com uma cautela excessiva. Sentou-se na cadeira em frente da mãe e pela primeira vez olhou para as cicatrizes nos olhos que lhe escorriam pela face numa angústia eterna. Ângela estendeu-lhe a sua mão e Maria da Luz demorou a pegar-lhe. Mas assim que o fez o tempo parou no exato momento em que se enroscava no colo da mãe para adormecer sem pesadelos. Então chorou.
- Não chores Luz! Este é um momento de alegria. Estamos juntas novamente.
Maria da Luz limpou o nariz na manga da camisa.
- Estivemos tanto tempo afastadas. Isso seria menos doloroso se não tivesse sido por minha causa.
Ângela procurou os lábios da filha com o seu dedo indicador. E aproveitou para lhe estudar o rosto. Estava uma mulher. Ela deixara uma criança e recebia agora nos seus braços uma mulher.
- Shhh! Não digas isso.
- Mas é verdade!
- Existem muitas verdades para a mesma realidade. Depende do ângulo que estás a vê-la. No meu ângulo a culpa foi minha. Era demasiado fraca para o destino da minha própria filha.

Maria da Luz não esperou e atirou-se de braços abertos àquela mãe reencontrando um conforto há muito esquecido.