segunda-feira, 13 de maio de 2013

Capitulo XXII - Nas Asas do Corvo


Capitulo XXII

Vanda despertou com a claridade a entrar pelo quarto e a promessa de um novo dia. Não lhe agradava o facto de vestir a mesma roupa, mas sinceramente não tinha grande importância. Enviou as calças e a camisola, pegou na mala, prendeu o cabelo sem sequer o pentear. Tomou o pequeno almoço na residencial e saiu. Parou numa mercearia e comprou uma escova de dentes e uma pasta dentífrica. Entrou de seguida num café escuro e vazio de clientes. Tomou um café curto e foi à casa de banho lavar os dentes. Essa parte da sua higiene diária não conseguia abdicar. De seguida dirigiu-se à rodoviária e apanhou um autocarro para Ourém. O seu espírito não absorveu as mudanças da pequena cidade que continuava a parecer uma aldeia. Não era uma visita de cortesia à sua terrinha, mas uma visita ao seu passado. Vanda apanhou um táxi e dirigiu-se para fora da cidade em direcção à casa da avó.
A casa continuava situada numa inclinação de terreno sem nada à volta para além de ervas altas. As paredes brancas começavam a descarnar-se deixando à mostra a pedra encoberta. A porta da frente estava descaída e o verde gasto e sujo descolava-se da madeira podre. Vanda rodou a maçaneta mas sem sucesso. O seu coração galopava uma angústia velha no peito. Vanda olhou em volta. Os vasos sustentavam terra seca sem vestígios de vida. Vanda olhou para um em especial. Levantou o vaso e lá estava a chave enferrujada. Sorriu um sorriso de reconhecimento. Finalmente abriu a porta e estava tudo arrumado exactamente como se lembrava. O pó descolorava os móveis velhos e antiquados e a carpete azul onde ela tantas vezes rebolara. A lembrança daquela pequena sala cheia pelos pais e pela a avó inundou-lhe a memória… e de repente era como se tivesse estado sempre ali. Vanda sentou-se na cadeira tosca que balouçava encostada à janela, onde a avó gostava de se sentar a fazer renda, e falava dos tempos antigos em que ela se sentia confortável. Vanda costumava sentar-se ali quando a avó não estava por perto. E quando a senhora se sentava a balouçar-se pacificamente, Vanda sentava-se no chão com as suas bonecas espalhadas sobre a alcatifa azul pedindo à avó que lhe contasse histórias. E ela estava ali novamente com a sua voz aguda e trémula a contar as aventuras de D. Nuno Álvares Pereira. Vanda sorriu e deixou-se balouçar naquela cadeira olhando pela pequena janela e vendo o quintal abandonado à libertinagem de uma vegetação selvagem.
- Gosto mais da tua casa do que da minha casa em casa em Paris! – Vanda tinha novamente oito anos e penteava os cabelos dourados de um nova boneca.
- Se vivesses aqui e passasses férias lá, passavas a gostar mais da casa de Paris. – A avó parecia ter sempre respostas inteligentes.
- Mas sinto sempre muitas saudades tuas.
A avó sorriu-lhe uma bondade que Vanda sentiu novamente.
- Eu também tenho sempre muitas saudades tuas minha pequenina. Mas os filhos devem estar perto dos pais. – A televisão começou a dar as noticias das oito. Era um momento sagrado para a avó. Ela aumentava o volume e prendia-se a cada noticia com uma atenção comentada de vez em quando. A noticia de abertura tratava uma troca de bebés numa maternidade que tinha acontecido há quase dez anos. E agora levantava-se as questões típicas. As crianças trocadas tinham-se habituado a uns pais que não eram os seus. Estavam comentadores e psicólogos a discutir o assunto e o melhor para as famílias.
- Esta gente fala demasiado nos problemas dos outros. Os dois casais e as crianças é que sabem o que estão a passar e eles é que devem decidir o que é melhor para eles… Raios parta quem tem tanta opinião e tão pouco para dar…
Vanda riu-se da asneira que a avó disse.
- Se me dissessem que eu teria outros pais, eu não os queria…
Vanda arregalou os olhos perante aquela lembrança que lhe assentou como um soco e sentiu-se sufocar.
Daniel entrou com a rapidez do nervosismo ao ouvir os gritos de Vanda. Ela estava enrolada sobre si mesma no chão da cozinha. A mesma cozinha onde ela tinha sido violada. A mesma cozinha onde ela matara o seu violador. Daniel debruçou-se sobre ela e obrigou-a a encará-lo. Ela surpreendeu-se quando o viu e agarrou-se a ele afundando o rosto no seu pescoço como se quisesse privar a vista daquela lembrança.
Daniel conduziu-a para fora de casa e sentou-a num degrau de pedra. Deixou que ela chorasse e quando o cansaço se sobrepôs à dor sentou-se ao seu lado.
- Como é que tu estás aqui Daniel?
- O Vasco ligou-me e contou-me a vossa conversa. – Daniel deixou que a informação assentasse na mente dela. – Ele queria vir procurar-te, mas eu não deixei.
- Ah! – Foi tudo o que Vanda conseguiu dizer.
- Precisamos de falar Vanda. De ter uma conversa franca e definitiva… Mas agora não estás em condições.
- Hum…
Daniel levantou-se e ajudou-a a dirigir-se para o carro. Entraram e Vanda adormeceu quase imediatamente.
O toque de um telemóvel despertou-a numa confusão de ideias. Vanda abriu os olhos e não reconheceu o quarto. Levantou-se de um pulo e correu para a porta rodando a maçaneta numa aflição duvidosa. Quando chegou a uma sala branca e bem decorada acalmou-se ao encontrar Daniel sentado numa cadeira roxa com um design engraçado que fazia lembrar uma mão aberta.
- Olá dorminhoca! – O sorriso que Daniel forçou não lhe chegou aos olhos. – Tens fome?
Vanda surpreendeu-se com a reacção do seu estômago. Estava verdadeiramente faminta. Daniel conduziu-a a uma cozinha pequena mas bem equipada em que um azul celeste contrastava com o inox dos electrodomésticos de uma forma confortável. Daniel preparou uns ovos mexidos que ela devorou sem trocarem uma única palavra.
- Queres mais?
- Não. Estou bem assim obrigada! – Vanda seguiu Daniel de volta à sala e sentou-se na ponta do sofá. – Esta é a tua casa?
- Sim! É o meu canto, o meu mundo! – Daniel aproximou-se dela no sofá. – Não trago aqui muitas mulheres… Tu és uma sortuda. – ambos riram um riso constrangido que antecipava uma longa e dolorosa conversa. – Temos de falar Vanda!
- Sobre o quê?
- Sobre a verdade de tudo isto! Eu vou falar contigo abertamente e gostava que abrisses a tua mente para tudo o que vamos conversar.
Vanda assentiu.
Daniel levantou-se e serviu-se de um pouco de licor beirão. Bebeu um longo gole e fechou os olhos por uns momentos procurando as palavras certas para começar aquele diálogo.
- Lembras-te do tempo em que estiveste internada?
- Sim! Quer dizer mais ou menos… - Vanda mexeu-se do sofá tentando encontrar uma posição mais confortável. – Existem momentos pouco claros na minha mente. Suponho que seja por causa da medicação…
- Quando te dissemos que estavas grávida, tu choraste durante dias seguidos e nunca disseste uma única palavra. Beliscavas a tua barriga até fazeres nódoas negras e por vezes sangue. Estiveste durante duas semanas amarrada à cama… Quando dei a ordem de te amarrarem senti que estavam a martelar-me na cabeça… Mas o pior foi quando cheguei ao teu quarto e vi-te de braços e pernas esticados presos à barra da cama. Tu nem te mexeste quando entrei no quarto. Tentei falar contigo, mas nem me olhaste mantiveste-te imóvel a fixar um ponto muito distante como se só o teu corpo estivesse ali. Os teus olhos não emitiam uma única expressão quando eu estava contigo. Fechavas-te num mundo inacessível e o teu corpo não te traía. Nem um único músculo se mexeu, mas uma lágrima rolou pela tua face inexpressiva e eu saí do quarto a correr. Queria mandar que te libertassem, mas eu sabia que não podia fazer isso. Tu fizeste com que tomasse as decisões mais difíceis da minha vida…
- Desculpa. – Vanda não se lembrava bem dessa fase. Agora parecia realmente lembrar-se de ter estado atada para não se magoar. Mas era uma lembrança vaga e muito enevoada. No entanto Vanda lembrava-se bem do que lhe ia na alma nesse momento. Queria morrer… Queria que aquela gravidez acabasse por qualquer motivo… ela não queria dar à luz o filho de um monstro. Não suportaria. Lembra-se de tentar magoar a barriga e quando não podia magoá-la por estar com os movimentos limitados, lembra -se de passar horas a fazer força para ver se expelia aquilo que estava a crescer dentro de si.
- Tu não querias aquela criança. Tu gritavas isso mesmo durante o sono.
- Eu falava enquanto dormia?
- Era a única altura em que ouvia a tua voz. Tinhas muitos pesadelos e normalmente falavas, muitas vezes de uma forma desconexa, mas noutras vezes fazias sentido. E naquela altura era bastante evidente que não querias aquela gravidez. E depois acalmaste e deixaste de estar presa à cama. Passavas os dias a deambular. Já não magoavas a tua barriga, e já não sonhavas alto. Mas não me pareceu que tivesses aceite a tua gravidez… Apenas estavas num estado e apatia conformista. Depois entraste em trabalho de parto mais cedo do que seria esperado, mas num período em que já não era demasiado frágil para o bebé.
- Pois foi…
Daniel mudou de posição. Inclinou-se para a frente e posou o copo em cima da mesa. Descansou os cotovelos em cima dos joelhos e esfregou o pescoço concentrando-se no que tinha para dizer.
- Vanda!
- Sim…
- Vou precisar que entendas tudo aquilo que te vou contar… E por favor, se quiseres culpar alguém, culpa-me apenas a mim…
- Não estou a perceber Daniel!
- As únicas reacções que vi da tua parte relativamente à gravidez foram as que já te descrevi. Foram reacções negativas… E depois apenas um silêncio profundo. E quando dei conta estava numa maternidade a dar à luz…
Daniel fez mais uma pausa olhando o fundo do copo vazio.
- Estava na maternidade a acompanhar-te, quando o Vasco me ligou a dizer que a cunhada tinha dado entrada de urgência na mesma maternidade. Os dois partos deram-se quase em simultâneo e eu como amigo do chefe de serviço tive praticamente livre acesso aos dois processo. Tu deste à luz um rapaz que apesar de prematuro era saudável e a Vera deu à luz um bebé com muitos problemas que não resistiu ao parto.
Vanda abriu muito os olhos com uma compreensão lenta que se formava incrédula na sua mente.
- Cabrão! – Vanda libertou toda a sua energia nuns punhos fechados que se abatiam sobre Daniel numa chuva sucessiva de movimentos descoordenados e imprecisos. Daniel agarrou-a com algum esforço e obrigou-a a sentar-se. – Tu sabias… Foste tu que me tiraste o meu filho…
Aquela acusação magoou-o mais do que os socos.
- Ouve-me até ao fim Vanda… Depois podes nunca mais olhar para mim… Podes até processar-me… Faz o que quiseres, mas ouve-me até ao fim.
Vanda obrigou-se a sossegar e sem derramar uma única lágrima fixou-lhe aquela olhar negro e sombrio que o fez sentir-se encolher.
- Põe-te no meu lugar. Tu estavas internada num hospício recusando tratamentos e, na minha óptica, odiando o ser que geravas dentro de ti. Não havia sequer a hipótese na minha cabeça de ficares com aquela criança. Nem imaginei isso por um segundo… Até aquele dia eu imaginei que a criança seria entregue aos serviços sociais. E tu viverias com a sombra de teres dado vida a um novo monstro… Eu juro que o que fiz naquele momento foi convencido de que te estava a proteger… Pareceu-me o mais correcto… Tinha de um lado uma louca que rejeitava o filho que paria condenando-o a um crescimento entregue a instituições. Tinha do outro lado um casal que desejava aquele filho com todas as forças e que proporcionaria uma vida feliz àquela criança. Tinha ainda um bebé que podia ser criado em instituições privado de amor e provavelmente a sentir o peso da rejeição de uma mãe que o odiava e o peso de ter sido concebido de uma forma tão perversa… Ou que podia ser criado no seio de uma família que o acolheria e que se dedicaria a fazê-lo feliz sem as preocupações que deviam ser proibidas a todas as crianças. – Vanda reparou que o Daniel chorava e deixou-o chorar.
- A Vera ou o Marco sabem dessa troca? – Vanda mantinha uma postura demasiado rígida, um ar altivo e uma expressão fria .
- Agora já devem saber…
- Como assim?
- Quando o Vasco me ligou, eu contei-lhe tudo. Ele ficou furioso e viajou para o Corvo. Disse-me que tinha de contar a verdade.
Vanda pensou naquela situação toda. A sua alma chorava, mas o seu corpo recusava-se. Ela agora sabia a verdade… finalmente. E o que é que significava aquela nova verdade? O que significava verdadeiramente estar na posse de uma verdade que lhe foi ocultada durante tantos anos? Não conseguia olhar para Daniel com uns olhos verdadeiramente acusadores. Chegava até a sentir algum amor naquela atitude. Seria possível sentir-se amor na mentira? Ela sentia naquele exacto momento o peso da compaixão que despertou um dia em Daniel e os sacrifícios que ele se dispôs a fazer por ela sem lhe pedir nada em troca. Era-lhe fácil agora acusá-lo. Ela possui agora todas as condições que lhe conferem a dignidade da acusação. Mas na altura em que estas decisões forma tomadas, ela alheou-se a comprometer-se com qualquer tipo de decisão. É fácil quando nos momentos difíceis deixamos os outros decidirem por nós, e quando chega a calma que vem sempre depois desses momentos, é fácil apontar o dedo ao resultado dessas decisões. O difícil teria sido ela falar, erguer a sua voz e dizer que não estava doida e que queria ajuda para criar o filho… Mas ela não o fez e deixou que a conduzissem. Só tomou as rédeas da sua vida quando a lhe foi mais confortável e não podia exigir que estivesse tudo à sua espera. A sua felicidade parecia  uma porta perra, que só abre o suficiente para uma espreitadela.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Capitulo XXI - Nas Asas do Corvo


Capitulo XXI

O coração martelava dentro do peito numa inquietação vulnerável e todo o seu corpo reagia a cada impacto do batimento. A cabeça parecia pesar toneladas, motivo pelo qual Vanda encostou-a ao vidro do autocarro enquanto olhava a paisagem sem a absorver. A culpa, o amor, a amizade, a lealdade, a paixão, a vontade misturavam-se numa sopa passada em que já não conseguia distinguir o ingrediente principal. Durante a sua infância guardava como recordação o sentimento de felicidade. Fechava os olhos e via o rosto sereno e gasto da mãe sorrindo-lhe por entre as olheiras carregadas de horas de trabalho. O pai chegava a casa ao entardecer e pegava-lhe ao colo atirando-a ao ar como se ela fosse uma pena. E ela voava como nunca mais foi capaz de voar. A sua voz grossa tornava-se suave e doce. “Olha a minha pequena fada a voar!”. “Eu sou uma fada pai?. “ És a mais talentosa das fadas.”. E ela acreditava. Sentia ainda aquelas mãos grandes e duras profundamente marcadas por calos novos que se formavam ao lado dos velhos. Aquelas mãos eram sinónimo se segurança e confiança quando se sentia no ar prestes a cair. Vanda não sabe precisar o exacto momento em que começou a sentir vergonha dessas mãos demasiado deformadas para pegar numa caneta. A imagem do pai dentro do banco a ser atendido por um senhor distinto invadiu-lhe a mente. Ela estava ao seu lado e corou de embaraço quando o senhora segurou delicadamente as pontas da folha onde o pai assinava numa tentativa frustrada de conseguir uma melhor assinatura. O embaraço transformou-se em raiva quando o pai puxou da sua humildade e desculpou-se com o facto de ter poucos estudos. O senhor bem educado sorriu um sorriso condescendente que trucidou o orgulho de Vanda. A adolescência é uma idade parva em que se perde a inocência de criança sem se ter adquirido a esperteza de um adulto. É um período em que este vazio é preenchido por valores que definem o futuro. E Vanda encheu-se de rancores contra as suas origens humildes. Insurgiu-se contra Deus e o diabo. Chorou e fez chorar aqueles que a amavam. Colecionou amarguras, vendo em todas as atitudes dos pais afrontas à sua dignidade sem perceber que não a tinha. A dignidade só se eleva antes da critica. Quem critica sem ter criado argumentos na sua vida para exemplificar o contrário está isento de dignidade.
Vanda adormeceu e sonhou com a avó. O seu olhar doce, na noite em que Vanda expulsara os pais da sua vida, estava novamente ali depositado nela. E aquele olhar magoou-a profundamente. Não era um olhar de acusação, nem tão pouco de desdém. Era pior. Doía mais. Era um olhar de pena.
- Quando plantamos o mal, nasce um inferno! – As palavras esquecidas daquela velhota analfabeta renasceram na sua mente.
A avó acolheu-a nos seus braços e na sua vida. E Vanda poderia ter aproveitado aquela nova oportunidade numa aldeia em que ninguém se distinguia. Uma aldeia feita de gente humilde, em que eram todos parecidos. Ali não havia um fosso entre ela e os outros. E de repente já não lhe bastava apenas ser igual aos outros. Ela queria ser superior aos outros. E assim a sua popularidade na escola era aumentada pela sua estupidez e a admiração que ela lia nos olhos dos colegas eram na verdade uma maledicência que ela alimentava com um andar altivo e um riso demasiado fácil e estridente.
- O riso em excesso é constate na boca dos tolos. – A avó afligia-se, mas na ignorância da sua velhice era ludibriada pela neta entre carinhos e argumentos que a excluíam dos tempos modernos.
Vanda passou por terapias suficientes para perceber que preencheu demasiado a sua adolescência de forma a não ter de pensar nem sentir a morte dos pais. Mas ela sentia a sua falta e a culpa pesava-lhe na consciência e no peito.
Agora é uma mulher adulta e independente mas prisioneira das sombras do passado sentindo-se pequena e insignificante perante a magnificência da vida como se não fosse digna de a usufruir. A capacidade de saber viver não é um dom que todos possuem. É como o projecto de voar do Leonardo Da Vinci. Ele idealizou, sonhou, projectou, mas não concretizou. Depois houve alguém que conseguiu colocar o homem no ar e até na lua. E agora existem os que usufruem dos sonhos dos outros. O tipo de humanidade resume-se a três categorias. Os sonhadores, os realizadores e os aproveitadores.
O autocarro saiu da auto-estrada e contornou uma grande rotunda fazendo com que as emoções de Vanda se sobressaltassem no seu peito, eriçando a pele e a mente numa corrente de recordações. A avenida estava arranjada numa calçada portuguesa que fazia o autocarro tremer. As árvores continuavam a cumprimentar os visitantes em vénias cordeais. Os contornos enlameados da estrada deram lugar a largos passeios onde grupos de peregrinos circulavam com coletes florescentes, cajados e posturas descaídas do cansaço, mas as vozes erguiam-se em uníssono para os céus. Vanda desceu do autocarro.
Atravessou a avenida e dirigiu-se para o santuário de uma forma instintiva. A capelinha mantinha-se exactamente como ela a recordava. Apenas a nova basílica se elevava naquele cenário sereno sem lhe despertar grande interesse. O ritual foi executado sem que ela precisasse de um esforço de memória. Tirou três velas e colocou o donativo na ranhura. Dirigiu-se para o toucheiro e acendeu a primeira vela. Fechou os olhos e pediu a Deus que ajudasse o seu filho Matias a ultrapassar a doença. Acendeu a segunda vela e pediu que Deus abençoasse os seus novos amigos nomeando os nomes. E por fim acendeu a última vela pedindo que Deus a orientasse nas suas decisões. Pediu iluminação e sabedoria suficientes para que desta vez não tomasse a decisão errada. Pediu forças para seguir o caminho certo.
Sentou-se na capelinha e o tempo ludibriou-a numa rapidez que lhe foi insensível. Ela fixou os olhos húmidos na imagem adorada e não rezou… Não Pediu… Não pensou… Apenas chorou um choro calmo que se fazia notar apenas pelo rolar de lágrimas gordas que lhe acariciavam a cara.
- Olá!
Vanda voltou a ligar-se ao mundo naquele cumprimento. Uma freira dirigia-lhe um olhar bondoso e uma sorriso gratuito.
- Olá! – Vanda não pode recusar o cumprimento.
- Gosto de vir aqui! – A freira sentou-se ao lado de Vanda causando-lhe desconforto. – Sinto uma paz que não posso explicar… É uma calma que apenas se pode sentir e as ideias ficam mais claras.
- Pois… - Vanda não estava para conversas. Não tinha disposição e a voz ameaçava tremer sempre que ela a forçava.
- Foi aqui sentada que eu soube qual era o meu papel no mundo!
- Ah… - Vanda revirou os olhos. Não queria acreditar que naquele momento de introspecção, uma velha freira ia satisfazer conversa de momento com ela.
- Eu tive uma vida difícil antes de seguir o caminho de Deus. – A freira mergulhou nos seus pensamentos em voz alta e Vanda teve de fazer um esforço para não a mandar calar. - Os meus pais eram ambos alcoólicos e dependentes de ajudas alheias.Mas independentemente disso eles amavam-me. Amavam-me muito. A assistente social comentava em voz alta como se eu não percebesse que eles não tinham capacidade para ficar comigo. Dizia que se eles me amassem de verdade mudavam de vida por mim. Como elas eram ignorantes… Perceber quem precisa de ajuda é o primeiro passo para poder ajudar. Quem julga antes de perceber raramente se torna útil na vida do necessitado.  Mas continuando… - A freira pousou a sua mão no joelho de Vanda dando-lhe umas palmadinhas calorosas, sem nunca olhá-la. – Então quando eu tinha seis anos estava a sair de casa para o meu primeiro dia de aulas com os meus pais. Eles tinham-me comprado uma mochila. E eu estava tão contente. Sabia que eles tinham poupado dinheiro para me comprarem aquela mochila cor de rosa com uns malmequeres bordados e prometi a mim mesma que iria cuidar bem daquela mochila até ficar velhinha. Morávamos no último andar de um prédio de quatro andares sem elevador, e eu comecei a descer as escadas demasiado gastas agarrada ao corrimão como fazia sempre e com a mochila às costas. O meu pai estava bêbado como era o seu normal, mas a felicidade de me estar a levar à escola com uma mochila que ele próprio tinha comprado estava-lhe estampada no rosto. De repente o meu pai tropeçou nas escadas e caiu em cima de mim. Rolamos os dois pelas escadas abaixo ao som dos gritos da minha mãe. Só me lembro de ter acordado no hospital. O meu pai estava sentado numa cadeira encostado à minha cama e chorava como uma criança. A minha mãe dormitava numa outra cadeira. Quando o meu pai ouviu a minha voz ajoelhou-se e agradeceu a Deus. Eu lembro-me de me ter sentido amada naquele momento olhando para aquele homem que em vez de chorar as suas nódoas negras chorava as minhas mazelas. Quando nos preparávamos para sair do hospital, o meu pai entregou-me a uma assistente social. Entregou-me de livre vontade. A minha mãe chorava… Não ela gritava uma dor que lhe devorava as entranhas e lhe salientava as veias da testa. O meu pai sorria-me um sorriso nervoso e repetia que era para meu bem. Que só fazia aquilo porque me amava muito. Eu pedi para ficar com eles. Implorei. Chorei. Esbracejei. Gritei. Foi como se me arrancassem um bocado de carne. A Assistente Social teve de pegar em mim e enfiar-me dentro de um carro. Colei-me ao vidro traseiro do carro até que os rostos dos meus pais se perderam no horizonte.
A freira deixou de falar de repente e só então Vanda soube que estava envolvida naquela história. Queria saber o que vinha depois.
- E então? – A freira sorriu com o olhar sempre fixo num ponto distante.
- Então fui para uma casa que acolhia crianças. Os meus pais iam buscar-me todos os fins de semana. E eu ansiava os fins de semana como um toxicodependente anseia a sua dose. E então deu-se o milagre. Como os meus pais só estavam comigo durante o dia de Sábado e Domingo começaram a fazer o sacrifício de se manterem sóbrios nesses dias. - Pela primeira vez a freira olhou Vanda nos olhos, e o seu olhar tocou-lhe a alma. – Eu tive a oportunidade de conhecer os meus pais sem o efeito de álcool. Foi preciso saber abdicar para ser compensada.
Vanda sentiu que aquelas palavras faziam sentido na sua vida, mas ainda não conseguia precisar como.
- E porque é que se tornou freira? – Vanda sentia-se envolvida naquele relato, naquela vida.
- Porque é o único lugar onde sinto que sou útil à humanidade. Eu rezo a Deus para que os homens saibam decidir bem. E uma boa decisão nem sempre é aquela que resulta dos nossos sonhos ou desejos. Uma boa decisão é aquela que pensa primeiro naqueles que nós amamos. O meu pai rezou naquele hospital para ter uma segunda oportunidade comigo. E conseguiu tomar a decisão correcta para mim e para ele. Tivemos momentos lindos. Fiquei a conhecer a história da minha família. Tive oportunidade de passear com o meu pai sem ter de lhe servir de equilíbrio. Corremos juntos. Rimos muito. Porque no Sábado e no Domingo ele era aquilo que não conseguia ser permanentemente. Eu rezo para que todos os homens tenham força para seguir o melhor caminho. E tu?
Vanda sentiu-se atordoada com a pergunta.
- Eu o quê?
- Já decidiste? Já pensaste no que é melhor para aqueles que tu amas? - A freira sorriu-lhe carinhosamente, levantou-se e foi-se embora com uma mochila cor de rosa com uns malmequeres bordados pendurada num ombro.

domingo, 17 de março de 2013

Capitulo XX - Nas Asas do Corvo


 Capitulo XX

O corpo permanecia numa dormência ansiosa premeditando uma dor que agonizava a mente, mas não se corporizava como Vanda esperava. A punção dos ossos da bacia foi adormecida por uma anestesia bem vinda. Vanda tinha dificuldade em sentir as extremidades do corpo e sentia a língua seca. Queria água mas a sua voz estava estrangulada.
- Olá Vanda! – Vasco entrou no quarto do hospital com um ramo de anturios que arrancou um sorriso fácil dos lábios de Vanda. – Sentes-te bem?
- Um pouco dormente e com muita sede.
Vasco foi buscar um copo com água e sentou-se na beira da cama encaixando a sua cabeça no antebraço e dando-lhe goles de água com um cuidado desnecessário que Vanda não recusou.
- O Matias vai ficar bem? – Vanda ansiava uma resposta positiva. Sentia-se agora com uma proximidade intima daquele menino, como se ambos partilhassem um elo forte e inquebrável.
- Está a correr tudo muito bem… Mas ainda é cedo para sabermos. – A tensão de Vasco era quase palpável e Vanda conchegou-o no seu colo tentando aliviá-lo da preocupação e finalmente ele chorou. Um choro reconfortante de quem aguentou o seu mundo e o dos outros com a firmeza dos heróis e que num colo quente e amado chora uma fraqueza humana.
Matias recuperou as cores e as forças voltando a sorrir um sorriso descarnado mas triunfante prometedor de muitas corridas no jardim traseiro da casa da D. Emília e de novas travessuras na companhia dos irmãos. Vanda abraçou-o e sentiu que o seu coração reagia a esta contacto com um estimulo diferente como se ela o pudesse defender de todos os males e perigos. Um instinto protector entranhou-se na sua pele e quando os seus olhos focaram aquele rosto magro e pálido ela soube que havia alguma coisa que os ligava. Algo que transcende o entendimento que dissipa as dúvidas e que dá sentido à vida. Um elo inquebrável capaz de uma força para além do alcançável. Vanda sentiu emoções sem encontrar palavras que as dignificassem. Então fechou os olhos e apenas sentiu, porque existem momentos que só podem ser sentidos.
Os corredores do hospital transpiravam as dores dos que ali habitavam e as tremuras dos medos que se tinham alojado permanentemente naquelas paredes. O arrepio que provoca a candura daquelas paredes imaculadamente brancas percorridas por batas igualmente alvas como se fossem anjos a trabalharem nervosamente contra os tormentos de corpos escuros e efémeros só era acalmado pela presença de Vasco. Ele acompanhava Vanda no mesmo ritmo de passo e com um braço protector a cobrir-lhe os ombros e os receios.
- Ele vai ficar bom! Eu sei que vai! – Vasco sorriu por completo como Vanda já não via há algum tempo.
- Eu sinto que ele  já está muito melhor! Daqui a nada vai voltar para casa e correr aquelas ruas com os irmão e nós vamos ralhar-lhe pelas diabruras próprias de um criança saudável.
- Vanda! – Vasco parou em frente ao carro fazendo Vanda virar-se para ele. Envolveu-lhe a cintura com os seus longos braços e puxou-a mais para si sem vergonha dos outros transeuntes que por ali passeavam apressados. – Obrigado Vanda! Por tudo o que fizeste pelo meu sobrinho… Salvaste a sanidade de uma família inteira.
Vanda sentiu-se invadida pela presença próxima de Vasco como sempre acontecia e os seus pensamentos começavam-lhe a parecer mais lentos.
- Não tens de me agradecer Vasco! Podes achar estranho isto que te vou dizer, mas de algum modo eu amo aquele menino…
- Hum! Acho que estou a ficar com ciumes!
Vanda riu alto, mas as palavras que ela sabia que Vasco queria ouvir dos seus lábios continuaram caladas. Apesar de Vanda senti-las. Vanda amava aquele homem como só uma mulher sabe amar, numa plenitude de sentimentos e emoções, numa fidelidade e lealdade de convicções. Ela amava-o e sentia-o em todos os poros do seu der, mas a sua língua parecia não querer reagir a este sentimento. Não era difícil dizer “eu amo-te”. Ela pensava-o permanente e insistentemente. O seu corpo senti-o profundamente. Os seus gestos ansiavam-no loucamente. Os seus olhos percorriam-no vorazmente. Os seus sentidos apuravam-se na sua presença como se ele fosse o seu pólo contrário. Mas a sua voz calava todo este turbilhão. Vanda olhou-o e depositou-lhe um beijo leve tentando evitar a desilusão da falta daquelas curtas palavras.
O silêncio dentro do carro era aterrador, mas Vanda não conseguia quebrá-lo. Foi Vasco que o fez daquela forma descontraída que o caracterizava.
- Estou ansioso que esta má fase termine. Nem imaginas como isto afectou a família.
- Eu sei que vocês são todos muito unidos. É isso que eu mais admiro na tua família. Todos sentem a dor de um e partilham-na de uma forma tão bonita. É como se o peso dessa dor fosse transportado por todos aliviando-o.
- Somos realmente  muito unidos. A minha mãe nem deixaria que fosse de outra forma. – Vasco sorriu ao lembrar-se da mãe. – Sabes que quando fizemos os teste de compatibilidade, um médico chegou a duvidar que o Matias fosse filho do meu irmão e da Vera? Só me apeteceu bater-lhe… Aquele médico idiota que para além da situação difícil ainda queria colocar mais uma farpa. A Vera ficou desorientada. Sabes como ela é…
Vanda emitiu um som afirmativo tendo retido apenas a informação que Matias não era filho deles. As suas mão transpiravam e o coração galopava dentro do peito numa certeza festiva como se lhe tivesse a atirar à cara “ eu bem te disse”.
- Ela gritou tanto com o médico que ele acabou por confirmar que era apenas uma suspeita que só poderia ser desfeita com um teste de DNA. – Vanda forçou um sorriso como se tivesse a partilhar o mesmo interesse naquele episódio. – Agora só me apetece rir. A Vera meteu-o no sitio. Gritou-lhe que o que ele queria era que ela gastasse mais dinheiro em exames caros. Berrou-lhe todas as dores do parto que sofreu para ter aquele garoto. Até chegou a agarrar-lhe o colarinho da bata. O pobre médico pediu desculpa e saiu dali com o rabinho entre as pernas. – Vasco riu alto e Vanda fez um esforço para também emitir um gargalhada.
Na saída do carro as pernas falharam-lhe e Vasco atribui ao facto de ela ainda se sentir fraca. Apoiou-a em si e levou-a até ao apartamento deitando-a carinhosamente na cama.
- Estás a sentir-te bem?
- Sim! Só estou um pouco cansada… Acho que vou dormir um pouco. – Vanda aconchegou-se na manta que jazia em cima da cama para dar firmeza ao seu cansaço.
- Claro! – Vasco passou-lhe os dedos longos e grossos pela face beijou-lhe a testa com uma ternura que tocou o mais intimo de Vanda. – Eu amo-te Vanda! – e saiu.
Vanda enroscou-se como um bebé na almofada e chorou baixinho. Ela tinha de agir da forma mais correcta. Ser mãe é mais do que ser outra coisa qualquer. É superior ao desejo, é mais do que amor. Está acima dos sonhos. Ser mãe é apenas sentir intensamente o filho e sabê-lo tão sabiamente que só uma mãe é capaz milagres na vida do seu rebento. Ela sentia-o… Ela sabia… Mas tinha de agir da forma mais correta. Tudo o resto na sua vida deixaria de fazer sentido se ela provocasse uma única fagulha de dor no seu menino. Amanhã ela pensaria melhor… amanhã.
O cheiro a torradas inundou a casa e preencheu os desejos básicos de Vanda. A mesa arranjada com uns malmequeres no centro tocaram-lhe a consciência e o seu grilo falante martelava a bengala dentro da sua cabeça alertando-a para traição que ela preparava.
- Que cheirinho bom! – Vanda sentou-se à mesa.
- Tudo para a minha doentinha preferida! – Vasco brindou-a com aquele sorriso brilhante encaixado numa cara larga e masculina que se afirmava numa barba por fazer e numa poder macho que a atraía sempre. O tronco nu não dava descanso aos olhos de Vanda que não se cansavam de admirar aqueles ombros largos, a cintura estreita e a barriga definida como se fosse uma tablete de chocolate preparada para uma trinca.
- Não estou doente! E é melhor não me mimares tanto…
- Vou mimar-te sempre… E tu vais ter de me aturar, porque não vais escapar-me das mãos novamente. – Vasco sentou-se na mesa e ela desejou que aquelas palavras fossem verdade. Desejou que ele não a odiasse.
- Seria capaz de me odiar Vasco? – a respiração sustida de Vanda alertou Vasco. Aquela pergunta não era inocente nem tão tola como parecia. Vasco pensou e respondeu com a certeza que ela merecia. Respondeu consciente de que no futuro teria de ser coerente com a resposta que desse naquele momento, porque Vanda era uma mulher especial, com fragilidades provocadas por uma vida difícil.
- Eu seria incapaz de te odiar… Por mais horrível que possas ser, e por vezes assustadora. A verdade é que odiar-te seria o mesmo que odiar uma parte de mim.
Vanda lançou-se para o seu colo e beijou-o calorosamente.
- Sabes o que sinto por ti, não sabes Vasco?
- Sei Vanda! Apesar de nunca me dizeres… - Vanda enterrou o seu nariz na cova do pescoço de Vasco .
A cozinha estava finalmente completamente limpa, e Vanda olhou-se ao espelho à procura de alguma imperfeição na sua roupa. Sorriu satisfeita.
- Vais já para o hospital? – Vanda calçava as botas equilibrando-se no tapete da entrada.
- Não! Quero ir à baixa comprar umas prendas para os meus sobrinhos. Se chego lá amanhã de mãos a abanar, dão-me cabo do juízo. – Vasco vestia o blusão de couro que lhe dava um ar rebelde e ainda mais apetecível. – Vens comigo, certo?
- Errado! Quero também fazer umas compras, mas prefiro ir a um centro comercial gigante. – Ambos riram.
- Posso ir contigo! Faço lá as compras. – Vasco pegou-lhe na mão enquanto desciam as escadas juntos.
- Eu adoraria ter a tua companhia, aborrecido com  o entra e sai de lojas que nunca mais acabam, quando tu só querias comprar dois pequenos presentes. E depois vou ter de enfrentar o teu olhar fulminante quando sairmos da loja numero quinhentos apenas com três saquinhos na mão. – Vanda sorriu-lhe condescendente. – Acho melhor fazeres as tuas compras na baixa, ao ar livre.
- Que mulher compreensiva que eu arranjei… - Ambos riram alto e despediram-se com a promessa de se encontrarem para o almoço.
Vanda sentia o coração palpitar quando entrou no hospital. Sabia que não era hora da visita, mas como tinha esperança que a deixassem visitar Matias. Tudo o que ela precisava estava dentro da sua mala.
- Ei! Ei! Não pode ir por aí! – Uma voz interrompeu-lhe a caminhada e Vanda inspirou fundo. Teria de ser convincente.
- Eu só vim ver o meu sobrinho!
- Mas ainda não é hora da visita. – A mulher de ancas generosas e rosto redondo demasiado afogueado sorriu-lhe gentilmente e Vanda sentiu-se encorajada.
- Eu sei! Mas tinha esperança de poder vê-lo antes de voltar para os Açores.
- Ah! É tia do menino Matias? – Vanda sabia que a referência aos Açores havia de despertar a solidariedade daquela mulher.
- Sou sim! O Matias queria muito que eu levasse uma carta que ele escreveu para os irmãos. – Vanda deixou descair a cabeça para o lado direito. Lera em qualquer lado, talvez num policial, que este gesto despertava piedade no outro sujeito.
- Bem! Não se pode demorar… - A mulher piscou-lhe um olho cúmplice feliz por poder ajudar .
Vanda entrou no quarto e Matias estava sentado a jogar PSP. Ela sentiu um orgulho crescente ao ver que ele usava naquela hora difícil o seu presente de Natal.
- Olá Matias!
- Olá professora!
Vanda sentou-se na beira da cama dele olhando-o profundamente. Num gesto instintivo abraçou-o e beijou-lhe o topo da cabeça.
- A tua mãe?
- Foi buscar um café.
- O médico pediu-me que te trouxesse isto. – Vanda tirou o kit que tinha guardado na sua mala, e entregou um cotonete longo ao Matias. – Tens de esfregar o interior da boca com este cotonete. Habituado a exames e rotinas estranhas, Matias obedeceu. Vanda guardou aquele cotonete com um cuidado extremo e despediu-se daquele menino com o coração dorido e ao mesmo tempo cheio de esperança.
O sol reclamava um pedaço daquele inverno longo e permitia que Vanda e Vasco desfrutassem de um almoço calmo junto ao rio.
- Vou adiar a minha viagem por uns dias, Vasco!
Vasco olhou-a com um olhar de duvida que Vanda fingiu não perceber.
- Porquê? – A pergunta saiu-lhe mais rispida do que realmente queria.
- Tenho andado a fugir do meu passado demasiado tempo e agora quero enfrentá-lo. Quero ir passar uns dias a Ourém. Quero visitar a campa dos meus pais e da minha avó. – Vanda sentiu a sua garganta apertar-se, e Vasco pareceu desorientar-se por uns segundos. Contornou a mesa e abraçou-a.
- Está bem Vanda! Eu fico contigo… Tenho de ligar ao Joe para ele continuar a cuidar das minhas coisas. – Vanda retirou o telemóvel da mão de Vasco num impulso.
- Não vais ligar a ninguém. Não quero que vás comigo…
Vasco afastou-se e voltou a sentar-se no seu lugar. As palavras assentaram-lhe como um soco no estômago.
- Pensei que estivessemos novamente juntos Vanda! – Vasco olhou-a com um olhar magoado e duro que Vanda não conseguiu enfrentar. – Eu não estou disponível para ocupar apenas uma parte da tua vida… Tu tens-me por inteiro… Ou eu ocupo toda a plenitude do teu ser ou então eu não sirvo para ti. Eu não sou nenhum tapa buracos sentimental Vanda…
O maxilar de Vasco contraiu-se e os olhos cerraram-se. A expectativa de uma resposta de Vanda estampou-se nas feições.
- Então se queres fazer parte de mim. Se queres ocupar cem por cento do meu ser, vê lá se aguentas com todos os factos…
Vasco arregalou os olhos surpreendido com aquelas palavras que lhe soaram a acusação.
- E eu aceito todos os factos da tua vida. E mais ainda… sofro contigo por alguns desses factos terem existido… Não percebo o que é que estás para aí a dizer…
Vanda sentiu um vulcão a formar-se dentro dela.
- Eu sou mãe do Matias! Aceitas esse facto? Aguentas com esta informação? Queres ser meu companheiro por completo, como o Marco é da Vera? Então diz-me que ficas do meu lado nesta história toda… Eu sou a mãe biológica do Matias. Ele é fruto das violações de que fui vitima. Corri metade deste país à procura dele e agora encontrei-o… - Vanda não conseguiu reter mais as lágrimas. As suas palavras saiam soluçadas e os seus lábios distorceram-se numa angústia velha. – Eu amo aquele menino que me foi roubado. Eu é que sou a mãe dele Vasco. Ainda estás comigo Vasco?
A hesitação chocada de Vasco fizeram-na antecipar a resposta. Vanda levantou-se da mesa e desapareceu da vista de Vasco sem que ele fosse capaz de uma reacção. 

sábado, 9 de março de 2013

Capitulo XIX - Nas Asas do Corvo


Capitulo XIX



A aterragem no aeroporto de Lisboa foi fria, com ausência de qualquer calor humano. Vanda sentiu falta dos aplausos que a surpreenderam no pequeno aeródromo daquele ilhéu que acabava de deixar. Os passageiros saíram numa fila ordenada do avião sem uma troca de olhares ou um cumprimento casual. Veio-lhe à memória um verso de Camões “um andar solitário entre a gente”. Era exactamente assim que ela se sentia. Os seus olhos  engoliram a imagem de centenas de corpos a movimentarem-se sem se darem conta uns dos outros, numa pressa virtual que prendia qualquer hipótese de relacionamentos entre aquela pequena multidão. O tapete onde deveria recolher a sua bagagem era o dezoito. Vanda soube que não valia a pena perguntar a ninguém, então procurou a ordem lógica dos tapetes até encontrar o que lhe interessava. O tapete fazia rolar bagagem com etiquetas em espanhol, o que lhe indicava que a bagagem do seu voo ainda não estava a circular. A mente entorpecida de Vanda foi desperta pelo toque do telemóvel. Ela olhou um pouco incrédula para o visor espantada por alguém estar a ligar-lhe. Era a D. Emília.
- Sim!

- Olá Vanda! Só queria saber se chegaste bem. – Esta preocupação gratuita emocionou Vanda que se esqueceu da solidão que estava a sentir no meio daquela gente miudinha que se movimentava numa correria impessoal pelos corredores do aeroporto.

- Sim. A viagem foi boa e estou agora à espera da bagagem. – Vanda fechou os olhos. Não lhe apetecia desligar já. – Vou apanhar um táxi directamente para a residencial e depois vou logo para o hospital. – Vanda  continuou a falar procurando alongar aquela sensação de companheirismo que estava a sentir e que a confortava. – Quer que lhe telefone quando estiver no hospital?
Vanda susteve a respiração na esperança de uma resposta positiva.
- Oh querida! Não precisas de fazê-lo. – Vanda libertou o ar desiludida. – O Vasco está aí fora à tua espera.

- Oh! – a admiração de Vanda traduziu-se num nervosismo miudinho que ela não conseguia explicar. – Não era preciso.

- Claro que era! Achas que te deixaríamos aí sozinha? – A D. Emília sussurrou algo que ela não percebeu. – A Irene manda-te beijinhos.
- Para ela também.

- Agasalha-te bem aí que nessa terra faz um frio dos diabos. Depois voltamos a falar. Um beijo grande e juízo, filha.

Vanda murmurou uma despedida e guardou aquele carinho num sorriso palerma que lhe aflorou os lábios. Ela tinha-a chamado filha.

A sua mala finalmente rolou no tapete e Vanda pegou-lhe com algum esforço pousando-a direita no chão. Congratulou-se por levar desta vez uma mala com rodinhas e um pouco mais segura de si encaminhou-se para a saída de passageiros. A entrada do aeroporto estava repleta de gente que esticava a cabeça numa esperança apressada de reencontrar uma cara conhecida. Quem não sofria da ânsia do reencontro transportava uma cartaz com nomes e esperavam que alguém os contactasse. Vanda sentiu um embate no peito quando os seus olhos encontraram os de Vasco. Ele estava visivelmente mais magro e o cabelo tinha levado um bom corte mantendo um desalinho que continuava e ser-lhe característico. Vanda desceu a rampa sentindo que as pernas falhavam, mas fazendo o possível para manter a dignidade. Parou em frente a Vasco e a proximidade estremeceu-lhe o corpo num reconhecimento intimo.
- Olá Vanda. – Vasco estacou uns segundos antes de cumprimentá-la. O embaraço tornou-se visível na imprecisão dos movimentos. Levantou um braço que dirigiu à figura de Vanda deixando-o cair antes de lhe tocar, provocando a desilusão típica que postecipa uma ansiedade frustrada.
- Olá Vasco.

O caminho para o parque de estacionamento foi feito num silêncio desconfortável, assim como o caminho até ao apartamento onde Vasco estava instalado.

- Espero que não te importes de ficar aqui. – Vasco parou na entrada como se tivesse perdido as certezas. – Se for desconfortável para ti levo-te a um hotel.
- E porque seria desconfortável? – Vanda olhava-o agora de frente sem vergonha encarando-lhe o olhar que era mais quente do que ele desejava.

- É o apartamento de uma amigo meu… ele está fora e deixou-me ficar aqui… e talvez tu não queiras… - Vasco parecia não conseguir coordenar as ideias. – Eu estou aqui hospedado, e tu podes não querer partilhar o apartamento comigo. – As palavras foram disparadas num só fôlego e com um tom de rancor que não escapou a Vanda.
- Eu quero ficar aqui. Podes mostrar-me o meu quarto? – Vasco seguiu o corredor largo de paredes brancas e despidas e entrou na última porta à direita. Vanda seguiu-o entrando no quarto impessoal que tinha uma cama de casal em cerejeira coberta por uma colcha azul escura e uns cortinados de linho com uns bordados que Vanda não apreciou. Aquele apartamento era de uma homem solteiro de certeza.

- Bem… - O incómodo de Vasco era visível. Vanda dirigiu-lhe um sorriso que o fez estremecer. Ela percebeu a adrenalina que se movimentava em desatino pelo sangue de Vasco e decidiu não lhe facilitar a vida. Pousou a mala em cima da cama e tirou o casaco de costas para Vasco sentindo os seus olhos presos nela. Depois soltou o cabelo deixando cair em cachos rebeldes sobre os ombros. A excitação pulsava invisível entre os dois e Vanda sorriu mantendo-se de costas para Vasco dobrando-se mais do que o necessário para a mala de viagem empinando um rabo perfeito. O bater estridente da porta do quarto fez Vanda dar um pulo e o seu coração cavalgou de susto admiração e raiva por Vasco a ter deixado ali sozinha. Correu atrás de Vasco a espumar rancor mais chateada por se sentir rejeitada do que chateada por ele ter batido a porta.
- Não é preciso bateres assim a porta! – Vanda sentia as faces vermelhas como se uma convulsão de emoções estivessem a ferver-lhe nas bochechas em simultâneo.

- Não me provoques Vanda! – Vasco virou-se para ela e lançou-lhe um olhar perigoso.

- Não sei do que estás a falar. – Vanda aproximou-se dele empinando o peito mas menos corajosa. Passou os dedos pelos cabelos e Vasco resfolegou encurtando a distância entre ambos com dois passos bruscos. Agarrou-lhe os pulsos e prendeu-os atrás da cintura. Vanda sentiu-lhe o cheiro da loção de barba e encostou mais o seu corpo ao dele. A proximidade de ambos fazia-os partilhar o mesmo ar e trocarem hálito ansiosos emanados por uma respiração pesada. Vasco roçou os seus lábios nos dela e afastou novamente a cara só para poder ler-lhe a expressão do rosto. Sorriu quando ela gemeu baixinho e sentiu-se cheio de um orgulho macho quando lhe viu os olhos revirarem de puro prazer. Vasco encostou a sua face à dela e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha provocando-lhe um estremecimento. Então sussurrou-lhe ao ouvido.
- É pena que não me queiras com tanta convicção. – E muito contrariado soltou-a virou costas e saiu. – Vou buscar almoço.

Vanda ainda sentia a respiração alterada e o seu pensamento começava a assimilar lentamente o que acabara de acontecer. Fora rejeitada. Diabos o levassem. Se ele queria guerra então teria guerra. Vanda olhou à sua volta e obrigou a sua mente a acalmar-se e viu o que até então lhe tinha escapado. Estava tudo extremamente limpo. Não havia uma única ruga na manta horrorosa que cobria o sofá. Vanda correu para a cozinha e reparou que as bancadas de inox tinha sido esfregadas com bravo deixando-as brilhantes como se fossem espelhos. Ele tinha tido esses cuidados por causa dela. Vanda deixou escapar uma gargalhada trémula e saltitou para o seu quarto. Aquele jogo tinha apenas começado e Vasco seria recebido em casa com uma surpresa.

Vasco abriu a porta decidido a ignorar Vanda de forma que ela sentisse apenas uma dizima parte daquilo que ele sentiu quando ela negou um futuro ao seu lado. O seu espírito sentia-se motivado a fazê-la sofrer um pouco e talvez ela lhe desse o devido valor e deixasse de brincar com ele. Ele estava completamente decidido até levantar os olhos das chaves que arrancava da porta e encontrar Vanda com um olhar quente e penetrante vestindo apenas uma tanga preta. Vasco devorou aquele corpo escultural que ele aprendera a amar e todas as suas convicções foram esquecidas. Os sacos foram atirados para um canto sem que nenhum dos dois se preocupasse com o seu conteúdo espalhado pelo chão. Os passos apressados de Vasco conduziram as suas mão carentes para umas costas quentes fazendo Vanda encaixar-se no corpo dele e o beijo selvagem nasceu de um desejo primitivo que aliado a um sentimento profundo transportou-os para um lugar maravilhoso situado entre a Terra e o Paraíso. Os sentidos procuraram-se e completaram-se. Os espíritos fundiram-se numa pressa carnal. As ânsias culminaram juntas num cansaço satisfatório. E as almas preencheram-se novamente.



domingo, 10 de fevereiro de 2013

Capitulo XVIII - Nas Asas do Corvo


Capitulo XVIII

A magia existe de uma forma tão descarada que é difícil acreditar que é real, porque o ser humano valoriza o elaborado e mistifica demasiado o que é fácil. Quando do nada nasce o belo, quando da chuva nasce o arco-íris, quando da dor nasce uma nova vida, é impossível desacreditar-se na magia. Vanda ouvia Coro dos Escravos Hebreus, e sentiu a sua pele arrepiar-se e a sua garganta apertar-se sem perceber uma única palavra daquele canto que se elevava numa emoção transmitida apenas por uma magia que lhe roçava os sentimentos e se corporizava num eriçar de pelos. O telefone tocou e quebrou aquele momento em que ela se sentia voar apenas por ouvir uma junção de sons que atingiam uma harmonia perfeita.
- Sim! – Vanda atendeu contrariada o telefone.
- Olá! – A voz de Vasco surgiu do outro lado da linha e a magia da ópera de Verdi pareceu menos perfeita.
- Olá Vasco! – Ela já não ouvia aquela voz que lhe estava entranhada nos poros da sua própria pele há mais duas semanas e como por magia o frio de Fevereiro pareceu-lhe menos agressivo.
- Eu estou a ligar-te porque temos um dador possível.
- Que bom! – a exclamação de alegria saiu-lhe da garganta num tom demasiado esganiçado.
- Pois é! Só espero que essa pessoa aceite.
- Como é que alguém poderia recusar-se a ajudar uma criança maravilhosa como é o nosso Matias? – Vanda sentiu que a esperança começava a dominar a tristeza que sentia. A esperança é como a era. Só tem de ser plantada. E depois ela própria domina o espaço que precisa para florescer.
- Esse dador és tu. – As palavras de Vasco ficaram no ar e a magia quebrou-se. Vanda já não sentia a pele arrepiada da música nem a esperança que parecia dominar-lhe todas as outras emoções. Sentiu apenas a dúvida como uma erva daninha furiosa de preencher o seu espaço e que não precisa de ser plantada para aparecer de forma oportunista na primeira oportunidade. – Estás aí Vanda?
- Sim estou! – Vanda encheu o peito de ar e antes de se deixar dominar completamente pela dúvida teve forças para descansar Vasco, porque o bem estar dele era-lhe mais precioso do que o seu próprio bem-estar. – Vou apanhar o primeiro voo para aí.
- O médico é que queria falar contigo. Isto não é a forma correcta de fazer as coisas, mas quando soube que se tratava de alguém do Corvo soube que devia ser eu a falar… Não esperava que fosses tu… E quero que saibas…
Vanda desligou. Não conseguia ouvir mais a voz de Vasco sem que a culpa lhe ensombrasse a alma.
Tantos dadores inscritos e nenhum foi compatível com o pequeno Matias. Ela era a única que era compatível com aquele menino frágil. Vanda deixou-se ficar no sofá sem qualquer reacção física, apenas com o pensamento dormente. Havia algum tipo de raciocínio que se estava a formar na sua mente, mas que ela parecia querer bloquear. Passaram-se momentos longos que ela não soube precisar até que as lágrimas lhe chegaram em sintonia com a noite calma e fria num entendimento obscuro do que a atormentava. Não encontraram na própria família um dador compatível, porque talvez fosse biologicamente impossível… Porque talvez Matias seja seu filho. Chorou convulsivamente. Quando os olhos lhe arderam e se negaram a deitar mais uma lágrima, Vanda riu-se da ironia do destino com uma nova certeza. O Matias era o seu filho… Por algum motivo que não soube precisar as informações que Daniel lhe dera não estavam correctas. Vanda pegou no telefone e ligou para a Guest House.
- Estou! Catarina! – Vanda sentiu-se desiludida ao ouvir a voz da amiga. Tinha pressa em falar com o Daniel.
- Aconteceu alguma coisa Vanda? – Catarina esfregou os olhos e fixou com dificuldade o relógio que acusavam três horas e catorze minutos.
- Preciso muito de falar com o Daniel!
Vanda ouviu um barulho de fundo e segundos depois uma voz ensonada surgiu no telefone.
- Vanda! O que se passa?
- Houve um mal entendido… Preciso de falar contigo.
- Sabes que horas são? – Daniel ainda não conseguia ordenar as ideias. Tinha Catarina ali nos seus braços e não lhe apetecia nada deixar aquele aconchego que não o cansava.
- Sei. – Esta resposta fez despertar uma sirene dentro do Daniel psiquiatra. Alguma coisa não estava bem.
- Vou já para aí Vanda!
Vanda sorriu quando ouviu as palavras que queria ouvir.
Passaram-se apenas uns eternos vinte minutos até que Daniel entrasse de rompante pela porta dentro fugindo ao frio da noite. Vanda deixara a porta aberta propositadamente. Tinha pressa…
- Olá! – Os olhos de Daniel perscrutaram-na enquanto amigo, mas foi o psiquiatra que detectou o olhar vítreo preso numa teimosia qualquer que reflectia uma sorriso palerma nos lábios inchados de uma choro intenso que Daniel já tinha adivinhado. Os braços de Vanda abraçavam-na, enrolando-a numa miséria que Daniel temeu.
- Estávamos errados Daniel! – A voz de Vanda era nervosa e o salto que ela deu do sofá atirando-a para uma caminhada vertiginosa de uma lado para o outro assustou Daniel. – O Matias encontrou um dador…
- Ah! Isso é bom… Não é? – Daniel procurava a origem daquela atitude pouco convencional.
Vanda pareceu não ouvi-lo.
- E sabes que é o dador? – Daniel não respondeu porque sabia que ela não esperava que ele o fizesse. – Sou eu Daniel… sou eu. E sabes porquê? – Daniel continuou sem responder temendo aquele raciocínio sombrio. – Porque eu sou a mãe daquele menino. – Vanda disparava uma ladainha incompreensível de justificações que a conduziam àquela certeza inegável, e engolia palavras. De vez em quando fixava os olhos em Daniel como se estivesse à procura de sinais de que já o tinha convencido daquele facto. Ela era uma desesperada à procura de bênção para as suas ideias. Daniel sentou-se calmamente no sofá e deixou que ela própria se esgotasse. Só aconteceu quase duas horas depois. Vanda sentou-se no sofá e interrogou Daniel com um olhar profundo. O psiquiatra encontrou naquele olhar uma fenda naquela certeza de Vanda e agarrou-se a ela.
- Ficou muito feliz que sejas compatível com o Matias. Fico mais feliz porque sei que vais ajudar aquele menino. Mas não és mãe dele.
Vanda reencontrou forças para saltar do sofá e esganiçar as suas dúvidas.
- Como é que podes dizer uma coisa dessas. Ouviste alguma coisa do que te disse? A família toda fez os testes de compatibilidade e nenhum deles foi positivo. Eu é que sou compatível com ele, porque temos os mesmo genes… somos sangue do mesmo sangue…
Daniel voltou a esperar que ela terminasse aquele desabafo estridente. Aprendera com ela que quando um paciente se expõe daquela forma, não é porque está a ser agressivo ou demente… É porque precisa que o ouçam e o entendam. E ele entendia-a…
- Agora vamos pensar mais profundamente. Vamos pensar os dois juntos, está bem?
Vanda anuiu.
- Matias está internado num hospital, certo?
- Sim! – a voz de Vanda estava agora rouca.
- Um hospital bastante conceituado, não achas?
- Sim.
Daniel queria conduzi-la a uma certeza definitiva, mas uma certeza formada pela mente dela e não imposta por terceiros como fizera na última vez. Ele dissera-lhe que ela tinha tido Síndrome de Hellp e que perdera o filho e ela assimilou essa ideia. Mas foi uma ideia que lhe foi plantada na mente. E Vanda tinha uma mente forte que era capaz de desfazer ideias implantadas, por isso precisava que fosse a própria mente de Vanda a encontrar a resposta.
- A Vera e o Marco fizeram inúmeros testes para saberem se eram compatíveis com o Matias, certo?
- Sim.
- E os testes deram negativo, ou seja, nenhum deles é compatível com o menino, estou a pensar bem?
- Sim… E não são compatíveis porque não são os pais biológicos.
- Faz sentido Vanda!
- Estás a ver! – Vanda levantou-se novamente vitoriosa. – Também achas o mesmo não é? Deve ter havido algum erro, alguma lacuna…
- O hospital já comunicou à Vera e ao Marco que não são os pais biológicos? – Daniel perguntou numa voz inocente, mas deixou uma nota de ansiedade que Vanda não notou.
- O quê? – Vanda parecia ter bloqueado todo o seu raciocínio. Recusava-se a voltar atrás. Ela tinha chegado a uma conclusão lógica e recusava-se a negá-la novamente.
- Sendo um hospital credível, como tu própria acreditas que é, neste momento e com tantos exames feitos que podem colocar em causa a paternidade de Vera e Marco, se realmente for verdade já terá comunicado, não achas?
Vera sentiu um pontada no peito. Seria desilusão? Seria alívio por finalmente ter alcançado o fim daquele dilema? Sentia-se dilacerada… Sabia que se houvesse dúvidas acerca da paternidade de Matias os pais já haveriam de ter sido notificados, e ela sabia que isso não tinha acontecido. Estava todos os dias com os pais de Vasco e assistia a todos os telefonemas feitos no final do dia com Marco. O hospital nunca levantara essa possibilidade e não o tinha feito porque não havia dúvida… era tão simples como isto…
Vanda já não encontrou forças para voltar a chorar aquela perda, mas sentiu que se tinha formado um novo buraco negro no seu peito. Sem qualquer palavras, ela dirigiu-se para o quarto e deitou-se. Daniel esperou até ao sol nascer, e quando teve a certeza de que ela estava a dormir, saiu levando consigo uma verdade que não valia a pena ser descoberta.