domingo, 18 de março de 2012

CAPÍTULO XXII - Na Base da Montanha

CAPÍTULO XXII

    Os músculos palpitavam a cada novo esforço. Os braços bem delineados erguiam-se armados de uma enxada que caía numa força potente fundindo-se com a terra desavergonhadamente. O suor molhava-lhe a camisa branca colando-a a um peito duro, e Ana não conseguia desviar os olhos daquele corpo perfeito. A terra era revolvida e sachada pelos homens preparando-se assim para receber as próximas sementeiras e transplantações. As mulheres estendiam sementes de melancia e abóbora de forma a secarem ao sol. George não se poupava aos trabalhos do campo, agradecendo no seu íntimo ter esta actividade para lhe aliviar a tensão que sentia desde a manhã do dia anterior. Ainda lhe doía o peito da dor que sentiu quando seguiu o olhar vidrado de Ana no adro da igreja e encontrou um homem alto e demasiado bem-parecido, para quem gosta do tipo. Soube imediatamente que era Francisco, e uma onda trémula de violência trespassou-lhe o corpo. Ana manteve-se hirta ao seu lado com a mão encaixada na curva do seu braço, mas a magia que se havia criado entre eles quebrou-se, e apesar do seu sorriso continuar aberto, o seu olhar fechou-se. Francisco não libertou Ana do seu olhar durante todo o acto religioso e George adivinhou-lhe uma sombra de arrependimento que o perseguia e que naquele momento se começava a dissipar em esperança.
- Oh Ana! Ana! – Tina equilibrava um conjunto de copos com limonada num tabuleiro. Ela ensinara Luzia a aproveitar os limões para fazer limonada, e agora todas as oportunidades eram usadas como desculpas para mais um copo.
- Fica aí Tina, que nós vamos aí refrescar-nos! – Ana sorria ao vê-la em dificuldades em cima daqueles sapatos de verniz com um salto de sete centímetro e uma fivela desconfortável.
    A limonada foi uma boa desculpa para um intervalo merecido. José olhava pelo canto do olho o futuro genro e sorria intimamente. O homem com uma elevada posição no meio dos militares que baixava a sua guarda snobe e pegava numa enxada com a dignidade dos humildes merecia todo o seu respeito.
- Hello George! – Ana tentava impressionar o noivo com o pouco inglês que começara a aprender com Tina.
- Hi! – Ana sentiu-se decepcionada com a reacção dele, mas não desistiu. Encostou-se no muro ao lado dele e tentou captar-lhe um olhar.
- How are you? (Como estás?)– Ana sorriu de alivio assim que terminou com sucesso a frase que lhe enrolava a língua. George arregalou os olhos na sua direcção e riu-se. Sentiu uma alegria infantil quando percebeu que Ana estava a fazer um esforço para comunicar na língua dele.
- Are you speaking english? Why? It’s because of me? (Estás a falar inglês? Porquê? É por minha causa?) – George precisava de ouvir um sim como resposta. Precisava de um sinal, que não estava a perdê-la, que não se estava a impingir, que não estava a tirar partido de uma fragilidade de Ana para seu próprio benefício.
- Tem calma homem! Que eu ainda não domino essa língua! – Ana sorriu-lhe iluminada por uma claridade de Agosto que lhe emoldurou o rosto e George não resistiu, pousando a palma da sua mão sobre aquele rosto suave. Sentiu Ana retrair-se e sem perceber se isso era um bom sinal ou não, George deslizou a mão até à base do seu cabelo e puxou-a para si. Ana não resistiu e não desviou o olhar. Todos os pensamentos esvaíram-se e restou apenas o desejo da antecipação. George beijou-a com suavidade e paciência e quando a sentiu render-se totalmente num gemido tremido, George aprofundou o beijo e encorajou-se quando os braço de Ana lhe rodearam o pescoço. Foi George que se afastou de uma forma um pouco brusca. A imagem de Francisco e do olhar que ambos trocaram na entrada daquela igreja não o abandonava e invadia-lhe a memória de uma forma libertina.
- Viste o George? – Ana sentia-se confusa com aquela atitude. Talvez tivesse feito alguma coisa mal.
- Não! Porquê Ana? – Glória despejou as sementes que tinha no avental dentro de uma pana.
- Sinto-me incapaz Glória! – Ana sentou-se na terra e soltou-se à fraqueza que a perseguia.
- Então Ana? Devias estar feliz! Vais casar-te daqui a quinze dias! – Glória sentou-se ao seu lado e recebeu-a nos seus braços embalando-a. – Fala comigo Ana.
- Eu… Eu nem sei o que pensar! Eu vou casar-me com um bom homem Glória!
- E isso não é bom?
- Ele gosta muito da Jewel!...
- Isso também me parece bom.
- Ele estendeu-me ambas as mãos quando todos me viraram as costas… E vai casar-se comigo!
- Tens de ser mais clara Ana! – Glória tentava acompanhar o raciocínio da irmã.
- Ontem vi o Francisco! Queria muito falar-lhe… Mostrar-lhe a nossa filha linda… Contar-lhe a forma como ela agarra o meu dedo sempre que lhe canto ao ouvido. Queria mostrar-lhe como ela tem o seu sorriso que termina numas covinhas…
- Já começo a perceber-te…
- Não… não percebes! Eu amei o Francisco… Amei-o muito! E agora não sou capaz de lhe guardar rancor… Amei-o tanto que me custa privá-lo das maravilhas de uma filha que ele ajudou a gerar…
- Ele abandoou-te quando mais precisavas! Virou-te as costas… Nunca te esqueças Ana… Eu odeio-o!
- Mas como posso odiar o único homem que me amou?
- Minha querida Ana, como te enganas! Amor não é só dizer lindas palavras que deslumbram o coração. Amor não é um acariciar mais profundo que faz o coração acelerar. Amor não é uma promessa eternamente por cumprir… Amor é um sentimento muito mais construído do que sentido. Amor é cuidar com preocupação. É dar todos os dias um pouco mais de nós com a felicidade do altruísmo. É ceder todos os dias um pouco mais do nosso espaço, sem nunca o reclamar de volta. Amor, Ana, é acordares todos os dias ao lado de um homem que te dá a segurança de uma eternidade de respeito, companheirismo e cumplicidade.
- Que tristeza Glória!...
- O que é que é triste Ana?
- Nunca fui amada… Tenho uma filha… Vou casar-me e nunca fui amada.
    A buzina de um carro parado na estrada fez com que as irmãs silenciassem a conversa numa curiosidade simples. George saiu de dentro do carro e acenou-lhes. Ana levantou-se e limpou as lágrimas substituindo o choro pelo espanto. Correu ao encontro de George.
- Mas onde raio é que desencantaste isto? – George sorriu-lhe adivinhando a pergunta, mas sem possibilidades de resposta.

    O dia seguinte fez-se acompanhar das diligências próprias de preparação de um casamento. George tornara-se bastante próximo de José, apesar de não partilharem a mesma língua. Entendiam-se num silêncio calmo que os identificava, e quando George pegou em Ana e Jewel e as levou a passear no carro que afinal era emprestado por um antigo oficial das forças armadas que tinha optado por viver a sua velhice naquela ilha, José não se opôs. Pararam na casa da Tia Espirito Santo para apanharem Tina e John e foram conhecer a ilha. A viagem até à vila das lajes fez-se numa alegria contagiante. Tina incitava Ana a umas palavras em inglês provocando um riso generalizado.
- Agora vais dizer: eu vou casar-me com o George. I´m going to marry George… Vá, agora diz tu Ana.
- Aima gonga to mariete George! – A gargalhada instalou-se.
- Eu vou casar Ana. – A tentativa de George calou a gargalhada inicial. Ana olhou aquele homem com uma admiração e respeito que lhe martelava no peito. Ele estava também a fazer um esforço.
- Tina, how do i say, i’m a lucky man?
- Eu sou um homem de sorte!
- Eu sou um homem de sorte! – O sorriso que George dirigiu a Ana enquanto soletrava aquelas palavras era um acto de amor. Agora Ana percebia a diferença. A paixão sente-se instantaneamente, mas o amor cultiva-se até cativar o outro num ciclo perfeito de respeito, companheirismo, cumplicidade e desejo. - Pára aqui George! – Ana despertou daquela envolvência que George lhe provocava, quando avistou a casa do presidente da camara. A casa onde a mulher mais determinada que alguma vez conhecera sucumbira à morte em prol de um amor…
- Tina leva o John e o George a dar uma volta à vila que é muito bonita, que eu preciso de fazer uma visita pessoal.
- Can i go with you? – George não queria correr o risco de deixar Ana sozinha. Amedrontava-lhe a ideia de se ir encontrar com Francisco. Sabia bem o que tinha oferecido a Ana e o que ela tinha aceitado, mas era-lhe impossível não desejar mais.
- Ele quer ir contigo querida! – Tina mostrava pressa na decisão. Olhava à sua volta e sentia necessidade de conhecer melhor aquele sítio que parecia parado no tempo transmitindo o mistério de um lugar mágico regido por uma era longínqua.
- Então vamos George! – Ana estendeu-lhe a bebé que ele recebeu com satisfação. O caminho a pé fez-se sem pressas com os olhares perdidos nos braços de basalto que furavam calmamente o mar recebendo em troca um batimento violento que se esvaia numa espuma resignada.
    Ana vacilou quando se encontrou em frente à casa de Fátima, mas abriu o portão e fora daquela porta verde que lhe causou tantos receios estendeu o pulso e bateu. A porta rangeu quando um homem a abriu. Ana reconheceu o senhor Joaquim naquele rosto triste e envelhecido.
- Ana! Que surpresa! Entra. – A porta abriu-se completamente e Ana aceitou o convite.
- Obrigada! Quero apresentar-lhe o meu noivo, George!
- Ah! Muito prazer! – O senhor Joaquim fez um gesto para que se sentassem. – Já tinha ouvido dizer que ias casar. Fico muito feliz por ti Ana.
- Obrigada. E a D. Alice? – O silêncio que se seguiu demonstrou um constrangimento ao qual Ana se rendeu arrependendo-se da sua pergunta.
- Desde aqueles acontecimentos infelizes que ela encontrou consolo… - O senhor Joaquim fez uma pausa parecendo querer encontrar as palavras certas. – Consolo num tipo de quotidiano diferente.
- Não estou a perceber. Ela está bem?
- Sim! Eu vou levar-te até ela. – Ana e George seguiram o homem até um quarto situado no fundo do corredor. Quando a porta se abriu, Ana encontrou a mulher de traços rígidos que se lembrava, mas havia qualquer coisa diferente. Um brilho de loucura que lhe trespassava o olhar falsamente alegre.
- Ana! Minha querida! Mas que prazer ver-te novamente! Entra… Vem ver o vestido que estou a terminar para a Fátima. – Ana sentiu o choque das palavras e procurou uma resposta no olhar do senhor Joaquim, que se limitou a encolher os ombros.
- Um vestido para quem? – Ana queria confirmar o que tinha acabado de ouvir.
- Para a Fátima. Ela casa-se daqui a quinze dias e ainda tenho toda a bainha do vestido para fazer. Ai ela está tão ansiosa, nem imaginas…
- Eu vou casar-me também! – Ana tentava dar alguma realidade àquela conversa.
- Ai que bom querida! Sempre vais casar com o Francisco? – Ana sentiu que George estremecer face àquelas palavras. Ele já percebia a palavras casar e Francisco e não lhe agradou ouvir ambas na mesma frase.
- Não D. Alice. Eu não vou casar com o Francisco, pode ficar descansada. – Ana não queria causar mais transtorno na mente debilitada daquela mulher.
- Então vais casar com quem?
- Com este homem aqui. Ele chama-se George, mas não fala português.
- Ai, mas que homem lindo Ana! E vê-se nos olhos dele que ele gosta realmente de ti!
- Acha mesmo?
- Ele desenvolveu por ti aquele tipo de sentimento que transporta em si mesmo a garantia de uma felicidade plena sem contratempos ou desilusões. É um sentimento profundo que liga as pessoas pela eternidade. É exactamente como o sentimento que liga a minha Fátima ao seu Manel… E eu fico tão contente com o casamento deles. Agora tenho mesmo que terminar o vestido. Sabes como é importante para uma noiva o seu vestido.
- Claro, D. Alice! Entrego-lhe o convite do meu casamento. Gostava muito que fosse.
    De volta à sala, Ana deixou-se cair incrédula no sofá. A D. Alice autoritária que tantas vezes a intimidou, estava reduzida e uma senhora demente.
- Não fique assim Ana! A Alice encontrou um consolo neste mundo que ela criou. – O senhor Joaquim Percebia a mulher. Por vezes invejava a forma como ela tinha encontrado tranquilidade naquela realidade distorcida que ela criara. Mas o corpo de uma mente que cria uma realidade utópica e renega tudo o resto, só sobrevive se por perto houver um mente consciente que cuide dela. E era esse o papel do senhor Joaquim.
- Mas daqui a quinze dias ela espera ter um casamento que não vai acontecer.
- Nesse momento logo vejo o que faço. Por agora ela está a fazer o vestido.
- E como é que ela tira as medidas? Como é que ela justifica o facto de Fátima nunca fazer provas?
- A tua irmã Glória vem cá todos os sábados e é ela que faz as provas. Alice convenceu-se que a Fátima esta a estudar no Faial e só vem para o casamento…
    Ana saiu daquela casa com algo mais do que saudade de Fátima. Depois do choque a situação, Ana teve a sensação de que Fátima estava a olhar pela mãe. Tinha arranjado uma forma de lhe suavizar a dor provocada pela sua morte intencional.
    Ana e George juntaram-se a Tina e John e sem palavras desnecessárias apreciaram aquele ponto exacto em que o mar e a terra se confundem demarcando a fronteira pouco exacta entre um azul imenso que esconde mistérios e vidas e a base de uma montanha que se prolonga num alcance magistral, tentando uma ligação presunçosa entre mar e céu.

sábado, 10 de março de 2012

CAPÍTULO XXI - Na Base da Montanha

CAPÍTULO XXI

    O Barco erguia-se no mar numa imponência arrogante e deslizava sobre aquelas águas calmas de Agosto que o acolhiam na simpatia saltitante de alguns golfinhos. Ana animou-se quando passou ao lado da ilha de S. Jorge que trespassava o mar como uma espada longa, verde e húmida. As fajãs convidavam envergonhadas a um disfrute descarado de tranquilidade e as encostas intimidavam os aventureiros a atreverem-se. Ana sentiu a emoção da antecipação da sua chegada. Sentia tantas saudades dos pais e das irmãs, do cheiro da terra lavrada, de um mergulho no pesqueiro da madeira…
    Quando a ilha do Pico se libertou do longínquo horizonte e se mostrou na sua imensidão, Ana sentiu um aperto no peito. O triângulo era imperfeito visto naquele ângulo, mas igualmente deslumbrante. Os braços de basalto abraçavam o verde húmido de uma terra fértil que subia numa união culminante num único ponto, o cimo da montanha.
- Esta é a nossa terra Jewel! – Ana depositou um leve beijo na cabeça da bebé que forçava o equilíbrio da cabeça de forma e observar com uns olhinhos arregalados. George transpirava de forma heróica o calor de Agosto, mas não se arrependia de ter vestido a sua farda. Sentia um nervosismo infantil e uma vontade adolescente de impressionar os pais de Ana, para além de um instinto de homem adulto de impor respeito, protegendo assim Ana de comentários maldosos que a possam magoar de alguma forma. Ele vai adoptar o seu ar militar pouco afável, intimidando desta forma as mentes fracas a atrevimentos de língua. 
    O barco contorna a extremidade da ilha e Ana tem o vislumbre da Vila da Lajes que parece adormecida na base daquela montanha. O porto transporta a animação típica da chegada de um grande navio. Os braços elevam-se e os nomes gritados misturam-se. Ana deposita Jewel no colo de George e debruça-se numa procura quase desesperada de caras familiares. A primeira que consegue avistar é Maria que pula como uma macaca de forma a ser avistada por qualquer pessoa. Ana chora… Chora uma emoção que transborda amor… Um amor incondicional e inviolável. Um amor leal que permanece intacto mesmo nas dificuldades, na distância, nas angústias. Um amor que deveria condicionar todos os outros sentimentos, pois só assim deixaria de haver atitudes medíocres e sentimentos inferiores. A humanidade ficaria munida de uma força de razão iluminada e impenetrável a dúvidas pouco claras.
    Ana correu por entre as pessoas alheia aos olhares admirados e aos sussurros crescentes e sedentos de aumentar aquele novo mexerico. Mas George seguiu-a com Jewel ao colo absorvendo cada olhar de soslaio, cada sorriso maldoso, cada movimento de lábios que continham uma calúnia. O abraço que recebeu Ana não deixou de penetrar a sensibilidade de George, que encontrou uma família unida num emaranhado de braços, lágrimas e palavras baralhadas. Como era possível que os outros olhos daquele cais não conseguissem ver aquilo que ele via? Como é que a vontade de depreciar o belo é mais forte do que a vontade de o admirar? Quem tem a capacidade de se abrir ao belo, facilmente ultrapassa esse patamar e chega ao maravilhoso, mas quem não tem essa capacidade, nunca passa do medíocre.
- Este é o George, o meu noivo! – Ana ainda sentia que aquela palavra não lhe pertencia. – Estes são os meus pais, José e Luzia. – George esticou a mão para um aperto de mão formal, que intimidou Luzia. José devolveu o aperto de mão com o mesmo vigor. – Esta é a minha irmã Glória e o marido João… - George sorriu e apertou as mãos, apreciando o sorriso fácil de Glória. – E esta é a pequenota da família, a Maria! – George estendeu a mão, mas Maria indignou-se e deu-lhe uma palmada na mão. George nem teve tempo para se admirar, uma vez que os braços de Maria já lhe haviam rodeado a cintura.
- Tu és muito bonito! – Maria estava encantada com aquele militar alto e vigoroso, que sobressaia naquele cais de gentes iguais. – Não tens nenhum irmão? É que daqui a nada já vou ter idade para ter um pretendente. – Maria sorria-lhe e George gostou dela imediatamente.
- Tina! John! Estamos aqui! – Ana abanava o braço elevado num aceno. Os amigos tinham ido buscar a bagagem. Arrastaram as malas e um baú com a ajuda de uns rapazitos cujos olhos luziram quando receberam umas moedas de reis como pagamento. Os cumprimentos foram longos e Tina tomou o braço de Luzia como se fossem amigas de longa data e começaram com as combinações do casamento.
- Vamos! O João leva este carro de bois com a bagagem! – José apressava as conversas, porque ainda tinham um longo caminho pela frente. – A Glória vai na carruagem com o marido, a Tina e o Jona.
- Jonh, pai! – Ana partilhava a gargalhada geral provocada pelo nome mal pronunciado.
- Ou isso… - José não queria dar parte fraca, mas não sabia bem como ia conseguir chamar pela neta e pelo futuro genro. – Tu, o Dejorge, a jaiele e a Maria, vêm comigo e com a Luzia.
    Tina ria-se à gargalhada por tudo e por nada. Sentia-se deliciada com aquele meio de transporte tão caricato, e quando reparou que o boi ia andando e deixando um rasto de bosta desavergonhadamente, sentiu que ia explodir de tanto rir.
    No carro de bois que segui na dianteira, a conversa era de saudade.
- Oh filha! O teu noivo é um homem muito bonito! E vê-se que é carinhoso com a menina. – Luzia admirava o olhar de ternura que George dedicava á neta enquanto ela dormia. – Mas tenho um aperto no peito…
- Não ouças o que ela diz Ana! Eu já lhe disse que esses apertos são da roupa que lhe está a ficar apertada, mas ela não me acredita… - Maria ainda não tinha largado o braço da irmã. Assim que Ana saltou para o carro de bois, Maria saltou logo de seguida, tomando o lugar a seu lado e entrelaçando o braço no dela, numa atitude possessiva. George percebeu com alguma satisfação a personalidade forte de Maria que jogava com ele a um braço de ferro invisível.
- Eu também tenho um aperto no peito mão! – Ana sabia que ali podia ser sincera. Depois de tudo o que tinham passado juntos, não havia lugar a fingimentos ou falsas forças. Ela podia fraquejar, ter dúvidas.
- Olha-me esta também… eu alargo-te as blusas que isso é de teres o peito inchado de amamentares. – Maria não queria correr o risco de perder aquela festa de casamento. Para além de casar a irmã, de certeza que vai haver daqueles bolos muito bonitos que ela vê nas fotografias dos casamentos dos primos americanos. Os americanos fazem sempre doces para um batalhão, e o George é americano, logo a perspectiva de uma doce casamento é muito sedutora.
- Não é isso! Eu sei que é uma boa solução para mim… não podia desejar melhor futuro para mim e para a minha filha…
- Então o que é que te está a angustiar? – Luzia tentava perceber aquele olhar baço que a filha exibia.
- É demasiado bom para mim! Mas sinto que estou a arrastar o George para um problema que não é dele e não lhe estou a dar nada em troca. Eu estou a beneficiar desta situação e o George está a ser penalizado… Não consigo explicar bem… Mas o que é que ele pode encontrar de bom nesta história?
- Parece-me que ele já encontrou… Tu é que ainda não estás a conseguir ver Ana… Mas um dia verás e as coisas vão ficar mais fáceis. – José pronunciou aquelas palavras sem desviar os olhos do caminho.
- Mas tu não o amas? – Luzia começava a sentir-se inquieta.
- Eu… Eu gosto muito dele. Sinto um carinho muito grande… Uma gratidão enorme… O que sinto por ele é na verdade um respeito imenso pela pessoa que ele é.
    Luzia sorriu-lhe e trocou um olhar cúmplice com o marido. Aquilo bastava-lhe. Acreditava mais no respeito do que na paixão. Numa relação em que existe respeito, a paixão tardia é recebida com mais sabedoria e o proveito que daí advém é incomensurável.
    A Tina e o John foram encaminhados para a casa da Tia espirito Santo, uma vez que não havia espaço suficiente na casa dos Ferreira. A hora tardia fez com que todos abdicassem da ceia para se deitarem e descansarem. Luzia fez questão que a bebé ficasse no seu quarto naquela noite, desculpando-se com a fadiga de Ana, mas todos lhe adivinharam a intensão.
 - Tinha tantas saudades deste quarto, desta cama… De ti, pirralha! – Ana fazia cócegas a Maria por debaixo da colcha.
- Eu também senti muito a tua falta! – Maria enroscou-se na irmã. Ela estava diferente. Já não tinha aquele ar inocente que a caracterizava. Estava mais mulher… e vestia-se muito melhor, graças a Deus.
- Tenho medo Maria!
- Do quê?
- De ir viver para a América. A Tina fala-me daquela terra e eu não percebo nada do que ela diz. Parece que existe tanta gente que as pessoas cruzam-se na rua, mas não se conhecem todos.
- Não sejas tonta! Vais para um meio onde as pessoas usam batom e laca todos os dias… Quem me dera!
- Preferia continuar na Terceira, mas o George tem de voltar e eu…
- Pensa em como vai ser bom para a bebé crescer num lugar onde ela pode escolher um futuro. Ela vai crescer sem ter de acordar com as galinhas para ir ordenhar as vacas antes de ir para a escola. Vai estudar em cadernos de papel, em vez das pedras de xisto que nós temos. E quando terminar a escola, não terminam as opções dela, e ela pode escolher ser médica ou advogada como nos romances que os tios nos enviam… E pode tornar-se uma mulher independente e usar calças… E pode fumar e beber vinho com amigos…
- Que idade é que tu tens? – As duas começaram a rir enquanto se aconchegavam nos braços uma da outra, e continuaram a cochichar até adormecerem.
    A azáfama própria de um domingo de manhã fez Ana acordar sorrindo. Tinha saudades daquele preparo domingueiro e vestiu-se apressadamente desta vez sem a ajuda de Maria, provocando uma certa mágoa nesta. Luzia reuniu todos na cozinha e inspeccionou um a um. Após ter dado o seu aval abriu a porta e pediu que a seguissem.
- Esperem! Não vamos comer qualquer coisa primeiro? – Tina sentia-se esfomeada. Tinha adormecido na noite anterior de cansaço sem sequer ter comido e sentia-se com um buraco no estômago.
- Minha querida, não pode comer nada antes da missa! – Luzia explicava-lhe pacientemente, aquilo que qualquer cristão deveria saber de forma intuitiva. – Só podes comungar em jejum… - E voltando-se para o portão. – Agora vamos embora.
    Ana e Maria trocaram umas risadinhas, enquanto Tina bufava. A canada parecia mais inclinada do que Ana se lembrava, ou seria o efeito dos sapatos de salto alto que lhe provocariam aquela sensação. Tina segurava-se no braço do marido caminhando sem vacilar com a segurança de que ele não a deixaria cair. Ana queria entrelaçar o seu braço no de George. Sentia esta necessidade com um força quase física. Ele nunca mais a beijara, e ela lamentava este facto. Recordava aquela tarde e aquele beijo com uma precisão repetida insistentemente e desejava repetir, mas não podia exigir mais a George do que aquilo que ele já lhe oferecia. Ele começava a encaixar-se na sua vida com a mesma naturalidade com que a chuva se funde com a terra, mas Ana queria mais. Ela sonha com um casamento cúmplice, com uma química que lhe escalde as faces e lhe provoque arritmia no batimento do seu coração. George está a absorver-lhe as preocupações e constrangimentos que uma mãe solteira acarreta, mas ela quer mais do que partilhar as suas dificuldades. Quer envolver-se sentimentalmente. Quer estender-lhe a mão num mau momento e beijá-lo nos momentos de felicidade. Quer acarinhá-lo… Quer amá-lo… e quer ser correspondida. Não sente que seja demasiado pretensioso, este seu desejo. Ela não é menos mulher, só porque uma sociedade fechada assim o afirma. Ela tem mãos, pernas, cabeça, bons momentos e maus momentos, e nenhum destes factores a define individualmente.
    O adro da igreja continuava com a cal branco dos muros gasto e o basalto que os definia liso. Sobre a relva seca o rebanho do padre Inácio trocava impressões e mexericos apressados absorvendo o máximo de informação antes da missa. Luzia subiu as escadas de basalto de braço dado com José e com um sorriso aberto a Glória que já os esperava no adro. Foi demasiado notório o corte repentino nas conversas corriqueiras e os olhares trespassaram uma acusação fria e caíram sem piedade sobre Ana que alcançou Glória com um abraço onde aproveitou para esconder o rosto por uns segundos, apenas o suficiente para se recompor.
- Oh George! Deixa que fico com a menina durante a missa. – Glória pegou na sobrinha derretida e piscou um olho cúmplice a George, enquanto lhe empinava o queixo para o lado de Ana mostrando-lhe naquele gesto onde era o seu lugar. George aproximou-se de Ana e pegou-lhe na mão. O seu corpo reagiu imediatamente ao toque e George encaixou aquela mão perfeita na curvatura do seu cotovelo. Sorriu-lhe e inclinou-se sussurrando-lhe ao ouvido.
- Don’t worry! I’m right her by your side, and i’ll never leave you… - George terminou aquele murmúrio com um suave beijo na face de Ana. Esta fechou os olhos e deixou que aquele arrepio de prazer lhe percorresse a espinha sem pressa.
- George!
- Hum!...
- Eu podia amar-te! – Os olhos de Ana penetraram o olhar de George forçando um entendimento que tardava. E quando o momento se perdeu e Ana desviou o seu olhar, encontrou outros olhos que ela pensava já ter esquecido… Francisco.

domingo, 4 de março de 2012

CAPÍTULO XX - Na Base da Montanha

CAPÍTULO XX

    O sol aquecia agradavelmente as costas curvadas sobre os canteiros de culturas que eram mimados pelas mão experientes de Ana. O cheiro matinal da terra húmida entranhava-se nas suas narinas que se dilatavam numa ânsia saudosa. Ana cantarolava uma felicidade despreocupada e agradecia intimamente a sua nova vida. Tinha uma família que provara amá-la acima de qualquer constrangimento. Os seus amigos eram leais e não se confundiam com as amizades corriqueiras de ocasião. A lealdade é a melhor das virtudes em qualquer relação. É um acto de entrega pleno e puro, sem requintes de engano ou perversões de abuso. É o garante de beneficiar do melhor de todos os outros sentimentos positivos. É uma tranquilidade para quem é seu merecedor e um privilégio para quem a dedica.
- Ana! Onde é que te meteste mulher? – A voz de Tina soou estridente no interior da casa. Ana largou o ancinho e entrou pela porta traseira sacudindo a terra das mãos.
- Estou na cozinha!
- Ah sua labrega! – Tina contornou a mesa abriu um armário e tirou um frasco de vidro que continha bolachas de manteiga. – Não tens nada para me mostrar?
    Ana ergueu uma sobrancelha duvidosa, como se procurasse uma resposta lógica àquela pergunta.
- Oh! Anda lá! Não faças mais suspense…
- Juro-te que não sei do que estás a falar Tina! – Ana já tinha colocado uma chaleira ao lume e esperava que ela apitasse. Desde o seu primeiro dia naquela casa que se apaixonara pela chaleira que apita quando a água ferve, como se gemesse uma agonia escaldante.
- Ora! Do anel…
    Ana mostrou-se surpresa. Já nem se lembrava do anel.
- Ah! Já sabes que o George me ofereceu um anel?
- Não te faças de tonta e mostra-me o anel. – Ana obedeceu de imediato àquela ordem sem perceber bem o motivo para tanto entusiasmo. Entrou no seu quarto com um excesso de cuidado para não acordar Jewel que descansava de uma noite mal dormida. Pegou na pequena caixa e levou-a até à cozinha contrariada. Não lhe apetecia partilhar aquele anel com Tina. Mas no momento seguinte arrependeu-se deste sentimento egoísta com uma pessoa que se abriu a ela sem escrúpulos ou condições.
- Aqui o tens, mexeriqueira! – Ana atirou-lhe a caixa e dirigiu-se à chaleira que chiava, preparando o chá que acompanhariam as bolachas de manteiga, enquanto Tina emitia exclamações excitada.
    George entrou na cozinha conduzido pelas risadinhas agudas de Tina. Roubou-lhe a bolacha intacta que ela tinha na mão e comeu-a com vontade.
- What’s up? ( O que se passa?) – Tina piscou o olho a Ana de forma incompreensível e retirou-se com um sorriso malandro. George bebeu o chá, levantou-se, contornou a mesa e colocou-se atrás de Ana que lavava a louça com uma mão apoiada na bancada alva. A proximidade provocou-lhe um arrepio e o coração começou a pulsar-lhe nos ouvidos. Não evitou o impulso de pegar numa mecha de cabelo de Ana e enrolá-lo no dedo.
- I´m in love with you! ( Eu estou apaixonado por ti!) – As palavras sussurradas juntou ao pescoço de Ana fizeram com que os seus músculos se retesassem e num impulso de afastar o que quer que fosse que ele lhe provocava nos nervos, Ana afastou-se passando por baixo do seu braço.
- Não tens que lavar nada! Já está tudo lavado, não vês? – Ana pegou num esfregão e começou a esfregar a mesa no lado oposto. George atravessou a cozinha, sentido um certo prazer machista naquele constrangimento que provocava em Ana e voltou a colocar-se atrás dela.
- I want to protect yourself from people like professor Martins… That´s why I want to marry you. (Quero proteger-te de pessoas como o professor Martins… é por isso que vamos casar.) – George enterrou o seu rosto no cabelo de Ana e inalou o cheiro do champô de camomila que já se tornara familiar. – You are so beautiful… ( És tão bonita…)
    Ana virou-se com intenção de voltar a afastar-se, mas os rostos ficaram demasiado perto e os pensamentos entorpeceram-se. George rodeou-lhe a cintura e encostou-a mais a si. Os olhos não se despregaram e as palavras deixaram de fazer sentido. Os lábios encostaram-se timidamente e voltaram a afastar-se apenas o suficiente para George ver a reacção no rosto de Ana e esboçar um sorriso ao ver um brilho de paixão acender-se. Ainda era pequeno, mas George sabia ser paciente, só precisava de um incentivo e acabara de o ter.
- One day you will be completely mine! (Um dia serás apenas minha!) – E pegando no anel que descansava em cima da mesa, George colocou-o no dedo anelar de Ana beijando-o seguidamente.
    Finalmente, os olhos de Ana arregalaram-se de compreensão. Ela saiu daquele estado de dormência e afastou-se.
- Não entendo nada do que estás para aí a dizer! Vou buscar a Jewel e… Ou ela agora está a dormir… mas alguém tem de lavar a roupa que está no cesto. – Ana afastou-se numa atrapalhação de gestos e palavras apreciadas pelo corpo de George que se encostara à bancada a rir desavergonhadamente.
    Ela estava noiva! Agora podia perceber isso. Existem compreensões que ultrapassam as palavras e ela possuía agora essa compreensão. Um homem que ela mal conhecia e que não compreendia, era capaz de a proteger e defender melhor do que o homem que ela amara e a quem se entregara. A vida tem desenvolvimentos misteriosos e convoca-nos a sentimentos confusos e grandiosos quando tudo parece perdido. Ela sentia-se amparada por um estranho. Por um lindo estranho…
    A vida tem estratagemas que se emaranham de tal forma que envolvem a mente dos que sofrem numa maresia de desentendimento, mas quando o emaranhado se desemaranha, tudo parece lógico e natural. E de repente o caos dá lugar ao maravilhoso… Como saberíamos que o maravilhoso é maravilhoso se nunca tivermos visto o caos?
    Ana sentia uma necessidade de rir alto, de exibir a sua felicidade repentina e correu com esta intenção para a casa de Tina. Em frente à porta da amiga, conteve-se ao ímpeto de abrir a porta de rompante e bateu suavemente, esperando o convite para entrar.
- Tina! Estou noiva! – Ana atirou-se aos braços da amiga rindo e chorando ao mesmo tempo.
- Bem! Era essa a revelação que eu esperava à pouco em tua casa! – Tina sentiu-se confusa com aquele estado de histeria da amiga e conduziu-a até ao seu sofá. – Bem agora que estás mais calma, explica-te…
- Eu estou noiva!... – Ana não conseguia dizer mais nada. Esta era a ideia que lhe preenchia a mente como uma esponja que absorve água.
- Sim! Isso, eu já sabia! Por isso é que fui a casa do George para ver o anel… - Tina tentava perceber. – Mas o que mudou desde a minha ida á tua casa para agora?
- Como é que sabias que eu estava noiva?
- Ora! Porque o George contou ao John e ele contou-me a mim… Não estou a perceber o que se passa contigo…
- E soubeste quando?
- Ai Ana! Soube ontem… Não foi ontem que o George te deu o anel e tu aceitaste?
    Ana começou a rir desalmadamente para desespero de Tina, que forçava o seu instinto a encontrar alguma atitude apropriada.
- Eu só soube agora! – Ana leu um brilho de dúvida no olhar de Tina. – E não sei bem o que pensar disso… Acho que preciso de falar em voz alta… Eu estou noiva! – Ana levantou-se e gritou e ficou à espera do efeito que o eco da sua voz provocava nela.
- Mas ele ofereceu-te um anel de noivado… Ontem… - Tina tentava perceber onde se tinha dado o equívoco.
- Sim! E eu aceitei, pensando que era apenas um presente para me compensar da humilhação que o Professor Martins me fez passar no baile. – Tina arregalou os olhos face ao entendimento. Ana aceitou o anel, mas não o pedido que lhe estava intrínseco. – E agora que percebo o que realmente aceitei, sinto-me muito feliz, mas ao mesmo tempo…
- Tens dúvidas, não é querida? – As duas amigas sentaram-se na beira do sofá e encararam-se. A mão de Ana foi encaixada pelas mãos de Tina e a conversa iniciou-se cautelosa.
- Eu sei que és amiga do George, mas eu não tenho mais ninguém com quem falar.
- Eu sou muito amiga do George, mas também sou tua amiga! Diz-me o que te consome.
- Eu sinto-me feliz… Sabes Tina, eu sinto-me defendida. Sinto-me segura e até mesmo muito honrada por merecer este gesto tão nobre de um homem com o George… Vaidosa e reconhecida!... É exactamente assim que me sinto, vaidosa e reconhecida… Sinto um alívio perante a perspectiva de poder caminhar de cabeça erguida novamente. Imagina só o que seria voltar à minha ilha pelo braço de um homem como o George… Ai como aquela gente se iria retroceder para conseguir um cumprimento meu. Tirar este peso que me foi imposto por seres alheios a mim, seria bom… Seria muito bom… Mas é uma forma fácil e cobarde de acabar com o meu problema… Mas principalmente seria injusto para George…
- O George sabe muito bem o que está a fazer!
- Será que sabe?
- Ele está a fazer isto exactamente para te proteger Ana! É evidente que tem sentimentos por ti, mas isto em concreto ele está a fazer para proteger a mulher por quem ele se apaixonou!... E ele sabe quais são os riscos, e assume-os…
- Queria tanto falar com ele. Sentar-me a tomar um chá e apenas falar, trocar palavras, ideias, sentimentos… Como é que um casamento pode resultar se não existe qualquer tipo de comunicação?
- Diz-me Ana, o George é um bom homem?
- É o melhor dos homens, Tina! Ele é cavalheiro e atencioso. Sempre pronto a ajudar-me. E quando ele entra pela porta dentro a casa enche-se de vida. E é trapalhão… Eu sei que ele transmite aquele ar militar muito seguro, mas devias vê-lo no abrigo do lar… é muito trapalhão, tropeça sempre nas quinas das mesas… Nunca levanta a mesa sem partir um copo… - Ana sorria. – E com a Jewel… Ele é tão meigo com a menina, que me dá a sensação que ela fará gato-sapato dele quando for crescida… - As duas mulheres riam agora descontraidamente.
- E não foi preciso comunicação, como tu lhe chamas para conheceres tudo isso do George… - Tina acariciou as costas da mão da amiga e depois fixou-lhe o olhar esperando uma resposta sem palavras. – Agora diz-me Ana, de quanta comunicação precisaste para te deixares enganar pelo Francisco?
    Ana recebeu o sentido daquelas palavras com o mesmo impacto de uma bofetada. Que estranha forma de enfrentar a realidade. As palavras são o meio mais eficaz de criar ilusões. É nos actos que reside a verdade de cada pessoa.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

CAPÍTULO XIX - Na Base da Montanha

CAPÍTULO XIX

    A noite transpirava humidade e o céu fechou-se timidamente numa escuridão que se sobrepunha ao brilho baço de umas poucas estrelas. Jewel dormia profundamente nos braços quentes de Tina, enquanto esta a embalava e falava num sussurro para Ana.
- Estás linda! – Ana sentiu-se corar um pouco.
- Preferia entrar no baile acompanhada. Não me sinto bem entrar assim sozinha.
- Pois… Mas não te preocupes! Assim que chegares lá vais ter a companhia do George.
    Ana olhava a porta sem se decidir a sair.
- Nunca estive num baile deste! E se eu não o encontrar no meio daquela gente?
- Oh querida! Se não o encontrares, ele encontra-te a ti com toda a certeza.
    Ana despediu-se da filha e saiu abraçando e écharpe enrolada à volta dos ombros. O carro percorreu a curta distância numa silêncio cerimonioso que só era amaciado pelo olhar envergonhado do jovem militar que vigiava pelo retrovisor de forma mal disfarçada a acompanhante do General. O carro preto parou em frente à porta e Ana atrapalhou-se, recuperando a calma apenas quando o jovem militar deixou escapar uma risadinha, fazendo Ana libertar uma gargalhada e voltar a recuperar o equilíbrio necessário para esticar o pescoço, empinar o nariz e entrar por entre os arcos escuros de basalto. Já dentro do salão, olhou em redor e absorveu cada uma das mesas procurando a imagem tão desejada. Os nervos instalaram-se numa zona desconfortável do abdómen quando percebeu que George não lhe surgia na pupila. Os passos tornaram-se mais curtos e inseguros. Os ouvidos apuraram-se de tal forma que a sua própria respiração parecia amplificada. Só se sentiu tranquilizar quando os seus olhos se colaram aos de George, com uma intensidade que a incentivou a atravessar a sala.
- Boa noite Anne! – Ana sorriu face àquelas palavras mal pronunciadas.
- Olá George! – Ana entrelaçou o seu braço no braço duro do general. – Não me convidas para dançar?
    George subiu as sobrancelhas numa interrogação. Ana sorriu-lhe de forma encantadora e encaminhou-o para a pista. Pegou na mão direita de George e encaixou-a na sua cintura. Encostou-se num suspense sentido por ambos e rodopiaram em uníssono num encaixe perfeito.
    George fez rodar o seu par numa exibição machista de quem sabe que tem o par mais desejado pelos olhares alheios. Encoberto pelo perfume caro, George identificou o cheiro de leite e sentiu-se mais próximo de Ana. Admirava-a. Sim… Admirava a forma ingénua como ela enfrentava o mundo com o queixo empinado e a sabedoria dos sonhadores. Admirava a simplicidade com que ela sorria indiferente ao deslumbre dos seus traços. Admirava a voz suave que entoava carinhos em músicas de embalar. Admirava o olhar de ternura que ela dedicava à filha e que as unia num laço que ele começava a desejar penetrar…
- Posso roubar-lhe o par? – Um homem de cintura redonda e um ar sebento separou George de Ana. Esta esbugalhou os olhos ao reconhecer o professor Martins e o pânico começou a percorrer-lhe as entranhas. George não confiou logo o seu par àquele cavalheiro, pressentindo uma ansiedade estranha em Ana.
- Então agora dedicas-te aos militares! – O professor Martins agarrou Ana com uma força excessiva e afastou-a num redopio mal ensaiado. Aproximou a sua boca do ouvido de Ana arfando enquanto deixava escapar umas frases que o exercitavam numa excitação doentia. – És esperta… Os militares podem pagar melhor pelos teus serviços. Mas se vieres comigo hoje vou mostrar-te a pujança de um professor… Já sentiste o poder íntimo de um professor? – O professor Martins deixou descair um pouco a mão que apoiava na cintura de Ana e lambeu-lhe a orelha de forma lasciva. Ana não aguentou a humilhação e afastou-o com um empurrão que pareceu entusiasmar mais o professor. Sentindo-se incentivado agarrou-a novamente e puxou-a para si.
- Queres armar-te em difícil agora? Agora é demasiado tarde, porque todos já sabem que tu és uma menina muito mal comportada… - As bochechas transpiravam uma vermelhidão expectante no beijo que o professor Martins tentava desesperadamente forçar. O homem sentiu o seu corpo tornar-se mais leve e só percebeu o que havia acontecido quando aterrou de costas em cima de uma mesa frágil que se despedaçou debaixo do peso excessivo daquele corpo mole.
- Let´s get out of here! (Vamos sair daqui!) – George pegou no braço de Ana a afastou-se arrastando-a atrás de si e libertando-a apenas quando o ar frio da noite lhe roçou a cara e lhe acalmou a corrente eléctrica de raiva que lhe percorria o sistema circulatório chegando a todos os extremos do seu corpo. – What the hell happened there? I felt I could kill that guy! If he touch you again, I… I… (Mas que raio se passou ali dentro? Eu senti-me capaz de matar aquele gajo! Se ele volta a tocar-te eu… Eu…)
- Tem calma George! – Ana sentia-se aflita ao ver George andar de um lado para o outro a praguejar coisas que ela não entendia. Sentia um medo imenso que ele começasse a sentir embaraço por tê-la levado ao baile. Talvez começasse a vê-la com os olhos das restantes pessoas. A visão de uma multidão pode ofuscar a visão de um visionário. É preciso ter uma capacidade superior para manter os valores inalterados, os pensamentos puros e a mentalidade aberta e despida das concepções que uma sociedade inteira toma como certas, por que as convicções de caracter são tão abrangentes que se fazem rendilhar de fragilidades absorvidas por certezas demasiado incertas.
    Finalmente George acalmou-se, pegou na mão de Ana e beijou-lhe a ponta dos dedos, entrelaçou a mão delicada na curva do seu braço e dirigiu-a de volta para dentro do baile. Já não podia percorrer o caminho de regresso no carinho que tinha desenvolvido por Ana.

    O receio de enfrentar a realidade depois de a magia se ter desvanecido, entorpecia a vontade de sair da cama e Ana acanhava-se, enroscando a filha já acordada nos braços e rendendo-se ao seu riso fácil. Ana sentou-se na cama e libertou um seio cheio alimentado a pequena Jewel que mamava preguiçosamente adormecendo e acordando sempre que sentia que o seio lhe fugia da boca caprichosa. George abriu a porta do quarto devagar para não perturbar o sono que não verificou. Sabia que devia ter voltado a fechar a porta, mas não conseguiu e encostou-se à ombreira com os braços cruzados apreciando o momento. A pequena Jewel encaixava-se perfeitamente no regaço de Ana e a cumplicidade daquele acto simples fê-lo desejar pertencer àquele quadro familiar. Ana subiu o olhar e atrapalhou-se quando viu George ali estacado a olhar para ela, com o seio descoberto. Ele sorriu-lhe afectuosamente e ela corou, tapando atabalhoadamente o seio nu. George entrou no quarto, pegou em Jewel e atirou uma roupa qualquer do armário para cima da cama, saindo de seguida com a bebé ao colo. Ana levou alguns segundos a recompor-se e depois de fixar a roupa que George tinha escolhido, deixou escapar uma gargalhada. Voltou a colocar a roupa no armário e tirou outra que lhe pareceu mais adequada. Ela tinha percebido que George queria que ela vestisse algo para sair e ela escolheu um vestido que lhe acentuava a cintura fina e que se abria num tecido fluido por sobre as ancas.
    A viagem até ao centro da cidade de Angra foi calma e silenciosa. Ana só voltou a sentir-se tensa quando George parou em frente ao magistério, onde ela havia sido recusada de uma forma arrebatadoramente humilhante. Ana estagnou em sinal de protesto e retesou todos os seus músculos contrariando a mão grande de George que a empurrava delicadamente. Quando finalmente George aplicou um pouco mais de força, entraram e depararam-se com a senhora já conhecida de Ana que lhe sorriu assim que a reconheceu.
- Olá minha querida! – Cumprimentou a simpática senhora que se tinha tornado uma admiradora de Ana depois da joelhada que ela havia aplicado ao professor Martins.
- We want to talk with Professor Martins!
- Sure! You can follow me! – Ana ficou admirada com a resposta solícita em inglês que aquela senhora prontamente deu. A senhora conduziu-os ao gabinete do professor Martins e permitiu a entrada do casal sem o formalismo do aviso da chegada daqueles dois. Não queria correr o risco de o professor não os querer receber.
    George abriu a porta de rompante e sentiu uma satisfação íntima quando viu os olhos pequenos e astutos do professor se arregalarem de admiração e medo. George dirigiu-se à figura ridícula daquele homem com uma barriga proeminente e regalou-se quando viu a sua presa levantar-se e recuar alguns passos. Tinha-o preso pelo medo…
- Can you see that women? (Estás a ver aquela mulher?) – George sibilava algo incompreensível aos ouvidos de Ana que se encolhia junto à porta sem saber bem o que fazer.
- Não percebo o que estás a dizer! – O professor tropeçou na estante que cobria a parede traseira. George deu mais um passo na sua direcção e aproximou-se tanto que o professor lhe pode sentir a brisa da respiração.
- I know you speak English! So tell me, can you see that women? (Eu sei que falas inglês! Então diz-me, estás a ver aquela mulher?
- Sim, sim… Yes… Sim – Ana sentiu uma pena ridicularizadora daquele personagem que se desfazia em medos e receios e sentiu que tinha de reprimir uma gargalhada maldosa.
- You’ll never touch her again… You’ll never look into her eyes again…And now you’re going to apologize… (Nunca mais voltas a tocá-la… Não te atrevas a voltar olhar-lhe nos olhos… E agora vais pedir-lhe desculpa…) - O professor Martins olhou aquela rameira com medo que o seu enjoo fosse notado.
- Desculpa!
- You’ll get some news soon! ( Terás noticias minhas em breve). – George voltou costas e o professor Martins deixou descair os ombros tensos e suspirou de alívio.
    Ana não tinha percebido nada do que George havia dito naquela sala, mas sabia que a tinha defendido. Uma mulher sente da mesma forma sábia tanto a agressão, como a protecção. Uma mulher ferida é uma chama num barril de combustível. E assim que se dá a combustão explode e fere quem está à sua volta com a gravidade dependente da proximidade, sendo que os mais feridos são os mais próximos. Mas uma mulher protegida é o melhor investimento de uma vida, porque a gratidão de uma mulher é eterna e a afeição que resulta dessa gratidão é a garantia de uma lealdade e cumplicidade que acompanham e iluminam uma vida preenchendo-a sem dificuldade e facilitando o dia-a-dia do outro sem grandes exigências.
    Ana deslumbrava-se com os olhinhos arregalados de Jewel, captando tudo o que se movimentava no parque. George caminhava a seu lado numa proximidade confortável. E ria-se sem causa aparente só porque a bebé o fazia. Sentaram-se num banco. Num banco vermelho. Num banco vulgar. E foi naquele lugar vulgar que George tirou uma pequena caixa e entregou-a a Ana, contendo nela muito mais do que um simples anel.
- Oh! Não era preciso ofereceres-me nada George! – Mas os olhos se Ana denunciavam o contrário das suas palavras. Ana abriu a caixa com um cuidado extremo e soltou uma risadinha quando viu o seu conteúdo. – É tão lindo… Muito obrigada George! – E depositou-lhe um leve beijo na face não percebendo o fechar de olhos de George que recebia aquele gesto com a ânsia de o prolongar por uma vida inteira. – Mal sabes tu que nesta terra isto é um anel de noivado! Mas vou aceitá-lo à mesma… Afinal é uma prenda tua! E eu gosto muito de ti, George! Só tenho pena que não consiga dizê-lo de forma que tu me entendas.