sábado, 18 de fevereiro de 2012

CAPÍTULO XIX - Na Base da Montanha

CAPÍTULO XIX

    A noite transpirava humidade e o céu fechou-se timidamente numa escuridão que se sobrepunha ao brilho baço de umas poucas estrelas. Jewel dormia profundamente nos braços quentes de Tina, enquanto esta a embalava e falava num sussurro para Ana.
- Estás linda! – Ana sentiu-se corar um pouco.
- Preferia entrar no baile acompanhada. Não me sinto bem entrar assim sozinha.
- Pois… Mas não te preocupes! Assim que chegares lá vais ter a companhia do George.
    Ana olhava a porta sem se decidir a sair.
- Nunca estive num baile deste! E se eu não o encontrar no meio daquela gente?
- Oh querida! Se não o encontrares, ele encontra-te a ti com toda a certeza.
    Ana despediu-se da filha e saiu abraçando e écharpe enrolada à volta dos ombros. O carro percorreu a curta distância numa silêncio cerimonioso que só era amaciado pelo olhar envergonhado do jovem militar que vigiava pelo retrovisor de forma mal disfarçada a acompanhante do General. O carro preto parou em frente à porta e Ana atrapalhou-se, recuperando a calma apenas quando o jovem militar deixou escapar uma risadinha, fazendo Ana libertar uma gargalhada e voltar a recuperar o equilíbrio necessário para esticar o pescoço, empinar o nariz e entrar por entre os arcos escuros de basalto. Já dentro do salão, olhou em redor e absorveu cada uma das mesas procurando a imagem tão desejada. Os nervos instalaram-se numa zona desconfortável do abdómen quando percebeu que George não lhe surgia na pupila. Os passos tornaram-se mais curtos e inseguros. Os ouvidos apuraram-se de tal forma que a sua própria respiração parecia amplificada. Só se sentiu tranquilizar quando os seus olhos se colaram aos de George, com uma intensidade que a incentivou a atravessar a sala.
- Boa noite Anne! – Ana sorriu face àquelas palavras mal pronunciadas.
- Olá George! – Ana entrelaçou o seu braço no braço duro do general. – Não me convidas para dançar?
    George subiu as sobrancelhas numa interrogação. Ana sorriu-lhe de forma encantadora e encaminhou-o para a pista. Pegou na mão direita de George e encaixou-a na sua cintura. Encostou-se num suspense sentido por ambos e rodopiaram em uníssono num encaixe perfeito.
    George fez rodar o seu par numa exibição machista de quem sabe que tem o par mais desejado pelos olhares alheios. Encoberto pelo perfume caro, George identificou o cheiro de leite e sentiu-se mais próximo de Ana. Admirava-a. Sim… Admirava a forma ingénua como ela enfrentava o mundo com o queixo empinado e a sabedoria dos sonhadores. Admirava a simplicidade com que ela sorria indiferente ao deslumbre dos seus traços. Admirava a voz suave que entoava carinhos em músicas de embalar. Admirava o olhar de ternura que ela dedicava à filha e que as unia num laço que ele começava a desejar penetrar…
- Posso roubar-lhe o par? – Um homem de cintura redonda e um ar sebento separou George de Ana. Esta esbugalhou os olhos ao reconhecer o professor Martins e o pânico começou a percorrer-lhe as entranhas. George não confiou logo o seu par àquele cavalheiro, pressentindo uma ansiedade estranha em Ana.
- Então agora dedicas-te aos militares! – O professor Martins agarrou Ana com uma força excessiva e afastou-a num redopio mal ensaiado. Aproximou a sua boca do ouvido de Ana arfando enquanto deixava escapar umas frases que o exercitavam numa excitação doentia. – És esperta… Os militares podem pagar melhor pelos teus serviços. Mas se vieres comigo hoje vou mostrar-te a pujança de um professor… Já sentiste o poder íntimo de um professor? – O professor Martins deixou descair um pouco a mão que apoiava na cintura de Ana e lambeu-lhe a orelha de forma lasciva. Ana não aguentou a humilhação e afastou-o com um empurrão que pareceu entusiasmar mais o professor. Sentindo-se incentivado agarrou-a novamente e puxou-a para si.
- Queres armar-te em difícil agora? Agora é demasiado tarde, porque todos já sabem que tu és uma menina muito mal comportada… - As bochechas transpiravam uma vermelhidão expectante no beijo que o professor Martins tentava desesperadamente forçar. O homem sentiu o seu corpo tornar-se mais leve e só percebeu o que havia acontecido quando aterrou de costas em cima de uma mesa frágil que se despedaçou debaixo do peso excessivo daquele corpo mole.
- Let´s get out of here! (Vamos sair daqui!) – George pegou no braço de Ana a afastou-se arrastando-a atrás de si e libertando-a apenas quando o ar frio da noite lhe roçou a cara e lhe acalmou a corrente eléctrica de raiva que lhe percorria o sistema circulatório chegando a todos os extremos do seu corpo. – What the hell happened there? I felt I could kill that guy! If he touch you again, I… I… (Mas que raio se passou ali dentro? Eu senti-me capaz de matar aquele gajo! Se ele volta a tocar-te eu… Eu…)
- Tem calma George! – Ana sentia-se aflita ao ver George andar de um lado para o outro a praguejar coisas que ela não entendia. Sentia um medo imenso que ele começasse a sentir embaraço por tê-la levado ao baile. Talvez começasse a vê-la com os olhos das restantes pessoas. A visão de uma multidão pode ofuscar a visão de um visionário. É preciso ter uma capacidade superior para manter os valores inalterados, os pensamentos puros e a mentalidade aberta e despida das concepções que uma sociedade inteira toma como certas, por que as convicções de caracter são tão abrangentes que se fazem rendilhar de fragilidades absorvidas por certezas demasiado incertas.
    Finalmente George acalmou-se, pegou na mão de Ana e beijou-lhe a ponta dos dedos, entrelaçou a mão delicada na curva do seu braço e dirigiu-a de volta para dentro do baile. Já não podia percorrer o caminho de regresso no carinho que tinha desenvolvido por Ana.

    O receio de enfrentar a realidade depois de a magia se ter desvanecido, entorpecia a vontade de sair da cama e Ana acanhava-se, enroscando a filha já acordada nos braços e rendendo-se ao seu riso fácil. Ana sentou-se na cama e libertou um seio cheio alimentado a pequena Jewel que mamava preguiçosamente adormecendo e acordando sempre que sentia que o seio lhe fugia da boca caprichosa. George abriu a porta do quarto devagar para não perturbar o sono que não verificou. Sabia que devia ter voltado a fechar a porta, mas não conseguiu e encostou-se à ombreira com os braços cruzados apreciando o momento. A pequena Jewel encaixava-se perfeitamente no regaço de Ana e a cumplicidade daquele acto simples fê-lo desejar pertencer àquele quadro familiar. Ana subiu o olhar e atrapalhou-se quando viu George ali estacado a olhar para ela, com o seio descoberto. Ele sorriu-lhe afectuosamente e ela corou, tapando atabalhoadamente o seio nu. George entrou no quarto, pegou em Jewel e atirou uma roupa qualquer do armário para cima da cama, saindo de seguida com a bebé ao colo. Ana levou alguns segundos a recompor-se e depois de fixar a roupa que George tinha escolhido, deixou escapar uma gargalhada. Voltou a colocar a roupa no armário e tirou outra que lhe pareceu mais adequada. Ela tinha percebido que George queria que ela vestisse algo para sair e ela escolheu um vestido que lhe acentuava a cintura fina e que se abria num tecido fluido por sobre as ancas.
    A viagem até ao centro da cidade de Angra foi calma e silenciosa. Ana só voltou a sentir-se tensa quando George parou em frente ao magistério, onde ela havia sido recusada de uma forma arrebatadoramente humilhante. Ana estagnou em sinal de protesto e retesou todos os seus músculos contrariando a mão grande de George que a empurrava delicadamente. Quando finalmente George aplicou um pouco mais de força, entraram e depararam-se com a senhora já conhecida de Ana que lhe sorriu assim que a reconheceu.
- Olá minha querida! – Cumprimentou a simpática senhora que se tinha tornado uma admiradora de Ana depois da joelhada que ela havia aplicado ao professor Martins.
- We want to talk with Professor Martins!
- Sure! You can follow me! – Ana ficou admirada com a resposta solícita em inglês que aquela senhora prontamente deu. A senhora conduziu-os ao gabinete do professor Martins e permitiu a entrada do casal sem o formalismo do aviso da chegada daqueles dois. Não queria correr o risco de o professor não os querer receber.
    George abriu a porta de rompante e sentiu uma satisfação íntima quando viu os olhos pequenos e astutos do professor se arregalarem de admiração e medo. George dirigiu-se à figura ridícula daquele homem com uma barriga proeminente e regalou-se quando viu a sua presa levantar-se e recuar alguns passos. Tinha-o preso pelo medo…
- Can you see that women? (Estás a ver aquela mulher?) – George sibilava algo incompreensível aos ouvidos de Ana que se encolhia junto à porta sem saber bem o que fazer.
- Não percebo o que estás a dizer! – O professor tropeçou na estante que cobria a parede traseira. George deu mais um passo na sua direcção e aproximou-se tanto que o professor lhe pode sentir a brisa da respiração.
- I know you speak English! So tell me, can you see that women? (Eu sei que falas inglês! Então diz-me, estás a ver aquela mulher?
- Sim, sim… Yes… Sim – Ana sentiu uma pena ridicularizadora daquele personagem que se desfazia em medos e receios e sentiu que tinha de reprimir uma gargalhada maldosa.
- You’ll never touch her again… You’ll never look into her eyes again…And now you’re going to apologize… (Nunca mais voltas a tocá-la… Não te atrevas a voltar olhar-lhe nos olhos… E agora vais pedir-lhe desculpa…) - O professor Martins olhou aquela rameira com medo que o seu enjoo fosse notado.
- Desculpa!
- You’ll get some news soon! ( Terás noticias minhas em breve). – George voltou costas e o professor Martins deixou descair os ombros tensos e suspirou de alívio.
    Ana não tinha percebido nada do que George havia dito naquela sala, mas sabia que a tinha defendido. Uma mulher sente da mesma forma sábia tanto a agressão, como a protecção. Uma mulher ferida é uma chama num barril de combustível. E assim que se dá a combustão explode e fere quem está à sua volta com a gravidade dependente da proximidade, sendo que os mais feridos são os mais próximos. Mas uma mulher protegida é o melhor investimento de uma vida, porque a gratidão de uma mulher é eterna e a afeição que resulta dessa gratidão é a garantia de uma lealdade e cumplicidade que acompanham e iluminam uma vida preenchendo-a sem dificuldade e facilitando o dia-a-dia do outro sem grandes exigências.
    Ana deslumbrava-se com os olhinhos arregalados de Jewel, captando tudo o que se movimentava no parque. George caminhava a seu lado numa proximidade confortável. E ria-se sem causa aparente só porque a bebé o fazia. Sentaram-se num banco. Num banco vermelho. Num banco vulgar. E foi naquele lugar vulgar que George tirou uma pequena caixa e entregou-a a Ana, contendo nela muito mais do que um simples anel.
- Oh! Não era preciso ofereceres-me nada George! – Mas os olhos se Ana denunciavam o contrário das suas palavras. Ana abriu a caixa com um cuidado extremo e soltou uma risadinha quando viu o seu conteúdo. – É tão lindo… Muito obrigada George! – E depositou-lhe um leve beijo na face não percebendo o fechar de olhos de George que recebia aquele gesto com a ânsia de o prolongar por uma vida inteira. – Mal sabes tu que nesta terra isto é um anel de noivado! Mas vou aceitá-lo à mesma… Afinal é uma prenda tua! E eu gosto muito de ti, George! Só tenho pena que não consiga dizê-lo de forma que tu me entendas.

domingo, 29 de janeiro de 2012

CAPÍTULO XVIII

CAPÍTULO XVIII

    Por vezes a capacidade de apreciar uma verdadeira amizade é ocultada por outros factores e nunca se chega a usufruir dos seus tesouros. Muitas vezes a amizade é sobrevalorizada e perdida em teias de malícia que teimam em permanecer na penumbra. Mas raras vezes a amizade atinge o patamar de uma segunda família, e quando se tem a sorte de descobrir uma amizade transparente e liberta de oportunismos, atinge-se um novo clímax do ser. E era exactamente assim que Ana se sentia a poucos dias do grande dia. Deus tinha sido generoso, e agora naquele seu novo quarto em casa de George onde tinha passado os três últimos meses como empregada doméstica, agradecia intimamente o facto de ser merecedora de mais graças do que de privações. Voltaria a passar por todas as dificuldades que aquela terra lhe cobrou só para voltar a ter o privilégio daquelas amizades. Tina era uma amiga tagarela que de forma muito inteligente livrava Ana dos maus olhares e difamações. A cumplicidade que tinha com o marido era partilhada na amizade que nutriam por Ana. George era mais reservado, mas Ana sabia ler nas entrelinhas das suas acções. Via no seu olhar de soslaio a preocupação de saber que ela estava bem. Encontrava amizade no facto de ele sair do trabalho e voar para casa, deixando Ana sozinha o mínimo de tempo possível. Era amizade cada vez que ele tirava a pesada pana de roupa das mãos de Ana e transportava ele mesmo evitando que ela pegasse em pesos. Lia amizade nas vezes em que ele trabalhava o quintal para que Ana não se ocupasse do trabalho pesado. Era amizade todas as vezes que ele lhe segurava a cabeça para ela vomitar nos seus ataques de enjoos de grávida, limpando-lhe depois a cara com uma toalha molhada e deitando-a na cama com um chá fumegante à sua espera. Ana era reconhecida a esta gente que se abriu a ela numa bondade de acções que são tão raras quanto preciosas.
    Uma pontada alucinante na barriga fê-la curvar-se e o sufoco de um grito suspendeu-lhe os movimentos. A dor latejava-lhe dentro das entranhas e o corpo pedia uma libertação urgente. Durou apenas uns segundos e Ana levantou-se no intuito de chamar Tina. Tinha medo de estar sozinha se a dor voltasse. Ao entrar na sala, a dor atacou-a com maior violência, obrigando-a a baixar-se. Ana sentiu o chão duro e frio debaixo de si e a dor que vinha e ia com a mesma rapidez. Em cada intervalo Ana forçava-se a aproximar-se da porta, mas quando as águas rebentaram, Ana entrou em pânico e perdeu a noção do tempo e do espaço, libertando-se em uivos gritados e gemidos doridos. Ana não soube quanto tempo passou até George chegar de rompante respondendo com eficácia aos gritos. Pegou nela desajeitadamente e levou-a para a cama.
- Hold on just a little bit! (Aguenta só mais um pouco!) – George, quando sentiu que Ana relaxava um pouco da dor depositou-lhe um beijo suave da testa. – I’m gonna call the doctor and i´ll be right back. Hold on!... (Vou chamar o médico num instante e volto já.)
    George saiu a correr e os olhos de Ana abriram-se num horror por ficar novamente sozinha. Esse horror durou apenas uns minutos, pois Tina apareceu logo se seguida.
- Oh querida! Acalma-te! – Tina aproximou-se de Ana e apertou-lhe a mão tentando disfarçar a impotência que sentia naquele momento. – O George foi a correr chamar o médico… Está tão nervoso que parece que é ele que vai dar à luz. – Ana emitiu uma gargalhada nervosa e Tina deixou-se relaxar um pouco. – Chegou a hora do nosso bebé nascer minha querida. – Tina sentia a emoção aflorar-lhe os olhos lamechas.
- Vai ser uma menina! – Ambas acreditaram naquela profecia. Quando o médico chegou, tomou as rédeas da situação. George foi ferver água e apareceu com a bacia na ombreira da porta, mas foi impedido por Tina.
- Is better if you wait out here! (É melhor esperares aqui fora!)
- But she screaming so much! She needs me…( Mas ela está a gritar tanto! Ela precisa de mim…) – George sentia que a preocupação lhe estrangulava o bom senso num frenesim que lhe crescia e desabrochava numa necessidade física de estar junto de Ana. Foi John que o tranquilizou e o levou para forma daquele quarto. O parto durou duas horas. Duas horas partilhadas por um sofrimento de dor e ansiedade que George tentava acalmar em passadas largas fora da porta do quarto, retraindo todos os músculos a cada novo grito. Quando um choro fraco tomou conta do cenário sonoro George correu para o quarto e atropelou Tina quando esta o tentava impedir. Aproximou-se de Ana e sentiu o peito apertar-se quando a viu pálida com um olhar de felicidade frágil. O seu respirar era lento, mas quando ela lhe sorriu, George sentiu que estava no lugar certo. O médico depositou-lhe uma menina pequenina nos braços que George aceitou como se lhe estivesse destinada e começou a amar aquele ser desde daquele momento. Tina manteve-se a um canto daquele quarto adivinhando as emoções que começavam a nascer do caos.
- She’s perfect! Just like you! (Ela é perfeita! Exactamente como tu!) – George falava embalando o sono fatigado de Ana que mantinha a bebé encaixada na curvatura interior do seu cotovelo. – We gonna call her Jewel!- George levantou-se da cadeira estrategicamente colocada à cabeceira da cama e beijou a bebé e a mãe. Elas preenchiam-lhe agora o vazio que tinha sido a sua vida até então.
   
“ Queridos Pais, Maria e Glória,

Continuo bem desde a última vez que vos escrevi. Gostei muito de saber que a Maria tem tido muito trabalho a enfeitar as cabeças das senhoras dessa terra. Se existe neste mundo alguém capaz de tornar uma sopeira numa rainha é ela, por isso eu acho que essas senhoras são umas sortudas. Também fiquei muito feliz por saber que a Glória está melhor da constipação. Sinto muitas saudades vossas, principalmente neste momento em que vou partilhar uma boa-nova convosco. A minha bebé já nasceu. É o ser mais lindo que este mundo já recebeu. Tem os olhos verdes iguais aos meus, mas o sorriso é do Francisco. Sei que não gostam que fale dele, mas não consigo lhe guardar rancor. Principalmente agora que olho para a minha menina e vejo o sorriso maroto que termina numas covinhas e que herdou dele. Sem ele eu não teria o meu tesouro. Por falar em tesouro a menina chama-se Jewel, que significa jóia em inglês. Não torçam o nariz e digam à Maria para que em vez de refilar por causa do nome que comece a praticar, pois em breve vai ter de chamar pela sobrinha. Vou baptizar a menina aí. Não quero saber o que essa gente arrogante dirá… que mordam todos a língua, mas recuso-me a baptizar a minha filha sem ser na presença da família que a ama e que me ama. Vou no mês de Agosto. Ela terá nessa altura quatro meses. Bem sei que ela já devia ter sido baptizada, mas é como vos digo, o baptizado da minha filha será feito com toda a dignidade na igreja da freguesia da família e não às escondidas como se fosse uma criminosa.
Já me esquecia de vos dizer. Convidei a Tina e o marido para padrinhos. Primeiro pensei na Glória e no João, mas ele já são tios. E acho que é bom para a menina ter os padrinhos na terra dela. O George também irá para o baptizado.

Amo-vos muito e tenho a minha alma repleta de saudades.
Aguardo notícias vossas em breve.
Ana Ferreira”

     Ana escreveu a carta à pressa, e apesar de não ter ficado completamente satisfeita com o resultado, não se preocupou em reescrevê-la, uma vez que já sentia saudades da sua menina. Pegou-lhe ao colo e cantou baixinho:
Vai-te embora papão negro
De cima desse telhado
Deixa a menina dormir
Um soninho descansado.

    George entrou em casa naquele momento e dirigiu apenas um acenar de cabeça a Ana retirando-se de seguida para o seu quarto. Desde o nascimento da menina que ele andava estranho. Já se havia passado três semanas em que ele não se esforçava por estabelecer qualquer tipo contacto, e Ana começava a sentir saudades daqueles momentos em que as gargalhadas que surgiam em cada tentativa de entendimento eram o único ponto de comunicação bem-sucedida. O medo de estar a perder o que tinha com George afligia-a de forma pouco convencional e Ana concentrava-se na filha e no trabalho de casa para não se deixar arrastar por emoções que não percebia. A porta do quarto abriu-se e Ana sentiu que o seu coração disparava numa esperança que George lhe dirigisse uma palavra. Mas ele contornou-a, depositou um leve beijo na bebé e voltou a sair. Ana sentiu uma pontada de ciúme dirigida a alguém incerto que usufruiria do cheiro daquela colónia nova que ele havia comprado. Pela hora ele não deveria lanchar em casa e pela produção, também não devia jantar.
- Está alguém em casa? – Tina entrou como fazia sempre, sem bater!
- Olá Tina! – Ana tentava limpar as lágrimas de forma atrapalhada e esta atitude não escapou a Tina.
- O que se passa querida?
- São apenas saudades da minha família!
- Oh querida! Não fiques assim! Eu sei que não é a mesma coisa, mas tens-me a mim, ao John e ao George… e agora tens esta coisinha linda! – E tirando a bebé das mãos de Ana continuou com um falar apalermado – Quem é a menina mais linda da sua madrinha… quem é? Estás a rir-te sua marota… É muito marota esta nossa menina!
    Ana passou das lágrimas à gargalhada com uma facilidade que surpreendeu Tina.
- Pareces uma tonta a falar dessa maneira!
- Olha quem fala! Devias ver as figuras que fazes quando te babas para cima da menina! – As duas riam enquanto adoravam juntas aquele pequeno ser que já as conquistara. – Ah! Já me esquecia do que vinha aqui fazer.
- Não vinhas apenas matar saudades da minha filha, que já não vias há uns dez minutos?
- Não sejas parva Ana! – Tina sorriu-lhe. Realmente estava a afeiçoar-se àquela pequena e desejava muito fazer parte da vida dela. Vamos sair as três.
- E vamos onde?
- Depois vês! Agora vai vestir algum trapinho melhor do que esse e vamos embora! – Ana foi mudar-se de roupa. Tinha agora um guarda-fato cheio de roupa que Tina lhe tinha dado, porque engordara um pouco e já não conseguia meter-se dentro daqueles trapinhos como ela lhes chamava. Mas Ana ficava magistralmente linda naqueles fatos de saia casaco que lhe delineavam umas ancas perfeitamente encaixadas numa cintura fina, pouco própria de quem tinha dado à luz.
    John já as esperava dentro do carro que conduzia com um cuidado exagerado. O carro era do seu general e ele não queria correr o risco de estragar as suas relações superiores. Chegaram ao centro de Angra do Heroísmo e Ana sentiu um arrepio. Desde que acordara na casa de George nunca mais saíra da base militar, e agora voltar àquela calçada era voltar a sair da sua zona de conforto. Mas Ana sabia que não podia permanecer fechada ao mundo. Teria de enfrentar os olhares e comentários maldosos e as censuras em surdina. As duas entraram no jardim onde Ana foi encontrada caída e miserável, e Tina mirava a amiga numa preocupação disfarçada por um discurso tagarela e confuso. Quando saíram do jardim, Ana avistou os pórticos tão seus conhecidos e não resistiu a atravessá-los novamente. Tina seguiu-a questionando mas sem obter qualquer resposta. Ana percorreu a ala direita conhecedora do caminho e espreitou para dentro da sacristia.
- Jerónimo? – O olhar do sacristão turvou-se numa emoção que tocou a sensibilidade de Tina. O abraço continha em si uma curta mas intensa história de miséria e de bondade. Os actos mais nobres resultam normalmente da junção destes dois químicos: Bondade e Miséria. É fácil ser-se bom quando se tem muito para partilhar, mas o heróico é fazê-lo sem nenhum poder especial. Os dois choraram e trocaram palavras de consolo rápidas e certeiras, e Ana terminou aquela visita rápida com uma preocupação a mais no peito. Jerónimo sofria por estar enclausurado nas censuras e tiranias de um sacerdote pouco misericordioso.
    De volta à rua Tina não voltou a questionar a cena que assistira. Ela sabia toda a história de Ana e sabia exactamente quem era Jerónimo. Percebeu que o homem sofria em silêncio e que a sua deficiência na perna fez dele prisioneiro daquele trabalho.
    Entraram então na loja pretendida e Ana surpreendeu-se com um vestido encomendado em nome dela.
- Mas!... – Ana nem sabia o que dizer. Apesar de ter poupado todos os seus ordenados desde que servia em casa de George, não se sentia com vontade para gastar dinheiro num vestido lindo daqueles.
- Tens de experimentar para ver se as medidas estão certas. – Tina assumiu o comando da situação e Ana sentia-se embriagada sem poder de reacção. – Vai lá que eu seguro a menina. O vestido assentava-lhe melhor do que o esperado. No corpo esguio de Ana o vestido parecia tomar outra forma e o tecido preto caia numa elegância descarada deixando os ombros de Ana à mostra. Tina emitiu um gritinho de satisfação.
- Podes tirá-lo! – Ana obedeceu com o pensamento congelado pela sua imagem que vira reflectida no grande espelho. Ela estava transformada numa mulher. O corpo de menina alongou-se numas formas sóbrias e transformaram-na numa imagem que lhe agradava particularmente. Quando Ana saiu, o vestido foi cuidadosamente guardado numa caixa.
- Eu não vou levar esse vestido! É um vestido de noite e o meu guarda-fato não tem por hábito sair à noite! – Tina deixou escapar uma gargalhada divertida, pegou na caixa e saiu. Ana correu atrás dela com a bebé ao colo.
- Vais sair assim com a caixa? Olha que eu não volto para trás para pagar esse vestido! – Ana sentia que o seu coração se acelerava face à possibilidade de estarem a cometer um furto.
- Não sejas tonta querida! O vestido já está pago…
- Mas… Oh não devias Tina…
- Não fui eu que o paguei!
- Tu ou o John é a mesma coisa…
- Não foi nenhum de nós! – Tina parecia divertida com aquele jogo de gato e rato.
- Então quem foi?
- O George! – Tina sorriu de prazer quando viu o olhar esbugalhado de Ana. – Ele precisa de um par apresentável para o baile de hoje à noite.
    Ana sentiu um turbilhão de emoções, mas a surpresa tomou um lugar dianteiro. Como podia George, um homem distinto, que ocupava um alto cargo na base das Lajes apresentar-se num baile com a criada?
- Não posso! – Ana soltou as palavras numa aflição cómica.
- Porquê querida! Já tens alguma coisa marcada para esta noite?
- Porque… Ora porque não posso deixar a Jewel sozinha… Claro… - Ana quase sorria de satisfação por ter encontrado a desculpa ideal.
- Ora querida! Esse assunto já está tratado. A Jewel ficará comigo em casa, porque o John não pode ir ao baile… estará de serviço…
    Ana não podia dizer que não deixaria a filha com Tina, até porque poderia ofendê-la. E a verdade é que confiava em Tina para deixar a sua menina aos seus cuidados. Ela iria ao baile. Agora que pensava nisso, ela tinha saudades de se divertir. De ter um momento egoísta em que o foco principal é o que lhe dá prazer. Irá com George ao baile, independentemente de ele lhe dirigir palavra ou não. Haverá quem fale português com toda a certeza…

domingo, 22 de janeiro de 2012

CAPÍTULO XVII - Na Base da Montanha

CAPÍTULO XVII



    As pálpebras pareciam coladas e o pequeno raio de luz feria-lhe a visão. Ana sentia que fazia um esforço sobre-humano para abrir os olhos e quando finalmente conseguiu a imagem pouco nítida começou a focar-se para seu espanto. Dois pares de olhos estranhos miravam-na com uma cautela exagerada. Uma mulher loura de cabelo impecavelmente apanhado foi a primeira a esboçar um sorriso torneado de um vermelho vivo.
- Olá querida! – A sua voz doce ecoou na cabeça de Ana que voltou a fechar os olhos. – Não querida! Já dormiste demasiado. Faz um esforço para te manteres acordada. – Ana encaixou aquela informação. Quanto tempo teria estado adormecida? E quem era aquela gente. A urgência que uma resposta lhe provocava fizeram-na arriscar umas poucas palavras.
- Onde estou?
- Estás em segurança querida! – A mulher loura deu-lhe aquela resposta insatisfatória e fixou o outro par de olhos. Eram uns olhos pequenos e astutos de um azul profundo, invulgar naquelas gentes. – Nós encontramos-te na rua e trouxemos-te para aqui… Mas não te preocupes com nada. Vais ficar bem minha querida. – Ana permitiu-se a um novo fechar de olhos. A sua cabeça doía-lhe e o esforço para se manter atenta às palavras daquela mulher cansavam-na de um forma incomum.
- Tenho fome! – Ana permitiu-se exprimir a sua miséria, porque era exactamente assim que se sentia, esfomeada. Fez mais um esforço para levantar a sua mão e pousou-a um pouco a medo sobre o ventre inchado. Não evitou um sorriso quando sentiu a sua menina. Era como se lhe quisesse dizer que está bem.
   Ana comeu uma sopa de carne com um apetite que compadeceu ainda mais a mulher loura. E só levantou novamente o olhar quando terminou. Os olhos azuis estavam fixados nela e pertenciam a um homem alto com uma constituição atlética. Tinha uns ombros largos e o cabelo era claro e muito curto.
- Is she okay? – As palavras que saiam da boca daquele homem confundiam a mente de Ana.
- She was hungry, but now she looks better.
- O que é que vocês estão para aí a dizer? – Ana sentiu-se em alerta.
-Não te preocupes minha querida! – A senhora loura levantou-se e conduziu pelo braço o homem até à beira da cama. – Este é o George e é americano. Não fala nada de português… E estás na casa dele.
    Ana assimilou aquela apresentação sem saber como se dirigir àquele ser humano que não entendia. Resolveu a situação com um abano de cabeça.
- E eu sou a Cristina, mas todos me tratam por Tina. – A mulher loura tinha finalmente um nome, para conforto de Ana. – Hoje ainda estás muito abatida. Vais descansar e amanhã falamos melhor, está bem assim? – Ana voltou a acenar a cabeça numa afirmação e deixou-se adormecer profundamente.
    O dia seguinte começou muito cedo. Ana abriu os olhos com os primeiros raios da manhã e perscrutou o quarto que começava a clarear. O quarto tinha as paredes brancas e era amplo. Uma janela demasiado grande deixava a luz entrar de forma agradável. Ana agradeceu o facto de aquela janela não ter um cortinado que fechasse o quarto àquele espectáculo matinal. Os olhos de Ana confirmaram a cama larga e confortável que o seu corpo já havia testado. Uma cómoda de madeira e couro com umas imagens douradas maravilharam-na. No canto oposto do quarto, um espelho de corpo inteiro reflectia a imagem de um homem adormecido numa posição desconfortável. Ana assustou-se e desviou o olhar para a imagem real. George estava sentado num pequeno cadeirão de couro vermelho e pendia o corpo para o lado esquerdo apoiando a cabeça na cova interior do cotovelo. Ana compadeceu-se daquela figura e levantou-se com a sua almofada numa mão e uma manta na outra. Colocou a manta por cima daquele homem de traços rudes que se suavizavam num respirar profundo. Quanto tentou levantar a cabeça de George para lhe colocar a almofada, este abriu os olhos preguiçosamente e quando percebeu que Ana estava de pé deu um salto.
- You can´t be up! Please! Go back to bed! – A atrapalhação de George e a falta de entendimento de Ana fizeram-na rir. Ela riu tão alto que George se sentiu ainda mais confuso.
- Não entendo nada do que estás para aí a dizer! – Ana falava muito pausadamente como se fosse essa a solução para um entendimento entre os dois. George encolhia os ombros e percebendo que não conseguiriam ter uma conversa resolveu fazer-se entender de outra forma. Pegou-a ao colo e depositou-a na cama. Após um arregalar de olhos de espanto, Ana voltou a rir-se.
- Podias ter dito logo que querias que eu voltasse para a cama.
- George! – O homem que envergava uma farda militar apontava para o peito enquanto proferia o seu nome. Depois apontou para Ana e esperou uma reacção.
- Ana! – Ana sentiu um baque no peito face a este primeiro entendimento. E ambos sorriram quando George repetiu Ana em voz alta.
- Where is your husband? – George preguntava devagar enquanto apontava para o dedo anelar. Ana sentiu um medo de responder. Podia fingir que não percebia a pergunta, mas não teve coragem de começar a enganar quem lhe tinha feito bem e tentou explicar-se o melhor que pode.
- Não sou casada! – Ana abanava a cabeça em negação enquanto falava. – Vou ser mãe solteira! – George pegou-lhe na mão e Ana retraiu-se perante aquele gesto.
- I understand… - Ana não percebeu o significado daquelas últimas palavras, mas sentiu a compreensão de George e emocionou-se. – Please don’t cry! Everything will be resolved. – Como George começava a sentir-se desconfortável resolveu levantar-se e saiu do quarto.
    Ana voltou a encostar-se na cama. Não queria passar mais um dia na cama. Tinha uma vida para resolver, mas neste momento sentia-se segura ali no meio daquela gente desconhecida que lhe estendera a mão e cuidara dela. Que futuro lhe estava destinado? Que caminho seguiria a partir daquele ponto? A consciência do incerto é intimamente provocadora de um medo efervescente que à medida que cresce se transforma em coragem para novas soluções. E esta nova coragem ultrapassa a dor, apaga o comodismo e incentiva novas descobertas e oportunidades.
- Ana! – George estava novamente à porta do quarto onde Ana se encontrava. Entrou sem pedir licença. Ana sorriu com este pensamento. Mesmo que ele lhe pedisse licença para entrar ela não o entenderia. George ajudou-a a levantar-se e encaminhou-a para fora do quarto. Ana sentiu-se aliviada por deixar aquele quarto e sorriu quando encontrou Tina na cozinha ampla e moderna. Não pode deixar de compará-la à cozinha escura com o chão de terra batida dos seus pais. Ali tratava-se de um espaço amplo com uns mosaicos verdes no chão. O que mais admirou Ana foram os electrodomésticos. Nunca vira nada assim. Tina abria a porta daquilo que chamava friger e tirava de lá ovos que saíam frios e manteiga dura. Aquela cozinha tinha electricidade e Ana não conseguiu evitar um pensamento dedicado a Francisco. Sentaram-se à mesa e tomaram um pequeno-almoço que deliciou Ana.
- Fico muito feliz que te sintas melhor querida! – Tina falava enquanto penicava uma fatia de pão.
- Como é que vim aqui ter? – Ana ansiava esclarecer melhor aquilo que lhe parecia um lapso de memória.
- O George foi a Angra do Heroísmo com outros militares aqui da base. Já sabes como é… Quando se apanham de folga querem é boa vida e umas meninas fáceis… - Tina trocou um sorriso cúmplice com Ana ambas seguras de que George não as perceberia. – Então parece que eles encontraram-te caída no chão à beira de um banco de jardim.
- Ah! – Ana sentia-se tão humilhada que não conseguiu dizer mais nada, mas Tina não percebeu o embaraço de Ana e continuou o seu relato.
- Às tantas da madrugada sinto bater na porta da minha casa, que é aquela ali… A última deste lado, vês? – Tina apontava pela janela larga da cozinha e obrigava Ana a concentrar-se nas indicações. Só se deu por satisfeita quando Ana percebeu qual era a sua casa. – Pois bem! Apareceu-me à porta um pouco embriagado e foi o John, que é o meu marido, vais conhecê-lo hoje à noite porque vais jantar lá a casa, mas depois combinamos melhor… Continuando, apareceu-me lá em casa e nós pensámos que ele estava bêbado. O John acompanhou-o até aqui com a intenção de o deitar, quando deu contigo estendida ali no sofá… O que é que ele podia fazer? Correu para casa e fez-me vir aqui em camisa de dormir. – Tina soltou uma gargalhada como se aquela fosse uma aventura deliciosa que contava a amigos. – Os homens nunca sabem resolver nada sozinhos, sabes como é. Mandei o George levar-te para o quarto e tranquei-me lá contigo. Mudei-te de roupa e passei a noite a colocar-te panos de água fria na testa para te baixar a febre.
- Eu tive febre? – Ana sentia que aquela não era a sua história.
- Sim queria! Deliraste durante dois dias!
- Dois dias? – Seria possível que não se recordasse de nada durante todo aquele tempo.
- Dois dias! Estou a dizer-te! Ficámos muito preocupados por causa do bebé, mas o médico ontem de manhã assegurou-nos que o pior já havia passado.
    Tina levantou-se para começar a arrumar a mesa e Ana acompanhou-a. Estava habituada às tarefas domésticas e lavou a loiça num instante para grande satisfação de Tina. O facto de terem água canalizada ajudou bastante a tarefa. Depois de Ana colocar a cozinha num brinco, George despediu-se com um aceno e saiu.
- Vai trabalhar querida! – Tina sentou-se num confortável sofá na sala e fez sinal a Ana para que a acompanhasse. – Temos de ter uma conversa querida!
    Ana assentiu. Devia uma explicação àquela gente.
- O George disse-me que não és casada!
- Não sou! Engravidei de um namorado que não quis assumir a paternidade! – Ana preparava-se para as ofensas e esperou sem resultado pelo olhar recriminador.
- Há homens no mundo que não deviam existir, querida! Não percas mais tempo a pensar nele… Um homem que não tem a dignidade de assumir os seus actos então é um fraco que não serve para mais nada… Ele até te fez um favor, querida! Já viste o que seria o resto da tua vida ao lado de um fraco! – Tina deixou escapar uma nova gargalhada para espanto de Ana. Seria ela uma pessoa razoável da cabeça? Ela não parecia ralar-se nada com o facto de Ana ser uma rapariga solteira e grávida. E ainda tinha a ousadia de ir mais além. Ao contrário de todos aqueles que Ana conhecera, Tina não a recriminava a ela, mas sim a Francisco. Ana começava a gostar sinceramente daquela mulher de estatura baixa, um pouco redonda com um rosto agradável e um sorriso fácil.
- Não tens família, querida? – Tina aprofundava o assunto numa curiosidade mal disfarçada.
- Tenho a melhor família do mundo! – Ana sorriu ao lembrar-se dos seus. Descreveu os pais como pessoas bondosas que amavam mais as filhas do que a própria vida. Falou de Glória e do seu casamento bem-sucedido. Descreveu Maria como a marota da família e provocou risadas intimas entre as duas enquanto descrevia a sua irmã mais nova.
- Então como é que acabas aqui numa ilha estranha e assim tão desamparada?
- Cheguei à Terceira com pouco dinheiro, com a intenção de estudar para professora primária. Tentei inscrever-me no próximo exame de admissão… - Os olhos de Ana fixaram o chão e por um momento voltou a sentir-se humilhada. – Mas não fui aceite.
- Como assim não foste aceite? Chumbaste no exame?
- Não! – Ana sentia-se a diminuir perante cada insistência naquela história, mas devia ser honesta com Tina. – Não me deixaram inscrever no exame.
- Porquê?
- Por causa da minha condição! Confundiram-me com uma mulher de vida fácil e a solução que me apresentaram para que eu tivesse acesso ao exame era pouco decente…
    Tina levantou-se do sofá numa fúria que se reflectia na vermelhidão das bochechas.
- Não acredito! Que cretino! – Tina andava de um lado para o outro, como se estivesse enjaulada. De repente voltou a sentar-se ao lado de Ana e puxou-lhe o rosto na direcção do seu com alguma brusquidão. – Ouve bem o que te digo Ana! Nunca deixes que esse tipo de gente te faça sentir inferior. Tu és muito melhor do que esse jovenzito que te engravidou. É muito fácil cometer erros e não ter que sofrer as consequências, mas a dignidade fica do lado daqueles que se responsabilizam pelos seus erros. – E libertando um pouco mais o rosto de Ana, Tina estreitou mais o olhar como se quisesse que as suas palavras ficassem gravadas a ferro quente na sua mente. – E esse senhor do magistério que sugeriu que te prostituísses, é tão inferior a ti que nem te chega aos calcanhares. Nem sempre as pessoas têm a capacidade para verem o ridículo dos incapazes e enaltecem-nos com prejuízo para todos aqueles que são superiores… Nunca julgues ninguém sem conhecer a sua história. – Tina perdeu o sorriso dos olhos e falava com a emoção das duas na voz. – Aqui nesta casa estarás protegida desse tipo de gente. Eu, o meu marido e o George vamos ajudar-te, a ti ao teu filho.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Livro

Olá a todos!
O meu primeiro livro " Amor na ilha Azul" Já está à venda no formato Ebook http://www.worldartfriends.com/store/1421-amor-na-baia-azul.html e no formato livro físico http://www.worldartfriends.com/store/1420-maria-gaspar-amor-na-baia-azul.html.

Agradeço a todos o carinho e a disponibilidade para lerem e apreciarem aquilo que escrevo.

Muito obrigada

domingo, 8 de janeiro de 2012

CAPÍTULO XVI - Na Base da Montanha

CAPÍTULO XVI




        O Pórtico elevava-se na sua frente em três arcadas imponentes com duas torres nas extremidades. A alvura do edifício tornava-o mais celestial. Ana entrou na Sé Catedral de Angra do Heroísmo numa busca inconsciente de conforto. Os seus olhos não admiraram da forma devida as capelas que se sucediam numa dança de arcos e colunas majestosos que se intercalavam de forma harmoniosa. Ana sentou-se num dos longos bancos e fixou o frontal de prata do altar do Santíssimo Sacramento e por uns segundos permitiu-se apreciar a beleza daquele relevo.
- Ajuda-me Deus! Ajuda-me a não falhar! Ajuda-me! – Ana sentia o calor das lágrimas percorrerem-lhe as faces.- Não deixes que a minha filha nasça no meio da miséria! Por favor, permite uma vida digna para a minha menina.
    Os segundos deram lugar a minutos, e os minutos transformaram-se em horas. Ana não tinha para onde ir e deixou-se ali ficar até que um homem de meia-idade coxo lhe interrompeu a decadência de emoções.
- Temos de fechar a Sé por hoje! – O seu olhar apresentava-se doce e tornava as suas feições feias um pouco mais amenas.
- Não tenho para onde ir! – Ana expôs a sua situação àquele estranho sem se poder dar ao luxo de ter qualquer tipo de recato ou pudor. O homem deixou transparecer a atrapalhação que aquela confidência lhe provocara.
- Eu não sou o padre! Se quiser confessar-se deverá fazê-lo amanhã pelas onze horas da manhã! 
    Ana pegou na sua mala e levantou-se sem vontade. O homem fixou o seu olhar na barriga proeminente e não lhe escapou o facto de aquela rapariga não ter aliança. Subiu o olhar e assimilou aqueles olhos redondos inchados e angustiados, assimilou uns lábios curvados de dor e leu-lhe as rugas de preocupação que se formavam na testa daquela linda mulher. O homem, não podia virar as costas a um filho de Deus. Era um mero sacristão e sabia que não podia contar com a ajuda do sacerdote, que julgaria aquele rapariga como uma devassa que se tinha desviado do caminho sagrado de forma irremediável. Talvez se a moça mostrasse ares de ter algumas posses ainda se vislumbrasse uma salvação possível, mas assim mendiga era de todo impossível salvar a sua alma. Mas o sacristão compadecia-se daquela alma perdida e havia uma vontade interior que o impulsionava a ajudá-la. Sentou-se ao lado dela e agarrou-lhe a mão, num gesto de compreensão.
- O meu nome é Jerónimo, mas todos me chamam de coxo! – Ana deixou escapar um sorriso atrapalhado pelas lágrimas e sentou-se novamente.
- Eu sou a Ana e todos me tratam por Ana! – Os dois trocaram um sorriso cúmplice.
- Espera aqui só um momento! – O homem foi trancar a porta central da Sé e voltou a sentar-se ao lado de Ana. - Conta-me a tua história.
    Ana olhou aquele homem de estatura baixa e uma magreza extrema. O cabelo mal cortado abundava num preto baço e os seus olhos escuros brilhavam enquanto lhe sorria afectuosamente.
- Eu nasci na ilha do Pico! Tenho lá toda a minha família! – Ana apressou-se na descrição da família, já que a saudade teimava em atrapalhar-lhe as palavras. – Apaixonei-me por um jovem médico e engravidei. Como já deve ter reparado hoje estou numa terra estranha, sem ninguém, sem sustento, solteira e grávida!
- Mas porque vieste para a Terceira se tinhas a tua família no Pico? – Aquela rapariga já conquistara a compaixão do sacristão que começava a interessar-se pela sua história.
- Porque me recusei a viver na clausura da vergonha! Eu amei e engravidei. Estou a gerar uma nova vida dentro de mim. Isto não tem de ser motivo de embaraço. Não tem de ser uma condenação de viver uma morte em vida. Eu recuso-me a baixar o olhar a comentários maldosos. Eu recuso-me a afastar-me das pessoas supostamente dignas. Eu não sou uma marginal. Tenho sonhos, tenho projectos, tenho sentimentos e não posso deixar esta Ana que gosta de viver de rir de aprender, numa clausura eterna. As pessoas não podem olhar-me com superioridade nem julgar-me só porque não segui o que esta sociedade hipócrita me impinge. Está tudo ao contrário Jerónimo. – O sacristão sorriu-lhe ao notar que ela o tratara pelo nome e não pela alcunha. – Eu sou acusada com olhares, com comentários maldosos, com propostas indecentes. Sou julgada, rotulada, subjugada a humilhações que me magoam muito. Essas atitudes magoam-me. Essas pessoas magoam-me. E eu nunca provoquei uma dor nessas pessoas que tão facilmente me magoam… Porque é que sou eu que estou a ser julgada em praça publica se não fui eu que magoei ninguém… Mas que raio de sensibilidade é esta que rege a dignidade das nossas gentes?
    O sacristão sensibilizou-se com aquele discurso tão sentido. E tomou a decisão de ajudar aquela menina às escondidas do pároco.
- Vamos fazer o seguinte! – Ana esperava numa expectativa de esperança o que aquele bom homem lhe tinha para dizer. – Vou deixar-te passar a noite na sacristia. Sei que não é lá muito confortável, mas sempre é melhor do que ficares na rua. Tens de acordar cedo, para que o sacerdote não te apanhe aqui. Amanhã acordas e tentas arranjar trabalho. Vamos gerindo um dia de cada vez…
    Ana rodeou o pescoço daquele pequeno homem que Deus lhe colocara no caminho. Jerónimo apreciou o gesto espontâneo. As pessoas não costumavam dirigir-se assim a ele. O seu aspecto físico costumava repugnar os outros, antes mesmo de ele ter oportunidade de mostrar a sua personalidade. Mas naquela noite Deu colocou-lhe uma amiga na sua vida. Uma amiga… Eis uma novidade para ele.
    Os dois conversaram noite fora. Ana contou-lhe todos os pormenores. Riram das pirraças da pequena Maria. Emocionaram-se com união de Glória e João. Trocaram risinhos sobre a intimidade de Ana e Francisco. Choraram a morte de Fátima. Repugnaram-se com a atitude do professor Martins e por fim adormeceram no desconforto daquele banco de madeira.
     Ana deixou a Sé quando o sol começou a despertar. Abriu os braços àquele novo dia e rodopiou provocando uma gargalhada em Jerónimo.
- Boa sorte Ana!
    O pão seco e o pouco leite que Jerónimo arranjara tinham reconfortado o estômago de Ana que não comia nada desde a manhã do dia anterior. Ana seguiu as ruas sem um rumo certo, mas decidida a arranjar trabalho. Não podia continuar a dormir nos bancos da Sé, não só porque ambicionava mais do que isso, mas também porque não queria colocar o Jerónimo numa situação delicada. Ana sorria ao lembrar-se das horas de conversa que tinham tido no dia anterior. Ele nem se apercebera de como tinha saudades de conversar. E agora tinha alguém que naquela terra estranha que lhe dava guarida e amizade. Ana entrou num pequeno estabelecimento, incentivada pela placa que anunciava precisarem de empregado.
- Bom dia! – Ana cumprimentou o senhor anafado com um bigode farfalhudo que se encontrava atras de um balcão alto. Rolos enormes de tecido forravam as paredes, formando um arco-íris de cores e texturas. – Li a placa que tem colocada no umbral da porta.
- Ah sim! Estou a precisar de um funcionário aqui para a loja. Tenho este estabelecimento há já alguns anos, e tenho estado sempre sozinho, mas agora a minha esposa está muito doente e quero passar mais tempo com ela.
- Percebo! – Ana sentia-se esperançosa. – Então acha que posso ficar aqui a trabalhar para si?
- Dá a volta ao balcão para que eu possa mostrar-te o resto da loja e do armazém! – O homem mostrava-se muito amável com um sorriso acolhedor que gelou assim que viu a barriga proeminente de Ana.
- Vai perdoar-me a pergunta, mas o seu marido não se importa que trabalhe? – Aqui estava a questão que preocupava toda a gente assim que viam a barriga de Ana.
- Não tenho marido, pelo que não tem com que se preocupar. – Ana sorriu ao homem tentando mostrar que esta afirmação era positiva, mas adivinhando o desfecho daquela história. O homem até então amável, tornou- se de repente muito atarefado, com muitas coisas para fazer e depois um pouco frio, até que a despachou com um candidato inventado com quem já se havia comprometido.
    Ana saiu um pouco mais desmotivada, mas sem perspectivas de desistência no seu horizonte. O sol foi seguindo o seu caminho num ritmo mais acelerado do que o de Ana que chegou ao final do dia exactamente como começara… Sem nada… Apenas muito mais cansada. Quando voltou para a Sé, Jerónimo não lhe perguntou nada, uma vez que adivinhara a resposta nas feições de Ana.
    Os dias passavam-se numa repetição cruel de esperança e desilusão com apenas duas pequenas refeições diárias que Jerónimo conseguia arranjar-lhe. O seu único consolo residia nas conversas que tinha com aquele novo amigo. Os desabafos, os planos para o futuro, os sonhos, as histórias, as memórias. Tudo era partilhado durante aquelas horas mágicas em que ambos se fechavam para o resto do mundo.
    Algumas semanas passaram-se na mesma monotonia triste e desincentivadora e a chuva tomou o lugar do sol. Ana correu para abrigar-se na Sé. Isto significava que já não podia continuar à procura de trabalho naquele dia. Aproveitaria para lavar-se na bacia minúscula que Jerónimo lhe arranjara, com a água fria a que já se acostumara e depois descansaria um pouco. A barriga pesava-lhe e a falta das forças resultava na sua perca de peso visível ao longo daquelas semanas. Ana rezava todos os dias, para que a sua vida presente não se manifestasse em falta de saúde na filha. Entrou na Sé e procurou Jerónimo com os olhos. Atravessou o corredor central sem reparar nos altares seguidos e espreitou para dentro da sacristia recuando num salto quando avistou o sacerdote. As feições zangadas fizeram com que Ana se encolhesse na sombra da porta encostada e escutasse a conversa.
- Não te bastava seres coxo, tinhas de ser também burro! – A voz grave parecia relampejar cada palavra.
- Mas ela precisa de ajuda! Não posso deixá-la desamparada!
- O povo comenta que todos os dias à tardinha entra uma rapariga na Sé que não sai! Encaram este facto como se se tratasse de um mistério, mas em breve não serão tão benevolentes nessa avaliação!
- Mas não podemos virar as costas aos necessitados. Misericórdia Senhor! – Jerónimo debatia-se contra aquela voz acusadora.
- Não quero mais essa vadia aqui dentro, percebeste? – A voz agora era um murmúrio ameaçador. – Já te tinha avisado e tu fizeste ouvidos moucos. Não quero essa mulher de má rês novamente na minha Sé… Se não for assim a igreja deixa de ter a bondade de albergar a tua mãezinha no convento onde ela beneficia do tratamento misericordioso das nossas irmãs.
- Não vou fazer isso! E não me ameace, porque o senhor padre tem mais a perder do que eu… Ai se eu começo a abrir a boca sobre o que sei… - Jerónimo foi interrompido por um estalo que ecoou por toda a Sé.
- Não me voltes a ameaçar coxo… Quando eu voltar amanhã espero ter a feliz notícia de que já não foi avistada a misteriosa mulher a entrar na Sé.
    Ana sentiu-se tremer e encolheu-se mais quando o sacerdote saiu de rompante passando mesmo ao seu lado sem dar pela sua presença. Assim que aquele personagem alto e intimidador que envergava uma túnica da mesma cor que a sua alma atravessou o pórtico da Sé, Ana esgueirou-se para dentro da sacristia. Sentiu uma dor aguda no peito quando viu Jerónimo sentado no chão com a cabeça apoiada num móvel escuro, que possuía gavetas trabalhas com puxadores em ouro. Ali estava um miserável a jorrar sangue pelo lábio encostado a um móvel que ostentava poder, e Ana sentiu mais admiração por aquele ser humano do que pelo imponente móvel em jacarandá.
- Estás bem Jerónimo? – Ana tirou do bolso da sua saia um lenço branco que a acompanhava sempre, uma vez que tinha sido bordado pela mãe, e limpou-lhe o canto do lábio.
- Nunca me senti melhor! – Jerónimo tentava sorrir de forma a não ser mais uma preocupação na vida de Ana. – Apenas caí! Eu sou assim mesmo desajeitado… E o facto de ser coxo não ajuda. – O riso que acompanhou esta afirmação foi tudo menos sincero. Ana não quis dizer-lhe que ouvira a conversa, pelo que se limitou a mentir.
- Tenho uma excelente notícia! – Ana sentou-se também no chão e encostou-se ao móvel.
- Ainda bem! Estamos ambos a precisar de boas notícias! Então do que se trata?
- Arranjei trabalho numa casa! Vou servir e fico lá permanentemente. Vou ter um quarto com uma cama confortável e os meus futuros patrões compadeceram-se da minha situação.
    Jerónimo levantou Ana num salto e pôs-se a dançar com ela.
- Fico tão feliz Ana! Tu mereces o mundo… E vais ter uma refeição decente, finalmente… - Ambos riam alto e comemoravam a falsa notícia.
    Ana pegou na sua mala e despediu-se de Jerónimo com a promessa de que o visitaria sempre que possível. O riso acompanhou-a sempre até que virou a primeira esquina e as lágrimas voltaram a impor-se ao riso. O mesmo desespero dos desalojados voltou a instalar-se e os seus olhos percorriam as ruas numa ansiedade miudinha. Procurou um beco escuro e encolheu-se na ombreira de uma porta descaída, adivinhando que ninguém morava naquela casa. O frio gelava-lhe as extremidades e os soluços deram lugar a um cansaço que resultou num fechar de olhos que só despertou no dia seguinte.
    Os dias passaram-se com Ana a percorrer as ruas da cidade sem rumo. De vez em quando aventurava-se a pedir trabalho a alguém, mas a resignação ocupara cada átomo do seu ser. Ana acabara de perceber que o mais fundo que uma pessoa pode descer na sua miséria é quando atinge a aceitação da mesma como inevitável. A resignação é o estado de espírito mais degradante que pode haver. É pior do que a fome, a tristeza, a humilhação. Quando se enfrenta o difícil com esperança, significa que ainda existe uma pouco mais para desiludir… Quando se atinge a resignação, então atingiu-se o fundo do poço.
    Ana perdeu a noção do tempo. Não se lembrava de há quanto tempo andava a deambular por aquelas ruas já tão conhecidas. As pessoas já a olhavam de lado e cochichavam mexericos indignos. Ana sentia uma dor permanente no estomago. Não sabia se era fome ou outra coisa qualquer. A visão começava a desfocar-se com alguma regularidade e as pernas cediam facilmente. Ana sentiu a aragem fria que avisava o fim de mais um dia e encostou-se num banco do jardim sem se preocupar com os transeuntes que a miravam. A noite caiu fria, mas Ana já não a sentiu. O seu corpo tombou no chão, sem que Ana o notasse… a sua mente apagara-se finalmente.