domingo, 26 de agosto de 2012

Capitulo X - Nas Asas do Corvo


Capitulo X

O céu estava fechado num cinzento prometedor, e Vanda soube que tinha de ser rápida no caminho. O mar fustigava as rochas negras e imponentes com uma histeria vibrante que só acalmava em explosões de espuma branca. Vanda sentia o sabor salgado da maresia sempre que passava a língua pelos lábios. E gostava. Gostava de tudo naquela ilha solitária que não era mais do que um vulcão adormecido no meio do oceano. Um vulcão calmo mesmo quando um mar enraivecido o maltrata e o provoca com chapadas descaradas… Sempre calmo, recebendo na eminência de uma lava poderosa um estampado de verde onde a única explosão que se permite é uma explosão de vida e alegria. Ela queria ser assim… Calma como aquela ilha.
Vanda entregara a nota dos primeiros teste, e só Deus sabia como lhe tinha sido difícil entregar um satisfaz pouco ao seu Matias. Mesmo assim não foi totalmente justa na nota e isso agora pesava-lhe na consciência. O seu menino é tão inteligente, mas a preguiça ganha sempre numa batalha com a inteligência. Talvez ele não seja estimulado em casa. Sentia um aperto no peito sempre que pensava que ele estaria melhor com ela, em vez de viver numa casa demasiado agitada, num vai e vem permanente de gente. É altura de iniciar uma relação mais próxima… Tão próxima, que seja ele a desejá-la para mãe.
A porta de casa estava fechada apenas no trinco, e quando Vanda rodou a maçaneta da porta sem precisar de utilizar a chave sorriu para si mesma. Ela tinha aprendido a confiar.
- Oh! Olá Vasco! – Vanda surpreendeu-se. Não esperava Vasco àquela hora, mas os seus olhos não conseguiam desviar do segundo homem. Ele estava de costas. Ombros largos e uma postura errada… Uma postura descaída para o seu lado esquerdo que lhe era familiar. Um cabelo castanho claro que começava a rarear no topo. Vanda susteve a respiração até que aquele homem se virou e ela reconheceu-o numa dor aguda do passado.
- Olá Vanda! – O cumprimento ficou sem resposta, exactamente como a relação que ele teve com ela durante anos, enquanto ela esteve internada no hospício. Ela nunca respondeu… - Eu e o Vasco fomos colegas de faculdade. – E a reacção em palavras não vinha. – Vim cá conhecer a ilha e aproveitar para descansar um pouco. – Daniel sentiu-se insignificante perante aquele olhar frio que o mortificara durante demasiado tempo. Num instinto não planeado inclinou-se e cumprimentou-a com dois beijos.
Vanda levou algum tempo a reagir. Ele lembrava-se dela… Claro que se lembrava. Não sentira necessidade de se apresentar, portanto lembrava-se dela. Vasco permanecia sentado no sofá e não estava histérico, portanto era bastante provável que o Dr. Daniel não tivesse contado que… Que ela era louca.
- Olá! – Vanda forçou-se a retribuir o cumprimento. – Não me disseste que terias visitas. – O olhar acusador trespassou Vasco que sentiu o peso da culpa transbordar-lhe pelas ideias. Ainda não acreditava no discurso de Daniel. O combinado era que eles contariam toda a verdade a Vanda, mas agora parecia-lhe que aquela nova subtileza seria mais sábia… Ou pelo menos mais confortável.
- Vamos jantar fora! – Vasco queria urgentemente um ambiente menos pessoal de forma a poder proteger Vanda. Não conseguia sujeitá-la àquele incómodo.
Vanda sentiu o braço de Vasco sobre os seus ombros reconfortando-a. Ela tinha de ser forte. O passado faz parte da vida completando-a e dando-lhe sentido. O ser humano é um todo completo quando tem um passado, um presente e um futuro. Estes três elementos são indissociáveis da história que forma um ser, e Vanda tinha de saber lidar com os três. Vasco já conhecia parte da sua história e não se tinha afastado dela, pelo contrário. Afinal de contas foi ele que lhe disse “ se não testares as tuas conquistas com as tuas verdades obscuras então é porque nunca as conquistaste”. Vanda sentia que devia ter fé no sentimento de Vasco…
No restaurante, Daniel não conseguia desviar o olhar de Vanda. Ela já não tinha aquele ar frágil que lhe ocupara a memória durante os últimos anos. O olhar baço que se perdia com facilidade num ponto qualquer desconhecido aparecia-lhe agora brilhante e astuto, sem medo de o enfrentar. A pele descorada estava iluminada e o sorriso fácil surgia como por magia. Não era a mesma Vanda. Se não fossem pequenos sinais que só um entendido consegue descortinar, Vanda passaria por uma mulher normal, com uma mente lúcida e sem traumas. Mas o alisar repetido do guardanapo que lhe cobre o colo, o separar o arroz da batata e do bife de forma perfeita, o encaracolar o cabelo com o indicador demonstravam tiques denunciadores de alguém que procura freneticamente a harmonia.
- Então! Conheceram-se na faculdade? – Vanda queria muito quebrar aquele silêncio demolidor que parecia sugar tudo à sua volta como se fosse um buraco negro.
- Sim! Conhecemo-nos nas praxes. Lembras-te Daniel? – Vasco procurava a afinidade da amizade que o tinha ligado àquele homem um dia.
- Como é que podia esquecer? Estávamos num jantar em que os doutores obrigavam-nos a comer sem talheres e de mãos atadas. – Riram-se juntos. – E tínhamos no prato um bife com arroz. O arroz foi fácil de comer, mas comer o bife sem poder usar as mão tornou-se  numa aventura.
- Mas nós conseguimos… fomos os únicos que conseguimos comer o bife todo como era exigido! – Vasco começava a baixar a guarda e deixava-se embalar pelas recordações.
- Porque nós sempre fomos uma dupla de génios. – Daniel voltou a sua atenção para Vanda. – Sabes como conseguimos? – Vanda abanou a cabeço começando a apreciar a conversa. – Eu peguei no meu bife com a boca e como não conseguia partir um bocado para mastigar, o Vasco pegou na outra ponta do bife com a sua boca e conseguimos ir partindo o bife assim…
- Parecíamos dois cães a comer o mesmo bocado de carne. – Vasco sentia-se envolvido como se estivesse a reencontrar uma antiga amizade.
- Mas não rosnávamos! – A conversa prolongou-se em memórias e risos.
O vinho caseiro da adega do senhor Matias escorregava pelas gargantas sempre ressequidas e as recordações eram verbalizadas de forma animada. Vanda deixou de esticar o guardanapo no colo e soltara o caracol saturado do indicador da sua mão direita. Ria-se alto e apreciava o Vasco que Daniel lhe apresentava. Um estudante brilhante que não perdia uma noitada e que primava pelas partidas divertidas.
- Uma acordei todo coberto de espuma da barba… Lembras-te Vasco?
- Sim! – Todos riam um riso já sem sentido. - E quando tu te colocaste fora da minha porta todo coberto de folhas secas, lembras-te?
- Pois foi! Ai Vanda, devias ter visto a cara dele quando saiu de casa todo descansado e eu saí debaixo das folhas… Ele gritou como uma menina.
Vasco encheu o copo de Vanda com uma angelica velha que lhe adoçou a boca e os pensamentos. A noite terminou sem o constrangimento que lhe deu início e a promessa de que Vanda mostraria algumas belezas da ilha a Daniel na tarde do dia seguinte ficou firmada na palavra.
“A vida coloca-nos permanentemente à prova”. As palavras da avó soavam-lhe num tom monocórdico e chato aos seus ouvidos demasiado jovens e ansiosos de adrenalina. Mas as verdades dos antigos acabam sempre por nos atingir quando já não precisamos de entendê-las, quando o momento ideal de entendimento já passou e o conselho de nada nos valeu. Era assim que Vanda se sentia naquela noite deitada na sua cama macia com os olhos vidrados no tecto de gesso, teimosos em não se fecharem. As palavras dos que a amaram foram-lhe oferecidas generosamente e ela não as aceitou… E como as desejava agora naquele momento em que sentia a falta da sua família. Não tinha ninguém. E não se tinha despedido de ninguém. Depois daquele dia fatídico, Vanda nunca mais voltou para casa da avó. Foi internada num hospício onde viveu uma gravidez sem emitir uma única palavra, nem mesmo quando a avó a visitava. Apesar da idade ela era uma mulher com uma desenvoltura invejável que trabalhava na terra como um homem, mesmo vestindo um preto permanente resultante da sua viuvez. Sempre que ia ao “lar” como ela gostava de chamar de forma a suavizar a realidade daquela casa de doidos levava pão caseiro e queijo de cabra que faziam as delícias do pessoal trabalhador. Ela gostava de se sentar com a neta no jardim e perante a mudez desta falava-lhe sem para afagando-lhe a mão descarnada. Apenas na despedida deixava que os sentimentos a dominassem e deixava cair um par de lágrimas. Ela morreu… Vanda nem sabia precisar a data… Foi pouco tempo depois de Vanda ter dado à luz. Este período é muito confuso. Andava sempre drogada com calmantes e as memórias perdem-se numa neblina de incertezas entre o que foi real e que foi resultado do seu estado de demência. A última recordação que tem da avó está confusa na sua mente. Lembra-se de vê-la sentada na cabeceira da sua cama com uns olhos pequenos de choro e uma magreza anunciadora do fim. Vanda sentia apenas desespero e num turbilhão de dores de perda de desatino de desalento, agarrou os braços finos e flácidos da avó e pediu-lhe que fosse buscar o seu filho…
Vanda fechou os olhos e deixou que as lágrimas de tornassem autónomas até que o cansaço da melancolia a embalou e deu-lhe o descanso dessa noite.
O dia amanheceu claro, mas frio. Um frio húmido que se entranha nos ossos, mas que acalma a alma. A escola agitava-se no mesmo ritmo lento daquela ilha sossegada. As pessoas cumprimentavam-se sem pressas e tinham sempre tempo para dois dedos de conversa. Matias entrou na escola e dirigiu-se imediatamente para a professora de história.
- Bom dia senhora professora! – O coração de Vanda enterneceu-se e depois de se obrigar a estabilizar as emoções, Vanda respondeu-lhe com um carinho da voz que denunciava a sua preferência por aquele aluno.
- Bom dia meu querido!
- A minha mãe ficou chateada com a minha nota…
- Mas ela tratou-te mal? – Vanda sentiu que o seu coração sobressaltava-se.
- Não! – Aquela monossílaba esbofeteou Vanda por ter sido emitida de forma tão veemente, não deixando dúvidas que ele tinha tomado uma posição defensiva em relação à mãe. – Ela ralhou-me e fez-me prometer que subia a nota. Pode ajudar-me?
- Claro, meu lindo! Eu ajudo-te em tudo o que precisares…
- É que se eu melhorar as notas os meus pais oferecem-se uma PSP pelo Natal… Se não melhorar não recebo nada! – O olhar triste que Matias adoptou perante aquela última hipótese fez brotar uma vontade de Vanda abraçar aquele menino.
- Então vamos estudar todos os dias no final das aulas em minha casa, o que me dizes?
- Não posso! Vou com os meus irmãos ao futebol às segundas e quintas.
- Pois! E às terças tenho reunião de direcção de turma… Então só nos resta as quartas e as sextas. – Vanda olhava para Matias com um olhar expectante.
- Está combinado! – O sorriso que iluminou o rosto daquele rapaz, também iluminou o peito de Vanda numa ternura que ela não soube explicar.
O dia terminou e Vanda surpreendeu-se quando se deparou com Daniel dentro da carrinha de Vasco à sua espera fora do portão da escola!
- Olá Vanda! – O olhar confuso da professora fez com que o médico tremesse com medo da rejeição como se fosse um jovenzito pouco confiante. – Prometeste mostrar-me o Caldeirão, lembras-te?
Ela não se lembrava, mas não tinha como recusar. Ela acenou afirmativamente a cabeça, colocou o seu melhor sorriso e saltou para dentro da carrinha sentindo-se como um rato numa ratoeira. Aquela tarde prometia ser longa… Muito longa…

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Capitulo IX - Nas Asas do Corvo


Capitulo IX

A felicidade é como a meteorologia. Não podemos adivinhá-la, apenas antecipar a tempestade de chuvas ventos e sentimentos que nos invadem a alma… restando no fim um rasto amargo de nostalgia. A dormência do amor tolda o entendimento de forma suave e quase imperceptível, transformando o quotidiano leve e desejado num vidro frágil perante verdades duras… É na dor que se encontra a verdadeira força humana. É na dor da queimadura que aprendemos a evitar o fogo. É na dor que residem todos os anticorpos das emoções. É da dor que nascem os sentimentos, memórias e vivências que nos acompanharão pelo curto caminho da vida, guiando-nos na escuridão das ilusões, alertando sempre que o perigo espreita e adormecendo sempre que o belo surge.
A dor adormecida de Vanda despertava sempre que a intimidade de Vasco espreitava, e a frustração impunha-se nos momentos mais calorosos. Vasco desejava a chegada de Daniel, como se este fosse portador de um pó de perlimpimpim.
- Bem-vindo Daniel! – Vasco pegou na pesada mala e colocou-a milimetricamente na bagageira do carro. A falta de um cumprimento caloroso que marcara os tempos de faculdade foi sentido por ambas as partes.
- Já lhe contaste que me conheces? – Daniel temia aquele encontro.
- Não.
- Onde é que ela está agora?
- Nas aulas.
As portas do carro foram fechadas com uma cautela exagerada, e os cintos de segurança passaram pesados sobre os peitos inchados.
- Diz-me onde é que ela mora para que eu…
- Eu levo-te lá logo à noite… - Daniel sentiu que Vasco queria marcar o seu território com aquela afirmação.
- Vocês… Estão envolvidos? Ou…
- Nós estamos numa relação firme! – Vasco queria deixar bem claro que não existia espaço para Daniel nas afectividades de Vanda.
- Ah… há quanto tempo é que estão juntos? – Daniel sentiu um nó no estômago quando pronunciou a palavra juntos. Devia ter cumprido as duas semanas que tinha estabelecido na última conversa que tivera com Vasco… Mas não tinha conseguido uns míseros dias de férias no hospital. Deixou passar quase dois meses… E ele sabia bem a resposta…
- Dois meses.
- Parece sério! – Daniel fazia um jogo psicológico com Vasco, que sem perceber encheu o peito de um orgulho macho espreitando aquela conquista.
- É sério Daniel! É uma mulher incrível que se encaixa na minha vida de todas as formas e feitios… Nunca pensei dizer isto, mas acho que ela é a tal…
- Bem… Parabéns aos noivos! – o sarcasmo antecipou o golpe final – Fico contente por saber que a Vanda conseguiu finalmente ter intimidade com alguém… Que se entregou de alma… e corpo. – O sorriso vitorioso de Vasco desvaneceu-se instantaneamente e Daniel sentiu-se um pouco vingado.
Daniel não escondeu o olhar admirado quando viu o lugar onde ficaria acomodado. Em vez de uma casa humilde com as divisões seguidas sem um corredor a dividi-las, encontrou uma casa grande e clara que envergava uma placa orgulhosa que anunciava Guest House Comodoro Corvo numa junção de azul, vermelho, amarelo e branco que fazia lembrar a bandeira americana. As paredes lisas e luminosas conjugavam-se com uns acabamentos em tiras de madeira que transportavam para uma utopia de casa de praia, e para o relaxamento imediato que essa ideia injectava.
- Fecha a boca senhor doutor! – Vasco deu um encontrão suave no seu antigo companheiro de noitadas estudantis. – Nós não temos nenhum hotel aqui, mas temos o Comodoro…
Daniel entrou e apreciou o local asseado que o recebia com um sorriso rasgado num rosto agradável.
- Bem-vindo! – A rapariga de estatura baixa e estreita sacudia o cabelo rebelde que reflectia um brilho desafiador como se estivesse em chamas. – Eu sou a Catarina. – O braço estendido esperou uma acção retardada de Daniel.
- Muito prazer…
- Levas as malas dele até ao quarto Vasco? – A rapariga despachada tomou o controlo da situação, embaraçando ainda mais o médico.
- Eu? Ele que leve, que já é bem grandinho… - Catarina soltou uma gargalhada alta…
- Machos! Quem vai entendê-los? – Catarina encaminhou-os apresentando o espaço. – Aqui tem uma zona comum de lazer e refeições. Pode utilizar a kitchenette. – Daniel apreciou a simplicidade oferecida pelo espaço em que um sofá cerise escuro dividia o espaço de forma inteligente e confortável. O abuso das madeiras claras tornava aquela residencial acolhedora e quase familiar. Daniel dirigiu-se para um terraço exterior e deixou-se abrasar pela paisagem agreste de um verde húmido que desce humildemente para de fundir com o azul do mar.
O quarto não o desiludiu. Já tinha pernoitado em muitos hotéis estrelados que não conseguiam igualar aquele conforto disfarçado pela simplicidade própria dos meios pequenos. Deixou-se cair sobre a cama macia e fechou os olhos por um momento agradecendo a tão desejada solidão. Em breve estaria frente a frente com Vanda e no fundo temia este reencontro. Não a via há mais de cinco anos… Ou melhor ela não o via há mais de cinco anos. Será que ela o reconheceria? Ainda recordava os seus olhos assustados quando deu entrada no hospital acompanhada por dois polícias. Uns olhos negros e arregalados que assumiam uma neblina obscura. Ele foi o psiquiatra destacado para a acompanhar.
-Acreditamos que ela foi violada… - Aquelas palavras do polícia mais velho que exibia um bigode farfalhudo e uma barriga proeminente, ainda ecoavam na sua mente.
-Olá! Eu sou o Daniel! - Os olhos ausentes não lhe retribuíram o cumprimento. - Terás de fazer alguns exames médicos… - Agora sim, os seus olhos negros atingiram os olhos dele e um estremecimento percorreu-lhe a espinha. Não a podia deixar sozinha. Ele soube naquele momento que se tinha ligado àquele olhar de terror de uma forma pouco profissional.
- Não te preocupes… Eu vou acompanhar-te sempre! - A sala demasiado branca parecia rir-se daquela dor tão escura. A sujidade conferia-lhe um ar mais sofredor e acentuava-lhe a magreza… Uma enfermeira entrou no consultório.
 - Já está tudo preparado para recebê-la.
Daniel ajudou-a a levantar-se e conduziu-a para a medicina legal.
- Acho melhor ficar aqui… ela está em choque e podem precisar dos meus serviços. - Ninguém se opôs… Ninguém achou estranho… Mas ele sentia que estava a mentir… O profissionalismo que sempre o caracterizara estava diminuído pelo sentimento de protecção que aquela jovem frágil lhe provocava. Uma médica loura e de formas agradáveis retirou-lhe a roupa gentilmente. Vanda sentindo o corpo nu abraçou-se e encolheu-se começando a chorar compulsivamente.
- Está tudo bem! - Daniel sentou-se na maca ao lado dela e pegando com suavidade nas mãos delicadas abriu-lhe os braços. - Nós somos médicos… Podes confiar no nosso trabalho. - Quando os braços dela se abriram a tremer, Daniel teve a visão aterradora de um seio inchado de hematomas e escuro das agressões. O seu estômago revolveu-se e teve de sair da sala a correr. Lembra-se de ter vomitado num caixote do lixo. Vomitou freneticamente… Ele sentira-se mal porque teve um pequeno vislumbre daquela agressão impiedosa… Nem podia imaginar como estaria a mente daquela pobre jovem que sofrera na pele os horrores de um intimidade forçada e bruta…
Entrou novamente na sala.
- Ela ficará internada… Está muito mal tratada. Tem escoriações visíveis… Mas é um golpe que sofreu na cabeça que me preocupa. Vamos fazer mais alguns exames, para ver se este golpe deixou alguma mazela. - Daniel sentiu o seu coração acelerar-se. - Vais ter de acompanhá-la… ela ainda não emitiu uma única palavra. Ela não foi apenas violada… Ela foi muito maltratada…
- Eu vou acompanhá-la.
O outro médico aproximou-se e em tom de segredo esbofeteou-o com as suas palavras.
- Ainda bem que ela conseguiu matá-lo, ou então…
- Ou então?
- Estaria morta…

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Capitulo VIII - Nas Asas do Corvo


Capitulo VIII

A dor de cabeça mortificava-lhe a paciência e os movimentos. Vanda sabia que só um calmante muito forte conseguiria pôr fim àquele sofrimento e deixou-se cair na cama à espera que os dois comprimidos fizessem efeito. O quarto afunilava-se numa agonia extrema e só os olhos atentos e preocupados de Vasco lhe indicavam que a morte não era a melhor solução para aquele tormento. Os calmantes trouxeram uma solução doce e pacifica que se evidenciou num sono profundo.
Vasco sentou-se naquele sofá conhecido. Descalçou os sapatos cuidadosamente e alinhou-os num canto oportuno. Deixou que o seu corpo se moldasse confortavelmente ao sofá e fechou os olhos focando-se no turbilhão de pensamentos e sentimentos que lhe invadiam a alma. Uma mulher misteriosa despertou-lhe os sentidos quando pareciam adormecidos e impulsionava-o a desejos mais íntimos e longos. A mesma mulher que lhe suscitava uma cautela que nunca tinha sentido relativamente a ninguém.
O telefone tocou.
- Sim!
- Vasco?
- Sim sou eu. Daniel?
- Sim…
Vasco suspirou e achou que era altura de apelar à ajuda de um profissional.
- Eu acho que devias vir até cá.
- Ela não está bem?
A resposta negativa gritava-lhe nas entranhas.
- Ela contou-me a história da violação… Foi o tio…
- Eu sei… Nos autos da polícia consta que ele apanhou-a desprevenida. Ela tentou defender-se o que lhe provocou os hematomas que ela tinha no corpo nessa noite… Mas ele forçou-a até ao fim… E quando ele tentou investir novamente nessa mesma noite ela matou-o num desespero de que aquele acto isolado se voltasse a repetir…
- Então estás a dizer-me que sabias disto? Que ela o tinha morto?
- Sabia…
- Não foi um acto isolado!
O silêncio que se seguiu serviu para medir o peso daquelas palavras.
- Os abusos duraram três anos!
- Foi ela que te contou? – Daniel sentia-se frustrado por Vasco merecer uma confiança que Vanda nunca lhe dedicara, apesar de a ter acompanhado por anos.
- Foi… Não sei lidar com isto! Tu é que és psiquiatra, bolas… - Vasco esfregava a fronte dorida e prometedora de uma dor de cabeça. Pensou em ceder a um dos comprimidos de Vanda, mas depressa afastou a ideia. Queria estar bem desperto quando ela acordasse. – O que é que eu faço?
- Eu daqui a duas semanas estou aí! Até lá vai só vendo se ela precisa de alguma coisa… Depois podes desligar-te desse assunto.
- É demasiado tarde para me desligar…
- O que é que queres dizer com isso! – Daniel sentiu que não estava preparado para aquela revelação.
- Eu já estou demasiado envolvido!
- Envolvido como?
- Como estás a imaginar…
- Cabrão! – Daniel sentia que todas as suas vísceras vibravam de ódio. – Eu apenas pedi-te que a acompanhasses de perto porque ela ainda está vulnerável. Eu é que a tenho acompanhado por todos estes anos… Na sombra… Protegendo-a… E chegas tu com esse teu ar de galante reles e metes-te com ela, tirando proveito da sua fragilidade…
- Cala-te Daniel… só estás a dizer disparates…
- Daqui a duas semanas estou aí… E tu… livra-te de a magoares
O som intermitente do telefone desligado atingiu o tímpano de Vasco que se deixou descair novamente no sofá. A respiração alterada que se seguiu àquela frase que o mortificava ainda lhe ressoava na mente. “Matei-o”… Ela privou alguém de viver… E este facto parece insignificante e até pouco merecedor de preocupação face aos acontecimentos que o justificam… Como se houvesse justificação para matar um outro ser humano. Assassinar é talvez o acto mais hediondo que o ser humano pode praticar, seja em que circunstâncias forem. É o único acto em que a liberdade de um absorve tudo o que é, foi e seria do outro. Será justificável? Que insensibilidade é esta que Vasco sente ao sentir alívio e justiça num acto cruel e egoísta que ultrapassa o princípio da equidade? O homem justifica sempre a teoria que para ele é mais confortável sem ter muitas vezes a capacidade superior de se distanciar e analisar os factos com a sensibilidade de todos e chegando à conclusão mais sábia…
 O ruído do copo a estilhaçar-se acordou Vasco num sobressalto. Levantou-se num único movimento e deparou-se com Vanda na cozinha a juntar os cacos do copo partido tentando não fazer barulho.
- Já acordaste? – Vasco aproximou-se dela e ajudou-a a limpar o chão.
- Sim! Tenho uma aula agora ao primeiro tempo…
- Que horas são? – Os olhos de Vasco arregalaram-se ao perceber que era já a manhã do dia seguinte. O cheiro do café invadiu-lhe as narinas dando-lhe algum conforto. Depois de conversas e momentos dolorosos devem seguir-se momentos descontraídos. E estes últimos devem ser muito mais prolongados do que os anteriores, uma vez que aqueles em poucos minutos podem fazer estragos que levam anos a serem reparados por estes.
- Bem! Deixei-me adormecer… - Vasco sentou-se no banco alto em frente a Vanda e barrou uma torrada com manteiga. – Este domingo temos o casamento da Sílvia e do Tomás.
- Eu não fui convidada!
- É claro que foste… És a minha companhia! – Vasco sorriu-lhe e levantou-se da mesa apressado contornando-a. Depositou um beijo breve no topo da cabeça de Vanda e olhou para o relógio. – Vê lá se vais bem arranjadinha que eu tenho uma reputação nesta ilha a manter. – O riso que Vasco lhe provocava era mais benéfico para a alma do que os antidepressivos. – Vejo-te logo.
O resto da semana foi uma ressaca dos acontecimentos do feriado. O assunto demasiado sensível e desconfortável tornou-se mudo entre os dois que viviam o início de uma relação como se fossem dois adolescentes, aproveitando todos os momentos longe dos olhares indiscretos para trocarem um beijo rápido ou promessas sussurradas e cheias de significado.    O domingo do casamento chegou e Vanda incitada a correr riscos que havia esquecido arriscou e vestiu um vestido preto com um decote pronunciado que deslizava pelo corpo acariciando-o de forma discreta e sensual. Quando Vasco buzinou fora da sua porta e a viu sair de casa com o cabelo preso apenas nos lados com os caracóis a saltitarem ao sabor do movimento do corpo e o vestido a esvoaçar colando-se ao corpo, Vasco soube que o que o ligava àquela mulher era mais do que uma simples atracção. Era o limite do verbo gostar.
O casamento era a razão ideal para reunir toda a população. Ninguém se tinha poupado para a ocasião e se houvesse ladrões naquela pequena ilha este era o momento de execução do seu profissionalismo, uma vez que todas as casas estavam vazias de gente e de portas fechadas apenas no trinco.
Os convidados ocuparam os lugares na igreja discretamente e os sussurros sobrepuseram-se à ansiedade da espera. As conversas corriqueiras eram soltas, e até os opositores políticos se cumprimentaram. Vasco olhou para o relógio, pegou no braço de Vanda e conduziu-a para fora da igreja interrogado por um olhar admirado, uma vez que a igreja já se encontrava cheia e perderiam um bom lugar. No átrio da igreja encontravam-se Marco e Vera em segredos cúmplices com um outro casal.
- Ah! Sempre arranjaste par para a brincadeira! – Vera atirou um beijo ao cunhado enquanto lançava um olhar malandro a Vanda.
- Claro que sim! Isto sem mim não seria a mesma coisa.
Vanda continuava sem perceber o que se passava. Juntaram-se a eles mais três casais e os noivos chegaram juntos no mesmo carro para espanto de Vanda que achou aquilo muito pouco tradicional.
- Preparados? – Sílvia irradiava uma alegria que contagiou aquele grupo.
- Para quê? – Vanda tentava perceber o que estava a acontecer.
- Ah! Já percebi… Conseguiste arranjar par, porque a rapariga não sabe ao que vem… Logo vi! – O sorriso malandro de Vera despertou mais curiosidade em Vanda.
- Não lhe ligues Vanda! Estão mortas de inveja porque tu vais entrar com o homem mais sexy que esta terra já conheceu…
- Uhhhh! – Um vaio de protestos femininos foram interrompidos pelo noivo.
- Vocês são os primeiros. – Tomás empurrou Vanda e Vasco para a entrada da igreja e quando os olhares da plateia de deslocaram para o casal recém entrado, Vanda sentiu-se diminuir de tamanho. Estava ali de mão dada com Vasco com uma população inteira a olhar para ela. A música Forever do Chris Brown surgiu do nada e Vasco começou a dançar desengonçadamente… Vanda sentiu-se corar. Vasco mexia-se e abanava-se e incentivava-a a fazer o mesmo. Estaria doido? Ele pegou-lhe nas duas mãos e obrigou-a a balouçar o corpo. Vanda ria alto sem perceber a felicidade que lhe corria nas veias e sem pensar deixou-se levar e os dois subiram a nave da igreja dançando desajeitadamente. Antes de se posicionarem ao lado do altar, Vasco exibiu-se num pino torto o que fez explodir a multidão em aplausos. Vanda sem querer ficar atrás, executou na perfeição uma roda que terminou com as pernas juntas numa elegância que levou a plateia ao rubro. Os casais seguiram-se sem se pouparem ao embaraço desavergonhado e divertido. Quando os noivos finalmente entraram e também não se fizeram rogados às figuras tristes, todos se sentiram incentivados a cantar em vozes díspares e a aplaudirem desritmadamente enquanto os corpos se balouçavam numa alegria sentida em uníssono.
Vanda procurava na sua memória uma missa tão bonita mas a sua memória não conseguia alcançar tal recordação. Participou em procissões de velas no Santuário de Fátima e noutros casamentos em França e em Portugal e não tinha memória de sentir tamanha emoção. Sentiu que o coração se enchia de qualquer coisa terna e útil. Qualquer coisa que é imprescindível para a compreensão do sentido da vida. Um sentimento forte que percorre as entranhas, reconforta as mágoas, cura as feridas e dá-nos força para partilhar esse sentimento com quem precisa de um alívio. É a segunda vez que Vanda se sente tocada por Deus, desde que deixou que o terror dominasse a sua vida.  

domingo, 1 de julho de 2012

Capitulo VII - Nas Asas do Corvo


Capitulo VII

As calças de licra justas e práticas realçavam-lhe as curvas acentuadas pela t-shirt azul que deixava á mostra de forma discreta um pouco da barriga morena. Vasco não se poupou àquela visão e puxou-a para si de uma forma possessiva que agradou Vanda. O nervosismo que aquele beijo matinal descontraído e vulgar lhe provocou, ainda estava em estado de interrogação no seu espírito.
- Preparada para uma caminhada? – Vasco tinha-a ainda presa nos seus braços e sentia-a tremer debaixo do seu abraço.
- Só espero que tenhas capacidade para me acompanhares! – O sorriso que ela lhe dedicou encheu-lhe a alma de uma certeza absoluta que o fez levantá-la e girá-la no ar como fazia com os sobrinhos.
A carrinha de Vasco era sofisticada para aquela humilde ilha. Vasco conduziu pela única estrada que os levava para fora da povoação em direcção ao Monto Gordo. O silêncio leve e oportuno não se tornou constrangedor e quando Vasco procurou a mão de Vanda e entrelaçou os seus dedos longos e duros nos dela, ela cedeu e deixou que a sua mente disfrutasse desta nova confiança. Confiança. Era a palavra que lhe pesava na mente nesse exacto momento. Devia confiar. Devia aprender a confiar. O que é do ser humano sem confiança? As relações humanas são baseadas em confiança. Desde os actos mais simples ao culminar da entrega, o ser humana confia. O facto de pegar no telefone e pedir a entrega de uma pizza ao domicílio é por si só um acto de confiança. Uma ida ao médico, o avançar no semáforo verde, o atravessar a passadeira… Todo o nosso quotidiano é baseado numa confiança cega em desconhecidos. É tão fácil depositar confiança nos actos alheios de seres que não conhecemos, que nem imaginamos a sua existência… Mas é naqueles que nos são próximos que reside a traição. É daqueles que mais dependemos que surge a desconfiança. É naqueles que amamos que está instalada a possibilidade de nos magoar. E assim é mais fácil confiar na relação que nos liga ao estafeta da empresa de pizzas do que na relação dos que detém os nosso afectos e emoções.
- Aqui estamos nós s’tora!
- Muito obrigada Sr. Engenheiro! – Vanda riu alto quando Vasco arregalou os olhos de espanto.
- Andaste a recolher informação acerca da minha pessoa? Devo sentir-me lisonjeado ou assustado? – Vanda agora ria mais alto. Um riso estridente e libertador, sem preocupações nem irritações. – Apresento-te o berço da nossa ilha!
Vanda deixou que o seu olhar se deslumbrasse com aquela paisagem perdida no meio de um ilhéu habitado. Uma enorme cratera abria-se no meio daquele monte, numa festividade de um verde húmido latejante que pedia descaradamente para ser admirado. O fundo da caldeira fazia-se cobrir por duas dezenas de pequenos cones que definiam entre si misteriosas lagoas luzidias de pequenos segredos. Era impossível não ser-se transportado para um paraíso cheio de encantamentos em que o sol reflectia uma luz perfeita e as hortências azuis reflectiam o azul celeste dos céus numa capacidade divina de definir geometricamente o verde brilhante da encosta que descia trezentos metros até ao fundo da caldeira. Vanda deixou-se cair sobre o verde macio desejando que a sua alma fosse capaz de captar todo o esplendor daquela beleza. Como podia ter negado a existência de Deus durante anos a fio, se só uma divindade como ele seria capaz de criar uma maravilha daquelas no meio do quase nada. Só Deus teria a capacidade de partilhar uma paisagem gloriosa daquelas sem a guardar egoisticamente só para si. E neste momento Vanda sentiu o toque de Deus, como já não sentia há muitos anos.
- Gostaste? – Vasco sentou ao lado dela e entrelaçou os seus dedos nos dela.
- É maravilhoso! Nem tenho palavras…
- Chamamos Caldeirão!
O silêncio impôs-se por mais um momento necessário para absorver aquela dádiva.
- Temos de falar Vanda! – Vasco sentiu que o corpo dela se retraiu àquelas palavras, mas desta vez não deixaria a conversa por meias palavras. O pânico assombrou-lhe os pensamentos e num impulso destinado a calá-lo, Vanda beijou-o… De uma forma desajeitada e apaixonada, depositando naquele gesto mais medo do passado do que esperança no futuro. Vasco sentiu-se fraquejar perante aquele impulso, mas ele sabia exactamente o que se estava a passar na cabeça de Vanda. Afastou-a com cautela e olhou-a nos olhos.
- Esta é a tua carrinha de trabalho?
- É! – Vasco percebeu a tentativa de ser Vanda a conduzir a conversa.
- Mas está irrepreensivelmente limpa! – Vanda notara assim que se sentara no assento alto.
- Limpei-a ontem à noite, porque sabia que te sentirias mais confortável assim…
Vanda sorriu-lhe e sentiu o toque de Deus novamente. Chama-se amor a esta preocupação que surge nas pessoas de forma natural sem transtornos ou obrigações.
- Limpaste a carrinha de propósito por minha causa? Depois de me deixares em casa?
- Sim! – Agora parecia patético dizê-lo em voz alta, mas no dia anterior parecia fazer sentido, quando Vasco chegou a casa e se lembrou da lama que cobria a carrinha e do pó que se acumulava desesperadamente dentro daquele veículo.
- Não quero falar sobre o meu passado, porque eu sei que vou perder estas pequenas coisas que eu conquistei em ti!
Vasco deixou o corpo descair e apoiou-se no cotovelo. Pegou na mão sedosa de Vanda e beijou-lhe a ponta dos dedos.
- Se não testares as tuas conquistas com as tuas verdades obscuras, então é porque nem as chegaste a conquistar.
Vanda sorriu-lhe sem que o sorriso lhe atingisse o olhar triste e profundo.
- Foste violada? – Aquela pergunta mortificava-o, e uma voz interior rezava alto por uma resposta negativa.
- Sim!
Vasco sentiu o peso daquela certeza.
- Uma vez?
- Não! – Vanda despregou os seus olhos de Vasco e fixou o Caldeirão.
- Conta-me Vanda!
- A culpa foi minha! – Pronto tinha-o dito em voz alta. Nunca fora capaz de o pronunciar. Nem aos policiais que tinham estado com ela naquela noite fatídica, nem ao seu advogado, nem ao seu psiquiatra…
- Não estou a perceber Vanda!
- Os meus pais faleceram num acidente de carro quando eu tinha catorze anos!
- Lamento muito Vanda! Não sabia! – Vasco não sabia muitas coisas, mas mesmo assim sentia-se atraído por ela.
- Eles morreram numa acidente de carro quando voltavam para França e me deixaram em Ourém com a minha avó, porque eu lhes pedi numa acesa discussão… a última vez que vi os meus pais disse-lhes que tinha vergonha deles… disse-lhes que não queria voltar para casa com eles… - Vanda sentiu as lágrimas vencedoras dominarem os seus olhos. – A minha avó era uma mulher quase analfabeta que vivia numa aldeia afastada do centro de Ourém. Ocupava-se da vida do campo com uma alegria que me incomodava. As poucas vezes que saía da aldeia era para ir ao banco ou para ir ao mercado. De vez em quando também íamos a Fátima, ao santuário… Mas eu só fui das primeiras vezes… Depois deixei de ter fé em Deus, e culpei-o por todos os meus pecados… É muito mais fácil culpar a divindades do que termos a dignidade de assumir as nossas culpas… E nos poucos momentos em que nos atrevemos a fazê-lo a dor é tão excruciante que voltamos a colocar a culpa em ombros alheios…
- Não te podes culpar pelo acidente dos teus pais Vanda!
- Esse é apenas um dos meus pecados… Eu tenho outros… Outros…
- Do que é que estás a falar? – O olhar de Vanda estreitou-se e depositado num ponto longínquo dali não acompanhou o discurso.
- Eu manipulei uma senhora velhota para ter a liberdade que queria. Com catorze anos achei que era a rainha daquele lugarejo e ludibriei a minha avó para que ela não me impusesse regras inoportunas. Coitada… Sempre pensando que me estava a dar a melhor educação. “ Só quero que tenhas as oportunidades que não fui capaz de dar à tua mãe” e eu dizia-lhe que ela estava a fazer um excelente trabalho. Comecei a querer sair à noite… Com apenas catorze ou quinze anos… Queria sair à noite… Mas morava numa aldeia longe de tudo… Então foi quando surgiu a ideia de pedir ao meu tio Elias. Tratava-se do irmão do meu pai, e apesar de ele não ter muita afinidade com a minha avó, eu sabia que a convenceria a deixar-me sair com ele. Afinal de contas ele era já um homem e meu tio. E assim, saindo com o meu tio de trinta e cinco anos dava um aspecto respeitador às minhas saídas. Saía todos os sábados. O tio Elias ia buscar-me a casa e íamos até à discoteca. Ele dava-me liberdade para poder estar com os meus amigos e só voltávamo-nos a encontrar na hora da saída. Ansiava os sábados à noite como um alcoólico anseia um copo de vinho. Sentia uma liberdade libertina e quase maléfica que culminava nuns copos de vodka e nuns cigarros que me sabiam mal. Era uma miúda mal comportada que suscitava a inveja das minhas colegas certinhas que não podiam sair à noite e o gozo dos rapazes mais velhos que se gabavam de andar a beijar-me à socapa. No espaço de umas poucas semanas senti necessidade de vestir algo mais pronunciado que me deixasse mais pele á vista. Então levava um top e uma saia curta dentro da minha mala, e trocava-me no carro a caminho da discoteca sem vergonha do meu tio que ia ali ao meu lado. Ele nunca me ralhava, nem dava conselhos. Apenas se limitava a perguntar-me se tinha gostado da noite. Uma certa noite de sábado, voltávamos da discoteca e o meu tio perguntou-me se tinha namorado. Eu, armada em tola respondi-lhe que ia tenho. A verdade é que eu cedia aos beijos calorosos com muita facilidade, mas quando as mãos se tornavam marotas eu afastava-me. Acho que no fundo eu era como qualquer outra miúda adolescente que sonhava com um amor de cortar a respiração… Mas continuando, ele depois de me perguntar se tinha namorado desviou o carro da rota habitual, mas eu não fiz caso. A vodka girava-me harmoniosamente na cabeça e quando ele parou o carro no meio do nada e me mandou sair do carro porque me queria mostrar uma coisa, eu não questionei e fiz o que ele me mandava. Conduziu-me até um palheiro e quando entrámos, os meus olhos levaram tempo até se habituarem à escuridão. Quando a minha mente questionou pela primeira vez aquela atitude estranha, já o bafo putrefacto dele estava em cima de mim, ofegante. O baque do meu corpo no chão provocou-se dores nas costas. Ele arrancou-me as cuecas sem nunca pronunciar uma única palavra e investiu sobre mim. Eu debati-me com todas as minhas forças, mas ele era demasiado grande… Tão grande que me senti sufocar…
Vanda interrompeu aquela memória e chorou compulsivamente. Vasco abraçou-a e sentiu uma onda de ódio percorrer-lhe a espinha.
- Não tens de contar mais nada hoje.
- Eu quero contar! Se é para me odiares, que pelo menos saibas de tudo até ao fim… Quando ele terminou, levantou-me em força, conduziu-me para a rua e sobre a luz de um luar fraco inspeccionou o meu corpo, certificando-se que não tinha nódoas negras. Enfiou-me no carro e acendeu um cigarro… E disse-me a verdade… As palavras dele ainda habitam as minhas memórias e sonhos. “ Não vale a pena contares isto a ninguém, porque só vais fazer figura de parva. Tu ofereces-te descaradamente todos os sábados à noite, abanando-te desastradamente para quem quiser ver e beijando quem te passa pela frente da vista. Ninguém vai acreditar em ti… Para além de que matarás a tua avó de desgosto, tal como fizeste com os teus pais.” E foi assim que perdi a minha virgindade e a minha dignidade… A partir daquele momento deixei de sair à noite e fugia do meu tio, mas sempre que ele sabia que eu estaria sozinha em casa, ele aparecia do nada e repetia aquele acto animalesco. Ainda sinto o cheiro a transpiração e a respiração ofegante que libertava um bafo que me sufocava… Os abusos nascem dos excessos de confiança…
- Quanto tempo é que isso durou?
- Três anos!
Vasco sentiu o peso daquele sofrimento.
- E como é que acabou?
- Eu matei-o!

domingo, 24 de junho de 2012

Capitulo VI - Nas Asas do Corvo


Capitulo VI

O mar fustigava o cais minúsculo num vai e vem pouco ritmado rebentando numa indignação solitária. A espuma explodia num fogo-de-artifício triste por debaixo de um céu ameaçadoramente negro. O coração de Vanda escurecia ao mesmo ritmo daquele dia que teimava em alongar-se. A solidão pesava-lhe na alma e nos seus dias que se arrastavam num marasmo quotidiano premeditado e triste. Não via Vasco há mais de quinze dias, e apesar de tentar não pensar no assunto, a verdade é que sentia falta dele todos os dias e um vazio de animação tinha-lhe congelado o sorriso. Sabia que era melhor este afastamento do que uma promessa inútil impossível de se realizar. Fora pretensiosa ao sentir-se desejada por um homem como Vasco sempre que ele lhe dedicava um olhar doce. O seu coração estremeceu quando ela fechou os olhos por uns segundos e deixou que o vento lhe acariciasse as feições e o cheiro da maresia lhe trouxesse o rosto ligeiro de Vasco à memória. Os seus olhos dourados que escondem sempre uma segunda intenção. O seu meio sorriso malandro e fácil. O cabelo rebelde… Quando ela inspirou fundo, abriu os olhos numa necessidade física de ver Vasco.
Vanda virou as costas ao cais e seguiu um instinto primitivo que combatia ferozmente com o seu bom senso. Uma voz gritava-lhe que estava na hora de começar a fazer o jantar. Não era altura de fazer um desvio, ou não conseguiria jantar às sete e meia. Estragaria todas as tarefas planeadas para o fim do dia e ficaria com dores de cabeça quando tivesse de repensar os seus afazeres. Mas a vontade de ver Vasco, que lhe crescia rebelde e sem nexo dentro de si engolia a vozinha irritante que a mandava para casa com urgência.
A porta verde de alumínio contradizia a tradição das casas do centro da vila. A vivenda branca parecia-lhe agora maior. O nervosismo e adrenalina de estar a agir por impulso instalaram-se na barriga, provocando-lhe um formigueiro suave. Vanda procurou uma campainha, mas sem resultado. Sorriu espontaneamente. Claro que ele não teria campainha em casa. Rodou a maçaneta e a porta não lhe ofereceu qualquer resistência. Vanda entrou apreciando a simplicidade e funcionalidade que a mobília reflectia da vivência daquela casa, mas não conseguiu evitar um franzir do sobrolho face à desarrumação da sala. Brinquedos espalhados no chão, duas garrafas de cerveja vazias descansavam sobre a mesa de cerejeira já manchada…
- Vasco! – Vanda chamou, mas sem resposta. Ouviu vozes e seguiu o som. Atravessou a cozinha limpa, mas desarrumada e saiu pela porta traseira que dava acesso ao jardim. Vasco rebolava na erva com os sobrinhos fazendo-os libertarem gargalhadas nervosas de puro prazer. Vanda sentiu que o seu coração parara face àquele cenário. Matias fugia em passos repenicados de Vasco que o agarrava pela cintura e o fazia girar no ar até caírem os dois. Ela queria um jardim assim cheio de vida contagiado por um tipo de felicidade que só conseguia imaginar com Vasco naquele cenário.
- Olá! – Os olhares perdidos em risos fáceis e conversas descontraídas fixaram-na, e de repente aquela visita deixou de fazer sentido. Foi Vera que fez as honras da casa perante o constrangimento visível de Vasco.
- Olá Vanda! Que boa surpresa! Senta-te aqui. Queres uma cerveja? – Vanda obedeceu e sentou-se na cadeira que Vera amavelmente indicava.
- Não posso beber! A última vez que o fiz parece que deu mau resultado! – A última vez que o fizera correspondia à última vez que tinha estado com Vasco. Esta associação de ideias assustou-a. Talvez tivesse sido desagradável.
Vera rui-se alto e ofereceu-lhe uma coca-cola.
- Então e como vai o meu Matias na escola? – A conversa forçada tentava fazer passar despercebida a retirada de Vasco do jardim. Os olhos de Vanda seguiram-no enquanto dava uma resposta qualquer e apreciava o nó que se formava no seu estômago perante aquela atitude. Nem a tinha cumprimentado para além de um abanar ligeiro de cabeça.
- O Matias é um menino maravilhoso que se for bem acompanhado terá todos os sucessos que quiser. – Vanda devia concentrar-se no seu propósito naquela ilha. Devia conquistar o filho e não pensar em mais nada, porque a vida não lhe reservaria iguarias como o Vasco.
- Eu também acho! – Vanda absorveu o olhar de amor que aquela mulher dedicava ao filho mais novo e a sua consciência revolveu-se em remorso. – Eu engravidei do meu Matias sem querer. Foi numa altura muito complicada…
Perante o silêncio daquela mulher reservada, Vanda incentivou a continuar a sua história.
- Complicada porquê?
- Eu casei muito nova com o Marco! Viver numa ilha destas em que conhecemos todos os recantos e gentes faz com que deixemos de ser surpreendidos e temos certezas muito cedo. Eu tive a certeza de que o Marco era o homem que me acompanharia para o resto da vida e casei-me com apenas dezoito anos. Engravidei do meu Renato logo no inicio do casamento e na ingenuidadeões de horários, as responsabilidades de ser esposa e mãe, são demadiado pesadas para uma miuda que devia estar a disfrutar o sol das tardes de Verão com os amigos e a trocar segredinhos ligeiros. Tivemos de viver na casa dos pais do Marco e obedecer às regras dos donos da casa. A minha sogra é uma joia de pessoa que tentava ensinar-me a ser dona de casa e mãe e eu, na minha irreverência da juventude interpretei isso como uma perseguição pessoal… Somos tão tontos quando somos novos…- Vera fez uma pausa e um sorriso palerma floresceu-lhe nos lábios revelando que ela estava perdida nas suas recordações. – Só conseguimos arrendar casa quando o Renato tinha dois anos. O Marco trabalhava nas obras e eu prestava umas horas no bar dos bombeiros, e quando nos mudámos para a nossa casa vivemos momentos de euforia… Nem imaginas a felicidade que uma casinha com apenas um quarto e a precisar de obras urgentes nos proporcionou. E foi neste entusiasmo que engravidei do meu Carlos. Vivemos três anos a contar tostões a dormir poucas horas e colocar panas no chão para aparar a água que pingava do tecto. Com dois filhos e ordenados instáveis dependíamos muito da ajuda dos nossos pais. Foi uma época muito complicada, em que as discussões surgiam frequentemente… - Ver baixou o olhar e esqueceu-se que estava a desabafar o seu passado com uma estranha, mas numa ilha pequena em que todos se conhecem, não pode abrir as suas angústias mais intimas com ninguém. – Sabes, quando num casal, ambos andam constantemente cansados, de bolsos vazios e sempre com trabalho e responsabilidades por fazer e executar, parece sempre que o teu companheiro faz menos do que tu… As cobranças insensatas começam como uma bola de neve… Assim que atiras a primeira pedra, a probabilidade de haver uma chuva delas é inevitável. E começa a confundir-se a saturação, o cansaço, as olheiras permanentes, a vontade constante de fechar os olhos, a falta de carinhos com a falta de amor… E as dúvidas mais disparatadas instalam-se… E foi num momento destes que Matias foi concebido… - Ver deixou que as lágrimas teimosas a vencessem.
- Não chores Vera! – Vanda sentiu-se próxima daquela mulher e pela primeira vez em muitos anos quis estender os seus braços proporcionar um pouco de conforto. Retraiu-se… Não estava habituada… Por isso usou das palavras. – Com todas as tuas dificuldades conseguiste construir uma família linda. Tens apenas 33 anos e tens o que poucas pessoas levaram uma vida inteira a conquistar…
Vera riu-se por entre as lágrimas…
- Estou a ser parva, é o que me estás a dizer, não é?
- Não! Estás a lembrar-te do que passaste para chegares aqui… E isso é muito importante… É um processo que deve ser feito com frequência e que muitos se esquecem de fazer. Recordar o que cada conquista nossa custou deve ser um acto frequente, porque só assim damos valor ao que faz parte do nosso presente e nos dá força para enfrentar novas dificuldades, sabendo que o melhor que podemos alcançar não está isento de pagamento…
- E eu recordo-me de tudo muitas vezes… Eu pensei em abandonar a minha família muitas vezes… Já imaginaste se o tivesse feito?
- Mas não o fizeste! Tinhas um caminho fácil e um difícil… É normal desejarmos o fácil… O excruciante é optarmos pelo difícil e fazê-lo até ao fim. É bom que te lembres que tiveste uma outra escolha que na altura era mais fácil. É bom que te recordes das escolhas que fizeste o do resultado que tiveste dela. Estas recordações servem para te orientar em escolhas futuras.
- Posso contar-te o resto? Promete-me que estes desabafos não saem daqui…
- Claro que podes contar! Afinal eu sou uma anti-social que não me dou com ninguém… - Este comentário arrancou uma gargalhada em uníssono e incentivou a continuação daquela conversa.
- O Vasco sempre foi muito inteligente. – Ouvir aquele nome provocou um estremecimento em Vanda que ela não soube significar. – Ele foi estudar para o Faial e depois foi para o continente. Tirou o curso de Engenharia Civil e foi dos melhores do seu curso…
- O Vasco é licenciado em Engenharia? – A surpresa daquela revelação ainda lhe estava a assentar no entendimento.
- Sim… E assim que terminou o curso teve muitas propostas de emprego. Ele trabalhou numa grande empresa e viajava muito entre Lisboa e Madrid… Mas O Vasco é uma pessoa simples que que aprecia uma vida baseada num quotidiano fácil e sem grandes pressões, por isso voltou para a terrinha e começou a construir e reconstruir aqui no Corvo. Abriu a empresa com o Marco e foi a partir daí que a nossa vida deu a volta que tanto precisávamos. O Vasco foi uma bênção para as nossas vidas… Ele é uma boa pessoa…
- Pois é!
- Sabes como é que eu identifico uma boa pessoa, Vanda?
- Como?
- Uma boa pessoa é aquela que te ajuda sem que o sintas, sem passar para ti o peso da gratidão… E o Vasco é assim…
Vanda fechou os olhos por um momento. Estava na hora de jantar e não estava na sua casa. O desconforto desta constatação instalava-lhe um pânico miudinho. Mas a constatação de que Vasco era melhor do que ela pudera imaginar, ainda a perturbava mais.
- E ele é incansável com o Matias… - A voz de Vera fê-la regressar ao conteúdo daquela conversa. – Na doença do menino é sempre o Vasco que mantém a clama e que consegue agir com maior rapidez e eloquência.
- Qual doença? – Vanda sentiu-se sobressaltada com esta última revelação.
- Ai Vanda! Às vezes penso que a culpa é toda minha! Vivi uma gravidez desajeitada com os nervos no comando das minhas decisões e as discussões na ponta minha língua. Privei-me de uma alimentação saudável e do sono que o meu corpo exigia… Trabalhei até me rebentarem as águas… Fui irresponsável e penso que a culpa desta fragilidade do Matias é consequência desta minha irresponsabilidade. – Vera chorava sem vergonha e expunha-se como sentia necessidade de se expor há muito tempo. – O Matias teve leucemia há pouco tempo…
Vera perdeu a capacidade de continuar o desabafo e Vanda compreendeu-a. Finalmente abriu-lhe os braços e acolheu-a.
Quando Vera se acalmou e a chuva se impôs ao negrume do céu, ambas as mulheres entraram na casa e sentiram o cheiro perfumado de maresia. Vera sorriu por entre as lágrimas quando reconheceu o que jantariam naquela noite.
- Não acredito que temos lapas! – Vera agarrou o pescoço do marido e depositou-lhe um beijo sentido nos lábios.
- Se eu soubesse que as lapas teriam esse efeito em ti já as teria trazido há mais tempo. – Marco sorriu à mulher e limpou-lhe as lágrimas sem comentá-las.
- Já comeste lapas? – Vasco dirigia-se a Vanda provocando-lhe um aperto na garganta, o que lhe bloqueou a resposta assertiva, fazendo-a desenrascar-se com um abanar de cabeça. Vasco agora estava demasiado perto e o coração de Vanda descontrolava-se… - Não sabes o que perdes. Ajuda-me a pôr a mesa!
- Mas eu…
- Ias comer comida para pintos… Já sei! – Vasco estendeu-lhe uma toalha. – Agora ajuda-me a pôr a mesa, porque tu hoje vais comer comida de gente.
A agitação daquela casa depressa varreu tristezas. Os miúdos corriam desajeitadamente atrás uns dos outros e Vanda percebeu como os irmão mais velhos protegiam Matias sem o excluir das brincadeiras com uma sabedoria sensata e inocente. Descobriu os olhos de Marco e Vera a brilharem de uma luz quase divina sempre que pousavam nos filhos e deslumbrou-se com o sorriso palerma de Vasco para os sobrinhos. Como podia ela destruir aquela harmonia? Os cenários idílicos excluíam-na por natureza, como se ela numa pudesse fazer parte de uma pintura de Miguel Ângelo… Ela perdia-se num quadro abstracto vulgar e barato em que nenhuma realidade pode ser entendida ou admirada…
- Toca a sentar! – Vasco batia com uma colher no fundo de uma tacho fazendo as delícias dos três miúdos. Sentaram-se todos num reboliço irrequieto. As vozes confundiam-se mas as conversas não se atrapalhavam. Vanda sorriu interiormente por não se sentir com dores de cabeça no meio daquele reboliço.
- Tome esta professora! – Matias esticava uma lapa para Vanda que lhe sorriu.
- Não posso comer esta, meu querido… Primeiro tem de ser cozinhada! – Vanda sorriu-lhe e depois atrapalhou-se quando o rapaz encolheu os ombros sem perceber aquele comentário e descolou a lapa da conha e a meteu na boca assim mesmo crua… e viva. O grito de Vanda calou a mesa.
- Tira isso da boca… Já… - Vanda abanava o rapaz e forçava-o a abrir a boca numa aflição frenética. Foi Vasco quem primeiro reagiu e a afastou do sobrinho. – Mas ele pôs uma lapa crua na boca… E.. e… eu acho que ela ainda se mexia e tudo…
- Olha para mim Vanda! – Vasco encaixou o rosto de Vanda no interior da sua palma da mão e fê-la fixar o olhar nele. – Nós comemos as lapas assim…
- Cruas! E vivas… - a incredulidade de Vanda arrancaram gargalhadas à plateia em geral fazendo-a sair daquele estado de pânico.
- Experimenta uma e a professora vai ver como é bom!... – Matias voltou a esticar-lhe uma lapa. Vanda olhou para aquele molúsculo agarrado à concha que se movia pouco e não conseguiu evitar uma careta.
- Vá lá professora! – Vasco sentou-a enquanto a incentivava a comer aquela iguaria. Vanda olhou para os olhinhos expectantes de Matias e não conseguiu desiludi-lo. Pegou na concha e com a ponta de uma faca descolou a lapa. Fechou os olhos com força e abriu a boca atirando-a lá para dentro. – Agora tens de mastigar… Não sejas preconceituosa e disfruta do sabor. – Todos a incentivavam a trincar aquele petisco vivo e ela sentia-se uma assassina, mas começou por fazê-lo. Primeiro devagar, mas depois daquele sabor temperado apenas pela água do mar se alastrar pelo seu paladar, Vanda continuou com os olhos fechados, mas agora de prazer. Nunca tinha provado nada parecido. A noite animou-se numa barrigada de lapas e pão de milho.
Depois do jantar e de Vanda ter arrumado a cozinha, Vasco fez questão de a levar a casa. O silêncio impôs um caminho mais longo, em que O desconforto se tornou físico, assim como a atracção.
- Chegamos! – Vanda concentrou-se em procurar as chaves dentro da mala tentando não olhar para aqueles olhos cor de caramelo. Quando finalmente encontrou a chaves e levantou o olhar a proximidade evidenciou o desejo e Vasco aproximou-se. E abriu a boca para dizer qualquer coisa que Vanda calou com os seus lábios. A surpresa deu lugar à vontade e o toque dos dedos longos e suaves de Vanda no seu pescoço fizeram-no ceder e deixar-se levar naquele beijo. O afastamento foi lento e a realidade impôs-se novamente. Vasco não a largou e com as testas encostadas e os braços a garantirem a proximidade, Vasco teve de esclarecer o que o atormentava.
- Tu pensaste que eu ia violar-te! – Vanda deu um salto para trás e os seus olhos arregalaram-se de surpresa.
- Eu… Eu estava bêbeda… E depois foi uma noite longa… e a bebida… e estava tonta… Só devo ter dito disparates… Não ligues. – Vanda virou-lhe as costas e enfiou a chave na porta fazendo intenção de terminar as despedidas por ali. Vasco agarrou-lhe suavemente o braço e fê-la voltar-se para si.
- Tu disseste-me que tinhas sido violada! – Para além da surpresa, os olhos de Vanda revelavam agora terror, e Vasco lembrou-se do que estava a fugir, mas a sua fuga terminava ali naquele momento.
- Falamos disto noutra altura! – Vanda mostrava-se apressada na despedida.
- Amanhã é feriado! Venho buscar-te às dez horas da manhã… Vou mostrar-te o Corvo. Até amanhã! – Vasco virou costas e foi-se embora. Não sabia o que deveria dizer mais, nem como abordar aquela situação. Ela queria ficar novamente sozinha, e faltava-lhe coragem para lhe provocar mais dor do que aquela que lhe vira nos seus olhos quando abordara aquele tema.
O telefone tocou, mas Vanda não foi capaz de atender…