domingo, 1 de julho de 2012

Capitulo VII - Nas Asas do Corvo


Capitulo VII

As calças de licra justas e práticas realçavam-lhe as curvas acentuadas pela t-shirt azul que deixava á mostra de forma discreta um pouco da barriga morena. Vasco não se poupou àquela visão e puxou-a para si de uma forma possessiva que agradou Vanda. O nervosismo que aquele beijo matinal descontraído e vulgar lhe provocou, ainda estava em estado de interrogação no seu espírito.
- Preparada para uma caminhada? – Vasco tinha-a ainda presa nos seus braços e sentia-a tremer debaixo do seu abraço.
- Só espero que tenhas capacidade para me acompanhares! – O sorriso que ela lhe dedicou encheu-lhe a alma de uma certeza absoluta que o fez levantá-la e girá-la no ar como fazia com os sobrinhos.
A carrinha de Vasco era sofisticada para aquela humilde ilha. Vasco conduziu pela única estrada que os levava para fora da povoação em direcção ao Monto Gordo. O silêncio leve e oportuno não se tornou constrangedor e quando Vasco procurou a mão de Vanda e entrelaçou os seus dedos longos e duros nos dela, ela cedeu e deixou que a sua mente disfrutasse desta nova confiança. Confiança. Era a palavra que lhe pesava na mente nesse exacto momento. Devia confiar. Devia aprender a confiar. O que é do ser humano sem confiança? As relações humanas são baseadas em confiança. Desde os actos mais simples ao culminar da entrega, o ser humana confia. O facto de pegar no telefone e pedir a entrega de uma pizza ao domicílio é por si só um acto de confiança. Uma ida ao médico, o avançar no semáforo verde, o atravessar a passadeira… Todo o nosso quotidiano é baseado numa confiança cega em desconhecidos. É tão fácil depositar confiança nos actos alheios de seres que não conhecemos, que nem imaginamos a sua existência… Mas é naqueles que nos são próximos que reside a traição. É daqueles que mais dependemos que surge a desconfiança. É naqueles que amamos que está instalada a possibilidade de nos magoar. E assim é mais fácil confiar na relação que nos liga ao estafeta da empresa de pizzas do que na relação dos que detém os nosso afectos e emoções.
- Aqui estamos nós s’tora!
- Muito obrigada Sr. Engenheiro! – Vanda riu alto quando Vasco arregalou os olhos de espanto.
- Andaste a recolher informação acerca da minha pessoa? Devo sentir-me lisonjeado ou assustado? – Vanda agora ria mais alto. Um riso estridente e libertador, sem preocupações nem irritações. – Apresento-te o berço da nossa ilha!
Vanda deixou que o seu olhar se deslumbrasse com aquela paisagem perdida no meio de um ilhéu habitado. Uma enorme cratera abria-se no meio daquele monte, numa festividade de um verde húmido latejante que pedia descaradamente para ser admirado. O fundo da caldeira fazia-se cobrir por duas dezenas de pequenos cones que definiam entre si misteriosas lagoas luzidias de pequenos segredos. Era impossível não ser-se transportado para um paraíso cheio de encantamentos em que o sol reflectia uma luz perfeita e as hortências azuis reflectiam o azul celeste dos céus numa capacidade divina de definir geometricamente o verde brilhante da encosta que descia trezentos metros até ao fundo da caldeira. Vanda deixou-se cair sobre o verde macio desejando que a sua alma fosse capaz de captar todo o esplendor daquela beleza. Como podia ter negado a existência de Deus durante anos a fio, se só uma divindade como ele seria capaz de criar uma maravilha daquelas no meio do quase nada. Só Deus teria a capacidade de partilhar uma paisagem gloriosa daquelas sem a guardar egoisticamente só para si. E neste momento Vanda sentiu o toque de Deus, como já não sentia há muitos anos.
- Gostaste? – Vasco sentou ao lado dela e entrelaçou os seus dedos nos dela.
- É maravilhoso! Nem tenho palavras…
- Chamamos Caldeirão!
O silêncio impôs-se por mais um momento necessário para absorver aquela dádiva.
- Temos de falar Vanda! – Vasco sentiu que o corpo dela se retraiu àquelas palavras, mas desta vez não deixaria a conversa por meias palavras. O pânico assombrou-lhe os pensamentos e num impulso destinado a calá-lo, Vanda beijou-o… De uma forma desajeitada e apaixonada, depositando naquele gesto mais medo do passado do que esperança no futuro. Vasco sentiu-se fraquejar perante aquele impulso, mas ele sabia exactamente o que se estava a passar na cabeça de Vanda. Afastou-a com cautela e olhou-a nos olhos.
- Esta é a tua carrinha de trabalho?
- É! – Vasco percebeu a tentativa de ser Vanda a conduzir a conversa.
- Mas está irrepreensivelmente limpa! – Vanda notara assim que se sentara no assento alto.
- Limpei-a ontem à noite, porque sabia que te sentirias mais confortável assim…
Vanda sorriu-lhe e sentiu o toque de Deus novamente. Chama-se amor a esta preocupação que surge nas pessoas de forma natural sem transtornos ou obrigações.
- Limpaste a carrinha de propósito por minha causa? Depois de me deixares em casa?
- Sim! – Agora parecia patético dizê-lo em voz alta, mas no dia anterior parecia fazer sentido, quando Vasco chegou a casa e se lembrou da lama que cobria a carrinha e do pó que se acumulava desesperadamente dentro daquele veículo.
- Não quero falar sobre o meu passado, porque eu sei que vou perder estas pequenas coisas que eu conquistei em ti!
Vasco deixou o corpo descair e apoiou-se no cotovelo. Pegou na mão sedosa de Vanda e beijou-lhe a ponta dos dedos.
- Se não testares as tuas conquistas com as tuas verdades obscuras, então é porque nem as chegaste a conquistar.
Vanda sorriu-lhe sem que o sorriso lhe atingisse o olhar triste e profundo.
- Foste violada? – Aquela pergunta mortificava-o, e uma voz interior rezava alto por uma resposta negativa.
- Sim!
Vasco sentiu o peso daquela certeza.
- Uma vez?
- Não! – Vanda despregou os seus olhos de Vasco e fixou o Caldeirão.
- Conta-me Vanda!
- A culpa foi minha! – Pronto tinha-o dito em voz alta. Nunca fora capaz de o pronunciar. Nem aos policiais que tinham estado com ela naquela noite fatídica, nem ao seu advogado, nem ao seu psiquiatra…
- Não estou a perceber Vanda!
- Os meus pais faleceram num acidente de carro quando eu tinha catorze anos!
- Lamento muito Vanda! Não sabia! – Vasco não sabia muitas coisas, mas mesmo assim sentia-se atraído por ela.
- Eles morreram numa acidente de carro quando voltavam para França e me deixaram em Ourém com a minha avó, porque eu lhes pedi numa acesa discussão… a última vez que vi os meus pais disse-lhes que tinha vergonha deles… disse-lhes que não queria voltar para casa com eles… - Vanda sentiu as lágrimas vencedoras dominarem os seus olhos. – A minha avó era uma mulher quase analfabeta que vivia numa aldeia afastada do centro de Ourém. Ocupava-se da vida do campo com uma alegria que me incomodava. As poucas vezes que saía da aldeia era para ir ao banco ou para ir ao mercado. De vez em quando também íamos a Fátima, ao santuário… Mas eu só fui das primeiras vezes… Depois deixei de ter fé em Deus, e culpei-o por todos os meus pecados… É muito mais fácil culpar a divindades do que termos a dignidade de assumir as nossas culpas… E nos poucos momentos em que nos atrevemos a fazê-lo a dor é tão excruciante que voltamos a colocar a culpa em ombros alheios…
- Não te podes culpar pelo acidente dos teus pais Vanda!
- Esse é apenas um dos meus pecados… Eu tenho outros… Outros…
- Do que é que estás a falar? – O olhar de Vanda estreitou-se e depositado num ponto longínquo dali não acompanhou o discurso.
- Eu manipulei uma senhora velhota para ter a liberdade que queria. Com catorze anos achei que era a rainha daquele lugarejo e ludibriei a minha avó para que ela não me impusesse regras inoportunas. Coitada… Sempre pensando que me estava a dar a melhor educação. “ Só quero que tenhas as oportunidades que não fui capaz de dar à tua mãe” e eu dizia-lhe que ela estava a fazer um excelente trabalho. Comecei a querer sair à noite… Com apenas catorze ou quinze anos… Queria sair à noite… Mas morava numa aldeia longe de tudo… Então foi quando surgiu a ideia de pedir ao meu tio Elias. Tratava-se do irmão do meu pai, e apesar de ele não ter muita afinidade com a minha avó, eu sabia que a convenceria a deixar-me sair com ele. Afinal de contas ele era já um homem e meu tio. E assim, saindo com o meu tio de trinta e cinco anos dava um aspecto respeitador às minhas saídas. Saía todos os sábados. O tio Elias ia buscar-me a casa e íamos até à discoteca. Ele dava-me liberdade para poder estar com os meus amigos e só voltávamo-nos a encontrar na hora da saída. Ansiava os sábados à noite como um alcoólico anseia um copo de vinho. Sentia uma liberdade libertina e quase maléfica que culminava nuns copos de vodka e nuns cigarros que me sabiam mal. Era uma miúda mal comportada que suscitava a inveja das minhas colegas certinhas que não podiam sair à noite e o gozo dos rapazes mais velhos que se gabavam de andar a beijar-me à socapa. No espaço de umas poucas semanas senti necessidade de vestir algo mais pronunciado que me deixasse mais pele á vista. Então levava um top e uma saia curta dentro da minha mala, e trocava-me no carro a caminho da discoteca sem vergonha do meu tio que ia ali ao meu lado. Ele nunca me ralhava, nem dava conselhos. Apenas se limitava a perguntar-me se tinha gostado da noite. Uma certa noite de sábado, voltávamos da discoteca e o meu tio perguntou-me se tinha namorado. Eu, armada em tola respondi-lhe que ia tenho. A verdade é que eu cedia aos beijos calorosos com muita facilidade, mas quando as mãos se tornavam marotas eu afastava-me. Acho que no fundo eu era como qualquer outra miúda adolescente que sonhava com um amor de cortar a respiração… Mas continuando, ele depois de me perguntar se tinha namorado desviou o carro da rota habitual, mas eu não fiz caso. A vodka girava-me harmoniosamente na cabeça e quando ele parou o carro no meio do nada e me mandou sair do carro porque me queria mostrar uma coisa, eu não questionei e fiz o que ele me mandava. Conduziu-me até um palheiro e quando entrámos, os meus olhos levaram tempo até se habituarem à escuridão. Quando a minha mente questionou pela primeira vez aquela atitude estranha, já o bafo putrefacto dele estava em cima de mim, ofegante. O baque do meu corpo no chão provocou-se dores nas costas. Ele arrancou-me as cuecas sem nunca pronunciar uma única palavra e investiu sobre mim. Eu debati-me com todas as minhas forças, mas ele era demasiado grande… Tão grande que me senti sufocar…
Vanda interrompeu aquela memória e chorou compulsivamente. Vasco abraçou-a e sentiu uma onda de ódio percorrer-lhe a espinha.
- Não tens de contar mais nada hoje.
- Eu quero contar! Se é para me odiares, que pelo menos saibas de tudo até ao fim… Quando ele terminou, levantou-me em força, conduziu-me para a rua e sobre a luz de um luar fraco inspeccionou o meu corpo, certificando-se que não tinha nódoas negras. Enfiou-me no carro e acendeu um cigarro… E disse-me a verdade… As palavras dele ainda habitam as minhas memórias e sonhos. “ Não vale a pena contares isto a ninguém, porque só vais fazer figura de parva. Tu ofereces-te descaradamente todos os sábados à noite, abanando-te desastradamente para quem quiser ver e beijando quem te passa pela frente da vista. Ninguém vai acreditar em ti… Para além de que matarás a tua avó de desgosto, tal como fizeste com os teus pais.” E foi assim que perdi a minha virgindade e a minha dignidade… A partir daquele momento deixei de sair à noite e fugia do meu tio, mas sempre que ele sabia que eu estaria sozinha em casa, ele aparecia do nada e repetia aquele acto animalesco. Ainda sinto o cheiro a transpiração e a respiração ofegante que libertava um bafo que me sufocava… Os abusos nascem dos excessos de confiança…
- Quanto tempo é que isso durou?
- Três anos!
Vasco sentiu o peso daquele sofrimento.
- E como é que acabou?
- Eu matei-o!

domingo, 24 de junho de 2012

Capitulo VI - Nas Asas do Corvo


Capitulo VI

O mar fustigava o cais minúsculo num vai e vem pouco ritmado rebentando numa indignação solitária. A espuma explodia num fogo-de-artifício triste por debaixo de um céu ameaçadoramente negro. O coração de Vanda escurecia ao mesmo ritmo daquele dia que teimava em alongar-se. A solidão pesava-lhe na alma e nos seus dias que se arrastavam num marasmo quotidiano premeditado e triste. Não via Vasco há mais de quinze dias, e apesar de tentar não pensar no assunto, a verdade é que sentia falta dele todos os dias e um vazio de animação tinha-lhe congelado o sorriso. Sabia que era melhor este afastamento do que uma promessa inútil impossível de se realizar. Fora pretensiosa ao sentir-se desejada por um homem como Vasco sempre que ele lhe dedicava um olhar doce. O seu coração estremeceu quando ela fechou os olhos por uns segundos e deixou que o vento lhe acariciasse as feições e o cheiro da maresia lhe trouxesse o rosto ligeiro de Vasco à memória. Os seus olhos dourados que escondem sempre uma segunda intenção. O seu meio sorriso malandro e fácil. O cabelo rebelde… Quando ela inspirou fundo, abriu os olhos numa necessidade física de ver Vasco.
Vanda virou as costas ao cais e seguiu um instinto primitivo que combatia ferozmente com o seu bom senso. Uma voz gritava-lhe que estava na hora de começar a fazer o jantar. Não era altura de fazer um desvio, ou não conseguiria jantar às sete e meia. Estragaria todas as tarefas planeadas para o fim do dia e ficaria com dores de cabeça quando tivesse de repensar os seus afazeres. Mas a vontade de ver Vasco, que lhe crescia rebelde e sem nexo dentro de si engolia a vozinha irritante que a mandava para casa com urgência.
A porta verde de alumínio contradizia a tradição das casas do centro da vila. A vivenda branca parecia-lhe agora maior. O nervosismo e adrenalina de estar a agir por impulso instalaram-se na barriga, provocando-lhe um formigueiro suave. Vanda procurou uma campainha, mas sem resultado. Sorriu espontaneamente. Claro que ele não teria campainha em casa. Rodou a maçaneta e a porta não lhe ofereceu qualquer resistência. Vanda entrou apreciando a simplicidade e funcionalidade que a mobília reflectia da vivência daquela casa, mas não conseguiu evitar um franzir do sobrolho face à desarrumação da sala. Brinquedos espalhados no chão, duas garrafas de cerveja vazias descansavam sobre a mesa de cerejeira já manchada…
- Vasco! – Vanda chamou, mas sem resposta. Ouviu vozes e seguiu o som. Atravessou a cozinha limpa, mas desarrumada e saiu pela porta traseira que dava acesso ao jardim. Vasco rebolava na erva com os sobrinhos fazendo-os libertarem gargalhadas nervosas de puro prazer. Vanda sentiu que o seu coração parara face àquele cenário. Matias fugia em passos repenicados de Vasco que o agarrava pela cintura e o fazia girar no ar até caírem os dois. Ela queria um jardim assim cheio de vida contagiado por um tipo de felicidade que só conseguia imaginar com Vasco naquele cenário.
- Olá! – Os olhares perdidos em risos fáceis e conversas descontraídas fixaram-na, e de repente aquela visita deixou de fazer sentido. Foi Vera que fez as honras da casa perante o constrangimento visível de Vasco.
- Olá Vanda! Que boa surpresa! Senta-te aqui. Queres uma cerveja? – Vanda obedeceu e sentou-se na cadeira que Vera amavelmente indicava.
- Não posso beber! A última vez que o fiz parece que deu mau resultado! – A última vez que o fizera correspondia à última vez que tinha estado com Vasco. Esta associação de ideias assustou-a. Talvez tivesse sido desagradável.
Vera rui-se alto e ofereceu-lhe uma coca-cola.
- Então e como vai o meu Matias na escola? – A conversa forçada tentava fazer passar despercebida a retirada de Vasco do jardim. Os olhos de Vanda seguiram-no enquanto dava uma resposta qualquer e apreciava o nó que se formava no seu estômago perante aquela atitude. Nem a tinha cumprimentado para além de um abanar ligeiro de cabeça.
- O Matias é um menino maravilhoso que se for bem acompanhado terá todos os sucessos que quiser. – Vanda devia concentrar-se no seu propósito naquela ilha. Devia conquistar o filho e não pensar em mais nada, porque a vida não lhe reservaria iguarias como o Vasco.
- Eu também acho! – Vanda absorveu o olhar de amor que aquela mulher dedicava ao filho mais novo e a sua consciência revolveu-se em remorso. – Eu engravidei do meu Matias sem querer. Foi numa altura muito complicada…
Perante o silêncio daquela mulher reservada, Vanda incentivou a continuar a sua história.
- Complicada porquê?
- Eu casei muito nova com o Marco! Viver numa ilha destas em que conhecemos todos os recantos e gentes faz com que deixemos de ser surpreendidos e temos certezas muito cedo. Eu tive a certeza de que o Marco era o homem que me acompanharia para o resto da vida e casei-me com apenas dezoito anos. Engravidei do meu Renato logo no inicio do casamento e na ingenuidadeões de horários, as responsabilidades de ser esposa e mãe, são demadiado pesadas para uma miuda que devia estar a disfrutar o sol das tardes de Verão com os amigos e a trocar segredinhos ligeiros. Tivemos de viver na casa dos pais do Marco e obedecer às regras dos donos da casa. A minha sogra é uma joia de pessoa que tentava ensinar-me a ser dona de casa e mãe e eu, na minha irreverência da juventude interpretei isso como uma perseguição pessoal… Somos tão tontos quando somos novos…- Vera fez uma pausa e um sorriso palerma floresceu-lhe nos lábios revelando que ela estava perdida nas suas recordações. – Só conseguimos arrendar casa quando o Renato tinha dois anos. O Marco trabalhava nas obras e eu prestava umas horas no bar dos bombeiros, e quando nos mudámos para a nossa casa vivemos momentos de euforia… Nem imaginas a felicidade que uma casinha com apenas um quarto e a precisar de obras urgentes nos proporcionou. E foi neste entusiasmo que engravidei do meu Carlos. Vivemos três anos a contar tostões a dormir poucas horas e colocar panas no chão para aparar a água que pingava do tecto. Com dois filhos e ordenados instáveis dependíamos muito da ajuda dos nossos pais. Foi uma época muito complicada, em que as discussões surgiam frequentemente… - Ver baixou o olhar e esqueceu-se que estava a desabafar o seu passado com uma estranha, mas numa ilha pequena em que todos se conhecem, não pode abrir as suas angústias mais intimas com ninguém. – Sabes, quando num casal, ambos andam constantemente cansados, de bolsos vazios e sempre com trabalho e responsabilidades por fazer e executar, parece sempre que o teu companheiro faz menos do que tu… As cobranças insensatas começam como uma bola de neve… Assim que atiras a primeira pedra, a probabilidade de haver uma chuva delas é inevitável. E começa a confundir-se a saturação, o cansaço, as olheiras permanentes, a vontade constante de fechar os olhos, a falta de carinhos com a falta de amor… E as dúvidas mais disparatadas instalam-se… E foi num momento destes que Matias foi concebido… - Ver deixou que as lágrimas teimosas a vencessem.
- Não chores Vera! – Vanda sentiu-se próxima daquela mulher e pela primeira vez em muitos anos quis estender os seus braços proporcionar um pouco de conforto. Retraiu-se… Não estava habituada… Por isso usou das palavras. – Com todas as tuas dificuldades conseguiste construir uma família linda. Tens apenas 33 anos e tens o que poucas pessoas levaram uma vida inteira a conquistar…
Vera riu-se por entre as lágrimas…
- Estou a ser parva, é o que me estás a dizer, não é?
- Não! Estás a lembrar-te do que passaste para chegares aqui… E isso é muito importante… É um processo que deve ser feito com frequência e que muitos se esquecem de fazer. Recordar o que cada conquista nossa custou deve ser um acto frequente, porque só assim damos valor ao que faz parte do nosso presente e nos dá força para enfrentar novas dificuldades, sabendo que o melhor que podemos alcançar não está isento de pagamento…
- E eu recordo-me de tudo muitas vezes… Eu pensei em abandonar a minha família muitas vezes… Já imaginaste se o tivesse feito?
- Mas não o fizeste! Tinhas um caminho fácil e um difícil… É normal desejarmos o fácil… O excruciante é optarmos pelo difícil e fazê-lo até ao fim. É bom que te lembres que tiveste uma outra escolha que na altura era mais fácil. É bom que te recordes das escolhas que fizeste o do resultado que tiveste dela. Estas recordações servem para te orientar em escolhas futuras.
- Posso contar-te o resto? Promete-me que estes desabafos não saem daqui…
- Claro que podes contar! Afinal eu sou uma anti-social que não me dou com ninguém… - Este comentário arrancou uma gargalhada em uníssono e incentivou a continuação daquela conversa.
- O Vasco sempre foi muito inteligente. – Ouvir aquele nome provocou um estremecimento em Vanda que ela não soube significar. – Ele foi estudar para o Faial e depois foi para o continente. Tirou o curso de Engenharia Civil e foi dos melhores do seu curso…
- O Vasco é licenciado em Engenharia? – A surpresa daquela revelação ainda lhe estava a assentar no entendimento.
- Sim… E assim que terminou o curso teve muitas propostas de emprego. Ele trabalhou numa grande empresa e viajava muito entre Lisboa e Madrid… Mas O Vasco é uma pessoa simples que que aprecia uma vida baseada num quotidiano fácil e sem grandes pressões, por isso voltou para a terrinha e começou a construir e reconstruir aqui no Corvo. Abriu a empresa com o Marco e foi a partir daí que a nossa vida deu a volta que tanto precisávamos. O Vasco foi uma bênção para as nossas vidas… Ele é uma boa pessoa…
- Pois é!
- Sabes como é que eu identifico uma boa pessoa, Vanda?
- Como?
- Uma boa pessoa é aquela que te ajuda sem que o sintas, sem passar para ti o peso da gratidão… E o Vasco é assim…
Vanda fechou os olhos por um momento. Estava na hora de jantar e não estava na sua casa. O desconforto desta constatação instalava-lhe um pânico miudinho. Mas a constatação de que Vasco era melhor do que ela pudera imaginar, ainda a perturbava mais.
- E ele é incansável com o Matias… - A voz de Vera fê-la regressar ao conteúdo daquela conversa. – Na doença do menino é sempre o Vasco que mantém a clama e que consegue agir com maior rapidez e eloquência.
- Qual doença? – Vanda sentiu-se sobressaltada com esta última revelação.
- Ai Vanda! Às vezes penso que a culpa é toda minha! Vivi uma gravidez desajeitada com os nervos no comando das minhas decisões e as discussões na ponta minha língua. Privei-me de uma alimentação saudável e do sono que o meu corpo exigia… Trabalhei até me rebentarem as águas… Fui irresponsável e penso que a culpa desta fragilidade do Matias é consequência desta minha irresponsabilidade. – Vera chorava sem vergonha e expunha-se como sentia necessidade de se expor há muito tempo. – O Matias teve leucemia há pouco tempo…
Vera perdeu a capacidade de continuar o desabafo e Vanda compreendeu-a. Finalmente abriu-lhe os braços e acolheu-a.
Quando Vera se acalmou e a chuva se impôs ao negrume do céu, ambas as mulheres entraram na casa e sentiram o cheiro perfumado de maresia. Vera sorriu por entre as lágrimas quando reconheceu o que jantariam naquela noite.
- Não acredito que temos lapas! – Vera agarrou o pescoço do marido e depositou-lhe um beijo sentido nos lábios.
- Se eu soubesse que as lapas teriam esse efeito em ti já as teria trazido há mais tempo. – Marco sorriu à mulher e limpou-lhe as lágrimas sem comentá-las.
- Já comeste lapas? – Vasco dirigia-se a Vanda provocando-lhe um aperto na garganta, o que lhe bloqueou a resposta assertiva, fazendo-a desenrascar-se com um abanar de cabeça. Vasco agora estava demasiado perto e o coração de Vanda descontrolava-se… - Não sabes o que perdes. Ajuda-me a pôr a mesa!
- Mas eu…
- Ias comer comida para pintos… Já sei! – Vasco estendeu-lhe uma toalha. – Agora ajuda-me a pôr a mesa, porque tu hoje vais comer comida de gente.
A agitação daquela casa depressa varreu tristezas. Os miúdos corriam desajeitadamente atrás uns dos outros e Vanda percebeu como os irmão mais velhos protegiam Matias sem o excluir das brincadeiras com uma sabedoria sensata e inocente. Descobriu os olhos de Marco e Vera a brilharem de uma luz quase divina sempre que pousavam nos filhos e deslumbrou-se com o sorriso palerma de Vasco para os sobrinhos. Como podia ela destruir aquela harmonia? Os cenários idílicos excluíam-na por natureza, como se ela numa pudesse fazer parte de uma pintura de Miguel Ângelo… Ela perdia-se num quadro abstracto vulgar e barato em que nenhuma realidade pode ser entendida ou admirada…
- Toca a sentar! – Vasco batia com uma colher no fundo de uma tacho fazendo as delícias dos três miúdos. Sentaram-se todos num reboliço irrequieto. As vozes confundiam-se mas as conversas não se atrapalhavam. Vanda sorriu interiormente por não se sentir com dores de cabeça no meio daquele reboliço.
- Tome esta professora! – Matias esticava uma lapa para Vanda que lhe sorriu.
- Não posso comer esta, meu querido… Primeiro tem de ser cozinhada! – Vanda sorriu-lhe e depois atrapalhou-se quando o rapaz encolheu os ombros sem perceber aquele comentário e descolou a lapa da conha e a meteu na boca assim mesmo crua… e viva. O grito de Vanda calou a mesa.
- Tira isso da boca… Já… - Vanda abanava o rapaz e forçava-o a abrir a boca numa aflição frenética. Foi Vasco quem primeiro reagiu e a afastou do sobrinho. – Mas ele pôs uma lapa crua na boca… E.. e… eu acho que ela ainda se mexia e tudo…
- Olha para mim Vanda! – Vasco encaixou o rosto de Vanda no interior da sua palma da mão e fê-la fixar o olhar nele. – Nós comemos as lapas assim…
- Cruas! E vivas… - a incredulidade de Vanda arrancaram gargalhadas à plateia em geral fazendo-a sair daquele estado de pânico.
- Experimenta uma e a professora vai ver como é bom!... – Matias voltou a esticar-lhe uma lapa. Vanda olhou para aquele molúsculo agarrado à concha que se movia pouco e não conseguiu evitar uma careta.
- Vá lá professora! – Vasco sentou-a enquanto a incentivava a comer aquela iguaria. Vanda olhou para os olhinhos expectantes de Matias e não conseguiu desiludi-lo. Pegou na concha e com a ponta de uma faca descolou a lapa. Fechou os olhos com força e abriu a boca atirando-a lá para dentro. – Agora tens de mastigar… Não sejas preconceituosa e disfruta do sabor. – Todos a incentivavam a trincar aquele petisco vivo e ela sentia-se uma assassina, mas começou por fazê-lo. Primeiro devagar, mas depois daquele sabor temperado apenas pela água do mar se alastrar pelo seu paladar, Vanda continuou com os olhos fechados, mas agora de prazer. Nunca tinha provado nada parecido. A noite animou-se numa barrigada de lapas e pão de milho.
Depois do jantar e de Vanda ter arrumado a cozinha, Vasco fez questão de a levar a casa. O silêncio impôs um caminho mais longo, em que O desconforto se tornou físico, assim como a atracção.
- Chegamos! – Vanda concentrou-se em procurar as chaves dentro da mala tentando não olhar para aqueles olhos cor de caramelo. Quando finalmente encontrou a chaves e levantou o olhar a proximidade evidenciou o desejo e Vasco aproximou-se. E abriu a boca para dizer qualquer coisa que Vanda calou com os seus lábios. A surpresa deu lugar à vontade e o toque dos dedos longos e suaves de Vanda no seu pescoço fizeram-no ceder e deixar-se levar naquele beijo. O afastamento foi lento e a realidade impôs-se novamente. Vasco não a largou e com as testas encostadas e os braços a garantirem a proximidade, Vasco teve de esclarecer o que o atormentava.
- Tu pensaste que eu ia violar-te! – Vanda deu um salto para trás e os seus olhos arregalaram-se de surpresa.
- Eu… Eu estava bêbeda… E depois foi uma noite longa… e a bebida… e estava tonta… Só devo ter dito disparates… Não ligues. – Vanda virou-lhe as costas e enfiou a chave na porta fazendo intenção de terminar as despedidas por ali. Vasco agarrou-lhe suavemente o braço e fê-la voltar-se para si.
- Tu disseste-me que tinhas sido violada! – Para além da surpresa, os olhos de Vanda revelavam agora terror, e Vasco lembrou-se do que estava a fugir, mas a sua fuga terminava ali naquele momento.
- Falamos disto noutra altura! – Vanda mostrava-se apressada na despedida.
- Amanhã é feriado! Venho buscar-te às dez horas da manhã… Vou mostrar-te o Corvo. Até amanhã! – Vasco virou costas e foi-se embora. Não sabia o que deveria dizer mais, nem como abordar aquela situação. Ela queria ficar novamente sozinha, e faltava-lhe coragem para lhe provocar mais dor do que aquela que lhe vira nos seus olhos quando abordara aquele tema.
O telefone tocou, mas Vanda não foi capaz de atender…

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Capitulo V - Nas Asas do Corvo


Capitulo V

    A cabeça pesava-lhe toneladas e a garganta seca implorava urgência num copo de água. Vanda levantou-se a custo e quando olhou para o espelho sentiu-se confusa com o que viu. Pelos vistos nem conseguira mudar de roupa na noite anterior. Ela não devia beber nenhum álcool. Ela sabia disso. Mas a noite agradável e a companhia animada quase exigiam aquela infracção. Vanda estremeceu face a esta palavra. Infracção. Ela tinha-se permitido a uma infracção. O arrependimento sobrepôs-se ao sorriso vitorioso que aquela constatação lhe provocava. Vestiu a custo uma camisola larga e uns calções, e aventurou-se rumo à cozinha. Foi o cheiro do café que a fez adivinhar que alguém estava na sua casa. A imagem de Vasco com as mesmas calças da noite anterior e a camisa aberta e amarrotada fizeram-na temer o pior.
- Bom dia Vanda! – Vasco despejou o café numa chávena grande. – Senta-te e bebe este café. Vai fazer-te bem!
    Vanda obedeceu. Sentia um constrangimento no ar que não sabia explicar.
- Dormiste cá? – Vanda fez a pergunta num fio de voz, receando a resposta.
- Sim! – Vasco respondeu com uma monossílaba absorvendo a reacção de Vanda. Um brilho de terror trespassou-lhe o olhar, enquanto todos os seus músculos se retesaram. – Não te lembras de nada?
    Vanda abanou a cabeça.
- A última memória que tenho é de cantar “strangenrs in the nigth” e… - a memória quase nítida de estar a rodopiar desajeitadamente com as sabrinas na mão provocaram-lhe uma náusea. – Nem me lembro de ter entrado em casa…
    O silêncio que se seguiu foi álcool na ferida de ansiedade que Vanda sentia crescendo dentro de si. O pânico começou a aflorar-lhe os olhos numas lágrimas tímidas.
- Não chores Vanda! Não foi assim tão mau! – Vasco sorriu-lhe de uma forma matreira, mas quando viu o rosto de Vanda perder a cor resolveu esclarecer a situação imediatamente. – Não aconteceu nada Vanda! Não te preocupes.
    Vanda levantou-se da mesa com o alívio a cair de forma pesada no seu peito provocando-lhe um riso histérico que se alternava de forma assustadora com uma choro compulsivo.
- Estás a rir de alegria por não ter acontecido nada ou a chorar de tristeza? – Vasco não sabia lidar com aqueles momentos típicos de Vanda sem recorrer ao humor. Pelo menos ajudava…
- Desculpa Vasco! Eu preciso de ficar um pouco sozinha! – Vanda recompôs-se um pouco, mas sentia um emaranhado de sentimentos que não conseguia catalogar. Queria paz para se acalmar e repensar as suas atitudes desleixadas.
- Está bem Vanda! – Vasco sentiu-se aliviado por ser ela a pedir para ele sair. Queria colocar as ideias em ordem. Ainda não sabia o que fazer com a revelação da última noite. A sua mente sussurrava-lhe para se afastar. Ela era uma mulher interessante, mas que exige demasiado. E o que ele procura são relações simples, descomplicadas que começam da mesma forma que acabam, sem problemas ou envolvimentos demasiado intensos. Não pode negar que gosta de uma boa conquista, mas não se pode dar a esse luxo com Vanda. Ela acarreta em si uma história que lhe exigiria mais do que ele está disposto a dar. “Esta mulher vai dar-te problemas.” Sussurrava-lhe o bom senso, mas havia uma vontade interior que o impulsionava para ela. O melhor era realmente afastar-se um pouco.
Assim que Vasco saiu, Vanda correu para a casa de banho. Olhou-se longamente ao espelho. Mirou o seu rosto tão conhecido. A ruga que se instalava no meio das suas sobrancelhas sempre que a preocupação lhe ocupava o peito estava ali reflectida naquele espelho. Os lábios tremiam de ansiedade. As linhas do rosto estavam demasiado suaves, e os olhos… Ai os olhos… Vanda não os reconhecia. Os olhos exibiam um brilho orgulhosamente culpado, quase como se a estivessem a desafiar de forma deliberada. Vanda fechou-os com força e quando os voltou a abrir sabia exactamente o que eles lhe diziam. Ela estava a abrir uma frecha… Uma pequena frecha, pela qual Vasco começava a entrar.
O telefone tocou.
- Sim!
- Olá Vanda!
- Olá Daniel!
O momento de silêncio impôs-se na mesma plenitude de sempre, como se a conversa só fosse autorizada depois desta demonstração de respeito pelo momento que se seguiria.
- Estava com saudades de falar contigo Vanda.
- Pois… - Vanda sentia-se ainda perdida e a sua desatenção chegou a Daniel.
- Estás triste Vanda?
- Sim!
- Porquê?
- Tenho saudades de quando tudo era simples!
- Fala-me desse tempo… - Daniel esperou e Vanda falou.
- Eu tenho duas vidas… A vida de antes e a vida depois…
- Disseste-me que tens saudades. Tens saudades de qual das vidas?
- Da vida de antes. Eu nasci em França, sabias?
- Não! Pensei que fosses de Ourém.
- Os meus pais eram de Ourém e emigraram para França assim que casaram. Eu nasci em França.
- Falas Francês?
Vanda riu-se, sentindo-se próxima desse tempo em que tudo era simples… demasiado simples… De uma simplicidade tão pura que a sua mente não sabia aproveitar, porque a ambição humana de querer sempre um pouco mais, de nunca ter o suficiente, de se sentir sempre vazia deturpa as maravilhas dos momentos simples.
- Sim! Eu falo francês.
- Continua a tua história! Nasceste em França e depois?
- A minha mãe era porteira no 94, em Paris e o meu pai trabalhava na construção de estradas. Ele passava dias e por vezes semanas fora de casa por causa do trabalho. Até aos quatro anos de idade conhecia apenas o prédio onde a minha mãe trabalhava. Morávamos num pequeno apartamento destinado à porteira do prédio. Era um prédio de luxo, com uma entrada toda em mármore e um candelabro que eu imaginava que seria roubado de um palácio de princesas. Os habitantes eram todos muito distintos, mas tratavam a minha mãe com muito carinho e tinham sempre uma graça para mim. Lembro-me bem da Madame Dufoix que tinha duas filhas gémeas mais velhas do que eu três anos. Elas eram altas e esguias de cabelo castanho que usavam sempre elegantemente apanhado. Cresci nos corredores daquele prédio acompanhando a minha mãe nas limpezas que ela fazia em cada apartamento para ganhar mais uns trocos. Os meus pais trabalharam mais do que a vida lhes exigia, mas a mentalidade aforradora fazia-os trabalhar cada vez mais. Só saía daquele prédio para vir a Portugal. Agosto era o mês mais aguardado do ano. A minha avó materna viva numa pequena freguesia de Ourém e esperava-nos sempre com muita saudade. A viagem era sempre feita de carro e chegávamos a casa da minha avó sempre derreados. – Vanda sorriu intimamente quando recordou o sorriso fácil da avó e a sua sopa de feijão que ela pedinchava com gritinhos agudos face à dificuldade utópica que a avó simulava. – Ourém era o nosso pequeno paraíso. E assim fui crescendo. Entre o prédio da zona 94 de Paris, a escola portuguesa e um recanto de Ourém. Quando o meu corpo começou a mudar e as borbulhas a ameaçarem-me, trouxeram uma insatisfação irrequieta própria da pré-adolescência. O facto de ser filha da porteira começou a pesar-me na vergonha de uma condição inferior, sem sequer imaginar que por detrás daquela mulher de mãos ásperas e ancas roliças que me obrigava a chamar-lhe mãe estava uma mulher que daria a sua vida por mim. – Vanda sentiu que a garganta se apertava face à lembrança dos olhos cor de mel da mãe que se faziam cobrir por um cabelo abundante e rebelde que teimava em escapar ao lenço velho e gasto. – Ela era uma mulher extraordinária… Mas nós humanos só sabemos avaliar a verdadeira imensidão de outro ser, quando já não podemos usufruir dele… E eu só agora tenho capacidade para perceber a importância que aquela mulher quase analfabeta e de modos brejeiros tinha na minha vida pacata. Era nesta simplicidade que ela me protegia dos perigos da vida e eu não era capaz de perceber a magnificência dos seus conselhos e carinhos. Quando tinha apenas catorze anos fomos de férias para Ourém, como fazíamos sempre. Numa discussão acesa acusei os meus pais de me privarem das coisas boas da vida. Morava em Paris e nunca tinha ido à Disney, como se este facto fosse decisivo para uma vida melhor. Morava no mesmo prédio das raparigas que me vestiam em segunda mão. Eles não percebiam a vergonha de vestir roupa usada pelas raparigas do andar de cima. Não percebiam a importância de ter dinheiro no bolso para pagar uma bebida aos amigos, que eram todos endinheirados. Não percebiam a vergonha de ser filha da porteira quando todos os outros da zona 94 de Paris eram filhos de advogados, médicos e embaixadores. Não percebiam a vergonha de eles exibirem orgulhosamente a sua nacionalidade portuguesa, num lugar onde o trabalho que mais ninguém queria era assegurado por esta gente submissa e trabalhadora. Discutimos em voz alta, até que esta nos faltou e os olhos se incharam na impotência de poderem chorar mais. Eu disse-lhes que tinha vergonha deles… - Vanda sentiu as primeiras lágrimas aflorarem os olhos. Percorreram-lhe as faces e salgaram-lhe os lábios. – Foi nessa noite que ficou decidido que eu ficaria em Portugal com a minha avó. Os meus pais queriam que eu fosse feliz e nessa noite cederam ao meu pedido de não voltar para Paris, onde a vergonha nas minhas origens perseguir-me-iam. Abriram mão de mim por amor e eu nunca tive oportunidade de agradecer. Eles morreram num acidente de carro na viagem de volta dois dias depois da nossa discussão, sem terem ouvido dos meus lábios o quanto eu os amava… Sem saberem que tinha orgulho no trabalho deles… Sem se sentirem apreciados pelo ser que eles haviam criado…
- Lamento muito Vanda! – Daniel sentiu uma necessidade impotente de estar perto dela de lhe afagar a dor com a palma da sua mão.
- Sabes o que é pior do que cometer um erro?
- Não…
- É insistir nele… E foi o que eu fiz. Em vez de recordar os meus pais com carinho, no lugar de corresponder em morte ao que eles esperavam de mim, recusei-me a pensar neles. Nos poucos momentos que o fiz chorei horas a fio até que o cansaço me embalasse. A consciência é uma defesa contra actos hediondos, mas quando atacada é uma pena demasiado pesada. E a minha consciência penalizava-me magoava-me, torturava-me sempre que me atrevia a ter saudades dos meus pais. E a minha mente seguiu o caminho mais fácil. Aproveitei-me de uma avó velhota e desactualizada dos novos tempos para enganá-la na dimensão da liberdade que me deveria dar. Aproveitei-me da dor de perda dela, convencendo-a de que não me podia contradizer sob pena do meu sofrimento aumentar… E assim afastei todos aqueles que me protegiam e desafiei os perigos que viria a sofrer mais tarde…
O silêncio impôs-se. Vanda tinha falado em voz alta os tormentos que lhe haviam torturado em sussurros nestes anos todos. Havia mais tormentos, mas hoje não queria pensar neles. Hoje queria chorar a saudade dos pais, queria fechar os olhos e pensar neles com o carinho que não lhes tinha dedicado em vida. Queria chorar os desgostos que talhara no rosto velho e recortado da avó. Queria chorar… Apenas chorar.

sábado, 26 de maio de 2012

Capitulo IV - Nas Asas do Corvo


Capitulo IV

Aquela primeira semana aproximava-se do fim com o mesmo ritmo calmo que regia aquela ilha. Vanda saiu da sua última aula satisfeita por constatar que Matias era um menino inteligente e perspicaz, apesar de preguiçoso. Teria de trabalhar com ele métodos de estudo e incentivo, para que ele possa ter resultados mais satisfatórios. Sentia-se rendida àquele menino de sorriso fácil que que se acanhava sempre que ela lhe dirigia uma palavra mais directa. Os olhar era meigo e enternecia Vanda sempre ele o dedicava. Aquele rapazito frágil era dela. Era a certeza de que ela era capaz de criar alguma coisa de boa, sem máculas. Matias era o que a ligava a um mundo de esperança em que ela era dotada de uma capacidade humana apta a gerar vida e beleza sem intervenções negativas ou maldades indispostas. Ela tinha agora uma ligação a um mundo luminoso em que a esperança de se tornar uma pessoa melhor se alastra e engole o negrume da sua alma.
A chave penetrou a fechadura e com um pouco de esforço girou abrindo a porta, provocando um sorriso íntimo de segurança no peito de Vanda. Gostava do seu quotidiano naquela ilha. Os cumprimentos corriqueiros, as conversas banais, os toques casuais, as relações simples, os gestos despreocupados… tudo isso começava a preencher o seu dia de uma forma natural.
Vanda percorria o balcão da cozinha organizando os vegetais para a salada, quando os seus olhos se prenderam no rodar da maçaneta da porta. Ela esperou um segundo e riu alto quando o bater seco na porta se seguiu à primeira tentativa. Vanda dirigiu-se à porta num passo lento disfrutando aquele momento. Se Vasco não aprendia a bater à porta a bem, então aprenderia a mal.
- Olá Vasco! – Vanda abriu a porta e não conseguiu evitar um arregalar de olhos admirado. Vasco trazia o cabelo solto e ainda húmido do banho que se adivinhava. Pela primeira vez vestia umas calças de ganga justas que lhe delineavam umas pernas musculadas e uma camisa branca que lhe percorria o tronco descontraidamente. O desmazelado deu lugar a qualquer coisa que Vanda sentiu mas não soube descrever. Tentando disfarçar o seu ar embasbacado, continuou a conversa. – Estás a ver como não é difícil bater à porta?
- Nunca disse que era difícil… É apenas desagradável! – Vasco entrou e ofereceu-lhe o seu melhor sorriso. Sentia o constrangimento de Vanda e o seu ego masculino ficou agradecido. – Veste qualquer coisa e vamos sair.
- Como assim? Eu estou a preparar o jantar… - Vasco deu a volta ao balcão e fez uma careta quando viu que o jantar dela seria uma salada.
- Estou a ver… Vais comer alpista e agrião?
- Oh! – Vanda vibrou de indignação. – Vou ter uma refeição saudável! Não quero morrer aos quarenta anos vítima de um ataque cardíaco…
- Pois… Mas por enquanto tens apenas trinta anos e vais comer uma refeição saudável comigo. – Vasco aproximou-se dela e olhou-a com um olhar sedutor tentando uma resposta positiva.
- Eu não tenho trinta anos… - ofendeu-se.
- Anda lá Vanda! É sexta-feira à noite… Não podes estar sempre fechada em casa… Vamos jantar a casa de uns amigos e depois vamos à disco! – Quando Vanda franziu as sobrancelhas numa interrogação perfeita, Vasco suspirou. – Sim! Nós temos discotecas no ilhéu… Sabes…cabe muita coisa num raio de dezassete Quilómetros quadrados…
O riso comum libertou Vanda da sua rigidez típica e impulsionou Vasco na direcção daquela mulher que lhe preenchia os sentidos e lhe despertava emoções contraditórias. Ele queria muito penetrar naquela capa protectora que Vanda criara. Queria compreendê-la e completar o quebra-cabeças que ela representava… Ela era um desafio que ele começava a aceitar. A proximidade fez com que Vanda desvanecesse o sorriso e num desconforto notório afastou-se desculpando-se com o facto de ir mudar de roupa. Vanda olhou para o seu guarda-fato e desejou ter um vestido mais arrojado. Pela primeira vez queria desfazer-se dos cortes direitos e solenes. Queria correr o risco que parecer sexy… Ela fechou os olhos com força e afastou aquele desejo… “Os abusos nascem do excesso de confiança”, repetiu para si mesma… Contentou-se com uma saia de sarja beije e uma blusa verde lisa e justa que lhe desenhava as formas. As sabrinas castanhas pareceram-lhe uma boa opção quando pensou na calçada que a esperava.
- Estou pronta! – A excitação da sua primeira saída desde há muitos anos, talvez desde sempre morreu quando os seus olhos lhe lembraram a desarrumação da cozinha. – Ora bolas!
- O que foi? – Vasco sentiu um baque no peito quando a viu pela primeira vez com o cabelo solto e rebelde, quase selvagem que lhe caía em cachos escuros pelos ombros e lhe conferiam um ar agreste aos seus traços fortes. Os olhos pareciam mais brilhantes e a forma como ela mordia o lábio de vez em quando fizeram-no desejar algo mais. O pensamento foi bloqueado e afastado com muito custo.
- Não posso deixar a cozinha assim!
Vasco sabia que ela não deixaria mesmo a cozinha naquele estado, por isso arregaçou as mangas e começou a arrumar os legumes dentro do frigorífico.
- Vais ficar aí a olhar ou dás-me uma ajuda? – Vanda apreciou a forma caseira como ele arregaçara as mangas e se deslocava sabedoramente na sua cozinha.
- Claro!
Arrumaram tudo num instante e quando Vanda pegou na esfregona, Vasco agarrou-lhe a mão.
- Deixa isso para amanhã!
- Não posso deixar o chão sujo!
- O chão não está sujo! E amanhã podes fazer isso…
- Mas…
- Pode ficar para amanhã Vanda! – Vasco manteve-se irredutível. Queria que ela se libertasse destas manias das limpezas.
Vanda fez um esforço para se libertar mas sem sucesso. Vasco estava preparado para manter a sua posição, mas quando lhe viu as lágrimas aflorarem os olhos, todas as suas defesas se desmoronaram.
- Eu não posso deixar isto assim… Se nos descuidamos uma vez, depois descuidamo-nos outra e depois há sempre desculpas para nos descuidarmos e tornamo-nos uns porcos sem salvação possível. – As palavras de Vanda eram demasiadamente sentidas e pouco claras, mas Vasco percebeu que no intimo dela era importante passar aquela esfregona pelo chão. – Não podemos facilitar em nada ou a nossa vida sai do que é desejável e torna-se num inferno…
- É só um dia…
- Eu já deixei que a minha vida fosse um inferno… e não quero voltar para lá… Percebes? – Agora Vanda chorava compulsivamente e Vasco atrapalhou-se nas ideias. Tirou-lhe a esfregona das mãos, sentou-a no sofá e ele mesmo limpou o chão.
- Bem, está tudo limpinho! Bora lá chica! – Vasco tinha esta capacidade de tornar tudo muito mais fácil e Vanda sorriu-lhe grata.
O jantar que Vanda interpretara como um encontro calmo entre amigos, era afinal uma despedida de solteiro. O jovem casal optara por juntar os amigos comuns e fazer uma jantarada com muita cerveja à mistura. Vanda entrou intimidade pela animação e sentiu-se mais segura quando Vasco lhe pegou na mão e a conduziu por entre os convidados.
- Olá Sílvia! – Vasco cumprimentou aquela mulher com um abraço apertado que incomodou Vanda. – Esta é a Vanda! E esta é o maior desperdício que esta terra já conheceu… - Vanda cumprimentou Sílvia dirigindo um olhar confuso a Vasco. – Vai casar-se… e não é comigo. Não é um desperdício?
- Não digas disparates! Ela ainda está convencida de que está a fazer um bom negócio! – Um homem de cabelo curto com uns olhos doces e um queixo saliente surgiu por detrás de Vanda. – Olá Vanda! Eu sou o Tomás e sou o noivo…
O beijo simples que uniu aquele casal transmitia uma solidez no tratamento que fazia adivinhar cumplicidade. Sílvia rasgou um sorriso feliz quando o noivo a envolveu num abraço firme. O seu cabelo curto e sedoso parecia mais brilhante e olhar cúmplice que os dois trocaram fechava em si segredos sussurrados.
- Tanto tempo a tentar enganar a melhor mulher que esta ilha já conheceu e agora queres estragar-me o engate antes do casamento? – Tomás brincava, mas por uma questão de segurança não largava a futura esposa. – Arranja uma para ti…
- Estou a tentar! Mas não está fácil! – Vasco piscou um olho aos amigos e afastou-se com Vanda pela mão. O jantar resumia-se a frango e salsichas feitas num churrasco por debaixo de uma vinha e muita cerveja. Vanda olhava ao seu redor e não se atrevia a iniciar a refeição. As pessoas pegavam em pratos de papel e comiam com as mãos. Lambuzavam os dedos que pingavam gordura e depois metiam os mesmos dedos dentro de taças cheias de batata frita. Vanda sentia-se incendiada pelo cheiro apetitoso e a tentação da fome tornava-a cada vez mais fraca nos seus intuitos. Vasco ofereceu-lhe uma cerveja que ela aceitou. Depois de limpar a garrafa com um guardanapo, bebericou um pouco. A festa foi-se animando pelas luzes improvisadas daquele logradouro, a música que ela não reconhecia, mas que lhe começava a girar na cabeça as vozes soavam-lhe misturadas e o seu corpo pedia uma libertação.
- É melhor comeres qualquer coisa! A beberes dessa maneira com o estomago vazio, é capaz de dar mau resultado. – Vasco esticou-lhe um prato com uma coxa de frango e batata frita, que Vanda recebeu de bom grado.
- Obrigada! Estava faminta! – Vasco sorriu quando a viu arrastar as palavras e comer com a mão sem se queixar. A mente entorpecida pela cerveja fazia-a falar com todos os presentes de uma forma agradável e engraçada. Depois de ter o estômago reconfortado, Vanda juntou-se a uma grupo que jogava à sueca.
- Eu sou perita a jogar à sueca! Só preciso de um parceiro à minha altura.
- Então vamos jogar parceira! Quem se atreve a enfrentar-nos? – Tomás, o noivo fez as delícias de Vanda ao juntar-se a ela no jogo.
- Nós somos o par ideal! – Vasco surgiu de braço dado com Sílvia que também sorria e ria sem razão aparente.
O jogo foi distribuído e os quatro pares de olhos perscrutaram reacções que denunciassem algum movimento antecipado.
- Se não tiveres ouros corta, Tomás! Só falta sair a bisca! – Vanda jogava com inteligência e militarismo nas ordens.
- Pensei que a sueca fosse um jogo para mudos! – Sílvia tentava desencorajar os opositores vencedores.
- A Vanda é uma tagarela… É mais forte do que ela… Só Deus e eu sabemos o que eu sofro! – Vasco arregalou os olhos quando sentiu a palmada seca no braço. – Estão a ver do que eu falo?
Marco apareceu com o mesmo ar sonolento de sempre e sentou-se na mesma mesa.
- Olá pessoal! Desculpem lá o atraso, mas os filhos dão-nos cabo dos horários. – Todos riram. – Vera! Estou aqui! – Marco acenou à mulher. Tratava-se de uma mulher de estatura larga, com um corpo forte mas tonificado, o cabelo liso exibia uns reflexos artificiais louros que lhe suavizavam as expressões cansadas e evidenciavam um olhar verde e brando. Vera aproximou-se e sentou-se descontraidamente no colo do marido apreciando o jogo.
A conversa fluía e Vasco encantou-se com o efeito do álcool em Vanda. Ela soltara-se da sua rigidez e ria alto sem razão aparente. Conquistou definitivamente os outros dois casais que prometeram mais jantaradas daquelas.
O caminho de volta para casa antecipou a prometida ida à discoteca, uma vez que as horas se haviam passado sem serem notadas. Vanda transportava as sabrinas na mão e dançava em rodopios trapalhões ao som de uma música muda. A porta de casa recusava-se a abrir face à pressão que ela colocava na chave.
- Estás a ver porque é que trancar as portas à chave atrapalha? – Vasco sentia-se vingado naquela dificuldade motora de abrir a porta. Arrancou-lhe a chave da mão e abriu a porta sem dificuldades. Quando entraram, Vanda atirou as sabrinas provocando um cair de queixos a Vasco que se apressou a arrumá-las, receando a reacção dela na manhã seguinte quando se deparasse com as sabrinas caídas no meio da sala. Nunca mais sairia com ele, e Vasco não queria arriscar este cenário.
- Dança comigo Vasco… - Ela rodeou-lhe o pescoço com os seus longos braços e Vasco engoliu em seco antes de se aventurar naquele abraço. Fechou os olhos e apertou-a conduzindo-a calmamente ao ritmo da música de Nina Simone que lhe cantava ao ouvido “Birds flying high you know how I feel, Sun in the sky you know how I feel, Breeze driftin’on by you know how I feel, It’s a new dawn, It’s a new day, It’s a new life for me, And I’m feeling good”. Os olhos de Vasco abriram-se e procuraram os de Vanda que lhe corresponderam com um fogo brilhante permissivo. As bocas uniram-se calmamente, mas a sofreguidão do desejo acelerou os gestos e o ritmo cardíaco. Vasco conduziu-a para o quarto sem nunca a largar. A respiração ofegante aumentava de intensidade e Vasco atirou-a para cima da cama. A urgência impunha-se à intenção e os movimentos ritmados explodiam de numa pressa íntima. Vasco arrancou-lhe a camisola e livrou-a do soutien num movimento brusco. Quando os seus olhos se deliciaram com aquela visão, os seus ouvidos perderam-se na confusão de um murmúrio.
- Os abusos resultam do excesso de confiança… - Vanda tinha uma olhar arregalado que denunciava desejo. Mas foi um brilho de terror de despertou um alerta em Vasco.
- O quê?
- Agora vais abusar de mim… - Não era uma pergunta. Era uma afirmação que Vasco recebeu como sendo um jogo de sedução.
- Pois vou… Porque tu portaste-te muito mal… - Vasco sorriu-lhe recebendo em troca apenas um olhar resignado.
- Não faz mal… De qualquer forma eu nunca conheci a intimidade de outra forma a não ser desta… Violação…
Vasco saltou da cama segurando as calças. O seu coração agora batia acelerado, mas já não era de excitação. A sua cabeça parecia explodir de raiva, indignação e surpresa.
- Achaste que eu ia violar-te? – O olhar resignado voltou e Vasco percebeu uma resposta positiva… - Eu era incapaz de tal coisa… Mas que raio… O que é que eu fiz que te levasse a pensar isso?
As ideias atropelavam-lhe o cérebro sem sentido e as pernas fraquejaram, obrigando-o a sentar-se na cadeira do quarto. Apoiou a cabeça nas mãos e tentou ordenar ideias. Não sabe quanto tempo esteve ali até perceber que Vanda tinha sido vítima de abusos sexuais e esta certeza acertou-lhe a mente num murro invisível. Primeiro sentiu-se enjoado perante esta constatação, depois alterado praguejando promessas violentas contra o agressor e por fim dolorido pelas dores daquela mulher que adormecera com o cabelo espalhado pela almofada alva. Vasco aproximou-se finalmente daquela cama e olhou-a, não com a paixão anterior, mas com um carinho que o assustou. Como não sabia bem a melhor forma de lidar com esse sentimento, cobriu Vanda com uma manta e fixou-se novamente na raiva que sentia naquele exacto momento pelo seu agressor.
O telefone tocou.
- Estou. – Vasco atendeu sem pensar bem no seu interlocutor.
- Quem fala? – Daniel estranhou a voz masculina do outro lado.
- Vasco. – Depois de esfregar os olhos cansados, Vasco continuou a conversa. - Ela foi violada…
Fez-se um momento de silêncio após aquela revelação em voz alta.
- Vou continuar a ligar-lhe todos os dias e dar-lhe o melhor apoio possível.
- Vou continuar a acompanhá-la por aqui todos os dias e tentar aliviar-lhe as dores…
A promessa foi trocada sem pressões e com a certeza de que seria cumprida de ambas as partes.