domingo, 26 de maio de 2013

Capitulo XXIII - Nas Asas do Corvo

Capitulo XXIII

A ilha aumentava à medida que o avião se aproximava. O veludo verde recebia, numa passividade altiva caricias violentas de um mar celestial que transpirava um fogo-de-artifício branco numa tentativa frustrada de chama a sua atenção. O asfalto da pista do aeródromo pareceu-lhe insuficiente e pela segunda vez teve aquela sensação de que o avião tinha roçado o mar antes encontrar terra firme. O avião travou a fundo e o seu corpo impulsionou-se contra o assento da frente. E Então a explosão de aplausos rebentou num calor humano que apagava as frivolidades trazidas do resto do mundo. Vanda saiu do avião com uma mala de rodinhas arrastada atrás de si. Parou na rua e olhou à sua volta. As pessoas cumprimentaram-na calorosamente como se ela não se tivesse ausentado por tanto tempo. Passou a Rua da Matriz contornando a igreja embrenhou-se pelo labirinto de calçadas estreitas. Chegou finalmente a casa. Rodou a maçaneta sem recorrer à chave e sorriu quando a porta simplesmente se abriu. As paredes negras de basalto receberam-na no seu interior e ela sentiu que aquele era o seu lugar.
A casa estava impecavelmente limpa como se a casa fosse imune ao pó se sete meses de ausência. Era óbvio que alguém tinha tido a preocupação de manter a casa arejada e sem pó, uma vez que ela não avisara ninguém da sua chegada. Vanda Largou a mala e descalçou as sandálias. Sentia o corpo melado daquela humidade quente. A casa trouxe-lhe uma frescura agradável que a aliviou do calor de Verão que se sentia na rua.
- Olá!
Vanda levantou os olhos numa ânsia voraz de encontrar o rosto que correspondia à voz. Vasco estava com um ombro encostado à ombreira do quarto dela com o cabelo rebelde a cobrirem o olhar e os braços cruzados. Vanda sentiu-se paralisar. Queria saltar para aquele abraço conhecido, mas os seus braços não se abriram para ela.
- O que fazes aqui? – Vanda queria mostrar-se fria e distante e permaneceu no tapete de entrada com as sabrinas penduradas nos dedos da sua mão direita.
- Tenho morado aqui… - Vasco olhava-a com um olhar fixo que ela não conseguia descortinar.
- Ah! – Vanda baixou o seu olhar cobardemente, sem ser capaz de o enfrentar de frente. – Eu tenho pago a renda todos os meses… Pensei que continuasse com o contrato de arrendamento…
- E continuas… - Vasco desencostou-se da ombreira da porta e aproximou-se três passos. Os traços do seu rosto continuavam sério. E Vanda sentiu-se encolher, mas contrariando os seus sentimentos ergueu a cabeça e preparou-se para enfrentá-lo. – Tenho estado à tua espera.
Vanda abriu a boca, mas foi incapaz de proferir uma única palavra. O que significava aquilo. Iria ele ameaçá-la…Iria proibi-la de contactar com o filho?
- Senta-te a Vanda! A casa é tua… - Vasco disparava as palavras numa frieza que lhe gelava o sangue. Ela obedeceu, mas apenas depois de arrumar as sabrinas na sapateira.
- Eu estou cansada Vasco… Vamos despachar isto…
Vasco sentou-se na ponta oposta do sofá tentado manter a distância. Mas o sofá era pequeno e o perfume dela tomou conta da pequena distância.
- Pois… E tu és boa nisso.
- Nisso o quê?
- A despachar pessoas… - Vasco dirigiu-lhe um sorriso triste que lhe cortou o coração. Mas Vanda manteve-se imóvel e impenetrável.
- Porque é que estiveste de baixa durante tanto tempo? – Vasco queria falar no sobrinho, mas a preocupação com o que lhe tinha acontecido nestes sete meses sobrepunha-se a outras conversas que tinham de ter.
- Estive a fazer um tratamento…
- A quê? Estavas doente? – Ambos pareciam estar a percorrer um caminho minado, usando de uma cautela exagerada.
- Estava… Mas levei muito tempo a perceber. – Vanda suspirou ao ver que Vasco continuava a fitá-la esperando uma justificação melhor. – O Daniel achou que devia ser acompanhada por uns tempos. Esta minha obsessão pelas limpezas, pelos horários, pela perfeição é uma doença e tem de ser tratada.
- Ah! E melhoraste?
- Não como imaginas… Continuo com um quotidiano muito próprio… Mas já não tenho ataques de histeria porque a ponta do tapete está dobrada. Também ajudou-me a arrumar as várias etapas da minha em vida em gavetas. E estão todas fechadas. Aprendi a ser arrumada na minha cabeça e desarrumada na minha vida. – Vanda sorriu esperando um retorno de Vasco que não se verificou.
- Pensei que tivesses ficado chateada com o Daniel…
- Não foi ele que fez as asneiras… Fui eu. Ele apenas tentou tratar dos meus problemas da melhor forma possível.
- Ah! – Vasco desviou pela primeira vez o olhar concentrando-o num ponto distante. – Estiveste fora muito tempo. Deixaste o teu trabalho, a tua casa…
- Sim, mas eu arranjei uma substituta para as minhas aulas bastante competente. A escola não ficou prejudicada pela minha ausência…
- A escola não… - Vasco voltou a concentrar-se em Vanda. Existia uma química inegável no ar, como se as suas peles tivessem sido feitas para se completarem. E era difícil estar assim a manter uma distância tão curta que seria facilmente encurtada por simples gesto.
- Vieste para ficar?
- Não sei… - Vanda tinha de ser o mais sincera possível com ele. Afinal ela amava-o.
- O que vais fazer relativamente ao Matias?
Afinal era este o ponto que importava e Vanda sentiu-se um pouco desiludida.
- Vou contar-lhe a verdade… - Vasco baixou os olhos e deixou o tronco descair apoiando os cotovelos sobre as pernas. Esfregou as têmporas com as pontas dos dedos. Vanda tinha-o desiludido… Podia senti-lo. – Agora quero saias Vasco! Estou cansada e nada do que me digas vai mudar aquilo que vim cá fazer. – Vanda suspirou.- Só estive à espera que o Matias recuperasse da sua doença. Agora é a altura ideal para colocar as coisas no lugar certo. – Como Vasco não se moveu, Vanda levantou-se e dirigiu-se para a porta abrindo-a. – Não temos mais nada para conversar.
Vasco fitou por uns segundos sem se mexer, mas acabou por ceder. Levantou-se contrafeito e dirigiu-se para a porta. Parou antes de sair e fixou o olhar de Vanda com uma profundidade que a incomodou.
- Essa terapia não te valeu de muito. Numa relação tomam-se decisões a dois. E quando não se chega a consensos respeita-se a opinião do outro. Amar não é aceitar e acatar tudo o que vem do outro. Amar é saber travar o outro quando ele age da forma errada. Amar é levantar a voz quando é necessário e abrir os braços quando se impõe a fragilidade de afinal se ter errado. Eu queria caminhar ao teu lado… Queria que independentemente da tua decisão tu desabafasses comigo e me pedisses uma opinião… E queria no fim poder acompanhar-te em qualquer que fosse a tua decisão… Mas para isso tu terias de aprender a amar…
Quando a porta se fechou, Vanda sentiu que aquele assunto não estava arrumado numa gaveta dentro da sua cabeça. Vasco ocupava todos os poros do seu ser. Como podia ele ter a ousadia de lhe dizer que ela não sabia amar? Que agitação era aquela que ele lhe provocava? Era amor… A sua alma queria gritar-lhe, mas a sua boca calava cobardemente aquele rodopio que a dominava. Que tristeza era aquele que sentia sempre que ele lhe virava as costas? Era amor… Que necessidade de o ver feliz era aquela que lhe pesava no peito? Era amor… Que atrevimento dele supor que ela não sabia amar.
Vanda estava a desfazer a mala e a organizar a sua roupa de Verão. A humidade daquele lugar acentuava as temperaturas que nem eram assim tão altas. Nem que ria imaginar o que seriam mais de 30º graus naquela ilha. Derreteria com toda a certeza. Vanda ouviu a porta de entrada abrir-se e voou para a sala na esperança que fosse Vasco. Sentiu um misto de desilusão e de felicidade quando viu na sua cozinha Catarina e Vera Câmara com um sorriso de boas vindas. Ambas cumprimentavam-na e repreendiam-na por aquela ausência tão longa e silenciosa.
- Sabes para que servem os telefones? – Catarina pousou um saco em cima do mesão e começou a tirar inhames e linguiça de dentro do saco.
- Não merecias que viéssemos aqui receber-te… Mas tens sorte que aqui não há muito que fazer e tu és a novidade de agora.
- Esse é que é o teu herdeiro? – Vanda tirou o bebé minúsculo do colo de Vera sem lhe pedir licença e só depois de se deixar encantar por aquela criatura pequenina é que percebeu o que tinha feito. Sorriu… Afinal a terapia tinha valido de alguma coisa. – É lindo, lindo, lindo… Mas não consigo perceber com quem é parecido. – Todas riram ao mesmo tempo e Vanda sentiu-se grata por estar ali rodeada pelas amigas sem grandes dilemas para resolver naquele momento. Os inhames foram fritos juntamente com a linguiça entre risinhos e confidências. Catarina tinha confessado que Daniel estava a tentar ocupar a única vaga de médico que ficaria vaga com a reforma do Dr. Vicente. Vera reclamava das noites mal dormidas.
- Se não é o choro do filho… São os roncos do pai! – O riso fácil surgia e a mesa ficou posta ao mesmo tempos que o estômago de Vanda roncava. Vanda é que colocara a mesa e não tinha colocado base por baixo dos pratos. Partira o pão caseiro usando as mão sem luvas e permitiu-se petiscar um pouco de linguiça directamente das mãos de Catarina.
- Hum… Isto sane melhor na tua cozinha do que na minha! – Vera Fechou os olhos e gemia enquanto mastigava.
- Isso é porque é sempre melhor sujar a casa dos outros do que a nossa. – Vanda piscou um olho a Catarina.
- Afinal de contas tu é que és a mãe do Matias, hem? – Vanda quase se engasgou com aquele cometário de Vera.
- Como é que sabes?
– Foi o Joe que me disse. Sabes que ele e o Vasco são muito próximos e o Vasco desabafou com ele.
Catarina reparou na tensão que Vanda adquiriu com aquele assunto. Elas eram amigas para os bons e maus momentos.
- Existe um lado positivo nessa história.
- Qual? – Vanda interrogou Catarina com o mesmo olhar incrédulo que Vera lhe dirigia.
- Não sofreste de síndrome de hellp, portanto podes ser mãe sem esse tipo de complicações quando quiseres. – Aquela constatação foi tão absurda que todas riram com vontade…
- Amanhã vou contar a verdade ao Matias.
Aquela notícia caiu como uma bomba naquela mesa. As duas amigas pararam de comer e fitaram Vanda incrédulas.
- Tu vais o quê? – As vozes esganiçaram-se em uníssono.
- Vou repor toda esta situação. Afinal de contas eu é que sou a mãe do Matias. Alguma de vocês gostava de viver numa mentira destas toda a vida?
- Não, mas… - Vera olhava para o filho tão frágil a dormir no carrinho ao seu lado. – Ele é apenas uma criança… E já passou por tanto…
- Finalmente, ele está estável junto da família… - Catarina pousou os talheres dando a sua refeição por terminada. – O Marco e a Vera não merecem…
- E eu? – Vanda agora sentia-se insultada. – Acham que eu mereço esta situação. Ter de tomar este tipo de decisões… Acham que o Matias merece viver uma mentira sem ter qualquer hipótese de escolher a sua verdade?
Ambas se calaram.
- é uma situação delicada Vanda… Eu não queria estar no teu lugar. Mas faças tu o que fizeres, nós vamos estar aqui para te apoiar. – Catarina pegou-lhe na mão.
- Mas também vamos apoiar o Marco e a Vera… Nós somos uma família nesta ilha. E tu tens de perceber isso.

Vanda ficou sozinha com uma cozinha por arrumar. Arregaçou as mangas e agradeceu ter aquela tarefa. O dia seguinte seria um dia duro.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Capitulo XXII - Nas Asas do Corvo


Capitulo XXII

Vanda despertou com a claridade a entrar pelo quarto e a promessa de um novo dia. Não lhe agradava o facto de vestir a mesma roupa, mas sinceramente não tinha grande importância. Enviou as calças e a camisola, pegou na mala, prendeu o cabelo sem sequer o pentear. Tomou o pequeno almoço na residencial e saiu. Parou numa mercearia e comprou uma escova de dentes e uma pasta dentífrica. Entrou de seguida num café escuro e vazio de clientes. Tomou um café curto e foi à casa de banho lavar os dentes. Essa parte da sua higiene diária não conseguia abdicar. De seguida dirigiu-se à rodoviária e apanhou um autocarro para Ourém. O seu espírito não absorveu as mudanças da pequena cidade que continuava a parecer uma aldeia. Não era uma visita de cortesia à sua terrinha, mas uma visita ao seu passado. Vanda apanhou um táxi e dirigiu-se para fora da cidade em direcção à casa da avó.
A casa continuava situada numa inclinação de terreno sem nada à volta para além de ervas altas. As paredes brancas começavam a descarnar-se deixando à mostra a pedra encoberta. A porta da frente estava descaída e o verde gasto e sujo descolava-se da madeira podre. Vanda rodou a maçaneta mas sem sucesso. O seu coração galopava uma angústia velha no peito. Vanda olhou em volta. Os vasos sustentavam terra seca sem vestígios de vida. Vanda olhou para um em especial. Levantou o vaso e lá estava a chave enferrujada. Sorriu um sorriso de reconhecimento. Finalmente abriu a porta e estava tudo arrumado exactamente como se lembrava. O pó descolorava os móveis velhos e antiquados e a carpete azul onde ela tantas vezes rebolara. A lembrança daquela pequena sala cheia pelos pais e pela a avó inundou-lhe a memória… e de repente era como se tivesse estado sempre ali. Vanda sentou-se na cadeira tosca que balouçava encostada à janela, onde a avó gostava de se sentar a fazer renda, e falava dos tempos antigos em que ela se sentia confortável. Vanda costumava sentar-se ali quando a avó não estava por perto. E quando a senhora se sentava a balouçar-se pacificamente, Vanda sentava-se no chão com as suas bonecas espalhadas sobre a alcatifa azul pedindo à avó que lhe contasse histórias. E ela estava ali novamente com a sua voz aguda e trémula a contar as aventuras de D. Nuno Álvares Pereira. Vanda sorriu e deixou-se balouçar naquela cadeira olhando pela pequena janela e vendo o quintal abandonado à libertinagem de uma vegetação selvagem.
- Gosto mais da tua casa do que da minha casa em casa em Paris! – Vanda tinha novamente oito anos e penteava os cabelos dourados de um nova boneca.
- Se vivesses aqui e passasses férias lá, passavas a gostar mais da casa de Paris. – A avó parecia ter sempre respostas inteligentes.
- Mas sinto sempre muitas saudades tuas.
A avó sorriu-lhe uma bondade que Vanda sentiu novamente.
- Eu também tenho sempre muitas saudades tuas minha pequenina. Mas os filhos devem estar perto dos pais. – A televisão começou a dar as noticias das oito. Era um momento sagrado para a avó. Ela aumentava o volume e prendia-se a cada noticia com uma atenção comentada de vez em quando. A noticia de abertura tratava uma troca de bebés numa maternidade que tinha acontecido há quase dez anos. E agora levantava-se as questões típicas. As crianças trocadas tinham-se habituado a uns pais que não eram os seus. Estavam comentadores e psicólogos a discutir o assunto e o melhor para as famílias.
- Esta gente fala demasiado nos problemas dos outros. Os dois casais e as crianças é que sabem o que estão a passar e eles é que devem decidir o que é melhor para eles… Raios parta quem tem tanta opinião e tão pouco para dar…
Vanda riu-se da asneira que a avó disse.
- Se me dissessem que eu teria outros pais, eu não os queria…
Vanda arregalou os olhos perante aquela lembrança que lhe assentou como um soco e sentiu-se sufocar.
Daniel entrou com a rapidez do nervosismo ao ouvir os gritos de Vanda. Ela estava enrolada sobre si mesma no chão da cozinha. A mesma cozinha onde ela tinha sido violada. A mesma cozinha onde ela matara o seu violador. Daniel debruçou-se sobre ela e obrigou-a a encará-lo. Ela surpreendeu-se quando o viu e agarrou-se a ele afundando o rosto no seu pescoço como se quisesse privar a vista daquela lembrança.
Daniel conduziu-a para fora de casa e sentou-a num degrau de pedra. Deixou que ela chorasse e quando o cansaço se sobrepôs à dor sentou-se ao seu lado.
- Como é que tu estás aqui Daniel?
- O Vasco ligou-me e contou-me a vossa conversa. – Daniel deixou que a informação assentasse na mente dela. – Ele queria vir procurar-te, mas eu não deixei.
- Ah! – Foi tudo o que Vanda conseguiu dizer.
- Precisamos de falar Vanda. De ter uma conversa franca e definitiva… Mas agora não estás em condições.
- Hum…
Daniel levantou-se e ajudou-a a dirigir-se para o carro. Entraram e Vanda adormeceu quase imediatamente.
O toque de um telemóvel despertou-a numa confusão de ideias. Vanda abriu os olhos e não reconheceu o quarto. Levantou-se de um pulo e correu para a porta rodando a maçaneta numa aflição duvidosa. Quando chegou a uma sala branca e bem decorada acalmou-se ao encontrar Daniel sentado numa cadeira roxa com um design engraçado que fazia lembrar uma mão aberta.
- Olá dorminhoca! – O sorriso que Daniel forçou não lhe chegou aos olhos. – Tens fome?
Vanda surpreendeu-se com a reacção do seu estômago. Estava verdadeiramente faminta. Daniel conduziu-a a uma cozinha pequena mas bem equipada em que um azul celeste contrastava com o inox dos electrodomésticos de uma forma confortável. Daniel preparou uns ovos mexidos que ela devorou sem trocarem uma única palavra.
- Queres mais?
- Não. Estou bem assim obrigada! – Vanda seguiu Daniel de volta à sala e sentou-se na ponta do sofá. – Esta é a tua casa?
- Sim! É o meu canto, o meu mundo! – Daniel aproximou-se dela no sofá. – Não trago aqui muitas mulheres… Tu és uma sortuda. – ambos riram um riso constrangido que antecipava uma longa e dolorosa conversa. – Temos de falar Vanda!
- Sobre o quê?
- Sobre a verdade de tudo isto! Eu vou falar contigo abertamente e gostava que abrisses a tua mente para tudo o que vamos conversar.
Vanda assentiu.
Daniel levantou-se e serviu-se de um pouco de licor beirão. Bebeu um longo gole e fechou os olhos por uns momentos procurando as palavras certas para começar aquele diálogo.
- Lembras-te do tempo em que estiveste internada?
- Sim! Quer dizer mais ou menos… - Vanda mexeu-se do sofá tentando encontrar uma posição mais confortável. – Existem momentos pouco claros na minha mente. Suponho que seja por causa da medicação…
- Quando te dissemos que estavas grávida, tu choraste durante dias seguidos e nunca disseste uma única palavra. Beliscavas a tua barriga até fazeres nódoas negras e por vezes sangue. Estiveste durante duas semanas amarrada à cama… Quando dei a ordem de te amarrarem senti que estavam a martelar-me na cabeça… Mas o pior foi quando cheguei ao teu quarto e vi-te de braços e pernas esticados presos à barra da cama. Tu nem te mexeste quando entrei no quarto. Tentei falar contigo, mas nem me olhaste mantiveste-te imóvel a fixar um ponto muito distante como se só o teu corpo estivesse ali. Os teus olhos não emitiam uma única expressão quando eu estava contigo. Fechavas-te num mundo inacessível e o teu corpo não te traía. Nem um único músculo se mexeu, mas uma lágrima rolou pela tua face inexpressiva e eu saí do quarto a correr. Queria mandar que te libertassem, mas eu sabia que não podia fazer isso. Tu fizeste com que tomasse as decisões mais difíceis da minha vida…
- Desculpa. – Vanda não se lembrava bem dessa fase. Agora parecia realmente lembrar-se de ter estado atada para não se magoar. Mas era uma lembrança vaga e muito enevoada. No entanto Vanda lembrava-se bem do que lhe ia na alma nesse momento. Queria morrer… Queria que aquela gravidez acabasse por qualquer motivo… ela não queria dar à luz o filho de um monstro. Não suportaria. Lembra-se de tentar magoar a barriga e quando não podia magoá-la por estar com os movimentos limitados, lembra -se de passar horas a fazer força para ver se expelia aquilo que estava a crescer dentro de si.
- Tu não querias aquela criança. Tu gritavas isso mesmo durante o sono.
- Eu falava enquanto dormia?
- Era a única altura em que ouvia a tua voz. Tinhas muitos pesadelos e normalmente falavas, muitas vezes de uma forma desconexa, mas noutras vezes fazias sentido. E naquela altura era bastante evidente que não querias aquela gravidez. E depois acalmaste e deixaste de estar presa à cama. Passavas os dias a deambular. Já não magoavas a tua barriga, e já não sonhavas alto. Mas não me pareceu que tivesses aceite a tua gravidez… Apenas estavas num estado e apatia conformista. Depois entraste em trabalho de parto mais cedo do que seria esperado, mas num período em que já não era demasiado frágil para o bebé.
- Pois foi…
Daniel mudou de posição. Inclinou-se para a frente e posou o copo em cima da mesa. Descansou os cotovelos em cima dos joelhos e esfregou o pescoço concentrando-se no que tinha para dizer.
- Vanda!
- Sim…
- Vou precisar que entendas tudo aquilo que te vou contar… E por favor, se quiseres culpar alguém, culpa-me apenas a mim…
- Não estou a perceber Daniel!
- As únicas reacções que vi da tua parte relativamente à gravidez foram as que já te descrevi. Foram reacções negativas… E depois apenas um silêncio profundo. E quando dei conta estava numa maternidade a dar à luz…
Daniel fez mais uma pausa olhando o fundo do copo vazio.
- Estava na maternidade a acompanhar-te, quando o Vasco me ligou a dizer que a cunhada tinha dado entrada de urgência na mesma maternidade. Os dois partos deram-se quase em simultâneo e eu como amigo do chefe de serviço tive praticamente livre acesso aos dois processo. Tu deste à luz um rapaz que apesar de prematuro era saudável e a Vera deu à luz um bebé com muitos problemas que não resistiu ao parto.
Vanda abriu muito os olhos com uma compreensão lenta que se formava incrédula na sua mente.
- Cabrão! – Vanda libertou toda a sua energia nuns punhos fechados que se abatiam sobre Daniel numa chuva sucessiva de movimentos descoordenados e imprecisos. Daniel agarrou-a com algum esforço e obrigou-a a sentar-se. – Tu sabias… Foste tu que me tiraste o meu filho…
Aquela acusação magoou-o mais do que os socos.
- Ouve-me até ao fim Vanda… Depois podes nunca mais olhar para mim… Podes até processar-me… Faz o que quiseres, mas ouve-me até ao fim.
Vanda obrigou-se a sossegar e sem derramar uma única lágrima fixou-lhe aquela olhar negro e sombrio que o fez sentir-se encolher.
- Põe-te no meu lugar. Tu estavas internada num hospício recusando tratamentos e, na minha óptica, odiando o ser que geravas dentro de ti. Não havia sequer a hipótese na minha cabeça de ficares com aquela criança. Nem imaginei isso por um segundo… Até aquele dia eu imaginei que a criança seria entregue aos serviços sociais. E tu viverias com a sombra de teres dado vida a um novo monstro… Eu juro que o que fiz naquele momento foi convencido de que te estava a proteger… Pareceu-me o mais correcto… Tinha de um lado uma louca que rejeitava o filho que paria condenando-o a um crescimento entregue a instituições. Tinha do outro lado um casal que desejava aquele filho com todas as forças e que proporcionaria uma vida feliz àquela criança. Tinha ainda um bebé que podia ser criado em instituições privado de amor e provavelmente a sentir o peso da rejeição de uma mãe que o odiava e o peso de ter sido concebido de uma forma tão perversa… Ou que podia ser criado no seio de uma família que o acolheria e que se dedicaria a fazê-lo feliz sem as preocupações que deviam ser proibidas a todas as crianças. – Vanda reparou que o Daniel chorava e deixou-o chorar.
- A Vera ou o Marco sabem dessa troca? – Vanda mantinha uma postura demasiado rígida, um ar altivo e uma expressão fria .
- Agora já devem saber…
- Como assim?
- Quando o Vasco me ligou, eu contei-lhe tudo. Ele ficou furioso e viajou para o Corvo. Disse-me que tinha de contar a verdade.
Vanda pensou naquela situação toda. A sua alma chorava, mas o seu corpo recusava-se. Ela agora sabia a verdade… finalmente. E o que é que significava aquela nova verdade? O que significava verdadeiramente estar na posse de uma verdade que lhe foi ocultada durante tantos anos? Não conseguia olhar para Daniel com uns olhos verdadeiramente acusadores. Chegava até a sentir algum amor naquela atitude. Seria possível sentir-se amor na mentira? Ela sentia naquele exacto momento o peso da compaixão que despertou um dia em Daniel e os sacrifícios que ele se dispôs a fazer por ela sem lhe pedir nada em troca. Era-lhe fácil agora acusá-lo. Ela possui agora todas as condições que lhe conferem a dignidade da acusação. Mas na altura em que estas decisões forma tomadas, ela alheou-se a comprometer-se com qualquer tipo de decisão. É fácil quando nos momentos difíceis deixamos os outros decidirem por nós, e quando chega a calma que vem sempre depois desses momentos, é fácil apontar o dedo ao resultado dessas decisões. O difícil teria sido ela falar, erguer a sua voz e dizer que não estava doida e que queria ajuda para criar o filho… Mas ela não o fez e deixou que a conduzissem. Só tomou as rédeas da sua vida quando a lhe foi mais confortável e não podia exigir que estivesse tudo à sua espera. A sua felicidade parecia  uma porta perra, que só abre o suficiente para uma espreitadela.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Capitulo XXI - Nas Asas do Corvo


Capitulo XXI

O coração martelava dentro do peito numa inquietação vulnerável e todo o seu corpo reagia a cada impacto do batimento. A cabeça parecia pesar toneladas, motivo pelo qual Vanda encostou-a ao vidro do autocarro enquanto olhava a paisagem sem a absorver. A culpa, o amor, a amizade, a lealdade, a paixão, a vontade misturavam-se numa sopa passada em que já não conseguia distinguir o ingrediente principal. Durante a sua infância guardava como recordação o sentimento de felicidade. Fechava os olhos e via o rosto sereno e gasto da mãe sorrindo-lhe por entre as olheiras carregadas de horas de trabalho. O pai chegava a casa ao entardecer e pegava-lhe ao colo atirando-a ao ar como se ela fosse uma pena. E ela voava como nunca mais foi capaz de voar. A sua voz grossa tornava-se suave e doce. “Olha a minha pequena fada a voar!”. “Eu sou uma fada pai?. “ És a mais talentosa das fadas.”. E ela acreditava. Sentia ainda aquelas mãos grandes e duras profundamente marcadas por calos novos que se formavam ao lado dos velhos. Aquelas mãos eram sinónimo se segurança e confiança quando se sentia no ar prestes a cair. Vanda não sabe precisar o exacto momento em que começou a sentir vergonha dessas mãos demasiado deformadas para pegar numa caneta. A imagem do pai dentro do banco a ser atendido por um senhor distinto invadiu-lhe a mente. Ela estava ao seu lado e corou de embaraço quando o senhora segurou delicadamente as pontas da folha onde o pai assinava numa tentativa frustrada de conseguir uma melhor assinatura. O embaraço transformou-se em raiva quando o pai puxou da sua humildade e desculpou-se com o facto de ter poucos estudos. O senhor bem educado sorriu um sorriso condescendente que trucidou o orgulho de Vanda. A adolescência é uma idade parva em que se perde a inocência de criança sem se ter adquirido a esperteza de um adulto. É um período em que este vazio é preenchido por valores que definem o futuro. E Vanda encheu-se de rancores contra as suas origens humildes. Insurgiu-se contra Deus e o diabo. Chorou e fez chorar aqueles que a amavam. Colecionou amarguras, vendo em todas as atitudes dos pais afrontas à sua dignidade sem perceber que não a tinha. A dignidade só se eleva antes da critica. Quem critica sem ter criado argumentos na sua vida para exemplificar o contrário está isento de dignidade.
Vanda adormeceu e sonhou com a avó. O seu olhar doce, na noite em que Vanda expulsara os pais da sua vida, estava novamente ali depositado nela. E aquele olhar magoou-a profundamente. Não era um olhar de acusação, nem tão pouco de desdém. Era pior. Doía mais. Era um olhar de pena.
- Quando plantamos o mal, nasce um inferno! – As palavras esquecidas daquela velhota analfabeta renasceram na sua mente.
A avó acolheu-a nos seus braços e na sua vida. E Vanda poderia ter aproveitado aquela nova oportunidade numa aldeia em que ninguém se distinguia. Uma aldeia feita de gente humilde, em que eram todos parecidos. Ali não havia um fosso entre ela e os outros. E de repente já não lhe bastava apenas ser igual aos outros. Ela queria ser superior aos outros. E assim a sua popularidade na escola era aumentada pela sua estupidez e a admiração que ela lia nos olhos dos colegas eram na verdade uma maledicência que ela alimentava com um andar altivo e um riso demasiado fácil e estridente.
- O riso em excesso é constate na boca dos tolos. – A avó afligia-se, mas na ignorância da sua velhice era ludibriada pela neta entre carinhos e argumentos que a excluíam dos tempos modernos.
Vanda passou por terapias suficientes para perceber que preencheu demasiado a sua adolescência de forma a não ter de pensar nem sentir a morte dos pais. Mas ela sentia a sua falta e a culpa pesava-lhe na consciência e no peito.
Agora é uma mulher adulta e independente mas prisioneira das sombras do passado sentindo-se pequena e insignificante perante a magnificência da vida como se não fosse digna de a usufruir. A capacidade de saber viver não é um dom que todos possuem. É como o projecto de voar do Leonardo Da Vinci. Ele idealizou, sonhou, projectou, mas não concretizou. Depois houve alguém que conseguiu colocar o homem no ar e até na lua. E agora existem os que usufruem dos sonhos dos outros. O tipo de humanidade resume-se a três categorias. Os sonhadores, os realizadores e os aproveitadores.
O autocarro saiu da auto-estrada e contornou uma grande rotunda fazendo com que as emoções de Vanda se sobressaltassem no seu peito, eriçando a pele e a mente numa corrente de recordações. A avenida estava arranjada numa calçada portuguesa que fazia o autocarro tremer. As árvores continuavam a cumprimentar os visitantes em vénias cordeais. Os contornos enlameados da estrada deram lugar a largos passeios onde grupos de peregrinos circulavam com coletes florescentes, cajados e posturas descaídas do cansaço, mas as vozes erguiam-se em uníssono para os céus. Vanda desceu do autocarro.
Atravessou a avenida e dirigiu-se para o santuário de uma forma instintiva. A capelinha mantinha-se exactamente como ela a recordava. Apenas a nova basílica se elevava naquele cenário sereno sem lhe despertar grande interesse. O ritual foi executado sem que ela precisasse de um esforço de memória. Tirou três velas e colocou o donativo na ranhura. Dirigiu-se para o toucheiro e acendeu a primeira vela. Fechou os olhos e pediu a Deus que ajudasse o seu filho Matias a ultrapassar a doença. Acendeu a segunda vela e pediu que Deus abençoasse os seus novos amigos nomeando os nomes. E por fim acendeu a última vela pedindo que Deus a orientasse nas suas decisões. Pediu iluminação e sabedoria suficientes para que desta vez não tomasse a decisão errada. Pediu forças para seguir o caminho certo.
Sentou-se na capelinha e o tempo ludibriou-a numa rapidez que lhe foi insensível. Ela fixou os olhos húmidos na imagem adorada e não rezou… Não Pediu… Não pensou… Apenas chorou um choro calmo que se fazia notar apenas pelo rolar de lágrimas gordas que lhe acariciavam a cara.
- Olá!
Vanda voltou a ligar-se ao mundo naquele cumprimento. Uma freira dirigia-lhe um olhar bondoso e uma sorriso gratuito.
- Olá! – Vanda não pode recusar o cumprimento.
- Gosto de vir aqui! – A freira sentou-se ao lado de Vanda causando-lhe desconforto. – Sinto uma paz que não posso explicar… É uma calma que apenas se pode sentir e as ideias ficam mais claras.
- Pois… - Vanda não estava para conversas. Não tinha disposição e a voz ameaçava tremer sempre que ela a forçava.
- Foi aqui sentada que eu soube qual era o meu papel no mundo!
- Ah… - Vanda revirou os olhos. Não queria acreditar que naquele momento de introspecção, uma velha freira ia satisfazer conversa de momento com ela.
- Eu tive uma vida difícil antes de seguir o caminho de Deus. – A freira mergulhou nos seus pensamentos em voz alta e Vanda teve de fazer um esforço para não a mandar calar. - Os meus pais eram ambos alcoólicos e dependentes de ajudas alheias.Mas independentemente disso eles amavam-me. Amavam-me muito. A assistente social comentava em voz alta como se eu não percebesse que eles não tinham capacidade para ficar comigo. Dizia que se eles me amassem de verdade mudavam de vida por mim. Como elas eram ignorantes… Perceber quem precisa de ajuda é o primeiro passo para poder ajudar. Quem julga antes de perceber raramente se torna útil na vida do necessitado.  Mas continuando… - A freira pousou a sua mão no joelho de Vanda dando-lhe umas palmadinhas calorosas, sem nunca olhá-la. – Então quando eu tinha seis anos estava a sair de casa para o meu primeiro dia de aulas com os meus pais. Eles tinham-me comprado uma mochila. E eu estava tão contente. Sabia que eles tinham poupado dinheiro para me comprarem aquela mochila cor de rosa com uns malmequeres bordados e prometi a mim mesma que iria cuidar bem daquela mochila até ficar velhinha. Morávamos no último andar de um prédio de quatro andares sem elevador, e eu comecei a descer as escadas demasiado gastas agarrada ao corrimão como fazia sempre e com a mochila às costas. O meu pai estava bêbado como era o seu normal, mas a felicidade de me estar a levar à escola com uma mochila que ele próprio tinha comprado estava-lhe estampada no rosto. De repente o meu pai tropeçou nas escadas e caiu em cima de mim. Rolamos os dois pelas escadas abaixo ao som dos gritos da minha mãe. Só me lembro de ter acordado no hospital. O meu pai estava sentado numa cadeira encostado à minha cama e chorava como uma criança. A minha mãe dormitava numa outra cadeira. Quando o meu pai ouviu a minha voz ajoelhou-se e agradeceu a Deus. Eu lembro-me de me ter sentido amada naquele momento olhando para aquele homem que em vez de chorar as suas nódoas negras chorava as minhas mazelas. Quando nos preparávamos para sair do hospital, o meu pai entregou-me a uma assistente social. Entregou-me de livre vontade. A minha mãe chorava… Não ela gritava uma dor que lhe devorava as entranhas e lhe salientava as veias da testa. O meu pai sorria-me um sorriso nervoso e repetia que era para meu bem. Que só fazia aquilo porque me amava muito. Eu pedi para ficar com eles. Implorei. Chorei. Esbracejei. Gritei. Foi como se me arrancassem um bocado de carne. A Assistente Social teve de pegar em mim e enfiar-me dentro de um carro. Colei-me ao vidro traseiro do carro até que os rostos dos meus pais se perderam no horizonte.
A freira deixou de falar de repente e só então Vanda soube que estava envolvida naquela história. Queria saber o que vinha depois.
- E então? – A freira sorriu com o olhar sempre fixo num ponto distante.
- Então fui para uma casa que acolhia crianças. Os meus pais iam buscar-me todos os fins de semana. E eu ansiava os fins de semana como um toxicodependente anseia a sua dose. E então deu-se o milagre. Como os meus pais só estavam comigo durante o dia de Sábado e Domingo começaram a fazer o sacrifício de se manterem sóbrios nesses dias. - Pela primeira vez a freira olhou Vanda nos olhos, e o seu olhar tocou-lhe a alma. – Eu tive a oportunidade de conhecer os meus pais sem o efeito de álcool. Foi preciso saber abdicar para ser compensada.
Vanda sentiu que aquelas palavras faziam sentido na sua vida, mas ainda não conseguia precisar como.
- E porque é que se tornou freira? – Vanda sentia-se envolvida naquele relato, naquela vida.
- Porque é o único lugar onde sinto que sou útil à humanidade. Eu rezo a Deus para que os homens saibam decidir bem. E uma boa decisão nem sempre é aquela que resulta dos nossos sonhos ou desejos. Uma boa decisão é aquela que pensa primeiro naqueles que nós amamos. O meu pai rezou naquele hospital para ter uma segunda oportunidade comigo. E conseguiu tomar a decisão correcta para mim e para ele. Tivemos momentos lindos. Fiquei a conhecer a história da minha família. Tive oportunidade de passear com o meu pai sem ter de lhe servir de equilíbrio. Corremos juntos. Rimos muito. Porque no Sábado e no Domingo ele era aquilo que não conseguia ser permanentemente. Eu rezo para que todos os homens tenham força para seguir o melhor caminho. E tu?
Vanda sentiu-se atordoada com a pergunta.
- Eu o quê?
- Já decidiste? Já pensaste no que é melhor para aqueles que tu amas? - A freira sorriu-lhe carinhosamente, levantou-se e foi-se embora com uma mochila cor de rosa com uns malmequeres bordados pendurada num ombro.

domingo, 17 de março de 2013

Capitulo XX - Nas Asas do Corvo


 Capitulo XX

O corpo permanecia numa dormência ansiosa premeditando uma dor que agonizava a mente, mas não se corporizava como Vanda esperava. A punção dos ossos da bacia foi adormecida por uma anestesia bem vinda. Vanda tinha dificuldade em sentir as extremidades do corpo e sentia a língua seca. Queria água mas a sua voz estava estrangulada.
- Olá Vanda! – Vasco entrou no quarto do hospital com um ramo de anturios que arrancou um sorriso fácil dos lábios de Vanda. – Sentes-te bem?
- Um pouco dormente e com muita sede.
Vasco foi buscar um copo com água e sentou-se na beira da cama encaixando a sua cabeça no antebraço e dando-lhe goles de água com um cuidado desnecessário que Vanda não recusou.
- O Matias vai ficar bem? – Vanda ansiava uma resposta positiva. Sentia-se agora com uma proximidade intima daquele menino, como se ambos partilhassem um elo forte e inquebrável.
- Está a correr tudo muito bem… Mas ainda é cedo para sabermos. – A tensão de Vasco era quase palpável e Vanda conchegou-o no seu colo tentando aliviá-lo da preocupação e finalmente ele chorou. Um choro reconfortante de quem aguentou o seu mundo e o dos outros com a firmeza dos heróis e que num colo quente e amado chora uma fraqueza humana.
Matias recuperou as cores e as forças voltando a sorrir um sorriso descarnado mas triunfante prometedor de muitas corridas no jardim traseiro da casa da D. Emília e de novas travessuras na companhia dos irmãos. Vanda abraçou-o e sentiu que o seu coração reagia a esta contacto com um estimulo diferente como se ela o pudesse defender de todos os males e perigos. Um instinto protector entranhou-se na sua pele e quando os seus olhos focaram aquele rosto magro e pálido ela soube que havia alguma coisa que os ligava. Algo que transcende o entendimento que dissipa as dúvidas e que dá sentido à vida. Um elo inquebrável capaz de uma força para além do alcançável. Vanda sentiu emoções sem encontrar palavras que as dignificassem. Então fechou os olhos e apenas sentiu, porque existem momentos que só podem ser sentidos.
Os corredores do hospital transpiravam as dores dos que ali habitavam e as tremuras dos medos que se tinham alojado permanentemente naquelas paredes. O arrepio que provoca a candura daquelas paredes imaculadamente brancas percorridas por batas igualmente alvas como se fossem anjos a trabalharem nervosamente contra os tormentos de corpos escuros e efémeros só era acalmado pela presença de Vasco. Ele acompanhava Vanda no mesmo ritmo de passo e com um braço protector a cobrir-lhe os ombros e os receios.
- Ele vai ficar bom! Eu sei que vai! – Vasco sorriu por completo como Vanda já não via há algum tempo.
- Eu sinto que ele  já está muito melhor! Daqui a nada vai voltar para casa e correr aquelas ruas com os irmão e nós vamos ralhar-lhe pelas diabruras próprias de um criança saudável.
- Vanda! – Vasco parou em frente ao carro fazendo Vanda virar-se para ele. Envolveu-lhe a cintura com os seus longos braços e puxou-a mais para si sem vergonha dos outros transeuntes que por ali passeavam apressados. – Obrigado Vanda! Por tudo o que fizeste pelo meu sobrinho… Salvaste a sanidade de uma família inteira.
Vanda sentiu-se invadida pela presença próxima de Vasco como sempre acontecia e os seus pensamentos começavam-lhe a parecer mais lentos.
- Não tens de me agradecer Vasco! Podes achar estranho isto que te vou dizer, mas de algum modo eu amo aquele menino…
- Hum! Acho que estou a ficar com ciumes!
Vanda riu alto, mas as palavras que ela sabia que Vasco queria ouvir dos seus lábios continuaram caladas. Apesar de Vanda senti-las. Vanda amava aquele homem como só uma mulher sabe amar, numa plenitude de sentimentos e emoções, numa fidelidade e lealdade de convicções. Ela amava-o e sentia-o em todos os poros do seu der, mas a sua língua parecia não querer reagir a este sentimento. Não era difícil dizer “eu amo-te”. Ela pensava-o permanente e insistentemente. O seu corpo senti-o profundamente. Os seus gestos ansiavam-no loucamente. Os seus olhos percorriam-no vorazmente. Os seus sentidos apuravam-se na sua presença como se ele fosse o seu pólo contrário. Mas a sua voz calava todo este turbilhão. Vanda olhou-o e depositou-lhe um beijo leve tentando evitar a desilusão da falta daquelas curtas palavras.
O silêncio dentro do carro era aterrador, mas Vanda não conseguia quebrá-lo. Foi Vasco que o fez daquela forma descontraída que o caracterizava.
- Estou ansioso que esta má fase termine. Nem imaginas como isto afectou a família.
- Eu sei que vocês são todos muito unidos. É isso que eu mais admiro na tua família. Todos sentem a dor de um e partilham-na de uma forma tão bonita. É como se o peso dessa dor fosse transportado por todos aliviando-o.
- Somos realmente  muito unidos. A minha mãe nem deixaria que fosse de outra forma. – Vasco sorriu ao lembrar-se da mãe. – Sabes que quando fizemos os teste de compatibilidade, um médico chegou a duvidar que o Matias fosse filho do meu irmão e da Vera? Só me apeteceu bater-lhe… Aquele médico idiota que para além da situação difícil ainda queria colocar mais uma farpa. A Vera ficou desorientada. Sabes como ela é…
Vanda emitiu um som afirmativo tendo retido apenas a informação que Matias não era filho deles. As suas mão transpiravam e o coração galopava dentro do peito numa certeza festiva como se lhe tivesse a atirar à cara “ eu bem te disse”.
- Ela gritou tanto com o médico que ele acabou por confirmar que era apenas uma suspeita que só poderia ser desfeita com um teste de DNA. – Vanda forçou um sorriso como se tivesse a partilhar o mesmo interesse naquele episódio. – Agora só me apetece rir. A Vera meteu-o no sitio. Gritou-lhe que o que ele queria era que ela gastasse mais dinheiro em exames caros. Berrou-lhe todas as dores do parto que sofreu para ter aquele garoto. Até chegou a agarrar-lhe o colarinho da bata. O pobre médico pediu desculpa e saiu dali com o rabinho entre as pernas. – Vasco riu alto e Vanda fez um esforço para também emitir um gargalhada.
Na saída do carro as pernas falharam-lhe e Vasco atribui ao facto de ela ainda se sentir fraca. Apoiou-a em si e levou-a até ao apartamento deitando-a carinhosamente na cama.
- Estás a sentir-te bem?
- Sim! Só estou um pouco cansada… Acho que vou dormir um pouco. – Vanda aconchegou-se na manta que jazia em cima da cama para dar firmeza ao seu cansaço.
- Claro! – Vasco passou-lhe os dedos longos e grossos pela face beijou-lhe a testa com uma ternura que tocou o mais intimo de Vanda. – Eu amo-te Vanda! – e saiu.
Vanda enroscou-se como um bebé na almofada e chorou baixinho. Ela tinha de agir da forma mais correcta. Ser mãe é mais do que ser outra coisa qualquer. É superior ao desejo, é mais do que amor. Está acima dos sonhos. Ser mãe é apenas sentir intensamente o filho e sabê-lo tão sabiamente que só uma mãe é capaz milagres na vida do seu rebento. Ela sentia-o… Ela sabia… Mas tinha de agir da forma mais correta. Tudo o resto na sua vida deixaria de fazer sentido se ela provocasse uma única fagulha de dor no seu menino. Amanhã ela pensaria melhor… amanhã.
O cheiro a torradas inundou a casa e preencheu os desejos básicos de Vanda. A mesa arranjada com uns malmequeres no centro tocaram-lhe a consciência e o seu grilo falante martelava a bengala dentro da sua cabeça alertando-a para traição que ela preparava.
- Que cheirinho bom! – Vanda sentou-se à mesa.
- Tudo para a minha doentinha preferida! – Vasco brindou-a com aquele sorriso brilhante encaixado numa cara larga e masculina que se afirmava numa barba por fazer e numa poder macho que a atraía sempre. O tronco nu não dava descanso aos olhos de Vanda que não se cansavam de admirar aqueles ombros largos, a cintura estreita e a barriga definida como se fosse uma tablete de chocolate preparada para uma trinca.
- Não estou doente! E é melhor não me mimares tanto…
- Vou mimar-te sempre… E tu vais ter de me aturar, porque não vais escapar-me das mãos novamente. – Vasco sentou-se na mesa e ela desejou que aquelas palavras fossem verdade. Desejou que ele não a odiasse.
- Seria capaz de me odiar Vasco? – a respiração sustida de Vanda alertou Vasco. Aquela pergunta não era inocente nem tão tola como parecia. Vasco pensou e respondeu com a certeza que ela merecia. Respondeu consciente de que no futuro teria de ser coerente com a resposta que desse naquele momento, porque Vanda era uma mulher especial, com fragilidades provocadas por uma vida difícil.
- Eu seria incapaz de te odiar… Por mais horrível que possas ser, e por vezes assustadora. A verdade é que odiar-te seria o mesmo que odiar uma parte de mim.
Vanda lançou-se para o seu colo e beijou-o calorosamente.
- Sabes o que sinto por ti, não sabes Vasco?
- Sei Vanda! Apesar de nunca me dizeres… - Vanda enterrou o seu nariz na cova do pescoço de Vasco .
A cozinha estava finalmente completamente limpa, e Vanda olhou-se ao espelho à procura de alguma imperfeição na sua roupa. Sorriu satisfeita.
- Vais já para o hospital? – Vanda calçava as botas equilibrando-se no tapete da entrada.
- Não! Quero ir à baixa comprar umas prendas para os meus sobrinhos. Se chego lá amanhã de mãos a abanar, dão-me cabo do juízo. – Vasco vestia o blusão de couro que lhe dava um ar rebelde e ainda mais apetecível. – Vens comigo, certo?
- Errado! Quero também fazer umas compras, mas prefiro ir a um centro comercial gigante. – Ambos riram.
- Posso ir contigo! Faço lá as compras. – Vasco pegou-lhe na mão enquanto desciam as escadas juntos.
- Eu adoraria ter a tua companhia, aborrecido com  o entra e sai de lojas que nunca mais acabam, quando tu só querias comprar dois pequenos presentes. E depois vou ter de enfrentar o teu olhar fulminante quando sairmos da loja numero quinhentos apenas com três saquinhos na mão. – Vanda sorriu-lhe condescendente. – Acho melhor fazeres as tuas compras na baixa, ao ar livre.
- Que mulher compreensiva que eu arranjei… - Ambos riram alto e despediram-se com a promessa de se encontrarem para o almoço.
Vanda sentia o coração palpitar quando entrou no hospital. Sabia que não era hora da visita, mas como tinha esperança que a deixassem visitar Matias. Tudo o que ela precisava estava dentro da sua mala.
- Ei! Ei! Não pode ir por aí! – Uma voz interrompeu-lhe a caminhada e Vanda inspirou fundo. Teria de ser convincente.
- Eu só vim ver o meu sobrinho!
- Mas ainda não é hora da visita. – A mulher de ancas generosas e rosto redondo demasiado afogueado sorriu-lhe gentilmente e Vanda sentiu-se encorajada.
- Eu sei! Mas tinha esperança de poder vê-lo antes de voltar para os Açores.
- Ah! É tia do menino Matias? – Vanda sabia que a referência aos Açores havia de despertar a solidariedade daquela mulher.
- Sou sim! O Matias queria muito que eu levasse uma carta que ele escreveu para os irmãos. – Vanda deixou descair a cabeça para o lado direito. Lera em qualquer lado, talvez num policial, que este gesto despertava piedade no outro sujeito.
- Bem! Não se pode demorar… - A mulher piscou-lhe um olho cúmplice feliz por poder ajudar .
Vanda entrou no quarto e Matias estava sentado a jogar PSP. Ela sentiu um orgulho crescente ao ver que ele usava naquela hora difícil o seu presente de Natal.
- Olá Matias!
- Olá professora!
Vanda sentou-se na beira da cama dele olhando-o profundamente. Num gesto instintivo abraçou-o e beijou-lhe o topo da cabeça.
- A tua mãe?
- Foi buscar um café.
- O médico pediu-me que te trouxesse isto. – Vanda tirou o kit que tinha guardado na sua mala, e entregou um cotonete longo ao Matias. – Tens de esfregar o interior da boca com este cotonete. Habituado a exames e rotinas estranhas, Matias obedeceu. Vanda guardou aquele cotonete com um cuidado extremo e despediu-se daquele menino com o coração dorido e ao mesmo tempo cheio de esperança.
O sol reclamava um pedaço daquele inverno longo e permitia que Vanda e Vasco desfrutassem de um almoço calmo junto ao rio.
- Vou adiar a minha viagem por uns dias, Vasco!
Vasco olhou-a com um olhar de duvida que Vanda fingiu não perceber.
- Porquê? – A pergunta saiu-lhe mais rispida do que realmente queria.
- Tenho andado a fugir do meu passado demasiado tempo e agora quero enfrentá-lo. Quero ir passar uns dias a Ourém. Quero visitar a campa dos meus pais e da minha avó. – Vanda sentiu a sua garganta apertar-se, e Vasco pareceu desorientar-se por uns segundos. Contornou a mesa e abraçou-a.
- Está bem Vanda! Eu fico contigo… Tenho de ligar ao Joe para ele continuar a cuidar das minhas coisas. – Vanda retirou o telemóvel da mão de Vasco num impulso.
- Não vais ligar a ninguém. Não quero que vás comigo…
Vasco afastou-se e voltou a sentar-se no seu lugar. As palavras assentaram-lhe como um soco no estômago.
- Pensei que estivessemos novamente juntos Vanda! – Vasco olhou-a com um olhar magoado e duro que Vanda não conseguiu enfrentar. – Eu não estou disponível para ocupar apenas uma parte da tua vida… Tu tens-me por inteiro… Ou eu ocupo toda a plenitude do teu ser ou então eu não sirvo para ti. Eu não sou nenhum tapa buracos sentimental Vanda…
O maxilar de Vasco contraiu-se e os olhos cerraram-se. A expectativa de uma resposta de Vanda estampou-se nas feições.
- Então se queres fazer parte de mim. Se queres ocupar cem por cento do meu ser, vê lá se aguentas com todos os factos…
Vasco arregalou os olhos surpreendido com aquelas palavras que lhe soaram a acusação.
- E eu aceito todos os factos da tua vida. E mais ainda… sofro contigo por alguns desses factos terem existido… Não percebo o que é que estás para aí a dizer…
Vanda sentiu um vulcão a formar-se dentro dela.
- Eu sou mãe do Matias! Aceitas esse facto? Aguentas com esta informação? Queres ser meu companheiro por completo, como o Marco é da Vera? Então diz-me que ficas do meu lado nesta história toda… Eu sou a mãe biológica do Matias. Ele é fruto das violações de que fui vitima. Corri metade deste país à procura dele e agora encontrei-o… - Vanda não conseguiu reter mais as lágrimas. As suas palavras saiam soluçadas e os seus lábios distorceram-se numa angústia velha. – Eu amo aquele menino que me foi roubado. Eu é que sou a mãe dele Vasco. Ainda estás comigo Vasco?
A hesitação chocada de Vasco fizeram-na antecipar a resposta. Vanda levantou-se da mesa e desapareceu da vista de Vasco sem que ele fosse capaz de uma reacção.