sábado, 9 de julho de 2011

Capitulo VIII

Capitulo VIII

- Há vinte e três anos, estava eu em Lisboa a estudar Economia, tal como tu agora. Vivia a mocidade típica dos vinte anos, numa ansiedade constante de conquista. Nesta ânsia de viver desenfreadamente, conheci a minha melhor conquista e maior desilusão. Apaixonei-me por uma rapariga que estudava educação de infância. Foi um amor típico dos jovens, vivido com muita pressa e demasiada intensidade. Mas foi sem dúvida um amor… Casámos assim que eu terminei o curso, e nestas pressas de viver uma vida plena e sem saborear o que só a juventude nos pode dar, ela nem terminou o curso. Os anos de casamento trouxeram um afrouxamento às pressas iniciais, mas na maioria foram anos de um casamento normal. Eu fui um marido um pouco ausente, porque esta actividade exige muita presença em diversos sítios, e a Carla não gostava de me acompanhar. Achava desinteressante esta minha mobilidade e adaptou-se a uma vida em que tinha de viajar sozinha, tinha de ocupar o tempo na nossa casa sozinha. Organizou uma agenda, em que no início era preenchia totalmente em minha função, longe de mim. Foi um casamento que durou dezoito anos. Foram dezoito anos em que eu amei… Sim, eu amei durante todo esse tempo… Umas vezes com mais intensidade do que outras, mas amei…
    O silêncio que preencheu o momento seguinte foi promissor de que aquele relato terminava ali naquele instante. Diana conseguiu ler uma mágoa profunda nos olhos de Bernardo quando os conseguiu fixar. Havia ali qualquer coisa que não tinha sido falada, mas sentia-se no ar. Uma tensão não exprimida, mas que palpitava como se quisesse ser revelada, mas principalmente entendida. Diana solidária com aquela dor que lhe carregava as sobrancelhas sobre um olhar nebulado pegou-lhe na mão e beijou-lhe a palma com um carinho que preencheu o peito de Bernardo de uma forma que ele pensou já não ser possível.
- E durante esses anos nunca tiveram filhos? – Diana procurava uma brecha que lhe permitisse satisfazer a curiosidade.
- Não. E quando pensamos nisso já não nos foi possível.
- Ora… Nunca é demasiado tarde para se gerar uma nova vida. – Estas palavras provocaram um tão mal estar em Bernardo que se viram obrigados a deixar a esplanada. Bernardo sentiu uma fraqueza que desculpou com uma queda de tensão. Deixaram a esplanada e encaminharam-se num vazio de conversa até ao hotel, onde Bernardo estava hospedado. Estacionaram nas traseiras do edifício e entraram directamente por um acesso que conduzia a uma entrada de uma suite que Diana nunca tinha visto. Ficou bastante evidente que aquele espaço estava reservada ao patrão. A porta do elevador abriu-se e deixou à mostra uma sala ampla que parecia transportá-los no tempo para a “época das luzes”. Um estilo rococó situado entre o barroco e o neoclassicismo marcado por cores claras e douramentos nos acabamentos contrastava harmoniosamente com uns detalhes modernos sabiamente espalhados por aquele amplo espaço. Diana encantou-se com uma aparador estilo Luiz VI defrontado por uma cadeira transparente de acrílico e com uns posters em molduras bem actuais colocados harmoniosamente sobre o móvel antigo. Ambos os estilos saiam valorizados. Os dois sentaram-se num sofá confortável em pele castanho que deixava os corpos afundarem-se convenientemente, convidando a permanecerem ali.
- Sente-se melhor Bernardo? – Diana sentiu-se embaraçada com o seu deslumbramento e depressa tentou recompor-se.
- O que eu tenho não passa.
- Não diga isso, que ainda é castigado. Um homem com o património que o Bernardo tem, bem-parecido, a gozar de plena saúde… Até é pecado reclamar da vida. – Diana tentava animá-lo, conseguindo apenas o efeito contrário.
- Sabe Diana nem tudo o que parece é! – Bernardo largou a mão da rapariga até então colada à sua e de repente sentiu o ridículo da situação. Ele estava a deixar-se envolver emocionalmente por uma jovem que tinha uma vida promissora pela sua frente, e ele não tinha nada para lhe oferecer. – Vá aproveitar a sua juventude Diana e deixe os velhos descansarem.
- Está a falar de quem? Eu só vejo jovens nesta sala! – Diana deslumbrou-o novamente com aquele sorriso um pouco maroto que lhe era característico.
- É melhor ir-se embora Diana. – Bernardo levantou-se e encaminhou-se para o seu quarto, deixando clara a sua intenção, para grande atrapalhação de Diana.
    Nessa noite, Diana deitada na sua cama fixava aquele tecto já demasiado apreciado e questionava aquela atitude despropositada. Talvez tivesse dito alguma coisa ofensiva. Ela fazia um esforço de memória e não conseguia lembrar-se de nenhuma conversa em que pudesse ter ofendido Bernardo. No dia seguinte, quando ele a fosse buscar iria esclarecer a situação e pedir-lhe desculpa se fosse necessário. Diana foi buscar o telemóvel que estava dentro da mala de forma a programar o alarme para a hora correcta. Quando olhou para o ecrã, reparou que tinha três chamadas não atendidas e uma mensagem. Todas estas tentativas de contacto eram de Duarte, e a mensagem deixou Diana enternecida, “ Liga-me quando puderes, para eu matar saudades da tua voz. Amo-te”. Diana começou a marcar o número de volta, mas não efectivou a sua intenção. Já era um pouco tarde e podiam falar no dia seguinte…
- Bom dia beta! – Raquel abrindo a boca e coçando o emaranhado de cabelo espantou-se com uma mesa de pequeno-almoço com café, torradas e um colorido de frutas. Normalmente as raparigas engoliam um copo de leite e umas bolachas à pressa, mas hoje Diana esmerara-se.
- Bem Diana! Madrugaste para fazer tudo isto. O que é que me queres pedir?
- Não sejas tonta! Senta-te e disfruta de uma refeição reforçada.
- Agora a sério Diana, a que se deve tudo isto?
- Acordei demasiado cedo! – Esta era a verdade. Diana acordou ansiosa, e como o tempo teimava em não passar ao ritmo desejado, a rapariga resolveu ocupar-se com alguma coisa que não a pressa de voltar a ver Bernardo nessa manhã.
- Ah rapariga laparosa! – Aquele termo típico da terra de Diana causou uma cascata de gargalhadas e animou aquela manhã numa boa premonição para o resto do dia.
    Como esperado e desejado, o Lexus já a esperava no lugar do costume. Quando se abriu a porta do condutor, Diana começou a relaxar. Saberia agora se tinha ofendido o patrão ou se tinha sido impertinente de alguma forma. Ela detestava esta sensação de que alguma coisa não estava bem resolvida e só conseguiria descansar o espírito quando sentisse novamente um ambiente descontraído entre os dois. Quando o corpo do condutor de depositou totalmente fora do carro Diana, sentiu uma pontada de decepção. Não era Bernardo que conduzia o Lexus, mas um motorista que Diana não conhecia.
- Bom dia! O Sr. Bernardo pediu-me que estivesse ao seu dispor durante estes dias em que ainda estará com o gesso. – O motorista mostrava-se muito solene, enquanto abria a porta traseira do carro. Diana sentiu uma sensação estranha. Sempre se sentara no banco da frente e aquela formalidade de não ocupar o lugar ao lado do condutor habitual estava a causar-lhe uma estranheza súbita que a impediu de qualquer comentário para além de um agradecimento tosco.
    Já dentro do carro e com a desilusão a pesar-lhe nos olhos que teimavam rasar de água, Diana viu um ramo de hortências com um envelope. Apressou-se a abrir o envelope e devorou de uma só vez aquelas letras, para só depois as absorver com calma.
    “ Minha querida Diana! Lamento muito não poder continuar ao seu dispor como seria da minha vontade, mas as obrigações não se dispersam no ar. Gostei muito de a conhecer. Mais do que talvez fosse oportuno. Desejo-lhe uma vida muito feliz e um futuro presenteado de vitórias.
                                                                       Bernardo”
    Diana só conseguiu ler o que as entrelinhas espalhavam com tanta clareza. Era uma despedida. Como podia ter interpretado como amizade a atenção que um homem como Bernardo lhe dispensara? Era ingenuidade sua. Uma ingenuidade que morreria naquele momento. O peso da marginalidade voltou a instalar-se incomodamente. Quem nasce para estar num lugar inferior não pode contar com ajudas para alcançar um lugar dianteiro nesta sociedade estandardizada. Diana chorou de rancor. Sentiu naquele exacto momento uma descriminação maior do que os maus tratos de Ruben lhe haviam provocado. Sentiu-se mais pequena do que a cada olhar de pena que sentira ao longo da sua vida. Sentiu-se mais humilhada do que quando viveu da caridade alheia… Mas ela era forte… ela era muito forte… Conseguiria chegar a um estatuto superior sozinha e saberia olhar para as pessoas que mereciam de frente, e desprezaria os fúteis, os que andavam com os papás na algibeira.
- Como é que se chama? – O carro estacionou fora da faculdade e Diana dirigia-se ao motorista que a ajudava a sair da viatura.
- Adelino.
- Pois bem Adelino! Está dispensado!
- Mas… O patrão não vai ficar satisfeito…
- Claro que vai. Adelino olhe bem para mim. Sou uma pobre coitada. Acha mesmo que o seu patrão fica satisfeito por se sentir obrigado a prestar um serviço a uma pobretana?
- Eu acho que a senhora não está a ver bem as coisas…
- Acredite em mim. Ele ficará feliz por saber que este vínculo terminou.
- Mas a senhora… Está a ser precipitada… O patrão tem estima por si e faz isto por se preocupar consigo.
- É um bom funcionário… Lealdade é a melhor virtude que se pode possuir. E o Adelino é leal. Espero que seja valorizado por isso. – Diana virou as costas e mesmo limitada pelas muletas, Adelino viu a postura e a dignidade de uma rainha naquela rapariga.
    Os dias passaram-se sem que Diana os contasse. Concentrou-se apenas nas disciplinas que exigiam uma dedicação que não lhe deixava espaço para tristezas ou rancores. No dia em que finalmente se libertou do gesso, Diana apresentou-se no hotel para começar novamente a trabalhar. Foi com surpresa que recebeu a indicação de que seria recebida pelo responsável dos recursos humanos. Será que Bernardo iria despedi-la só porque ela declinou a oferta do carro e do motorista? Era bem feito… ela baixou as suas defesas perante aquele homem, pensando que estava a desenvolver uma amizade sincera… Mas ele era como todos os outros… Centrava as suas amizades apenas no seu quadrante social… e ela não fazia parte dessa realidade. Esperou com uma calma aparente sentada num sofá confortável e a folhear uma revista que nem chegava a focar. Sairia com a cabeça erguida e sem olhar para trás. Só não tinha saído já, porque queria levar o cheque.
- Diana! – Ao chamamento Diana demorou um pouco a levantar-se, não querendo passar uma imagem de ansiedade.
- Boa tarde Diana! Sente-se por favor! – Diana deparou-se com uma senhora de meia-idade, com uns óculos pendurados na ponta do nariz. A mulher dirigia-lhe um sorriso afectuoso que lhe tornava o rosto ainda mais redondo.
- Boa tarde. – Diana começava a sentir o estômago retrair-se.
- Fico satisfeita por ver que recuperou inteiramente.
- Obrigada!
- Bem Diana. Vou direita ao assunto. – A mulher baixa sacudiu os cabelos grisalhos, baixou os óculos e fixou aqueles olhos pequenos e astutos em Diana. – Por indicação do Dr. Bernardo, a sua situação nesta casa vai ser alterada.
    Diana sentiu um soco no estômago quando percebeu que o seu despedimento resultaria de uma ordem directa de Bernardo.
- O Dr. Bernardo, acha que as capacidades da Diana estão subaproveitadas nas suas funções de camareira. Fiquei muito admirada quando ele me comunicou que a Diana é uma aluna exemplar no curso de economia. Claro que fui confirmar esta afirmação. – A mulher encostou-se de forma mais descontraída na cadeira. – Eu liguei para um grande amigo que é professor catedrático na sua faculdade, e quando lhe pedi informações suas, ele nem teve de consultar os ficheiros. Sabe o que isto significa Diana? – A mulher nem esperou uma resposta. – A Diana é uma aluna de excelência. É um daqueles casos em que os professores se sentem gratos por leccionar. E nós tínhamo-la aqui na nossa casa como camareira. A nossa proposta é a seguinte, a Diana vai acompanhar durante um mês todas as funções, acções e administrações do nosso hotel. Passado esse mês gostaríamos que fosse a Diana a administrar este hotel. Claro que o salário acompanhará esta subida nas suas funções. O que me diz?
    Diana sentiu um súbito ardor que depressa resultou num choro convulsivo, para desespero da entrevistadora que se redobrou em cuidados sem saber o que fazer àquela rapariga. Era a primeira vez que se sentia reconhecida profissionalmente pelo seu valor. Estava à sua frente uma pessoa que não conhecia de lado nenhum e que avaliou todo o seu esforço sem conotações preconcebidas ou compadecimentos. Finalmente um esforço contínuo e persistente de anos dava um resultado que Diana sentia merecer com toda a legitimidade deste mundo.
- Desculpe! – Diana recompôs-se. – Eu prometo que não vou desiludir!
- Eu sei disso. – A mulher voltou a sentar-se e sorriu-lhe maternalmente. – E o Dr. Bernardo também o sabe.
    Aquela alusão a Bernardo fez com que Diana repensasse a sua avaliação sobre ele. Podia ter interpretado mal aquele tempo que passara na sua companhia. Não se tratara do início de uma amizade, mas tinha de admitir que Bernardo mostrara-se uma pessoa justa, ao dar-lhe esta oportunidade. Ele mostrou que se importava com os seus assalariados e sabia fazer uma gestão justa e proveitosa do seu pessoal.  
    O mês passou-se num desenrolar de novas experiências e sabedorias. A experiência era realmente útil à teoria do curso, e vice-versa. Diana sentia-se realizada e vivia esta nova fase da sua vida com uma intensidade acima do que era esperado. Mostrava-se sempre um passo à frente do que lhe era exigido. Diana fizera questão de conhecer cada trabalhador daquele imenso hotel e acompanhar as funções de cada um ao pormenor. Um bom administrador é aquele que conhece ao pormenor as obrigações diárias de cada posto de trabalho. Só assim se pode exigir com sabedoria sem criar expectativas impossíveis ou objectivos baixos, garantindo assim que não se instale a insatisfação ou desmotivação dos trabalhadores.
    Duarte vibrava com esta nova felicidade da namorada e acompanhava cada nova etapa ultrapassada com o orgulho dos que amam. No entanto, as conversas eram cada vez mais curtas. Abordavam-se demasiados assuntos nos curtos e escassos telefonemas que os ligavam, deixando sempre uma vaga frustração em Duarte que ansiava uma conversa lamechas sem novidades, abordando apenas planos a dois e sentimentos que já há muito não eram declarados.

domingo, 3 de julho de 2011

Capitulo VII

    Diana sentia falta de ter uma folga, de ter um dia de preguiça desperdiçado entre o sofá e a padaria da urbanização, mas parecia que esse dia tardava em chegar. Até a Primavera se antecipou ao tão merecido descanso, desdenhando das obrigações mundanas que Diana tinha de cumprir. Aquele sábado demasiado sombrio para um mês de Abril alongava-se numa fila interminável de quartos que precisavam de ser limpos. E Diana fazia-o com a mente dispersa e cantarolando “ diamonds are a girl’s best friend”. Quando finalmente a hora de saída se pronunciou num apitar de alarme do seu telemóvel, Diana apressou-se a mudar de roupa para sair. Tinha de se apressar se queria apanhar o autocarro.
- Diana! Espere um momento! - Diana reteve-se ao som daquele chamamento, reconhecendo a voz do seu gerente. Olhou para o relógio desejando que a conversa fosse rápida de forma a poder apanhar o autocarro. Não lhe apetecia nada gastar dinheiro num táxi.
- Sim?
- Em vez de entrares amanhã às sete horas da tarde podes entrar às quatro? – O gerente falava de uma forma arrastada que prolongava as palavras para além do necessário, atiçando a impaciência de Diana. – Vamos ter a sala de conferências ocupada por uma reunião de um banco e estamos sem assistentes. Tu conheces os hábitos desta casa e creio que podes desempenhar bem essas funções.
- Claro. Pode contar comigo. – A espera tinha valido a pena. Podia deixar de ser camareira para começar a trabalhar na organização de eventos do Hotel. Sentiu-se satisfeita com a perspectiva de mudança. Quando voltou a olhar para o relógio sentiu um sobressalto. Estava muito atrasada e saiu a correr. Atravessou o pátio traseiro do hotel debaixo de uma chuva intensa, mas nem assim desacelerou o passo. O vento batia-lhe ferozmente nas faces molhadas e a sua visão estava turva. Atravessou a passadeira que a separava da paragem de autocarros sem ver o carro que se aproximava, e só teve consciência da presença deste quando sentiu uma dor lancinante na perna direita. O seu corpo rebolou por cima de um capot preto e caiu sem reacção no outro lado da estrada. O guincho dos travões a fundo ainda lhe feriam os ouvidos e as ideias turvavam-se perante aquela dor que teimava em crescer.
- Desculpa! Estava a chover muito e não a vi! – Um homem alto e forte tentava levantar Diana no meio de desculpas e lamentações. No entanto perante aquele rosto contorcido de dor a cada tentativa de movimento ele desistiu e chamou uma ambulância. Diana não sabe quanto tempo esteve ali deitada, mas pareceu-lhe uma eternidade até finalmente ver a ambulância parar ao seu lado. Não foram para o Hospital da Universidade de Coimbra como Diana esperava, mas sim para um hospital privado, onde Diana teve um tratamento de excelência. O resultado do acidente foi uma fractura na perna, mas nada que exigisse demasiados cuidados, apenas umas semanas com gesso. Quando o médico finalmente lhe disse que estava pronta para ir para casa Diana lembrou-se com ironia que afinal de contas tinha de pagar o táxi. A tentar habituar-se ao equilíbrio das muletas Diana saiu para a entrada das urgências onde um homem alto e bem-parecido se dirigiu a ela com a palavra preocupação inscrita no rosto.
- Peço-lhe imensa desculpa! – O homem tremia um pouco das mãos e a voz tinha um timbre de aflição. – Foi sem intenção… foi muito rápido e eu realmente não a vi.
- Então é o senhor o responsável pelo meu novo acessório! – O tom descontraído de Diana arrancou uma gargalhada de alívio àquele desconhecido.
- O que posso fazer por si agora?
- O que qualquer cavalheiro faria no seu lugar. Pode oferecer-me uma boleia até a casa, visto que estou incapacitada para correr atrás de um autocarro. – O sorriso malandro que Diana ofereceu desfez qualquer incómodo que existia até aquele momento. O estranho conduziu-a até ao seu carro. Tratava-se de um Lexus preto, luxuoso com os estofos em pele e com um conforto superior ao de muitas casas.
- Eu sou a Diana! – Apresentou-se Diana depois de instalada dentro do carro.
- Ah! Nem me apresentei. Que falha a minha. Eu sou Bernardo Figueiredo. Muito prazer! – O estranho estendeu-lhe a mão num cumprimento que ficou sem resposta, perante uma rapariga de repente apática que o mirava de queixo caído.
- Desculpe! – Diana refez-se do choque apenas passados uns longos segundos. – Acho que é o meu patrão! Eu trabalho no hotel!
- Ah! Então confirma-se. Eu sou o seu patrão, Diana. – O homem sorriu-lhe. De repente sentiu-se satisfeito perante a possibilidade de poder voltar a vê-la. Era uma ideia pateta, porque sabia que não podia ter qualquer tipo de relacionamento, mas havia qualquer coisa naquela rapariga que o atraía. – Diga-me Diana, onde mora?
- Em Celas.
- Então, o que faz no meu hotel?
- Sou camareira.
    A cara de surpresa de Bernardo não passou despercebida a Diana.
- As camareiras são todas assim tão atraentes? Não admira que estejamos com um crescente número de clientes. – Depois da piada, Bernardo recompôs-se não reconhecendo aquele bom humor que sentia e sem saber bem como lidar com ele. – Eu congratulo-me pelo facto de conhecer todo o meu pessoal, mas confesso que nunca a tinha visto.
- Eu só trabalho em part-time. As reuniões que organiza com os seus colaboradores são apenas para pessoal que trabalha a tempo inteiro.
- Ah! Mistério resolvido! – Bernardo sentia outro sorriso aflorar-lhe os lábios o que era raro e ficou satisfeito com a sensação. – E o que faz com o resto do seu tempo útil?
- Estou no quarto ano de economia!
- Não me diga! – O espanto visível na cara daquele homem respeitado e poderoso fez Diana sentir um orgulho incomensurável da sua pessoa. – Não é um curso fácil para quem só se dedica ao estudo… Nem quero imaginar para quem trabalha… como é que lhe está a correr?
- Sou a melhor aluna da faculdade!
    Bernardo sentiu a segurança daquela resposta directa e sem rodeios e travou o carro, encostando-o desajeitadamente quando percebeu que já tinham chegado ao destino. Não lhe apetecia já despedir-se daquela rapariga que era uma caixinha de surpresas.
- A Diana é a melhor aluna da faculdade de economia? E trabalha como camareira? E no meu hotel?
- Sim!
- Eu tenho a melhor aluna da faculdade de economia da Universidade de Coimbra todos os dias a fazer as camas de um dos meus hotéis?
- Está a ficar um pouco repetitivo Sr. Bernardo. – Diana coloca a mão na porta do carro com intenção de sair.
- Espere Diana! Vamos tomar um café a qualquer lado? – Bernardo não queria dispensar aquela companhia tão cedo.
- Eu estou cansada e dói-me um pouco a perna. Não leve a mal. Mas podia ajudar-me a sair do carro. – Novamente aquele sorriso perfeito que se começava a encaixar na mente de Bernardo.
   Depois de conseguir sair do carro Diana agradeceu a boleia e descansou a preocupação que no seu entendimento ocupava a mente do seu patrão e que era a razão daquele comportamento um pouco estranho.
- Não se preocupe Sr. Bernardo que eu não vou fazer queixa nem pedir nenhuma indemnização. – Não que esta ideia não lhe tivesse atravessado o espírito, mas Diana chegou à conclusão que ele lhe seria mais útil como amigo do que como inimigo.
- Nem estava a pensar nisso. E se o fizesse estava no seu direito.
- Ah! Tenho de lhe pedir um favor!
- Tudo o que queira Diana.
- Avise no Hotel que amanhã não posso ser assistente na sala de conferências ao encontro de um banco que vai lá haver.
- Claro! Não se preocupe! – Depois de um momento em que Bernardo se sentiu novamente um adolescente constrangido na presença de uma mulher superior, tentou adiar mais um pouco a despedida.
- Na segunda-feira vai às aulas?
- Claro! Às oito e trinta da manhã já quero estar na faculdade a tomar o meu café e a exibir o meu acessório novo! – Após mais um momento constrangedor, Diana iniciou a despedida. – Bem! Foi um prazer conhecê-lo.
    Diana encostou a canadiana ao corpo libertando uma mão para o cumprimento de despedida. Bernardo recebeu aquela mão esticada e sentiu uma tensão naquele contacto, como já não sentia há demasiado tempo.
- Só tenho pena que tenha sido nestas circunstâncias. Até breve Diana!

    Assim que Diana entrou em casa o grito estridente de Raquel percorreu as entranhas de todo o prédio.
- O que é que te aconteceu? – Raquel apertava e apalpava a amiga freneticamente à procura de outras mazelas. – O que é que aconteceu?
- Fui atropelada à porta do hotel.
- Brutos! Estou capaz de matar quem te fez isto! Se não sabem conduzir deviam andar de mula… pelo menos tinham tempo de travar a tempo se fosse preciso…
- Tem calma Raquel, já passou! – Diana ajeitou-se no sofá e esticou a perna sobre uma mesinha que Raquel prontamente colocou à sua frente com uma almofadinha para não magoar a amiga. – Tens planos para hoje Raquel?
- Não! Vou vegetar o fim-de-semana todo, e tomar conta da doentinha!
- Óptimo! Vegetar sem a tua companhia não é a mesma coisa.
    O descanso daquele fim-de-semana chuvoso passou-se entre o sofá e a cama e dissipou-se depressa demais, para desagrado das raparigas que acordaram numa segunda-feira solarenga, mas prometedora do início dos trabalhos. Diana e Raquel acordaram mais cedo de forma a garantirem que Diana estava na paragem de autocarro antes da hora. Despediram-se à porta do prédio, uma vez que os destinos das raparigas eram opostos. Diana deslocava-se vagarosamente para a paragem quando reparou num Lexus estacionado fora do seu prédio. O vidro baixou-se e Diana espantou-se com o reconhecimento do patrão dentro do carro.
- Pronta para uma nova semana? – Bernardo saiu do carro apressadamente para ajudar Diana. Perante a falta de reacção desta, o patrão pegou-lhe no braço e encaminhou-a com cuidado para o carro. – Enquanto estiver com essa limitação de deslocação, eu serei o seu motorista particular.
    Diana deixou escapar uma gargalhada. A ideia de ter o seu patrão, um homem dono de uma das maiores cadeias hoteleiras do país e que já começara a internacionalizar, ali a trabalhar para ela era por demais irónico.
- O que pensará o pessoal do hotel quando me vir chegar na sua companhia e como meu motorista?
- Pensará que eu sou um homem de sorte por poder acompanhá-la para todo o lado! – Bernardo sentia uma energia pulante dentro das veias que teimava em ser libertada, ansiando aquela segunda-feira como um pedinte anseia uma nota.
- Não estava a falar a sério quando disse que vai ser o meu motorista. Um homem como o senhor deve ter mais que fazer.
- Ponto número um, a partir deste exacto momento trata-me só por Bernardo. Ponto número dois, eu já cancelei todos os meus compromissos por duas semanas, em que estarei inteiramente ao seu dispor. Ponto número três, enquanto estiver assim está dispensada do trabalho. E nenhum destes pontos é negociável.

    Diana começava a gostar daquele patrão descontraído que lhe oferecia serviços subalternos. Tratava-se de um homem alto bem constituído de cabelo louro moldado por um pouco de gel. Tinha um olhar penetrante de um azul celeste que raramente acompanhava o sorriso dos lábios. Eram uns olhos permanentemente astutos e tristes, como se a alma não se adaptasse à boa disposição do corpo. Diana habituou-se àquela presença sólida que se impôs no seu dia-a-dia. As conversas fúteis deram lugar a conversas profundas em que a curiosidade de Diana era aguçada por assuntos que morriam antes mesmo de serem conversados. Sentia que Bernardo já conhecia todo o seu percurso de vida e ela estava ainda na estaca zero. Tratava-se de um homem interessante que apesar de estar aberto à sua presença, estava fechado para o mundo. Havia sempre uma áurea pesada nos contornes das suas feições e por vezes o seu olhar tornava-se turvo e os modos educados davam lugar a atitudes agreste, que Diana não entendia.
    Um certo dia, sentados numa esplanada à beira do rio mondego, a conversa tomou um rumo que Diana aproveitou para aprofundar o seu conhecimento sobre aquele ser enredado em mistério.
- O Bernardo nunca fala de si. Já lhe contei toda a minha existência ao longo desta semana, e o Bernardo fecha-se em copas sempre que tento aprofundar alguma coisa que lhe diga respeito.
- É impressão sua Diana. Pergunte o que quiser que eu respondo. – O sorriso que acompanhou esta disponibilidade foi um pouco forçado e acompanhado de uma desconfiança que lhe brilhou no olhar.
- O Bernardo é natural de onde?
- Sou o único filho de uma família antiga de Évora, que viveu sempre da hotelaria. Os meus pais fundaram o grupo hoteleiro que hoje conhece, com um hotel de luxo em Lagos. Quando faleceram, tenha eu vinte e oito anos, deixaram-me um negócio rentável formado por uma pequena cadeia de hotéis. Eu consegui alargar este negócio, para o património que hoje constitui o grupo económico tal como o conhecem. Tenho os hotéis, assim como uma rede de agências de viagens. Já tenho hotéis, em Madrid, no sul de Espanha, e no sul de França, sendo que o meu preferido se situa em Nice.
- Admiro o facto de ter arregaçado as mangas para conseguir um património maior. Muitos teriam vivido dos lucros resultantes do trabalho de outros.
- Como vê Diana, as únicas pessoas lutadoras não vêm do seu quadrante social. – Bernardo mostrava um olhar perdido em algum sítio menos agradável.
- Para um homem que conseguiu um pequeno império, não tem um ar muito vitorioso. Que males se escondem nesse olhar?
    Bernardo olhou aquela rapariga com um espanto espalhado nas expressões do rosto. Tocava-lhe o facto de, aquela açoriana numa semana ter reparado nele como as pessoas que lhe são próximas nunca repararam.
- É muito perspicaz, Diana.
- Sou apenas atenta e uma veterana no que toca a sofrimentos. É casado? – Adivinhando que não seria fácil arrancar-lhe o que lhe pesava na alma, Diana continuou com o interrogatório, na tentativa de chegar a uma conclusão.
- Já não! – A mágoa que trespassou aquele olhar límpido foi notória.
- Então é aí que reside a sua mágoa.
- Não é assim tão simples Diana…
- Então conte-me como foi o seu casamento e como terminou.
- Ai Diana! Devia ter seguido jornalismo, que essa sim é a profissão dos curiosos… - Como Diana continuava a olhá-lo à espera de uma história, Bernardo não teve coragem de contrariá-la, e começou a narrar a história do seu casamento com o olhar perdido num ponto longínquo das águas turvas do Mondego.
PARTE II

Capitulo VI

    O olhar cansado fixava aquele tecto imaculado. De vez em quando os olhos fechavam-se numa tentativa frustrada de adormecer e arregalavam-se a cada gargalhada colectiva que vinha da sala. Adivinhava-se um dia difícil, em que Diana começava logo de manhã com aulas na faculdade e durante a tarde ia trabalhar. Precisava mesmo de dormir bem aquela noite. Já ocupava aquele quarto há mais de três anos, quando a sua vida universitária começara. Durante aqueles três anos de faculdade em Coimbra, a sua amizade com Raquel solidificara-se, e as diferenças entre as duas acentuaram-se. Logo no dia em que deixaram a ilha para começarem uma nova vida em Coimbra, Raquel chorou baba e ranho na despedida, apesar dos pais a acompanharem naquela viagem. Diana pelo contrário despediu-se de Duarte e de Pedro sem derramar uma lágrima. Apenas sentia ansiedade de começar esta nova etapa tão desejada. Quando chegaram ao pequeno apartamento em Celas, Diana sentiu que ia viver num pequeno palácio. A porta de entrada dava acesso a um espaço acolhedor que servia de sala e cozinha em que as cores, azul e amarelo combinavam-se harmoniosamente. Um pequeno corredor dava acesso à única casa de banho e aos dois quartos. Diana apaixonou-se pelo seu novo quarto assim que abriu a porta. As paredes pintadas de verde-água contrastavam de uma forma agradável com a colcha azul celeste que cobria totalmente a cama, uma secretária imaculadamente branca estava disposta junto a uma portada que dava acesso a uma varanda virada para o Hospital da Universidade de Coimbra. Desde esse dia já se haviam passado mais de três anos, em que Diana foi uma aluna de excelência na faculdade de Economia, reconhecida por professores e colegas e Raquel foi uma aluna mediana no seu curso de Psicologia. No entanto Raquel gozava de uma popularidade e de um número crescente de amigos. Participava em todos os jantares de curso, em todas as queimas de fitas, em todas as latadas, em todos os convívios da sua faculdade. Fazia parte da associação de estudantes e arranjava sempre apontamentos manhosos para evitar a leitura dos grossos manuais. Os namorados sucediam-se com a mesma velocidade das festas e a sua parede forrava-se de inúmeras recordações recentes, onde se destacava sempre uma foto de Pedro sentado na areia preta da Praia do Almoxarife a olhar o mar com ar distante. Diana, por seu lado, dividia-se entre as aulas, o estudo e um emprego como camareira num grande grupo hoteleiro… Mais uma vez os olhos forçaram-se a fechar, e mais uma vez abriram-se, reflexo do barulho vindo da sala. Duarte viria visitá-la no próximo fim-de-semana. Aproveitava o feriado de carnaval e passava quatro dias em Coimbra. Diana ansiava esses dias como um alcoólico anseia um copo de vinho. Até comprara lingerie nova para a ocasião. Se fizessem amor pela primeira vez não queria desiludir Duarte. Este era um assunto delicado que já tinha sido abordado e iniciado várias vezes, mas nestes momentos mais íntimos, Diana era assaltada por uma ansiedade que a sufocava, e o seu coração batia como se lhe fosse saltar do peito. Duarte identificava esta reacção como sendo ataques de pânico e levava a situação com paciência. Mais uma vez as pálpebras descaem num cansaço novamente frustrado pelo barulho, mas desta vez Diana vai dormir. Vencida, levanta-se e vai buscar os tampões para os ouvidos, que utiliza quando estuda.
    O toque do despertador faz-se ouvir cedo demais, e Diana sente na cama um chamamento poderoso ao sono. Contra todos os instintos e vontades que a mandam ceder à preguiça, Diana levanta-se e arrasta-se para um duche rápido. Depois de pequeno-almoço apressado, veste um impermeável, calça umas botas, pega no guarda-chuva e enfrenta corajosamente a água que cai desajeitadamente na rua e o frio próprio do mês de Fevereiro. Assim que entra na faculdade, atravessa o corredor comprido que dá acesso ao bar com o desejo da primeira dose de cafeína. Tanto docentes como alunos dirigem um cumprimento educado a Diana, mas ninguém a acompanha no café rápido e satisfatório. Nas aulas Diana já não se senta num lugar escondido, pelo contrário ocupa sempre um lugar nas primeiras filas e a carteira do lado nunca mais foi ocupada por uma velha mochila. Todos os colegas lhe falavam cordialmente, e tinha sempre companhia nos intervalos, no entanto já há muito que os colegas haviam desistido de a convidar para qualquer actividade social extra faculdade.
    No trabalho, Diana era meticulosa, mas pouco apaixonada pelas suas funções. Entrava pelas traseiras do hotel, vestia a farda cinzenta à pressa e entregava-se à limpeza dos quartos. A verdade é que não precisava daquele emprego, mas ela já tinha passado por tantas necessidades que havia uma ânsia esganada de conseguir sempre um pouco mais de dinheiro. Ela e o irmão iam fazendo crescer a poupança que se tinha iniciado com a morte do avô, mas Diana nunca se sentia satisfeita, apesar de ter mais dinheiro numa conta poupança do que a maioria dos jovens da sua idade. A necessidade de possuir uma certeza quanto ao futuro e de se prevenir contra a pobreza invadia-lhe mente e ocupava-lhe o cerne de todas as suas preocupações. Nunca mais queria passar fome. Nunca mais queria contar tostões. Nunca mais queria depositar o seu futuro num frasco tosco de moedas…
    -Olá bicha! Acabei de terminar o jantar! – Raquel tinha um dom no que respeita à cozinha, e o jantar emanava um aroma que fizera despertar o estômago de Diana. – Estava a ver que nunca mais chegavas…
- Então beta? O dia correu-te bem? – Diana desfez-se do impermeável e das botas numa pressa que antevia um jantar quente e saboroso.
- O Duarte ligou! Deve chegar amanhã por volta das oito da noite.
- Já estou a contar os segundos! – Um sorriso aflorou os seus lábios.
- Ele diz que me trás uma surpresa!
- A ti? Mas eu é que sou a namorada! – Diana finge-se ofendida para deleite de Raquel que lhe deposita um beijo no cocuruto.
- Vais ter visitas hoje?
- Não.
- Ainda bem. Então vamos enroscar-nos numa manta no sofá e ver filmes maricas.
- Excelente ideia. É melhor levarmos lenços para ti… Bicha lamechas.

    Finalmente o dia tão desejado amanheceu e as raparigas acordaram com uma energia extra. As limpezas adivinhavam-se demoradas, mas necessárias para receber visitas. As duas mexiam-se sabiamente entre os utensílios de limpeza necessários e dançavam ao mesmo tempo ao som de Frank Sinatra. Apesar de ser uma visita específica para Diana ambas queriam que tudo estivesse perfeito. A união delas era soldada numa acção de forças à escala atómica. Aquilo que era muito desejado por uma era trabalhado por ambas, sem cobranças ou questões embaraçosas. Era amizade num sentido puro e sincero.
    Às oito em ponto a mesa estava posta com três pratos e as raparigas andavam de um lado para o outro numa desorientação coordenada. Estacaram dois segundos ao toque da campainha, para depois correram na direcção da porta.
- Duarte! – Diana afundou-se naquele abraço conhecido onde se sentia pequena e aconchegada.
- Bem-vindo Duarte! – Raquel cumprimentou-o com um beijo rápido, apressando assim as boas-vindas com o intuito de chegar depressa à parte da surpresa. Quando o olhar da rapariga se alongou para além da porta de entrada, sentiu todos os músculos do seu corpo retraírem-se e a língua parecia ter inchado instantaneamente. Foi Pedro que tomou a iniciativa e cumprimentou-a com um beijo lento na face. Aquela rapariga mexia com cada molécula do seu corpo. Apetecia-lhe pegar nela e apertá-la, mas tinha presente na sua mente todas as vezes que perguntara por ela ao telefone e ouvira a irmã responder “saiu com o novo namorado”. Pedro tinha viajado com Duarte com a desculpa de querer ver a irmã, que não sendo mentira não era a totalidade da sua verdade. Queria ver com os seus próprios olhos a reacção de Raquel a cada atenção que lhe dispensaria. Queria sentir se a química que existia entre os dois era partilhada por outros pretendentes de Raquel. Nesta viagem, Pedro tem a intenção de marcar uma posição na vida de Raquel.
    Diana não apreciava o carnaval, ao contrário da amiga que adorava tudo o que fosse desculpa para um bom momento de diversão. Assim Diana decidiu ficar por casa com Duarte, enquanto a amiga levava o irmão para conhecer os encantamentos do carnaval nocturno de Coimbra. Foram a um convívio nas cantinas onde Raquel sentiu-se inchar de fúria quando viu os demasiados olhares femininos que Pedro atraía sobre si. Raquel apresentou Pedro ao seu grupo de amigos e logo uma amiga alta e com uma pronúncia de peito demasiado avantajada, se apoderou das atenções do rapaz, provocando em Raquel um mau humor crónico que durou toda a noite, fazendo as delícias de Pedro que não desperdiçou a oportunidade para provocá-la.
- Vamos embora? – Raquel queria terminar com aquela conversa demasiado intima que já durava um par de horas entre a glutona de homens e Pedro.
- Agora que começo a apreciar os encantamentos de Coimbra? – Pedro piscou um olho à rapariga cujo nome não se conseguia lembrar, fazendo Raquel revirar os olhos de indignação.
- Então fica aí a divertir-te com a primeira galdéria que te aparece, que eu vou para casa. Tens táxis na Praça da República a qualquer hora da noite, no caso de te apetecer dormir em casa… - Raquel empinou o queixo e virou as costas àquela cena de engate degradante.
- Espera miúda! – Pedro agarrou-lhe o braço. – Eu vou contigo!
    O caminho de volta foi feito dentro do táxi em que a música de carnaval preenchia a falta de conversação. Raquel afastava-se o máximo possível de Pedro com os braços cruzados sobre o peito numa posição amuada, que provocava uma satisfação intima no mecânico.
    Chegados a casa Raquel encaminhou Pedro para o quarto de Diana, uma vez que tinha ficado acordado que os rapazes dormiriam nesse quarto, e as raparigas ficariam no quarto de Raquel. O seu espanto foi visível, quando se deparou com Diana a dormir profundamente nos braços de Duarte. A sua atrapalhação com a situação provocou um sorriso de satisfação em Pedro.
- E agora onde é que eu vou dormir? – Perguntou o mecânico agradado com a situação. – O sofá é demasiado pequeno…
- Pois… - Raquel sabia que ele tina razão. Tinham um sofá apenas de dois lugares na sala. O constrangimento da rapariga era quase cómico.
- Posso sempre ficar contigo no teu quarto. Tens uma cama de casal. Fica cada um para seu lado. – Pedro insinuou aquela solução com uma malícia que não foi evidente para Raquel que se sentia dormente nas ideias.
- Pois… - Foi a única coisa que a rapariga conseguiu proferir.
    Raquel entrou no meio daqueles lençóis com um receio espelhado nos olhos. Pedro já se encontrava deitado apenas com umas boxer vestidas para grande incómodo da rapariga que se esticou desajeitadamente e ocupou logo o seu lado da cama de costas voltadas para Pedro. O seu coração estava descompassado e a sua respiração parecia demasiado pesada, como se nunca conseguisses inalar ar suficiente. Foi Pedro que rompeu aquele silêncio, aproximando-se de Raquel, apoiou a cabeça numa mão e com a mão disponível começou a brincar com um caracol louro.
- Porque é que estás tão nervosa Raquel? – Pedro sentia-se inebriado por ter a rapariga ali tão próxima, mas ao mesmo tempo sentia uma raiva crescente ao imaginar o número avultado de namorados que já teriam passado por aquela cama. – Afinal de contas tu recebes amigos com uma certa facilidade nesta cama, não é verdade?
    Aquele comentário maldoso provocou uma náusea na rapariga que se levantou apressadamente, levando consigo a almofada. Correu para a sala e aninhou-se naquele sofá desconfortável. Pedro com o arrependimento imediato seguiu-a e sentou-se ao seu lado no sofá.
- Desculpa Raquel! Eu não tinha o direito de fazer um comentário daqueles! – Pedro tentava pegar na mão de Raquel que se afastava para o extremo oposto do sofá.
- Pois… Não tinhas esse direito! Foste maldoso! Se queres uma conquista fácil devias ter ficado com a tua amiga no convívio…
- Eu não quero uma conquista fácil!...
- Estavas à espera de chegar aqui e passares um bom bocado às minhas custas…Tens cá uma ideia de mim!
- Desculpa Raquel!
- Achas que eu vou para a cama com qualquer um de forma descontraída… Foi isso que viste em mim… Tira essas mãos de cima de mim… - Raquel começou a sentir as lágrimas quentes rebolarem pelas faces e a voz estrangulou-se. Pedro puxou-a para si e abraçou-a. Sentia o remorso roê-lo por dentro. Ela estava naquele estado porque ele a tinha magoado propositadamente e isso pesava-lhe mais na consciência do que podia ter imaginado. Pegou nela ao colo e levou para o quarto deitando-a na cama.
- Tu ficas aqui e eu fico na sala. – Depositou-lhe um beijo na testa, e depois beijou-lhe os olhos delicadamente, como se lhe quisesse secar as lágrimas. Raquel deixou-se envolver por aquele gesto carinhoso e envolveu-o com os seus braços, puxando-o para si. O beijo suave aprofundou-se e a vontade latejante de se envolveram sobrepôs-se a qualquer mágoa. Fizeram amor sem pressas e de início de uma forma desajeitada, que deixou claro a inexperiência de Raquel. Adormeceram nos braços um do outro e só acordaram com o bater cauteloso que se fez sentir na porta do quarto. Diana tomou a liberdade de entrar no quarto, e pasmou com o cenário. Após uns segundos em que absorveu a situação constrangedora virou costas como se isso fizesse com que a sua retina não tivesse apurado aquela imagem típica dos amantes.
- Só vinha avisar que o pequeno-almoço está quase pronto. – E com um sorriso malicioso que não lhe foi detectado acrescentou. – E vinha pedir desculpa pelo facto de termos adormecido no meu quarto. Mas vejo que resolveram bem a situação.
    Quando Diana saiu, o casal levantou-se um pouco embaraçado e Pedro reparou numa mancha pequena de sangue nos lençóis imaculados. Sentiu um aperto no peito quando se lembrou das palavras que tinha atirado a Raquel na noite anterior, e aproximou-se da rapariga abraçando-a com uma força desnecessária. Os seus olhos retiveram-se no placar de fotografias em que ele tinha um lugar de destaque no centro, e mais uma vez sentiu-se um canalha. Ainda abraçado a Raquel, não pode evitar a pergunta.
- Foi a tua primeira vez, não foi?
- Foi. – Raquel não se prolongou numa resposta que não necessitava de mais delongas.
    Pedro afastou um pouco Raquel e fixou-lhe os olhos de forma a identificar se a próxima resposta era confirmada pelo olhar.
- Estás arrependida?
    Raquel deixou aflorar aquele sorriso fácil que lhe era característico, antes de responder. – Como é que me posso arrepender do melhor momento da minha vida?
- E… Isto fica por aqui?... Que dizer… Eu estou longe e sou só um mecânico… E… - Pedro só agora percebia como lhe seria doloroso abdicar daquela pequena loura que lhe enchia o peito de qualquer coisa indiscritível.
- Estás gago? Isso é nervosismo? – Raquel deliciava-se por ver pela primeira vez aquele rapaz que sempre lhe pareceu gigante, numa atitude tão insegura. – Eu não tenho nenhum problema com os mecânicos. Aliás, acabo de descobrir que gosto deles… - Um sorriso malicioso conduziu a um beijo prolongado que deu um início oficial àquela relação.

    Aqueles quatro dias ameaçavam chegar ao fim, para desespero de Diana que sentira uma felicidade calma e plena ao lado de Duarte. Mas ela sabia que as coisas boas da vida eram mais desejadas do que vividas e por isso o retorno a um quotidiano repetitivo e ritmado era inevitável. Aproveitava as últimas horas com o namorado, sentada no Penado da Saudade, num cenário nostálgico enaltecido pelas placas em pedra gravadas com mensagens daqueles que se despediram há muito daquela cidade marcada por muitas etapas de vidas distintas.
- Já tenho saudades tuas Diana.
- Na Páscoa já nos voltamos a ver. – Diana mostrava sempre um lado menos emotivo, apesar de sentir um aperto na garganta.
- Não vejo a hora de terminares o teu curso e voltares para o Faial… E podermos construir uma vida juntos.
- Também desejo muito começar uma vida contigo. – Esta era a verdade que Diana podia proferir. Esta era a verdade que escondia as dúvidas de Diana. Ela não queria simplesmente voltar para aquela ilha, exactamente como a tinha deixado, e voltar logo depois de terminar o curso seria humilhante. Ela queria voltar rica sem ter de pedir emprego a ninguém, sem ter que se sujeitar a concursos públicos em que a veriam sempre como a filha do Zé dos copos. Ela queria conquistar primeiro um poder indefinido e regressar de cabeça erguida. Mas não podia partilhar isto com Duarte… Não depois de lhe ler no rosto a vontade dele em construir uma vida com ela a partir do quase nada. Ela iria conduzir o seu futuro com cuidado, e iria introduzir esta sua ambição em Duarte só quando fosse necessário.





    

domingo, 19 de junho de 2011

CAPÍTULO V

CAPÍTULO V


    O hall-de-entrada do edifício novo da escola secundária estava repleto de rostos ansiosos e nervosos. Diana agarrava a mão de Duarte com uma força desnecessária, mas o enfermeiro não reclamava. Todos os olhares estavam depositados nas contínuas que entravam com as pautas decretórias de muitos futuros, incluindo o de Diana e Raquel, que se contorciam em ansiedade de ver o resultado daqueles exames nacionais. As mãos experientes eram rançosas na colocação dos papéis desejados no placar, enquanto as cabeças se começavam a esticar sobre os ombros ossudos das duas funcionárias da escola. Diana foi a primeira das duas amigas a visualizar as suas notas. Foram excepcionais e garantiram-lhe uma média final de 18,8 valores. Diana sentiu um orgulho incomensurável que lhe preencheu as entranhas e que se enalteceu com o olhar terno e babado de Duarte.

- Diana!... Diana!... – Raquel furava impetuosamente aquela barreira de gente que a separava da amiga. Assim que a avistou laçou-se ao seu pescoço. – Oh Diana!... Eu consegui! Tens de ver as minhas notas… Os meus pais nem vão acreditar. Fiquei com média final de 16,7… E tudo graças a ti sua bicha do mato.
    Diana sentiu o peito ainda mais inchado de satisfação. O reconhecimento da amiga vincava-lhe ainda mais o orgulho, mas a alegria que sentia por ela ultrapassava em muito o primeiro sentimento.
- Eu sabia que tu conseguias! Sempre soube! Afinal tu és a beta loura mais inteligente que eu conheço.
- Oh! Isso não vale como elogio… Tu não conheces mais nenhuma…

    As raparigas rodopiavam enquanto choravam e riam ao mesmo tempo. Duarte tentava inutilmente conduzi-las para o exterior do edifício. Nesta tentativa frustrada de atingir a porta de entrada, Raquel tropeçou em Ruben e logo o abraçou também num impulso.
- Olá Ruben! Eu tive 17 a inglês, viste? E 17 a psicologia, viste? Sabes o que significa? Eu vou conseguir tirar o curso dos meus sonhos…
- Ainda bem Raquel, fico muito contente…
- E tu? Nunca soube bem quais eram os teus planos…
- Eu chumbei…
- Oh! Lamento imenso Ruben!
- Não te preocupes! Eu prefiro assim. É melhor repetir este ano e para o próximo ano vou sentir-me mais seguro…
- Ah! A Diana foi a melhor aluna da escola de certeza absoluta. Ela até tirou 20 a matemática e economia. – Raquel puxou a amiga para o seu lado para que pudesse receber uma palavra de agrado do colega.
- Não te desfaças em graças comigo sua borra-botas… Nem sequer ouses olhar para o sítio onde estou… Estás a ouvir sua pelintra. – O tom de voz de Ruben foi subindo desagradavelmente atraindo todos os olhares para aquela cena.- Pensas o quê?!?! Que agora que a Raquel te dá confiança já és gente?!?! Vadia, rafeira… - este discurso inflamado culminou com um estalo ruidoso na face de Diana.

    Duarte não deu tempo de refrear os ânimos e respondeu com um soco rápido e certeiro no olho direito de Ruben. A confusão instalou-se e foi a professora de Biologia que colocou termo àquela situação.
- Ruben, vais já para o gabinete da directora. E vocês três podem seguir-me até à sala de professores.

    A sala de professores era um espaço que intimidava Diana. Quando entrou sentiu-se de uma pequenez crónica e a intensidade dos olhares inquiridores dos professores pesava-lhe na alma.
- A culpa não foi nossa! Foi aquele bruto que se atirou à Diana… Veja a marca da mão dele ainda está impressa no rosto dela… - Raquel sentia uma fúria que lhe ascendia desde o diafragma até às cordas vocais que neste momento vibravam em demasia.
- Deixa-me ver o teu rosto Diana. – A professora Maria de Jesus, que conhecia os dramas daquela aluna que ela tanto estimava sentou-a com uma cautela excessiva e afastou o cabelo de Diana deixando à mostra a marca dos dedos de Ruben.
- Não foi nada! Já passou! – Diana sentia-se desconfortável com aquelas atenções e só queria sair dali.
- Foi uma agressão! E uma agressão nunca deve ser reduzida a nada sob pena que adquirir exactamente essa importância. – A professora de filosofia, Maria Céu, acariciava-lhe o rosto magoado enquanto lhe falava devagar como se quisesse forçar a entrada de uma ideia. – Percebes o que te estou a dizer Diana?
    Diana abanou a cabeça afirmativamente e atreveu-se a levantar o olhar até Duarte que estava inchado de fúria.
- Bem Diana! Existe outro assunto que queríamos falar contigo. A directora incumbiu-me de te comunicar que tu e um outro colega da ilha de S. Miguel foram os melhores alunos da região autónoma dos Açores e ocupam os primeiros lugares na tabela nacional. Este ano o grupo aéreo SATA vai baptizar dois aviões e convida-te para madrinha de uma deles. É evidente que terás benefícios junto da companhia. Mas eles entrarão em contacto contigo. Tens alguma questão? – A professora Maria Jesus sentou-se ao seu lado pegando-lhe na mão. Um gesto que nunca se permitia enquanto docente, mas já não era professora na escola daquela rapariga. Ela agora seguiria um caminho que ela própria conquistara com muito esforço e todo o merecimento.
- Gostava de saber se com estas notas posso obter alguma bolsa de estudo.
- Nós vamos ajudar-te nisso. Se existe alguém neste mundo que merece uma bolsa de mérito és tu Diana. – A professora mudou de posição e dando a entender que o caso da agressão estava completamente terminado continuou. – Também queremos pedir-te que discurses no próximo sábado no baile de finalistas. Vamos fazer um baile de gala e haverá um prémio para o melhor aluno deste 12º ano, que és tu evidentemente. Gostaria muito que tivesses um discurso preparado.
- Mas… - Diana não podia conceber tal coisa. Como podia ela falar para uma plateia que não a respeitava? Uma plateia de alunos que nem a consideravam uma pessoa?
- Não há mas nem meio mas… Prepara um discurso e não se fala mais nisso. Encontramo-nos no sábado.
    O reconhecimento que Diana sentia naquela sala de professores enchia-lhe a alma de um orgulho e de uma vontade de um dia voltar ali e mostrar que tinha conseguido alcançar mais do que sequer seria desejável para ela.
    Quando finalmente saíram da escola, Diana e Duarte encaminharam-se a pé para o café no intuito de comunicar as novidades aos restantes amigos. De mãos dadas caminhavam sem pressas fora do clube naval, apreciando os barcos à vela que iniciavam novos aventureiros.

- Não foi a primeira vez que te trataram mal naquela escola, pois não? – Duarte cortou aquele silêncio com uma conversa que se antevia difícil.
- Não. – A resposta curta e rápida deixou um peso de verdade no ar.
- Foi só o Ruben que te agrediu?
- Não. – Novamente aquela resposta monossilábica.
- E tu nunca te queixaste a ninguém?
- Não. – Desta vez Duarte não deixou a resposta no ar e interrompeu os passos de Diana com um abraço forte e sentido envolvido numa promessa murmurada.
- Nunca mais vou deixar que te tratem mal Diana. Nunca mais vais ter que engolir humilhações… - Diana deixou-se envolver por aquele mundo que já lhe pertencia e que começava a ser-lhe agradavelmente familiar.

    À porta do café Diana sacudiu os cabelos soprou para cima e preparou-se para ser mimada como realmente merecia.
- Atenção minha gente! – Diana colocou-se em cima de uma cadeira e tilintava com uma colherzinha numa chávena chamando a atenção dos presentes. – É oficial… Eu sou a melhor aluna da região autónoma dos Açores e uma das melhores alunas do país! – O mar de aplausos e assobios romperam. Seguiram-se os cumprimentos carinhosos as palmadinhas nas costas, os abraços e os beijos estalados dos pescadores.
- Lembras-te quando eu te ensinei a prova dos nove? Foi desde aí que te transformaste numa pessoa inteligente. – José Gaitinha exibia-se ao lado daquela rapariga que lhe proporcionava um orgulho que nunca sentira.
- Não… Foi graças às minhas lições de história… Quem é que te contou as artimanhas do Conde Andeiro com D. Leonor Teles para entregar Portugal aos castelhanos? – Mário não largava o braço daquela menina que acompanhava há anos e de quem aprendera a partilhar os sonhos.
- Desculpem meus senhores, mas a influência positiva que esta menina recebeu que a tornou nesta jovem esplendorosa, foi minha… - Até Manuel mostrava indícios de emoção na humidade que lhe contornava os olhos.

    Diana ligou ao irmão a contar todos os pormenores daquela tarde. Tinham muito para organizar. Tinham de planear tudo com muito cuidado. Afinal de contas o sonho dela estava prestes a materializar-se e ela entraria de cabeça erguida na faculdade de economia da cidade dos estudantes. E daí sairia também vitoriosa, porque Diana começava a perceber que o sabor da vitória e da superioridade é infinitamente melhor do que certos privilégios quotidianos. Ela voltaria àquele lugar de cabeça erguida e ninguém teria coragem de a humilhar, ou sequer de emitir pensamentos menos agradáveis da sua pessoa. Um dia iria poder proporcionar momentos gloriosos àquela gente simples que merecia um mundo de respeito e gratidão.
    Aquela noite não foi passada em festejos grandiosos, mas simplesmente sentada no sofá de casa a ver um filme repetido milhentas vezes nos canais abertos e enroscada no irmão a comer pipocas. Um serão corriqueiro, que lhe tinha passado ao lado durante toda a sua existência.
- No sábado vou ao baile com a Raquel. – Pedro atirou a novidade para ver como caía na irmã.
- Não acredito… Em vez de me acompanhares que sou tua irmã… a mulher da tua vida, vais acompanhar uma loura boazona… - Diana estava contente com aquela nova perspectiva do irmão se entender com a Raquel. – És um vendido… É isso que tu és!
- Tu já vais ser conduzida por um enfermeirozito! Tive de arranjar outra pessoa que me desse atenção!
- Oh meu caro irmão! Pois fique sua excelência sabendo que eu tenho dois braços…
    Pedro começou a fazer-lhe cócegas que resultaram num voar das pipocas. Diana ria alto e tentava defender-se daquela ofensiva que disparava de todos os lados. Finalmente conseguiu levantar-se do sofá e sempre a fugir desajeitadamente refugiou-se atrás da mesa da cozinha. Enquanto fitava Pedro que a tentava apanhar o som do telefone soou estridente. Correram ambos para o aparelho e foi Diana a mais bem-sucedida.
- Sim… - após um momento a ouvir a conversa do outro lado, Diana terminou a chamada. – Então fica combinado. Amanhã ao meio-dia estarei pronta. Beijo.
- Agora recebes telefonemas… Quem te viu e quem te vê! – Pedro já tinha acalmado a sua perseguição e voltou a sentar-se no sofá ao lado da irmã. – Não vais dizer-me quem era?
- Claro que te digo! Era a tua amada… - nova insinuação de cócegas se fez insinuar na ponta dos dedos de Pedro, mas depressa se verificou que não passava de uma falsa intenção. – Tem calma maninho! Ela só me queria convidar para almoçar lá em casa dela. O convite partiu dos pais dela… Agora que penso nisso… É a primeira vez que vou a casa de Raquel. Pronto! É oficial! Estou nervosa!

    No dia seguinte ao meio dia em ponto, Diana esperava ansiosamente, sentada nos degraus de basalto do pátio da sua casa a chegada da sua boleia. Quando avistou o jipe preto que se elevava sobre o asfalto de forma imponente não conseguiu evitar um formigueiro no estômago.
- Pronta para uma tarde sequiosa a aturar dois velhotes. – O Dr. Guilherme exibia um sorriso simpático enquanto abria a porta do jipe a Diana. – O Carlos contou-me as novidades sobre a tua herança. Eu e a Fernanda ficámos muito contentes.
- Pois, não foi uma situação fácil… - Diana não gostava de falar naquele assunto.
    A viagem de carro foi do agrado de Diana que nunca tinha oportunidade de ir para aquele lado da ilha. A casa situava-se num alto com vista para a Praia do Almoxarife. Os portões altos abriram-se ao carregar num comando e Diana deixou-se deslumbrar por uma entrada de brita sob uma arcada de árvores verdes. A casa era sóbria e simples. Não tinha a opulência que Diana tinha imaginado. Tratava-se de uma casa de um só piso branca com gelosias azuis e rodeada por um relvado verde. Uma varanda muito familiar com um baloiço alongava-se por toda a frente da casa. Quando entraram, Raquel correu para a amiga.
- Estava a ver que nunca mais chegavam! Anda lá que já temos tudo pronto no jardim das traseiras.
    As raparigas saíram do hall-de-entrada por uma porta ampla de correr que dava lugar a uma cozinha enorme, toda branca com os electrodomésticos em inox, que resultavam numa simetria perfeita entre o branco imaculado das paredes e armários, o cinzento dos electrodomésticos e o preto do chão. Diana atravessou esta cozinha idílica de queixo caído e saiu por uma porta traseira que dava a um novo jardim com uma relva suave e verde que contrastava com a piscina de um azul límpido com um rebordo em granito branco que convidava descaradamente a um mergulho.
    A mesa estava graciosamente colocada sob um telheiro de madeira que albergava também uma churrasqueira e uma lava loiça, num estilo rústico, mas muito prático e confortável.
    Diana sorriu quando viu ser servido um frango de churrasco com salada e batata frita. Todo o medo que a dominara até aquele momento dissipou-se quando visualizou uma refeição que seria capaz de comer sem tirar nenhum curso com a Paula Bobone. O almoço correu com uma simplicidade e à vontade que contagiou Diana e a fez sentir-se integrada.
- Temos de agradecer-te o facto de teres resgatado a nossa pequena da preguiça. – Fernanda mostrava-se uma dona de casa e anfitriã atenciosa.
- A Raquel tinha tudo o que era preciso nela, eu só estudei com ela.
- Ah Diana! Não sejas humilde. Deste-me uma grande ajuda. Se não fosses tu, nunca saberia que conseguia estudar mais do que meia hora seguida.
- Também temos de dar-te os parabéns… A melhor aluna do arquipélago e entre as melhores do país… E quiçá da Europa. – O Dr. Guilherme transbordava bom humor e tinha-lhe bondade inscrita na testa. – O que pretendes fazer agora Diana?
- Vou concorrer ao curso de economia na Universidade de Coimbra.
- Excelente escolha! – Aplaudiu Fernanda. – Foi em Coimbra que eu tirei o meu curso de direito e onde conheci o homem da minha vida… Era um angolano com um corpo fantástico… - Após uma gargalhada geral alta que desfez a mentira da anfitriã… - O que é?!?! Podia ser… Afinal de contas eu era um estrondo naquela altura…
- Tu ainda és querida! – Tratava-se de um casal especial, sem dúvida, com uma vida especial, que Diana queria para si também.
- A Raquel também vai concorrer para Coimbra. Se ficarem lá as duas, gostaríamos muito que ficasses no nosso apartamento com a Raquel. O que nos dizes Diana? – O convite do Dr. Guilherme ficou uns segundos sem resposta.
- Eu… Sinceramente, agradeço muito a disponibilidade, mas sinceramente não tenho possibilidades para pagar uma renda a meias… Vou concorrer para as residências da universidade.
Foi Fernanda que desfez as dúvidas da rapariga.
- Oh querida! Se existe alguém com capacidade para pagar o que exigimos és tu! Nós não queremos uma renda monetária Diana. Só queremos que continues a ter a boa influência na Raquel que tens tido até agora. – Fernanda continuou com um discurso emocionado. – Tens sido amiga, no verdadeiro sentido da palavra, para com a nossa filha e o facto de sabermos que vocês não estão sozinhas lá fora, que se podem apoiar mutuamente, que a nossa Raquel tem alguém com ela que se importa com o seu bem-estar e com o seu sucesso… Oh Diana, não existe dinheiro no mundo que possa pagar o descanso que eu sentirei se souber que vocês as duas estão juntas… lá fora… Tão longe de casa…
- Assim sendo… É evidente que eu adoraria morar com a Raquel. E se me estão a dar essa oportunidade eu vou agarrá-la com ambas as mãos. E dou-vos a minha palavra que vão sentir-se muito orgulhosos de nós… - Gratidão era o sentimento que enchia Diana naquele momento.
- É claro que se vão orgulhar de nós… Afinal de contas está provado cientificamente que as duplas de sucesso são sempre constituídas por uma beta e por uma bicha do mato. – Raquel aliviou a emotividade que se sentia naquela mesa e deu lugar a uma conversa fluida cheia de previsões e cautelas para o futura que as aguardava.
    A tarde foi passada num ambiente familiar que aguçou os desejos de Diana para o seu futuro. Agora esticada no sofá Diana tentava inutilmente concentrar-se no discurso do próximo dia. Ainda nem tinha um vestido adequado. Teria de comprar qualquer coisa logo de manhã. Apesar de achar que era um desperdício de dinheiro.
-Bolas! Mas quem é que será a esta hora?!?! – Diana levantava-se do sofá sem vontade arrastando-se até à porta, respondendo assim ao bater ritmado que se ouvia.
- Duarte! – O espanto resultou num abraço apertado e num sorriso demasiado alargado. – O que é que estás aqui a fazer?
- Vim ver a minha musa antes de dormir! – Duarte beijou-a ao de leve e entregou-lhe uma caixa branca com uma rosa vermelha na tampa. – Surpresa!
- Oh! Mas eu não faço anos, nem é Natal! – Diana ria baixinho de excitação. – O que é que tu me queres pedir? Hein?
    Diana tirou a rosa com cuidado com o intuito de a guardar no seu diário. Abriu a tampa da caixa sem pressa, e pasmou num abrir de boca enquanto ia deixando escapar interjeições incompreensíveis.
- É lindo! Lindo! Lindo! Não existe outra palavra… é lindo!
- Podes experimentar para ver se acertei no número? – Duarte sentia-se a vibrar de felicidade por poder dar aquele pequeno mimo a Diana. Tratava-se de um vestido para o baile de finalistas.
- De certeza que é este o número certo! Afinal de contas tu já me tiraste as medidas há muito tempo! – Diana agarrou no vestido e refugiou-se no seu quarto. Despiu a roupa que tinha de forma apressada e desajeitada, e depois pegou no vestido com um cuidado extremo e enfiou-se nele com uma cautela desnecessário. Olhou-se ao espelho um pouco a medo, mas depressa o sorriso de satisfação a denunciou de uma vaidade merecida. Diana entrou na sala com o cabelo solto e descalça, mas com o vestido a delinear-lhe cada curva do tronco. O vestido rodeava-lhe graciosamente o pescoço como se se tratasse de um colar justo, e alongava-se sobre um peito perfeito, deixando os ombros morenos à mostra. O tecido caía descontraidamente até ao joelho, sendo apenas apertado por um cinto dourado grosso, que delineavam uma cintura perfeita. Perante aquela visão que se situava entre o sofisticado e o selvagem, Duarte sentiu a respiração suster-se e o coração parar. Tinha à sua frente uma menina mulher sem consciência da beleza que possuía com uma inocência sobre si mesma irresistível e ele tinha a sorte de a ter conquistado.

    O quarto de Raquel germinava roupa, e Diana não conseguia perceber onde se situava a fonte de todo aquele tecido.
- Ajuda-me Diana! Não tenho nada para vestir e o baile já começa daqui a duas horas. Ai meu Deus que não vou ter tempo para me arranjar!
- Também acho difícil que consigas enfiar um vestido pela cabeça abaixo apenas num par de horas. – Diana sentia-se divertida ao olhar para Raquel, que transpirava nervosismo e que andava de um lado para o outro como uma barata tonta mas com a cabeça muito hirta de forma a não estragar o penteado muito elaborado que a cabeleireira Natália lhe havia feito.
- As tuas unhas já estão secas?
- Já Raquel, não te preocupes.
- Já tens o teu vestido pronto?
-Já! Estás chata… Acalma a piriquita.
- Ai Diana! Como é que consegues estar tão descontraída? Eu estou a dar em doida. Nada me fica bem!
    Diana com muita calma começou a analisar a roupa de Raquel. Ela tinha realmente muitos vestidos de noite. E todos muito pomposos.
- Olha Raquel experimenta este. – Diana estendeu-lhe um vestido que estava esquecido no roupeiro e recebeu de Raquel uma careta como resposta.
- Credo Diana! Queres ver-me assim tanto sem brilho nenhum?
- Nada disso Raquel. Mas olha bem para ti! Já tens um penteado muito elaborado a praticar equilibrismo no teu cocuruto, enredado num fio de pérolas. Está lindo, mas se vais colocar um desses vestidos com muito brilho ou com tantos folhos, vais parecer uma árvore de Natal. É melhor levares um vestido liso como este e colocas estes brincos e uma pulseira. Experimenta… Não custa nada.
    Raquel fez-lhe a vontade mas muito contrariada. Quando finalmente se olhou ao espelho teve de admitir que estava muito bem. Estava com uma aparência sóbria qua a fazia mais adulta. Uma aparência que seria difícil para uma adolescente adquirir por escolha própria, mas que qualquer miúda da sua idade desejaria alcançar abusando no baton e no eyeliner.
    Finalmente chegou a hora de irem embora e Duarte já estava na sala de Raquel à espera das raparigas para as levar. Quando Duarte olhou para a sua Diana naquele vestido azul, teve o vislumbre de uma deusa grega, ideia que era vincada pelo penteado simples puxado para trás num rabo-de-cavalo liso que lhe conferia a personalidade de Diana, a deusa da caça.
- Duarte, tome bem conta destas meninas. Se houver algum problema tem neste papelinho o nosso número de telefone. – Fernanda sentia-se tão ansiosa como as próprias meninas.
- Agora vamos só tirar umas fotografias para a prosperidade. – O Dr. Guilherme puxou da sua máquina fotográfica muito sofisticada e começou a exigir a posses.
- Pronto! Já chega de fotografias! Vamos chegar atrasados. – Raquel apressava aquela saída com a ansiedade dos aflitos.
    A viagem de carro fez-se sem que Diana conseguisse desviar os olhos de Duarte. Ele vestia um smoking preto que o tornava mais alto e mais bem constituído, se é que isso era possível. O cabelo rebelde dava-lhe um ar muito macho que se acentuava com a barba por fazer. Podiam dar-lhe um ar de desmazelo, mas pelo contrário, acrescentavam um charme àquele smoking que ele usava. Diana questionava-se se era aquele smoking que favorecia o namorado ou se era o namorado que favorecia aquele smoking.
    Finalmente chegaram à escola. O baile seria no ginásio grande que tinha a entrada enfeitada com uns arcos que faziam lembrar as festas de S. João. Pedro envergava um fato cinzento com uma gravata da mesma cor e uma camisa impecavelmente branca. Assim que Raquel o avistou correu na sua direcção encantada com aquela visão de um homem alto de ombros largos, o cabelo preto que realçavam aqueles olhos verdes opacos que escondiam sempre qualquer coisa. O lábios alargaram-se num sorriso deixando à vista uns dentes brancos em que o canino do lado direito de sobrepunha um pouco aos outros de uma forma atrevida e que dava àquele sorriso um ar travesso.
- Estás linda Raquel! – Pedro deixou-se deslumbrar por aquele corpo perfeito realçado num vestido preto justo.
- Obrigada! – Raquel apressou-se a dar o braço ao seu par e entrou naquele ginásio com o orgulho de quem possuía o par mais bonito do mundo.
    A música estava boa, e Duarte pegou na mão de Diana e conduziu-a para a pista de dança. Rodeou-lhe a cintura e a música “can’t take my eyes off you” tomou uma nova dimensão. Diana deixou a palma da mão sentir os ombros de Duarte e enterrou o rosto naquele pescoço áspero da barba. Os braços de Duarte estreitavam Diana de uma forma perfeita como se tivessem sido feitos um para o outro. O cheiro dela que já lhe era familiar não o desiludiu naquela noite, e fê-lo inalar profundamente como se quisesse guardar aquele cheiro a caramelo que lhe era característico. Duarte fechou os olhos por um momento e teve a certeza de que era aquela a sua cara-metade e embalado pela música e pelo sentimento, deixou descair os lábios até ao ouvido dela e murmurou.
- Eu amo-te Diana Silva.
    Diana sentiu uma lágrima involuntária percorre-lhe a face e respondeu-lhe com uma beijo apaixonado e sincero. Era a segunda pessoa na sua vida que a amava. Para além do irmão que a amava incondicionalmente, ela tinha sido capaz de despertar amor noutra pessoa, e isso dava-lhe uma força e uma motivação extra. Uma força que não a deixaria desiludir aqueles que lhe davam tanto sem esperar nada em troca.
    Foram interrompidos pelo anúncio do melhor aluno da escola. A entrega seria feita pela professora Maria do Céu.
- É com muito orgulho que entrego este prémio à melhor aluna finalista do ano de 1998. Este ano tem sabor especial porque a nossa melhor aluna foi a número um do arquipélago, e uma das melhores do país. Diana vem ao palco receber o teu prémio.
    Diana subiu as escadas do palco sem sentir as pernas. Aceitou o prémio com os nervos alojados na barriga mas com a aparência de uma princesa.
- Muito obrigada professora!
    Quando Diana ficou sozinha em cima do palco, e olhou para Duarte, para Raquel e para o irmão onde deteve o olhar, esmigalhou o papel onde riscara umas humildes palavras e atirou a bola de papel para trás das costas. De repente soube exactamente o que devia dizer. E começou devagar, numa voz profunda e entendida, mas sabia que não estaria ao alcance do entendimento de todos.
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

    A intensidade que Diana colocou naquele poema de José régio, arrancou aplausos e uns olhares emocionados daqueles que entenderam a mensagem contagiaram uma sala inteira que acabou por aplauri de pé a filha do Zé dos copos.