terça-feira, 1 de março de 2022

Esta Vida não é para Poetas - PARTE II

 

PARTE II

 


CAPITULO V

 

Ofendes-me quando pavoneias assim a tua beleza

Sem saberes usar a curva educada dos teus lábios!

Quando piscas esses olhos de maresia arrastados,

Alongados em conquistas de olhares ávidos…

 

O poder de Deus uniu-se no teu reflexo

Mas a sua bondade esvaiu-se na arrogância

Desse teu ar de superioridade sem nexo,

Nessa tua altivez fútil, nessa tua fragrância!

 

Lembro-te que essa tua beleza infinita

É curta e perece no tempo que avança!

E é tão só o que a tua alma reflete no mundo

Que te trará a tempestade ou a bonança!

 

 

Releio o poema deixado da minha mala. Como me conhece mal este poema. Não sei quem teve o atrevimento de o colocar na minha mala. Algum cabrão a quem não dei importância. Porque a humanidade é assim. Acham que tudo o que é belo deve ser de fácil acesso. Isto é só alguém que me quer foder a cabeça, mas hoje é impossível tirar-me a serenidade. Sou bonita e depois? Pensando melhor isto é coisa de gaja. Alguma balofa que quer despejar a sua frustração de indesejada em cima de mim. Ah! Mas comigo não! Comigo não! Até parece que eu tenho culpa de ser assim.

A primavera chegou cedo, ainda bem. Já estou a correr debaixo deste sol matutino há vinte e cinco minutos. Não estou satisfeita. Sinto-me muito cansada e vou ter de parar. Estou em pior forma do que imaginava. Estive demasiado tempo parada. Vou recomeçar a correr três vezes por semana até recuperar o ritmo. Devia ter frequentado o ginásio durante o inverno, mas nunca gostei de ginásio. Transpirar num espaço fechado cria uma intimidade com os outros que dispenso. E depois, tenho de levar com os olhares babados dos homens e com os olhares maldosos das mulheres. Não estou para isso.

Faço o resto do caminho a caminhar calmamente. Vou fechando os olhos por longos períodos. Posso fazê-lo porque já conheço demasiado bem cada pedra da calçada de basalto e granito. Nunca tropeço em nada. Assim a andar de olhos fechados com o sol a aquecer-me o rosto sinto-me leve, sinto-me eu. Sem qualquer tipo de repulsa por aquilo que me espera logo à noite.

Chego ao meu apartamento e sorrio. É meu. Comprei-o com o meu dinheiro. Sem créditos ou favores. Fico sempre admirada com a fachada judaica. O basalto escuro trabalhado, abraçando as janelas de vidro miúdo e que se destaca, num racismo disfarçado, do branco limpo das paredes. Lembra-me este mundo hipócrita onde as diferenças convivem mas não se misturam. Subo as escadas a saltitar até ao segundo e último andar. Quando abro a porta ouço o telefone a tocar sobre a mesa lacada de branco e com uns rendilhados rococós. Descalço os sapatos e coloco-os na sapateira da entrada, trocando-os por umas pantufas confortáveis. Corro três passos até ao telefone teimoso.

- Estou! – É a Tina! Que chata. Sempre atenciosa e preocupada. Sempre sedenta de viver a minha vida. – Não Tina, hoje não posso! – Sei que ela não se vai contentar com aquela recusa sem justificação. Vai tentar ludibriar-me de forma a contar-lhe os meus planos para esta noite. Não tenho paciência para ouvi-la. É melhor dar-lhe já a justificação antes que a minha paciência se esgote. – Vou trabalhar. E agora tenho de me arranjar. Sabes como tenho de estar perfeita. – Ela ainda não está totalmente satisfeita. Tenho de acrescentar mais alguma informação. E sei exatamente que informação é que poderá acalmá-la. – Hoje é um secretário de estado.

Pronto desligou satisfeita. Não me perguntou o nome. Nunca pergunta. Sabe bem que eu vivo do segredo. E nunca, mas nunca violo este princípio. Da minha boca ninguém sabe nada sobre os meus clientes.

Entro no quarto e deixo-me cair sobre o meu novo colchão ortopédico fixando o candeeiro que nasce do centro de um florão de gesso. Aquele pormenor do teto trabalhado foi a certeza de que aquela seria a minha casa. Aquelas folhas de acanto talhadas em gesso transportam-me para o barroco. Transportam-me para outra era, para outra história, para outra vida.

Como ousa aquele poema ofender-me, insinuando que não sei sorrir. “Ofendes-me quando pavoneias assim a tua beleza / Sem saberes usar a curva educada dos teus lábios!”. Como aquele poema me conhece mal. Eu sei sorrir. Esta noite vou fartar-me de sorrir, e o homem que comprou a minha noite vai elogiar-me o sorriso. Puta que pariu quem escreveu esta merda de poema.

Vou vestir o meu melhor vestido e colocar o meu melhor batom. Vou calçar os meus saltos altos mais delicados e vou pavonear-me à frente deste poema de letra inchada e disforme. Vou deixar na sua folha enrugada a marca encarnada dos meus lábios sedutores e roçá-lo no meu pescoço perfumado com odores quentes e caros. E vou sair fechando a porta atrás de mim e deixando-o trancado sem o privilégio da minha presença.

 

 

CAPITULO VI

 

Ele está no bar do hotel de costas a beber um whisky velho. Assim que ultrapasso a porta ele vira-se e encara-me com um meio sorriso. É sempre assim. Ele pressente a minha aproximação. É o meu cliente mais antigo e fiel. Foi o meu primeiro cliente. Há exatamente dez anos atrás. Quando eu não passava de uma pós adolescente de coração partido que colocava todas as minhas forças naqueles meus vinte e seis anos como se nunca os fosse ultrapassar. Era uma mulher bonita na altura. Não tão bonita como sou agora. Mas convenhamos, o dinheiro é um excelente aliado da beleza.

- Estás deslumbrante! – Os seus olhos brilham sempre que me vê. Mas noto-lhe as rugas que se apertam nos cantos dos olhos. Os cabelos claros que começam a rarear logo acima da testa. Os lábios cada vez menos definidos que se finam numa linha suave. Ele envelhece, enquanto eu rejuvenesço com o dinheiro dele e dos da laia dele.

- Também não me pareces mal. – Ofereço-lhe o meu melhor sorriso acompanhado de um olhar sedutor. Sento-me no banco alto ao lado dele e cruzo a perna deixando que a racha do vestido deixe visível o torneado suave da minha coxa. O meu foco está todo nele. Nem olhei em volta para ver quem está presente. É assim que mantenho os meus clientes. Eles precisam de exibir-me de forma a sentirem-se potentes. E um homem só se sente potente quando exibe um carro topo de gama cujo registo de propriedade é só seu. Ou uma mulher bonita que apesar de todos os olhares ávidos que a rodeiam, foca-se apenas nele. Ele sim. Olha em volta para ter a certeza de que é invejado.

A maior parte das vezes a minha noite termina com o jantar. Quando o desejo de exibição do meu cliente já está satisfeito, porque este tipo de gente excita-se mais com a inveja que provoca nos outros do que com uma boa noite de sexo. É assim que estou a fazer o meu pé-de-meia. Vivo da vaidade alheia, e enriqueço com o meu silêncio discreto e podre, mantido pelo medo e pela quantia certa de dinheiro.

- Vamos jantar? – Pergunto-lhe, tentando desfazer-me discretamente da sua mão que trepa pela minha perna.

-Sim. – Saímos do bar com a palma da sua mão pousada no fundo das minhas costas. Encaminhamo-nos para o carro. Ele corre para me abrir a porta. O mesmo homem, que trata o seu povo com uma altivez presunçosa, corre para me abrir a porta do carro. Quase solto uma gargalhada, mas detenho-me a tempo. O povo respeita demasiado esta classe de patetas que diz governar o país. Esta mesma classe que toma a seu cargo uma nação, uma população, um território sem nunca lhe sentir o pulso. Existem políticos sérios. Já tive o privilégio de os conhecer. Esses que de forma muito educada fazem sentir-me pequena e insignificante. E quanto mais me percebem, mais se afastam graciosamente de mim e daqueles que me contratam. São aqueles que não sussurram em eventos, porque o que têm para dizer fazem-no em voz alta e de cabeça erguida. E eu admiro-os. E eles ignoram-me. Quando digo à minha família que o país deveria colocar a decisão de escolher os nossos governantes na minha mão, eles riem-se. Coitados. Não sabem nada. Não percebem que eu conheço-os como ninguém. Não me perco em curvares respeitosos diante deles. Eu sei quem é bom e quem não é. As suas palavras enganadoramente sábias para o povo, são vazias para mim. Se eu tivesse esse poder de escolher, tínhamos um país muito mais rico, seguro e transparente. Mas não tenho esse poder. E como não posso fazer nada em relação a isso, então junto-me a eles. Eles desviam fundos públicos e eu desvio-lhes fundos privados. Mas faço-o muito mais honestamente, porque não engano ninguém. Nem a minha família. A minha amiga Tina chama-me acompanhante de luxo. Sou uma prostituta. Esse é o nome certo da minha profissão. Vendo a minha companhia e por vezes o meu corpo. Sou a gestora da minha própria empresa e tenho orgulho dos meus próprios resultados económicos. Todos nós somos vendedores de nós próprios. Vendemo-nos numa entrevista de emprego exibindo todas as nossas melhores qualidades ao comprador. Vendemo-nos ao namorado, dando-lhe graxa suficiente até ele nos levar ao altar ou engravidar-nos. Vendemo-nos na praia, quando encolhemos a barriga e colocamos a mão disfarçadamente ao lado das coxas escondendo a celulite de forma a conseguir alguns olhares gulosos. Vendemo-nos na associação de pais exibindo a nossa criança sempre limpa e asseada com uma nova tecnologia na mão que deixará todos de queixo caído. Vendemo-nos quando colocamos umas sandálias douradas com um salto agulha de nove centímetros que nos alonga as pernas e atormenta os pés. Mas há aqueles que se vendem por pouco e há aqueles que se vendem pelo preço certo. Eu vendo-me por um preço sempre acima do meu verdadeiro valor. Não existem descontos ou promoções na minha empresa. Não existem clientes negociadores. Um bom empresário é aquele que vende o seu produto sem que ninguém questione o seu preço. Eu sou uma excelente empresária.

O restaurante tem um ambiente de luxo e luxuria. É um restaurante onde se leva a amante, mas nunca a mulher. É o melhor restaurante, porque estes patetas mimam melhor as amantes do que as mulheres. Mas no fim de contas são as esposas que lhes suportam as misérias das doenças, que lhes cheiram os peidos e o suor, que acordam com o mau hálito, que suportam as meias mal cheirosas. Elas tratam de todos estes horrores para que eles cheguem impecáveis até mim. E eu sou a privilegiada que os recebo sempre cheirosos e galantes, que sou levada aos melhores restaurantes e acordo nos melhores hotéis. Recebo prendas caras para além do pagamento pelos meus serviços. No meu trabalho recebo horas extraordinárias que não faço, prémios de incentivo pelo que não produzo e ajudas de custo em viagens de lazer.

- Estive fora demasiado tempo. Peço desculpa. – Ele olha-me e eu sei que ele está a ser sincero. Como se eu tivesse sentido a sua falta. Apetece-me rir novamente, mas o meu olhar demonstra o contrário.

- Pareceu-me uma eternidade… Mas eu percebo que és um homem muito ocupado. – Lanço-lhe um olhar sedutor. – Eu percebo que a tua presença seja muito desejada por muitas e diversas pessoas.

O seu ego enche ao ritmo do seu peito… E é assim. Tal qual como me dizia a minha avó, “é com festas e bolos que se enganam os tolos”.

A noite acabou num quarto de hotel, para minha infelicidade. Tinha esperança que ele se despedisse de mim fora do restaurante como acontecia tantas outras vezes. Mas hoje ele queria mais. Queria tudo. Percebi isso quando ele colocou discretamente o maço de notas dentro da minha mala. Nunca confirmava o pagamento. Nunca havia troco. Era como se essa transação não existisse. Sabia tudo sobre a intimidade daquele homem e isso repugnava-me. Mas também sabia como terminar depressa o serviço criando sempre a ilusão de que tinha sido igualmente satisfatório para mim. A noite só terminava de manhã. Nunca me ia embora depois do serviço. E assim criava-se a ilusão de que se tratava de uma conquista verdadeira. Acordava sempre primeiro para que o cliente nunca me visse exatamente como sou. Quando ele acordou eu tinha o roupão imaculado vestido e os meus cabelos longos num desalinho que me favorecia. Tomamos um duche juntos e saímos como uma verdadeiro casal… Até ao próximo pagamento.


CAPITULO VII

 

Apanho um táxi até a casa. A chave nunca abre a porta à primeira como se tivesse alguma personalidade. Tenho de puxar a maçaneta um pouco para fora e de seguida levantá-la até ouvir o estalido.

- Olá Graça! – A voz masculina e descontraída apanhou-me desprevenida. Não reconheci logo o rosto que a acompanhava. Depois com surpresa cumprimentei-o sem grande entusiasmo.

- Olá! Não estava à espera de te ver aqui. – Tentava recordar-me do seu nome, mas sem sucesso.

- Pois! Vim apenas por dois dias para uma formação.

- Ah! – Abri a porta mostrando intenção de dar aquela conversa por encerrada.

- Queres tomar um café? Tenho de fazer tempo até à hora de almoço. Podíamos pôr a conversa em dia.

Senti-me gaguejar pela primeira vez em muitos anos. Já não sabia o que era tomar um café com um homem sem estar a ser paga para isso. Queria desfazer-me daquela obrigação que sentia para aceitar o convite.

- Não estou propriamente vestida para um café! – E abri os braços mostrando o meu elegante vestido de noite que me favorecia todas as formas. Ele não desceu o seu olhar. Não me pereceu propriamente deslumbrado. Aquela indiferença magoou-me.

- Então sobe e veste uma coisa pratica num instante. Assim até damos uma caminhada e tomamos café numa esplanada. Está um dia lindo! – Encostou-se na parede apoiado apenas num pé e cruzando os braços, adotando uma posição de espera. Subi obedientemente. Sentia-me estranha, mas ao mesmo tempo empolgada.

Zé Miguel! O nome atingiu-me como uma bofetada. Tínhamos saído algumas vezes, logo após o meu drama romântico e antes de entrar nesta vida. Era um rapaz desleixado com uns caracóis mal aparados e que usava umas camisolas sempre demasiado grandes. Era biólogo marinho e exibia a sua profissão nos meus modos, no seu cheiro, no seu aspeto. E agora após uma dezena de anos mantinha o mesmo ar descontraído, como se não houvesse nada no mundo que o afetasse, mas apresentava-se de uma forma mais cuidada. Vesti umas calças de ganga justas que me favoreciam o rabo e uma camisola de algodão larga que descaía do lado direito deixando o ombro um pouco à mostra. Olhei-me ao espelho e apanhei o cabelo num rabo-de-cavalo impecável. Sorri satisfeita com o meu aspeto. Desci as escadas a saltitar como já não fazia há muito tempo e quando abri a porta e o encarei os meus lábios alongaram-se naturalmente sem qualquer tipo de esforço. O poema esbofeteou-me a memória sem dó nem piedade. Esta era a curva dos meus lábios, a verdadeira curva dos meus lábios que já não usava há muito tempo. Há demasiado tempo.

- Estou pronta!

Ele sorriu-me e desencostou-se da parede. Atravessamos a rua para o passeio mais largo e começamos a andar sem pressa.

- Há quantos anos é que não nos víamos Graça?

- Há pelo menos 10 anos…

- Pois… Deve ser mais ou menos isso!

- É isso de certeza. Não me esqueço daquela altura… Foste um grande apoio.

Ele não me deu aquele sorriso condescendente que eu esperava. Ele riu-se alto.

- Estás a ver como eu estava certo? O tempo passou e tu sobreviveste.

Ri-me também. Era a primeira vez que me ria do que me tinha acontecido. Tentava nunca voltar àquela época que me havia definido. O sol aquecia-me os ombros e senti vontade de fechar os olhos… Mas pela primeira vez em muitos anos não estava sozinha.

- Então e o que tens feito? – A pergunta que eu receava merecia uma resposta assertiva.

- Tenho vivido um dia de cada vez! – Os carros passavam por nós vagarosamente e sentia os olhares fixarem-se em mim expectantes do que diria de seguida.

- Que misteriosa! – Os seus dedos longos e magros agitaram-se à minha frente como se ele fosse fazer um qualquer truque de magia. – Eu dou aulas na Universidade do Algarve. Foi a única maneira que arranjei de continuar a fazer investigação sem correr aqueles riscos que todos os investigadores bolseiros correm. Andava sempre num vai e vem de projetos, numa preocupação constante quando se aproximava o fim das bolsas de investigação. Agora posso fazê-lo com mais calma.

- Continuas um apaixonado pelo mar. – Senti-me sorrir novamente de forma gratuita sem aquela arrogância de que o poema me culpava.

- O que é da vida se não vivermos as nossas paixões?

Eu sabia a resposta àquela pergunta, mas calei-a bem dentro de mim. Fechei-lhe a porta na cara quando ela estava prestes a sair. Tranquei-a e amordacei-a. A resposta àquela pergunta era a minha vida. Não tenho uma única paixão. Não sou apaixonada pela minha profissão. Não me apaixono pelo dia que me espera. Não sou apaixonada pela comida controlada que como. Não tenho bons amigos que me apaixonem gratuitamente. Sou bela e não me sinto apaixonada por mim. Por esta pele que exige de mim um cuidado constante de hidratação. Por estas formas que dominam a minha alimentação e torturas físicas constantes. Vivo sem sentir e o pouco que sinto não vivo.

- A respeito de paixões vou casar-me este Verão.

Aquela notícia amargou-me a boca e tive de engolir em seco antes de falar.

- A sério? Parabéns!

A chegada à esplanada salvou-me da gaguez. Sentia-me realmente magoada, mas não percebia porquê. Aquele homem nunca me causou qualquer palpitar mais forte, apesar de todas as suas tentativas há dez anos atrás. Aproveitei-me dele para recuperar o meu ego e foi só isso. Ele apareceu-me como uma luz na altura mais difícil da minha vida e apaziguou um pouco a dor da rejeição. Surgiu no fim da minha relação com o senhor cabrão. Uma relação que durou três anos. Uma relação diária e cultivada. Uma relação que comemorou datas e dias de São Valentim. Uma relação que me excitou e irritou na mesma medida. Uma relação como tantas outras relações que conduzem ao altar. Até ao dia em que o vi beijar outra mulher. Uma mulher robusta de cabelo crispado e demasiado escuro, com os seus braços curtos a envolverem-no sabiamente. Um beijo no meio da rua da cidade dele. Não era a minha cidade, mas era o meu homem. E eu estava ali, estrangeira, para surpreendê-lo… E fui surpreendida. Não o confrontei logo. Sentei-me num banco de jardim coberta pela vergonha e pela sombra de uma grande árvore. E chorei. Voltei para a minha cidade, para o meu canto, para as minhas coisas e recebi-o como sempre no dia marcado. E então no meu mundo confrontei-o. Gritei. Apontei-lhe o dedo. Acusei-o… E por fim, quando li indiferença no seu olhar… Implorei… Lembro-me das suas palavras exatas e esclarecedoras que me deixaram mergulhada em dúvidas. “Desculpa se te levei a pensar em algo mais. A verdade é que isto já durava há demasiado tempo. Eu vou casar-me este verão”. Mas ainda encontrei forças para refutar aquelas palavras, para implorar um pouco mais. Então ele agarrou-me os braços e fitou-me como se faz com uma criança ou com uma louca. “ Oh Graça! Tu não és propriamente o tipo de mulher com quem um homem queira casar! Uma mulher tão bonita só causa problemas. E como diz a minha mãe, uma melancia tão doce nunca é comida por uma só boca”. E foi nesse exato momento que eu morri.

O poema conhece-me mal, não foi o poder de Deus que se uniu no meu reflexo, mas a marca do diabo. O meu aspeto marcou o meu futuro com um ferro mergulhado nos brasidos do inferno. Estou marcada por esta maldita beleza que me estigma e que me define… E para lá deste rosto bonito, deste corpo definido, destes movimentos elegantes? Não resta nada. Não é arrogância, é vazio. Não é altivez, é sobrevivência. Não é indiferença, é conformismo.

- Nunca te imaginei casado! – Acompanhei esta afirmação com o meu olhar mais sedutor. Não pude evitar. Queria sentir-me novamente desejada por aquele homem desengonçado. Não por paixão, mas por despeito.

Ele nem reparou no meu esforço e pediu dois cafés e uma água das pedras.

- Como assim? Sempre quis constituir família.

- Não sabia! – Debrucei-me um pouco sobre a mesa. Não queria ser assim com ele, mas havia algo mais forte, uma teimosia qualquer que queria reclamar a sua atenção.

- Mas basta de falar de mim… E tu? O que fazes da vida? Estás feliz? – Ele bebericou o café, mas deve tê-lo achado quente porque afastou logo a chávena dos lábios húmidos.

- Sou prostituta. - Todo o meu corpo se retesou. Os meus olhos abriram-se de surpresa pelas minhas palavras. Não sabia como tinha dito aquilo em voz alta. E fixei-me em todos os movimentos dele tentando ler-lhe os pensamentos. Ele pousou a chávena muito calmamente e olhou-me sem qualquer expressão.

- Mas das caras…

Que raio de comentário era aquele? Devia ler-lhe espanto nas feições, e depois deste espanto devia conseguir ver a repulsa. Mas em vez disso ele olhava-me com curiosidade e algo mais que não conseguia adivinhar. Endireitei-me na cadeira e vesti o meu rosto sereno, os meus movimentos lentos e controlados e o meu sorriso sedutor.

- Das muito caras! – Sorri-lhe e bati um pouco as pestanas. Ele riu alto e depois da ofensa ri-me também. Ri alto. Ri de mim mesma.

- Não vale a pena tentares seduzir-me com esses olhares e meios sorrisos, porque eu sou um teso. No limite posso pagar-te o café.

Finalmente relaxei e senti-me como não me sentia há muito tempo. Não passei a mão pelo rabo-de-cavalo com intuito de o manter longo e liso. Não contraí os músculos da barriga para mantê-la dura e lisa. Não cruzei a perna, levantando um pouco a coxa para exibi-la. Não estiquei o peito do pé para parecer mais elegante. Apenas inspirei e finalmente curvei as costas, alonguei os cotovelos sobre a mesa e não me importei se estava a impressionar alguém.

- Porque é que vais casar com essa mulher? – Levantei o olhar das minhas mãos e vi o seu rosto surpreendido.

- Porque tive uma relação que seguiu o seu curso natural.

-Ah! Que romântico! – Senti-me um pouco vingada naquela afirmação.

- Sabes o que eu acho Graça? O casamento é a coisa menos romântica do mundo… - Agora fui eu que o olhei surpreendida. – E quando as pessoas o fazem tendo apenas como base de sustentação o romance, então o casamento tem tudo para dar errado. O casamento deve ser encarado tal como ele é. Vamos construir um futuro com uma pessoa que será nossa companheira… Mão dos nossos filhos… Que terá muitas vezes olheiras e o cabelo sujo. Que arrota e se peida na nossa casa. Que terá momentos de mau humor excruciantes. Que nos chamará todos os nomes que conhece. Que nos afagará quando estivermos tristes. Que nos cuidará quando estivermos doentes. Que nos incentivará quando nos faltarem as forças. É a pessoa que notará a nossa falta, que assistirá e testemunhará os nossos feitos. Neste mundo sobrelotado é aquela pessoa que vai assistir à tua vida, às tuas misérias e às tuas vitórias.

- Pareces um doido a falar!

- A sociedade está assim! Varre a realidade para debaixo do tapete e expõe apenas o desejável. Andas com o rabo tremido num BMW, pavoneando-te e certificando-te de que todos te olham com inveja, mas escondes as cartas do banco a cobrar os pagamentos em falta. Convidas os amigos para jantar na tua mansão e dás-lhes uma tábua com queijos caríssimos, um faisão e lagosta, uma trufa do mais puro que existe, mas eles ignoram que comerás atum com massa o resto do mês. Os teus filhos vão para a escola munidos de caras tecnologias e a falar sete línguas, mas não sabem o que é respeito, caridade ou mesmo humanidade.

Voltei a ver o mesmo Zé inocente, que queria mudar o mundo. Que queria soldar todos os pedaços que se haviam partido em mim. Vi o mesmo rapaz que ignorava os meus revirar de olhos sempre que ele me batia à porta. Os meus bocejos dispensadores sempre que ele me pegava na mão. Os meus queixumes de dores de cabeça sempre que ele tinha algo programado para me surpreender. E no dia seguinte lá estava ele novamente disponível para mim.

- Nunca tinha pensado nas coisas assim.

- Porque tu és o resultado deste exibicionismo que afeta a nossa sociedade. Tu pavoneias a tua beleza escondendo os sacrifícios que ela te custa. Tu mostras sorrisos encantadores, mas escondes os pensamentos que os acompanham. Tu és uma montra ambulante de tudo o que não é importante. – Ele não me via. Estava balançado no seu desabafo e não me viu diminuir a cada palavra. – E deixas que outros te usem para o mesmo fim. Tu mostras a tua gargalhada, mas escondes a falta de graça. Tu mostras interesse nas palavras de quem te paga, mas escondes o tédio que te provocam. Tu elogias o que te repugna… E tu gemes e arquejas enquanto escondes a repulsa.

Finalmente encarou-me e percebeu que me tinha magoado. As lágrimas grossas e autónomas rolavam pela minha face. O meu nariz teimava em pingar e eu limpava-o num guardanapo nada absorvente.

- Desculpa Graça! Desculpa! - As suas mãos queimadas pelo sol pousaram nas minhas e aquele afago acalmou-me – Desculpa. Não ligues às minhas tolices.

- Não são tolices! São verdades… E nunca ninguém foi tão honesto comigo como tu. Obrigada por me fazeres sentir novamente.

- Hã? – Agora sim ele parecia surpreendido. Finalmente.

- Fizeste sentir-me mal comigo mesma. Sinto isso aqui dentro do meu peito. Fizeste-me chorar. Não te sei explicar… Mas já há muito tempo que não sentia nada. A minha vida estava robotizada…

O sol escondeu-se por detrás da única nuvem que vagueava no céu e o ar arrefecido eriçou-me os pelos dos braços. Foi isso ou outra coisa qualquer que me percorreu a espinha num arrepio profundo. Fechei os olhos. Os clientes da mesa ao lado levantaram-se. Ouvi um arrastar longo de uma cadeira e senti o roçar envergonhado da saia vermelha da senhora obesa que se levantava. O cheiro do café forte passou à minha esquerda acompanhado do tilintar de copos em cima de uma bandeja. O som do arfar de um cão grande aproximava-se. Continuei de olhos fechados. Gostava de estar assim. Como se o mundo fosse mais honesto nestes momentos de cegueira. Quando abri os olhos o sol voltara a brilhar e o sorriso do Zé mostrava apenas bondade. Não tinha pena de mim, nem repúdio, nem curiosidade sobre a minha intimidade.

- Porque é que pensas em casar com essa mulher e nunca pensaste em casar comigo? – Aquela resposta interessava-me. Mas o meu interesse esgotava-se na sua veracidade e ninguém seria mais honesto comigo do que o Zé. Eu precisava de saber o que há de errado comigo e de certo com as outras mulheres.

- De onde é que vem essa pergunta agora? Tu nunca me deste sequer a oportunidade de pensar nessa hipótese! - Ele endireitou-se na cadeira de metal pouco confortável e fixou uma linha qualquer do horizonte. Talvez olhasse o mar calmo e sereno. Talvez notasse o reboliço das ondas provocadas pela entrada de uma embarcação no cais. – Naquela altura eu queria muito ter tido a possibilidade de pelo menos poder imaginar um futuro contigo. Mas tu não abriste a porta a essa possibilidade. Estavas demasiado amarga. Estavas demasiado apegada à ideia que o Sr. Cabrão tinha de ti. – Sorrimos os dois perante a lembrança daquela alcunha que partilhávamos em segredo. – Estavas tão apegada a essa ideia que começaste a adotá-la como estilo de vida. “Ah! Eu sou bonita de mais para estes tolos? Eles ainda não me viram toda produzida… Vão cair todos de cu… Quero só ver se existe algum homem que hoje não me levasse ao altar…” E as nossas conversas eram sempre conduzidas por ti para este destino… O teu aspeto e como os outros reagiam a toda essa tua beleza, a todo esse teu encanto.

Agora lembro-me claramente do momento em que deixei de sentir. Estava com o Zé no muro daquela marginal a beber um gin, quando passou o meu primeiro cliente. O Zé falava-me das estrelas e eu falava-lhe do meu brilho. Troquei um longo olhar com o atual secretário de estado e um sorriso comprometedor. O Zé, na sua ingenuidade deu-me a mão e eu permiti, mantendo o foco muito longe dele. Lembro-me de ter dito qualquer coisa de obscena em relação ao quanto eu iria explorar os homens com a minha beleza. Lembro-me de ter prometido ao Zé naquela noite que seria eu a explorar a minha própria beleza, e que nunca mais seria vítima do ego de nenhum macho. Ele falava do futuro e eu atirava-lhe com o passado. Ele falava-me em esperança e eu refutava-a com traições. Ele falava-me em sentimentos e eu afastava-o com escárnio.

Essa noite foi mais rentável do que o habitual. Estive particularmente dedicada e a gorjeta valeu a pena. Sentia-me aliviada sempre que esvaziava aqueles bolsos rotos… E assim, a vida continuava a passar por mim exatamente como eu a planeara anos antes.


CAPITULO VIII

 

A sandes de salmão fumado era mastigada lentamente e sem vontade, enquanto a minha mente pedia um hambúrguer de carne de vaca com molho inglês. Mas então afasto o meu pensamento daquela refeição insonsa e concentro-me nos meus sucessos. Comprei uma segunda casa de dois andares ao pé da praia. Modifiquei-a transformando-a em dois pequenos apartamentos que alugo a estrangeiros. Não me posso queixar da minha profissão e do meu rendimento. Sei que me rentabilizo muito acima do meu preço de mercado. Mas também sei que não será sempre assim. Absorvi o conselho do poema: “Lembro-te que essa tua beleza infinita / É curta e perece no tempo que avança! / E é tão só o que a tua alma reflete no mundo / Que te trará a tempestade ou a bonança!” Estou a preparar o meu futuro para que possa sentir-me mais feliz do que o homem que está no banco em frente. Ele tem os cotovelos pousados nos joelhos e a cabeça redonda enterrada nos longos dedos. A gravata surge por entre as pernas sugestivamente e as bochechas vermelhas enchem-se e esvaziam-se como se estivesse a ventilar.

Vou voltar a estudar. Talvez economia, uma vez que é uma área em que sei que sou particularmente boa… Ou filosofia porque sempre achei interessante… Vou inscrever-me num grupo de teatro amador e fazer amigos, porque preciso de alguém que testemunhe a minha passagem por este mundo… Mas agora vou sacudir os miolos da minha camisola de algodão verde e vou para casa arranjar-me para o próximo cliente.

Volto a olhar para o homem do banco em frente. Ele merece um poema… Talvez.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Esta Vida não é para poetas - Parte I


 

Esta vida Não é

Para poetas



              Maria Gaspar 

PARTE I

 

CAPITULO I

 

A vida sorrirá invisível aos olhos murchos

Que vagueiam vazios no horizonte baço!

E o tempo esconde, num novo maço,

A fumaça expulsa dos lábios gorduchos

Que rouba em tudo o que vivo o melhor pedaço!...

 

A vida, ridícula, continua sorrindo

Uma esperança falsa que me palpita,

Uma consciência esquecida de mim,

Perdida no desafio deste mundo que me fita

E para quem perco sempre um feliz fim!...

 

A vida recorda-me que já passou o sorriso!

Aquele que agora me fita no retrovisor,

Aquele que me recorda em tom de aviso

Que a vida passou calma, cheia e precisa

E que eu permaneci intacta na fumaça vazia!...

 

O poema anónimo atingiu-me como um soco seco no centro do estômago e do ego. Olho para a televisão sem som e vejo uns personagens pálidos a tremer de frio debaixo de uma chuva torrencial. A janela larga de madeira pintada contraria a cena, deixando entrar os últimos raios de sol. Foi um dia quente de Outono. Foi um dia igual aos outros… Se não fosse este poema misterioso. Sentada na poltrona velha e conhecedora das formas redondas do meu corpo, solto uma nuvem de fumo por entre os lábios gorduchos. Como o poema me conhece bem… Este poema largado na minha secretária de trabalho. Este poema escondido no meio dos papéis do dia. Este poema que estava à espera do fim de expediente para se revelar. O seu autor é-me completamente desconhecido. Apenas identifico uma caligrafia cuidada, descaída para a frente como se tivesse pressa de avançar. Uma caligrafia que me desafia com aqueles “A” redondos como se fossem a minha cara cheia… Com os “L” e “T” longos e elegantes teimando na lembrança de quem já fui.

Faço um esforço de memória. Quem é que esteve hoje no cartório? Mas nenhum dos clientes me levanta suspeitas. Aliás não me lembro de quase nenhum deles. Não costumo encarar as pessoas de frente. Tive uma escritura de hipoteca. Para além do gerente do banco, esteve um casal. Não me lembro deles. Não gosto de encarar os jovens casais que compram a sua primeira casa. Não gosto daquela luz radiante que me ofusca. Não gosto dos olhares cúmplices carregados de promessas de umas malandrices próximas e de um longo compromisso. Não gosto… de mentiras. Também fiz duas procurações, mas eram apenas uns velhotes que tinham até dificuldade na assinatura. Não me lembro das testemunhas. Já não costumo encarar as pessoas de frente…

Os raios de sol desapareceram. Já só faltam três horas para dormir. Ainda bem. Apago o terceiro cigarro sem me importar com o cheiro que fica entranhado no tecido da poltrona. É o mesmo cheiro bafiento das cortinas e do tapete gasto que cobre o soalho de madeira riscado. Levanto-me da poltrona depois de duas tentativas de balanço. Sinto uma dor terrível nas costas que me tem acompanhado ao longo dos últimos meses. Mas não quero ir ao médico. A última vez que uma dor me fez ir ao médico ganhei um cancro e perdi tudo o resto.

Arrasto os pés inchados que esgaçam as pantufas em sofrimento pelo corredor e obrigo-me a tomar um banho. Já não meto o corpo debaixo de água há dois dias. Tenho mesmo de tomar banho hoje. Mas custa-me alçar a perna pesada sobre o rebordo sujo da banheira. A água quente alivia-me a dor nas costas e deixo-me ficar ali debaixo daquela cascata. “Uma consciência esquecida de mim”. Como me conhece bem aquele poema. Há menos de quatro anos eu era outra pessoa. Com apenas trinta e dois anos tinha o meu cartório notarial, onde era e ainda sou notária. É a única coisa que me resta dessa outra vida. Mas até aqui já não sou eu. Lembro-me de me levantar sempre cheia de vida. Não saía à rua sem estar cheirosa com o cabelo longo e escuro esticado. Tinha os olhos grandes em que bastava colocar um rímel nas longas pestanas para ficar com um olhar sedutor. O Luís gostava dos meus olhos e o do meu rabo. Desfaço imediatamente o sorriso que se formou na minha cara como se fosse um espasmo. Não devo prender-me ao passado. Só me faz mal. Pelo menos foi o que o psicólogo me disse. Mas eu fui tão feliz no passado…

Nesse passado, eu exibia as formas certas, o peso certo, e a sensualidade certa. Era graciosa e desejada pelos olhares fugazes que me acompanhavam. Era realmente uma mulher bonita. “Exótica como uma cigana”. Era assim que a voz quente e sussurrada do Luís me descrevia.

Há quatro anos atrás vivia na mesma casa que vivo hoje. Mas era uma casa alegre, cheia de vida que cheirava a alfazema. As janelas abertas deixavam os espaços iluminados e as cores vivas davam uma alegria contagiante. A poltrona era verde água com uns pormenores rococós, que agora estão partidos e o verde-água aproxima-se de um castanho esverdeado.

A minha companhia era um namorado em vez de dois gatos persas com nomes de gente. Namorava com o Luís desde a faculdade e pensava que seriamos uma dupla infalível até ao fim dos nossos dias.

Naquele dia fatídico eu saí do Cartório e fui diretamente para o salão paroquial encontrar-me com o Luís. Era quinta-feira. Era dia de danças de salão. E nós dançávamos rumba como ninguém. Sentia-me leve e ria-me sem limitações. Ria só porque sim. E rodopiava, balançava-me para ele enquanto ele revirava os olhos embaraçado.

- Foste buscar o resultado dos exames? – Perguntou-me com uma fingida despreocupação.

- Vou a seguir. O médico ligou-me e pediu-me para lá ir às oito. – Senti o seu corpo ficar rígido nos movimentos. A dança já não fluía.

- Então vou contigo.

Foi este o momento. O maldito momento em que os meus tormentos começaram. Se eu soubesse o que sei hoje não teria ido buscar aqueles resultados. Mas eu não sabia. Havia muitas coisas que eu não sabia. E assim sem saber fomos ao consultório do médico para ouvir a minha sentença.

A água esfriou. O cilindro generoso deixou sair a última gota de água quente e com ela foram-se as lembranças.

 

 


CAPITULO II

 

O despertador tocou pontualmente às sete e trinta. Já estava acordada. Estou sempre acordada antes do despertador. Rebolo sobre mim mesma e pouso os pés no chão. Visto o robe mas não o fecho. Já não me serve há muito tempo. Mas recuso-me a trocá-lo. Como o resto das bolachas de baunilha rançosas que estão depositadas na mesinha de cabeceira. Sabem a doce e mofo. Mas é o doce que me preenche. Visto-me sem escolher a roupa. Qualquer coisa serve para vestir nesta fase. Uma fase que nunca mais passa. Calço umas sabrinas, mas reparo que os meus pés parecem bolas dentro daquele calçado delicado. É a primeira vez que reparo nisso. Uso as sabrinas todos os dias e nunca reparei no volume dos meus pés que transbordam. Descalço-me, abro a porta da sapateira e retiro uns sapatos rasos mostarda com um fecho de velcro que se adapta ao meu tamanho. Olho, novamente, para os pés. Sinto-me melhor. Quase esboço um sorriso de satisfação, mas reprimo-o a tempo.

O dia está claro e calmo com uma ligeira aragem de Outono a refrescar-me a cara. É quinta-feira. Resolvo percorrer a pé o quilómetro e meio que separa a minha casa do cartório. Não o faço há pelo menos quarto anos. Mas faço-o hoje. E faço-o sozinha. Sinto-me quase orgulhosa de mim. Mantenho a cabeça baixa para não ter de encarar os outros transeuntes. A avenida larga está restaurada. Nunca tinha reparado nos bancos de madeira novos que convidam a um descanso, a uma leitura simples ou a olhar o mar sem pressa. Os barcos alvos balançam na marina, enquanto estrangeiros espreguiçam-se nas suas proas. Tudo está no lugar certo. Tudo, menos eu. O poema volta a preencher-me “ E a vida ridícula continua sorrindo / uma esperança falsa que me palpita”…

- Rosa! – Levo apenas uns segundos a processar aquela voz fina e alegre. – Oh! Rosa! Que bom ver-te…

Os braços magros e murchos abrem-se para mim, e sem perceber como, sinto-me rodeada por aquele abraço. Deixo-me abraçar. Já não era abraçada há muito tempo… Há demasiado tempo. Fecho os olhos e mato aquela saudade íntima de ser mimada. Faço um esforço de memória para me lembrar da última vez que fui abraçada. Acho que foi no hospital. No último tratamento. Sim, foi nesse momento, em que o médico se despediu de mim com um abraço emocionado e depois atrapalhado, uma vez que continuei com os meus braços caídos, inertes. Quando nos afastamos fito corajosamente o olhar curioso daquela velhota que um dia foi minha professora de dança. Nossa professora de dança… Minha e do Luís.

- Olá Senhora Mimi!

Não sei o que dizer mais. Desaprendi a conversar. Desaprendi a socializar. Desaprendi a amar. Desaprendi a ser humana. Desaprendi o que levei uma vida inteira a aprender.

- Há quanto tempo minha querida! Tenho tentado ligar-te para saber de ti… - O resto daquela constatação é calada por educação. Mas eu sei o que lhe vai no pensamento. “Nunca atendeste ou respondeste aos telefonemas”. Atrevo-me a fitá-la, mas em vez de olhos acusadores, encontro apenas doçura. E como me magoa aquela doçura, aquele sorriso brando aquela dentadura que se expõe para mim. Entrelaça o seu braço caridoso no meu e muda o seu rumo de caminhada para me acompanhar. Quero afastá-la, mas em vez disso aceito a sua companhia.

– Então conta-me lá! Como é que tu estás?

O que será que ela quer que lhe diga? Que estou bem? Devo responder assim para lhe aliviar a preocupação? Para que não sinta pena de mim? Para que não se sinta obrigada a ouvir as minhas misérias? É com esta mentira que devo socializar com as pessoas que me abordam? É com esta falsidade que devo manter as amizades? É com hipocrisia que devo alimentar as minhas relações?

- Estou bem! Obrigada por perguntar.

Ela estaca e com a sua mão livre puxa-me o rosto de forma a encará-la.

- Rosa Maria! Não te atrevas a mentir-me… - Os olhos doces tornaram-se cinzentos. – Não quero cá respostas politicamente corretas. Apertou-me o braço com a sua mão pequena e frágil e depois da reprimenda continuou a andar, olhando agora em frente. – Estás a falar comigo. Caramba…

Eu não sei lidar com esta porta que ela me abriu. Posso dizer simplesmente que abro os meus olhos todas as manhãs, mas não acordo para a vida. Posso dizer-lhe que o meu frigorífico está empanturrado com manteigas e queijos gordos, presuntos e linguiças, chocolates e chantilly. Que neste momento uso a roupa que a minha mãe usou depois dos seus sessenta anos, quando o seu corpo esguio se alargou, porque tenho medo de entrar numa loja e descobrir qual o tamanho da minha roupa.

- Estou livre do cancro há mais de um ano. Terminou essa luta. Agora é ir vigiando para ver se não volto a ter…

Mimi ouviu-me e permaneceu calada por uns segundos, que me angustiaram. Seria aquela a resposta que ela esperava?

- É bom ouvir isso! Livraste-te daquela maldita doença.

Atravessamos para o outro lado da avenida na passadeira. Com Mimi não poderia ser de outra forma. Era uma pessoa regrada em tudo o que fazia. Todo o seu dia obedecia a um plano anteriormente elaborado. Desde a roupa que vestia impecavelmente, até à pesagem e manutenção das calorias e nutrientes de cada refeição.

- E de resto?

Que resto? Isso é muito vago. Tudo o que está fora do tema doença é muita coisa para ser falada. Vamos falar do tempo ou do trabalho. Da minha vizinha que arranjou um namorado vinte anos mais novo. Da miséria política e económica em que o país está mergulhado. Mas Rosa sabia que aquele “resto” restringia-se apenas ao Luís.

- De resto continua tudo na mesma.

- Aquele canalha nunca mais deu sinais de vida?

- Não! – Menti. Ele bateu na minha porta há dois meses atrás a dizer que precisava de dinheiro. Não o disse assim. Elaborou um discurso muito convincente sobre os nossos bens, e tendo em conta que eu fiquei com tudo, era justo que ele recebesse o pagamento de metade desses bens. Não me consegui lembrar de nada que ele tivesse adquirido. A casa, a mobília, o carro tudo era meu. Até a televisão e o portátil que comprámos juntos, fui eu que paguei. Mas não tinha forças para contestar. Limitei-me a passar o cheque. - Ao menos isso! Que o diabo o leve! – A velhota dirigiu-me um olhar maroto e culpado que acompanhou o sorriso maldoso, como se tivesse cometido um doce pecado. Não lhe resisti ao sorriso e sorri de volta. “A vida sorrirá invisível aos olhos murchos / Que vagueiam vazios no horizonte baço!”

Atravessámos o pequeno jardim público e os meus olhos ergueram-se até à ponta da Araucária gigante. Em miúda imaginava que aquela mesma Araucária era uma pirâmide expulsa do Egipto por ser diferente das outras pirâmides rudes de pedra. A sua beleza verde e elegante provocou a ira das outras pirâmides secas e arrogantes e agora ela estava ali simplesmente bela e rejeitada.

- Devias vir dançar logo à noite… - Mimi lançou aquele desafio sem sequer fitar-me. Apenas lançou-o naquela sua voz monocórdica e doce com a segurança de que seria bom.

- Hoje?

- Porque não? – Não foi o convite que me fez aceitar. Não foi a suavidade e generosidade de Mimi que me deixou com vergonha de recusar. Não foi por educação que aceitei o convite. Foi a pena que vi nos olhos e nos lábios condescendentes daquela velhota. Foi o facto de eu suscitar aquele tipo de compaixão nela que me fez aceitar. Que me fez reagir.

“Perdida no desafio deste mundo que me fita /E para quem perco sempre um feliz fim!...”. Como este poema me conhece bem. Como me sinto fraca e tola quando me vejo pelos olhos dos outros. Não quero ser esta pessoa triste que os outros veem. Não quero despertar condescendência ou compaixão nos outros, mas sim paixão e admiração. Não quero ser a fã, mas sim o ídolo.

Entrei no cartório e dirigi-me automaticamente para o meu gabinete. Tinha a agenda toda organizada por uma das minhas administrativas. Folheio os documentos que dormem na mesa com medo de encontrar algo mais que me descreva. Não quero que me vejam como eu sou neste momento. Eu sou assim, mas esta não sou eu. Então, não encontrando nada entre os papéis, encontrei algo perturbador na minha memória recente. Entrei no cartório de cabeça baixa. Lancei um bom dia baixo e pouco convincente sem levantar os olhos do chão. Não encarei as pessoas. Elas devolveram-me o cumprimento, mas sem grande convicção, como se eu não valesse um cumprimento radioso e sorridente pela manhã.

Levantei-me da minha cadeira imponente de pele. Voltei a sair do meu gabinete passando pela sala de trabalho onde estavam as duas administrativas. Elas calaram-se como resultado da minha presença. Senti os seus olhares queimarem-me, mas não levantei os olhos do chão. Levantei a parte móvel do balcão fazendo um senhor idoso afastar-se para me dar passagem. E finalmente saí. Encostada à parede sinto o meu coração palpitar algo novo. Uma qualquer vontade. Como aquele poema me conhece bem. Tiro um cigarro da algibeira e acendo-o. Sinto-me relaxar e deixo-me levar naquela “fumaça vazia”. Quero entrar no meu cartório de outra forma. É o meu cartório. Sou eu que devo dominar quem o frequenta e não o contrário. São os outros que entram ali, naquele espaço a precisar de mim… Mas porque raio é que sou eu a despertar pena nos outros dentro do meu espaço? Do meu cartório?

Atiro o cigarro para a estrada vazia sem sequer apagá-lo. Levanto o queixo e sinto as minhas costas protestarem. Mas são as minhas costas. São elas que têm de me obedecer e não devo ser eu a subjugar-me a elas. E entro de cabeça erguida. Olho diretamente para as minhas assistentes. A Carla engordou desde a última vez que a encarei e a Noémia cortou o cabelo.

- Bom dia! Está tudo bem por aqui? – Saco do meu melhor sorriso e vejo dois pares de olhos pousados em mim enquanto as bocas que os acompanham balbuciam qualquer coisa.

- Bom dia doutora! É bom vê-la assim bem-disposta!- Carla sempre foi a mais despachada das duas, sem entraves na língua ou nas ações e com solução para todos os problemas que surgem. Em tempos ela metralhou-me com as suas receitas para enfrentar a doença e mais tarde para enfrentar a rejeição, mas fê-lo de tal maneira que deixei de ter forças para encará-la. Deixei de ter a força que ela me exigia constantemente. Deixei de encará-la.

Noémia continuava de boca aberta. Pisco-lhe o olho. Não resisto. A mulher abana a cabeça como se quisesse acordar de um sonho qualquer.

- A que horas tenho a primeira reunião? – Pergunto-lhe tentando quebrar aquele desconforto. Mais por mim do que por ela. Quero procurar uma forma de manter aquela postura, aquele sorriso, aquela atitude. Lembro-me que devia ter colocado um rímel e um batom. De repente sinto-me diminuída. Sinto os olhares dos clientes colados em mim como se avaliassem o grau do meu sentido de ridículo. Sinto-me estupidificar e refugio-me novamente no meu gabinete sem esperar pela resposta. A minha cabeça pesada está depositada nas palmas das minhas mãos quando a porta abre devagarinho.

- Posso entrar doutora?

- Claro Noémia. Entre lá! – Endireito-me na cadeira e disfarço a lágrima que me humedece a face.

- A doutora estava… - Ela aperta os documentos contra o peito como se fossem pesados e percorre o gabinete com os olhos sem fixá-los em lugar nenhum. – Quer dizer… Já há muito tempo que não a víamos assim, tão… - Os olhos agora baixos concentravam-se no chão alcatifado. – Não estava à espera e… Não foi por mal… - Noémia não fazia sentido e mesmo assim eu compreendia-a. Ela estava ali nervosa desculpando-se por não ter reagido ao meu cumprimento, como se fosse ela a errada nesta história.

- Senta-te Noémia! – A ordem saiu da minha boca com a confiança de outros tempos e a mulher obedeceu imediatamente. Assim que se sentou na cadeira à minha frente e a sua coragem permitiu que me olhasse, ela riu alto.

- Fiquei sem ação quando a vi novamente. A velha doutora Rosa. A nossa chefe alegre e confiante. – Ela agora procurava algo nas minhas expressões faciais. Mas eu mantinha-me inerte. Aprendi a ficar assim, imóvel, estática, sem fornecer qualquer tipo de vantagem que pudesse ser usada futuramente para me magoar. – Nem sabe como tem sido difícil. Desde que a doutora adoeceu e depois aquele canalha do Luís… E a doutora foi mirrando, mirrando por dentro e engordando por fora. E eu e a Carla tivemos que assumir sozinhas a gestão do cartório, porque a doutora não reagia. Não marcava nada na agenda, não decidia nada, não entregava sequer os documentos ao contabilista. E nós fomos assumindo funções e responsabilidades que não são nossas para aliviá-la…

- Desculpe Noémia… Não tinha percebido… - Estava completamente atónita. Realmente o dia-a-dia do cartório foi-se fazendo e eu nunca questionei como é que as coisas apareciam. Como é que já tinha as escrituras preparadas em cima da minha secretária para receber os clientes. Como é que os ordenados estavam a ser pagos. Nem sequer o pagamento de impostos ou segurança social.

- Não é para se sentir culpada que lhe estou a dizer isto. – Ela aventurou-se como nunca o tinha feito até então. – Nós queremo-la de volta. Queremos que pegue naquilo que é seu e que comande a sua vida, o seu cartório… Sabe que até as suas aplicações financeiras particulares no banco nós é que temos feito? Recupere aquilo que é seu por direito.

- Mas faltam-me forças… - Finalmente choro e Noémia acompanha-me.

- Oh doutora! Hoje a doutora tomou iniciativa de recuperar algo. Eu reparei que não veio de carro. A doutora entrou e saiu, para voltar a entrar da forma correta. – Noémia limpou o nariz na ponta da manga da camisa. – Acha que eu não a vi lá fora da porta a fumar e a falar sozinha. A ganhar coragem para entrar de cabeça erguida?

- Reparaste nisso?

- Nós andamos preocupadas consigo há demasiado tempo. Reparamos em tudo. Só lhe quero pedir que não recue. Não volte a esconder-se nessa cortina de fumo que criou à sua volta. Por favor.

Noémia fitava-me como se esperasse uma qualquer reação minha. Como não me mexi, ela levantou-se e foi-se embora deixando-me com tudo o que ela tinha dito.




CAPITULO III

 

O salão paroquial cheirava a tinta fresca e suor quando cheguei. Estava vinte minutos atrasada. Vinte minutos foi o preço da coragem que paguei para aparecer ali naquele espaço tão íntimo. Estavam a aprender a valsa vienense. A senhora Mimi contava os tempos batendo com o seu pé minúsculo no chão, mas a última volta falhava sempre. Não rodavam todos ao mesmo tempo de forma a fazerem o angulo de noventa graus. Fechei os olhos e senti a música. Sabia exatamente o que tinha de fazer. Senti o corpo de Luís encostado ao meu e a harmonia que nos ligava sempre que dançávamos. Não eramos profissionais, mas tínhamos jeito para aquele nível de exigência. Frequentamos as aulas durante três anos e tudo começou com uma prenda do dia dos namorados. Ele ofereceu-me um jantar no centro paroquial com uma aula de tango incluída. A partir daquele dia fomos alunos exemplares. Nunca faltávamos a uma aula. Ali e depois de alguns anos de namoro descobrimos uma nova forma de intimidade igualmente satisfatória. Era como um jogo de sedução, uma corte constante, uma forma de conquista quotidiana. E assim mantínhamos a paixão acesa.

- Venha Rosa! – A senhora Mimi veio buscar-me pela mão. – Meninos! Meninos! – Como eu tinha saudades daquilo. Como eu tinha saudades da voz dela a chamar-nos meninos. Era assim que eramos tratados naquelas aulas independentemente da idade. – Esta é a Rosa e foi das melhores alunas que me passou pelas mãos.

O grupo uniu-se num olá acolhedor. Todos me sorriram.

- Tomás vem cá. – A senhora Mimi pegou na mão daquele homem alto e desengonçado e colocou-a debaixo da minha. - Hoje o teu par será a Rosa que eu já não consigo fazer nada de ti. – E dirigindo-me um olhar cúmplice. – Se conseguires fazê-lo dançar pago-te um jantar Rosa.

A valsa começou e o corpo hirto de Tomás tombava de um lado para o outro como se marchasse em vez de valsar. Ouvia-o a contar os passos “Um, dois, três… e um dois três… e um, dois três”. Ri-me. Não consegui evitar.

- Desculpe. Sou novo aqui. Mas parece que não me vou fazer velho. – O seu sorriso genuíno foi um balsamo para a minha alma. Era sem dúvidas um homem alto e bem constituído. Bem constituído é aquela fórmula mágica para dizer que alguém está acima do peso sem parecermos preconceituosos. A realidade é que Tomás era gordo. Não de uma forma exagerada, mas tinha um corpo desengonçado e largo. Os seus olhos pequenos e astutos mostravam-se concentrados nos movimentos da senhora Mimi. E os lábios fechavam-se num risco fino. Quase tive pena dele.

- Não se concentre tanto nos movimentos da Mimi. Concentre-se em mim. É comigo que está a dançar. – Encostei-me mais a ele e fixei o meu olhar no dele. Ele não desviou o seu olhar nem por um segundo. E recomecei a valsar incentivando os movimentos dele com o meu corpo, forçando-o a virar-se ao sabor da música, contando com ele os tempos e no fim da aula largámo-nos com uma cortina de suor a cobrir-nos o rosto. Eu tinha comandado. Tinha deixado que alguém me agarrasse e sentisse este pneu desconfortável que se instalou no meu abdómen, e nem por um segundo me senti mal por isso. Nem por um segundo me senti inferior ou envergonhada. Dancei. Mexi as minhas formas todas sem vergonha e deixei que alguém me sentisse. Um desconhecido. 

Vesti o meu casaco e saí. Estava frio. Não tinha vindo preparada para aquela aula e não tinha carro nem um cachecol para proteger o meu corpo quente daquele frio. Encolhi-me a aventurei-me pela rua escura, apressando o passo numa tentativa frustrada de não arrefecer.

- Quer boleia? – Um carro cinzento encostou-se a mim e só quando o vidro se abriu é que percebi de quem se tratava.

Ia recusar a oferta com uma desculpa qualquer, quando o poema me atingiu “E a vida recorda-me que já passou o sorriso! / Aquele que agora me fita no retrovisor, / Aquele que me recorda em tom de aviso / Que a vida passou calma, cheia e precisa / E que eu permaneci intacta na fumaça vazia!...”. A vida é minha. Eu é que vou marcar o ritmo da minha vivência. Eu é que vou passar pela vida, não é a vida que vai passar por mim.

- Aceito! – Entrei no carro e coloquei o cinto.

- Para onde vai? – Tomás aguardava pela resposta com o carro encostado ao passeio, em ponto morto. Eu estava dentro do carro de um desconhecido, com quem tinha acabado de dançar e nos braços de quem transpirei como se tivesse corrido a maratona.

- Para casa!

- Claro! E onde é que isso fica? – Ele riu-se descaradamente de mim.

- No cimo da rua do hospital.

O carro estava impecavelmente limpo. O ambientador de baunilha preenchia as minhas narinas de forma eficiente. De repente senti vergonha da minha casa bafienta que cheirava a mofo e a qualquer coisa pior.

- Hoje foi a melhor aula de dança que tive. – Ele olhou pelo retrovisor e fez pisca para a esquerda. – Já estava a pensar em desistir, mas a Rosa fez-me recordar o porquê de ter escolhido estas aulas.

- E porque é que escolheu estas aulas? – A minha cabeça estava concentrada apenas nas palavras dele. Estava finalmente vazia de preocupações. Não sentia qualquer pressão para impressionar ninguém ou para pelo menos não despertar pena.

- Para voltar a sentir-me vivo…

Olhei os candeeiros acesos que passavam deixando um rasto de luz. É assim que a nossa existência deve passar pelo mundo. Devemos deixar um rasto. Se vivermos bem, se cultivarmos relações, se participarmos na vida dos outros e da comunidade, o nosso rasto ficará por muito tempo. Por vezes manter-se-á por gerações. Em raríssimos casos para sempre. Mas se vivermos apenas para nós, concentrados no nosso bem-estar ou na nossa miséria, então o nosso rasto apagar-se-á com a nossa morte, ou se tivermos sorte apagar-se-á com a memória dos que nos recordam.

- Então e a Rosa? Porque é que deixou de dançar?

- Porque tive cancro da mama.

Fui seca e espontânea na resposta. Exatamente como qualquer verdade deve ser abordada. Não existem floreados ou pozinhos de perlimpimpim para dourar uma verdade cruel. É assim e pronto.

- Ah! Não sabia! Então, se voltou para as aulas é porque está melhor, certo?

Gostei daquela frontalidade. Gostei de não me sentir minimizada. Gostei de que ele não tivesse mostrado qualquer tipo de piedade.

- Sim! Estou supostamente curada e sem seios. – Não sei porque é que aquela afirmação me saiu assim. Será que estava a tentar despertar compaixão naquele ser humano? Uma compaixão pouco competente na tarefa de manter o Luís ao meu lado? Ele tentou durante um par de meses depois da primeira cirurgia. Mas a imagem daquela cicatriz horrível causava-lhe náuseas. As minhas próprias náuseas depois das sessões de quimioterapia provocavam-lhe um mal-estar. As minhas olheiras profundas afastavam o seu olhar. A minha queda de cabelo afastaram os seus afagos. Tudo o que a doença refletia em mim repudiava-o. Depois de uma sessão de tratamento voltei para casa apoiada nele. Ele deitou-me no sofá colocou uma manta em cima de mim, mas não ficou ao meu lado. Desapareceu da sala. Quando me tentei levantar sozinha ele apareceu solícito para me ajudar. Estava mal disposta. Ia vomitar. Ele segurou-me pela cintura e levou-me de forma apressada e atabalhoada até à casa de banho. Depositou-me em frente à sanita e saiu fechando a porta atrás de si. Senti-me sozinha. Não tinha forças para aguentar o meu corpo debruçado sobre a sanita. Deixei-me cair com a cabeça encaixada na abertura da sanita e vomitei. Não tive forças para afastar o cabelo ou o que restava dele. Estive assim durante muitos minutos. Talvez horas. Quando senti que o meu corpo estremecia menos fiz um esforço sobre-humano e levantei-me. Limpei a sanita com uma toalha húmida. Arrastei-me até à bacia e lavei a cara e as pontas do cabelo e por fim escovei os dentes. Assim que coloquei a mão na maçaneta, Luís abriu a porta e levou-me de volta para o sofá. Apesar de ele estar sempre comigo comecei a sentir-me abandonada. Deixou de tomar as refeições comigo para evitar ver as minhas mãos trémulas que levavam desajeitadamente a sopa à boca. Começou a dormir no quarto de hóspedes para não me ouvir gemer. Sempre que eu mudava de roupa ele saía discretamente da divisão onde estávamos para não encarar o meu corpo deformado pela retenção de líquidos e pela cicatriz. No dia em que lhe pedi para me rapar o cabelo, foi a gota de água. Disse que me levava ao cabeleireiro para fazê-lo. Eu pedi-lhe, implorei-lhe que fosse ele a rapar-me a cabeça em casa. Mostrei-lhe que não tinha forças para enfrentar uma ida ao cabeleireiro e tudo o que isso implicava, desde os olhares até às perguntas e contares de histórias de cancro que nada tinham que ver comigo. Era penoso para mim fazer isso fora da minha casa. Quero dizer, era ainda mais penoso fazê-lo fora de casa. O Luís encolheu-se e finalmente chorou. Entre soluços infantis repetia que não era capaz. Que não conseguia. Que era demasiado para ele. Nesse momento entrou no quarto que agora ocupava e tirou de lá uma mala já feita. Sempre me questionei em que momento é que a fizera. Há quanto tempo estaria aquela mala ali à espera dele? Quando é que ele tomara aquela decisão? Em que momento é que ele decidiu que ia embora? Foi logo no início quando o médico nos deu o resultado? Foi na primeira sessão de tratamento? Foi na primeira vez que tive uma sessão adiada por ter as defesas em baixo? Terá sido no dia em que fiz a cirurgia? Em que ele viu a cicatriz? Quanto tempo é que ele permaneceu meu? Quanto é que ele aguentou por mim? Qual foi o momento em que deixou de haver nós?

- Vai à próxima aula? – Tomás não reagiu minimamente ao meu comentário. Não me fez perguntas. Não lamentou.

- Não sei.

- Tem de ir. Peço-lhe por tudo. – Tomás sorriu e fez-me um olhar pedinchão. – Agora que encontrei o par perfeito…

Rimo-nos alto. Talvez… Talvez vá.

- Moro ali naquela casa.

Ele encostou o carro. E eu saí mais leve, menos culpada por ser deformada. Senti-me novamente humana e alguma coisa em mim palpitava de novo. Abanei os ombros e senti um peso invisível escorrer-me pelo corpo abaixo. Tive dificuldades que já passaram e que eu permiti que continuassem a viver comigo no meu dia-a-dia. Viver no passado é o mesmo que morrer várias vezes da mesma forma lenta e agonizante. O cancro é passado. O Luís é passado. O meu corpo escultural é passado. Acabou. Agora tenho o que tenho e o dia de amanhã será apenas o que eu fizer dele.

 

 

 

CAPITULO IV

 

Estou sentada num banco da avenida a ler um livro ao sabor da maresia que me embala. Fecho os olhos permitindo-me abusar daquele calor de início de primavera. E volto a pensar no poema. Escrevi também um poema. Coloquei-o sorrateiramente na mala de uma desconhecida que passa por mim todos os dias de manhã naquela mesma avenida e que nunca retribui o meu cumprimento matinal. É linda. Deslumbrante mesmo. Mas tem uma má atitude. Escrevi-lhe um poema para alertá-la.

Ainda penso no meu poema. Naquele que alguém escreveu apenas a pensar em mim. Só para mim. Como aquele poema me conhecia bem.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A aberração das más-línguas



A aberração das más-línguas





    A maledicência é uma arte antiga e de tal forma generalizada que se tornou vulgar. Todos sabem desenvolvê-la com técnicas sofisticadas e com a imaginação e desenvoltura que se exige a um espetáculo de artes. Com tantos artistas de exceção esta arte tornou-se corriqueira. No entanto cada vez mais apreciada sendo considerada uma arte gratuita e de rua fazendo parte do nosso folclore.
    Vou aqui reproduzir a grandeza desta arte numa demonstração simples.
    Numa aldeia pacata e desinteressante, descansava parte da população na única esplanada disponível tentando tornar um domingo à tarde solarengo e entediante num acontecimento de entretenimento. “A moça estrangeira que está na pousada a passar férias é muito bonita”. “ Pois é! É pena ser demasiado magra”. “Também reparaste nisso? É só pele e osso”. “ Dá para contar os ossinhos todos que ela tem no peito”. “ Até parece ter os braços demasiado compridos e desengonçados de tanta magreza”. A voz do cidadão que lançou o primeiro elogio nem queria acreditar do que diziam todas as outras vozes. Será que estavam a falar da mesma rapariga? Então ele tentou atenuar os comentários desfavoráveis sem ser desagradável. “ Mas têm de admitir que aquele cabelo louro e comprido lhe dá um ar angelical. Até parece que ela emana uma luz divina”. “ É verdade o cabelo fica-lhe razoavelmente bem. É pena estar demasiado estragado nas pontas”. “ Estava todo espigado”. “ Parecia palha seca colada naquela cabeça demasiado oval.” A voz positiva fez mais uma tentativa elevando um pouco o tom de voz para que o ouvissem. “Ah! Mas têm de admitir que ela tinha um sorriso lindo. Uns dentes perfeitos que brilhavam de tão brancos.” As vozes do resto da população quase não o ouviam de tão entusiasmadas que estavam com a conversa. “ Era um brilho quase demoníaco”. “Eu cá fiquei assustado quando ela sorriu para mim.” “ E tinha uma borbulha mesmo por cima do lábio…”. “Notava-se que toda a sua pele era macilenta.” “Era realmente uma pele estranha”. “ Como se estivessem furúnculos a surgir por debaixo dela”. A voz positiva emitia pareceres cada vez mais altos, mas com cada vez menos ouvintes “ Ela tinha um corpo escultural… Parecia uma daquelas modelos internacionais…” E a voz positiva foi sendo cada vez mais abafada até que já ninguém a ouvia. “ Nunca tinha visto uma coisa assim”. “Quando a viu, a minha menina até se arrepiou de medo”. “ O meu rapaz desatou num berreiro”. “Não acho bem que uma aberração dessas venha para aqui incomodar pessoas de bem”. “Tens razão. Mas o que havemos de fazer?” “Devemos escorraçá-la”. As vozes em uníssono concordaram em acabar com tamanha ameaça. “Vamos dar uma lição nessa aberração”. “Nunca mais assustará as nossas crianças”.
    Os archotes ergueram-se acima das cabeças pouco iluminadas e a perseguição começou. A aberração estava à porta da pousada onde se hospedara. Iniciou-se então uma chuva de pedras lançada pela multidão ainda distanciada da aberração. Mas a vontade de acabar com aquele medo que a aberração lhes causava deu-lhes coragem para se aproximarem e enxovalharem, agredirem e denegrirem a aberração. A aberração encolhia-se e defendia-se conforme podia sentindo-se humilhada e injustiçada. Por fim sem forças para lutar contra aquilo que não compreendia deixou-se cair inerte no chão. A população não sentiu felicidade com aquela vitória. Não sentiu satisfação por uma causa ganha. Não fazia parte do processo. Apenas foram embora.

    Uma última voz curiosa perguntou. “Sabem como se chamava a aberração?” Apesar de já quase todos a terem esquecido houve alguém que se lembrou. “ Ouvi ela dar um nome estrangeiro na pousada… Era Claudia Shiffer”.