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Agradeço a todos o carinho e a disponibilidade para lerem e apreciarem aquilo que escrevo.
Muito obrigada
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
CAPÍTULO XVI - Na Base da Montanha
CAPÍTULO XVI
O Pórtico elevava-se na sua frente em três arcadas imponentes com duas torres nas extremidades. A alvura do edifício tornava-o mais celestial. Ana entrou na Sé Catedral de Angra do Heroísmo numa busca inconsciente de conforto. Os seus olhos não admiraram da forma devida as capelas que se sucediam numa dança de arcos e colunas majestosos que se intercalavam de forma harmoniosa. Ana sentou-se num dos longos bancos e fixou o frontal de prata do altar do Santíssimo Sacramento e por uns segundos permitiu-se apreciar a beleza daquele relevo.
- Ajuda-me Deus! Ajuda-me a não falhar! Ajuda-me! – Ana sentia o calor das lágrimas percorrerem-lhe as faces.- Não deixes que a minha filha nasça no meio da miséria! Por favor, permite uma vida digna para a minha menina.
Os segundos deram lugar a minutos, e os minutos transformaram-se em horas. Ana não tinha para onde ir e deixou-se ali ficar até que um homem de meia-idade coxo lhe interrompeu a decadência de emoções.
- Temos de fechar a Sé por hoje! – O seu olhar apresentava-se doce e tornava as suas feições feias um pouco mais amenas.
- Não tenho para onde ir! – Ana expôs a sua situação àquele estranho sem se poder dar ao luxo de ter qualquer tipo de recato ou pudor. O homem deixou transparecer a atrapalhação que aquela confidência lhe provocara.
- Eu não sou o padre! Se quiser confessar-se deverá fazê-lo amanhã pelas onze horas da manhã!
Ana pegou na sua mala e levantou-se sem vontade. O homem fixou o seu olhar na barriga proeminente e não lhe escapou o facto de aquela rapariga não ter aliança. Subiu o olhar e assimilou aqueles olhos redondos inchados e angustiados, assimilou uns lábios curvados de dor e leu-lhe as rugas de preocupação que se formavam na testa daquela linda mulher. O homem, não podia virar as costas a um filho de Deus. Era um mero sacristão e sabia que não podia contar com a ajuda do sacerdote, que julgaria aquele rapariga como uma devassa que se tinha desviado do caminho sagrado de forma irremediável. Talvez se a moça mostrasse ares de ter algumas posses ainda se vislumbrasse uma salvação possível, mas assim mendiga era de todo impossível salvar a sua alma. Mas o sacristão compadecia-se daquela alma perdida e havia uma vontade interior que o impulsionava a ajudá-la. Sentou-se ao lado dela e agarrou-lhe a mão, num gesto de compreensão.
- O meu nome é Jerónimo, mas todos me chamam de coxo! – Ana deixou escapar um sorriso atrapalhado pelas lágrimas e sentou-se novamente.
- Eu sou a Ana e todos me tratam por Ana! – Os dois trocaram um sorriso cúmplice.
- Espera aqui só um momento! – O homem foi trancar a porta central da Sé e voltou a sentar-se ao lado de Ana. - Conta-me a tua história.
Ana olhou aquele homem de estatura baixa e uma magreza extrema. O cabelo mal cortado abundava num preto baço e os seus olhos escuros brilhavam enquanto lhe sorria afectuosamente.
- Eu nasci na ilha do Pico! Tenho lá toda a minha família! – Ana apressou-se na descrição da família, já que a saudade teimava em atrapalhar-lhe as palavras. – Apaixonei-me por um jovem médico e engravidei. Como já deve ter reparado hoje estou numa terra estranha, sem ninguém, sem sustento, solteira e grávida!
- Mas porque vieste para a Terceira se tinhas a tua família no Pico? – Aquela rapariga já conquistara a compaixão do sacristão que começava a interessar-se pela sua história.
- Porque me recusei a viver na clausura da vergonha! Eu amei e engravidei. Estou a gerar uma nova vida dentro de mim. Isto não tem de ser motivo de embaraço. Não tem de ser uma condenação de viver uma morte em vida. Eu recuso-me a baixar o olhar a comentários maldosos. Eu recuso-me a afastar-me das pessoas supostamente dignas. Eu não sou uma marginal. Tenho sonhos, tenho projectos, tenho sentimentos e não posso deixar esta Ana que gosta de viver de rir de aprender, numa clausura eterna. As pessoas não podem olhar-me com superioridade nem julgar-me só porque não segui o que esta sociedade hipócrita me impinge. Está tudo ao contrário Jerónimo. – O sacristão sorriu-lhe ao notar que ela o tratara pelo nome e não pela alcunha. – Eu sou acusada com olhares, com comentários maldosos, com propostas indecentes. Sou julgada, rotulada, subjugada a humilhações que me magoam muito. Essas atitudes magoam-me. Essas pessoas magoam-me. E eu nunca provoquei uma dor nessas pessoas que tão facilmente me magoam… Porque é que sou eu que estou a ser julgada em praça publica se não fui eu que magoei ninguém… Mas que raio de sensibilidade é esta que rege a dignidade das nossas gentes?
O sacristão sensibilizou-se com aquele discurso tão sentido. E tomou a decisão de ajudar aquela menina às escondidas do pároco.
- Vamos fazer o seguinte! – Ana esperava numa expectativa de esperança o que aquele bom homem lhe tinha para dizer. – Vou deixar-te passar a noite na sacristia. Sei que não é lá muito confortável, mas sempre é melhor do que ficares na rua. Tens de acordar cedo, para que o sacerdote não te apanhe aqui. Amanhã acordas e tentas arranjar trabalho. Vamos gerindo um dia de cada vez…
Ana rodeou o pescoço daquele pequeno homem que Deus lhe colocara no caminho. Jerónimo apreciou o gesto espontâneo. As pessoas não costumavam dirigir-se assim a ele. O seu aspecto físico costumava repugnar os outros, antes mesmo de ele ter oportunidade de mostrar a sua personalidade. Mas naquela noite Deu colocou-lhe uma amiga na sua vida. Uma amiga… Eis uma novidade para ele.
Os dois conversaram noite fora. Ana contou-lhe todos os pormenores. Riram das pirraças da pequena Maria. Emocionaram-se com união de Glória e João. Trocaram risinhos sobre a intimidade de Ana e Francisco. Choraram a morte de Fátima. Repugnaram-se com a atitude do professor Martins e por fim adormeceram no desconforto daquele banco de madeira.
Ana deixou a Sé quando o sol começou a despertar. Abriu os braços àquele novo dia e rodopiou provocando uma gargalhada em Jerónimo.
- Boa sorte Ana!
O pão seco e o pouco leite que Jerónimo arranjara tinham reconfortado o estômago de Ana que não comia nada desde a manhã do dia anterior. Ana seguiu as ruas sem um rumo certo, mas decidida a arranjar trabalho. Não podia continuar a dormir nos bancos da Sé, não só porque ambicionava mais do que isso, mas também porque não queria colocar o Jerónimo numa situação delicada. Ana sorria ao lembrar-se das horas de conversa que tinham tido no dia anterior. Ele nem se apercebera de como tinha saudades de conversar. E agora tinha alguém que naquela terra estranha que lhe dava guarida e amizade. Ana entrou num pequeno estabelecimento, incentivada pela placa que anunciava precisarem de empregado.
- Bom dia! – Ana cumprimentou o senhor anafado com um bigode farfalhudo que se encontrava atras de um balcão alto. Rolos enormes de tecido forravam as paredes, formando um arco-íris de cores e texturas. – Li a placa que tem colocada no umbral da porta.
- Ah sim! Estou a precisar de um funcionário aqui para a loja. Tenho este estabelecimento há já alguns anos, e tenho estado sempre sozinho, mas agora a minha esposa está muito doente e quero passar mais tempo com ela.
- Percebo! – Ana sentia-se esperançosa. – Então acha que posso ficar aqui a trabalhar para si?
- Dá a volta ao balcão para que eu possa mostrar-te o resto da loja e do armazém! – O homem mostrava-se muito amável com um sorriso acolhedor que gelou assim que viu a barriga proeminente de Ana.
- Vai perdoar-me a pergunta, mas o seu marido não se importa que trabalhe? – Aqui estava a questão que preocupava toda a gente assim que viam a barriga de Ana.
- Não tenho marido, pelo que não tem com que se preocupar. – Ana sorriu ao homem tentando mostrar que esta afirmação era positiva, mas adivinhando o desfecho daquela história. O homem até então amável, tornou- se de repente muito atarefado, com muitas coisas para fazer e depois um pouco frio, até que a despachou com um candidato inventado com quem já se havia comprometido.
Ana saiu um pouco mais desmotivada, mas sem perspectivas de desistência no seu horizonte. O sol foi seguindo o seu caminho num ritmo mais acelerado do que o de Ana que chegou ao final do dia exactamente como começara… Sem nada… Apenas muito mais cansada. Quando voltou para a Sé, Jerónimo não lhe perguntou nada, uma vez que adivinhara a resposta nas feições de Ana.
Os dias passavam-se numa repetição cruel de esperança e desilusão com apenas duas pequenas refeições diárias que Jerónimo conseguia arranjar-lhe. O seu único consolo residia nas conversas que tinha com aquele novo amigo. Os desabafos, os planos para o futuro, os sonhos, as histórias, as memórias. Tudo era partilhado durante aquelas horas mágicas em que ambos se fechavam para o resto do mundo.
Algumas semanas passaram-se na mesma monotonia triste e desincentivadora e a chuva tomou o lugar do sol. Ana correu para abrigar-se na Sé. Isto significava que já não podia continuar à procura de trabalho naquele dia. Aproveitaria para lavar-se na bacia minúscula que Jerónimo lhe arranjara, com a água fria a que já se acostumara e depois descansaria um pouco. A barriga pesava-lhe e a falta das forças resultava na sua perca de peso visível ao longo daquelas semanas. Ana rezava todos os dias, para que a sua vida presente não se manifestasse em falta de saúde na filha. Entrou na Sé e procurou Jerónimo com os olhos. Atravessou o corredor central sem reparar nos altares seguidos e espreitou para dentro da sacristia recuando num salto quando avistou o sacerdote. As feições zangadas fizeram com que Ana se encolhesse na sombra da porta encostada e escutasse a conversa.
- Não te bastava seres coxo, tinhas de ser também burro! – A voz grave parecia relampejar cada palavra.
- Mas ela precisa de ajuda! Não posso deixá-la desamparada!
- O povo comenta que todos os dias à tardinha entra uma rapariga na Sé que não sai! Encaram este facto como se se tratasse de um mistério, mas em breve não serão tão benevolentes nessa avaliação!
- Mas não podemos virar as costas aos necessitados. Misericórdia Senhor! – Jerónimo debatia-se contra aquela voz acusadora.
- Não quero mais essa vadia aqui dentro, percebeste? – A voz agora era um murmúrio ameaçador. – Já te tinha avisado e tu fizeste ouvidos moucos. Não quero essa mulher de má rês novamente na minha Sé… Se não for assim a igreja deixa de ter a bondade de albergar a tua mãezinha no convento onde ela beneficia do tratamento misericordioso das nossas irmãs.
- Não vou fazer isso! E não me ameace, porque o senhor padre tem mais a perder do que eu… Ai se eu começo a abrir a boca sobre o que sei… - Jerónimo foi interrompido por um estalo que ecoou por toda a Sé.
- Não me voltes a ameaçar coxo… Quando eu voltar amanhã espero ter a feliz notícia de que já não foi avistada a misteriosa mulher a entrar na Sé.
Ana sentiu-se tremer e encolheu-se mais quando o sacerdote saiu de rompante passando mesmo ao seu lado sem dar pela sua presença. Assim que aquele personagem alto e intimidador que envergava uma túnica da mesma cor que a sua alma atravessou o pórtico da Sé, Ana esgueirou-se para dentro da sacristia. Sentiu uma dor aguda no peito quando viu Jerónimo sentado no chão com a cabeça apoiada num móvel escuro, que possuía gavetas trabalhas com puxadores em ouro. Ali estava um miserável a jorrar sangue pelo lábio encostado a um móvel que ostentava poder, e Ana sentiu mais admiração por aquele ser humano do que pelo imponente móvel em jacarandá.
- Estás bem Jerónimo? – Ana tirou do bolso da sua saia um lenço branco que a acompanhava sempre, uma vez que tinha sido bordado pela mãe, e limpou-lhe o canto do lábio.
- Nunca me senti melhor! – Jerónimo tentava sorrir de forma a não ser mais uma preocupação na vida de Ana. – Apenas caí! Eu sou assim mesmo desajeitado… E o facto de ser coxo não ajuda. – O riso que acompanhou esta afirmação foi tudo menos sincero. Ana não quis dizer-lhe que ouvira a conversa, pelo que se limitou a mentir.
- Tenho uma excelente notícia! – Ana sentou-se também no chão e encostou-se ao móvel.
- Ainda bem! Estamos ambos a precisar de boas notícias! Então do que se trata?
- Arranjei trabalho numa casa! Vou servir e fico lá permanentemente. Vou ter um quarto com uma cama confortável e os meus futuros patrões compadeceram-se da minha situação.
Jerónimo levantou Ana num salto e pôs-se a dançar com ela.
- Fico tão feliz Ana! Tu mereces o mundo… E vais ter uma refeição decente, finalmente… - Ambos riam alto e comemoravam a falsa notícia.
Ana pegou na sua mala e despediu-se de Jerónimo com a promessa de que o visitaria sempre que possível. O riso acompanhou-a sempre até que virou a primeira esquina e as lágrimas voltaram a impor-se ao riso. O mesmo desespero dos desalojados voltou a instalar-se e os seus olhos percorriam as ruas numa ansiedade miudinha. Procurou um beco escuro e encolheu-se na ombreira de uma porta descaída, adivinhando que ninguém morava naquela casa. O frio gelava-lhe as extremidades e os soluços deram lugar a um cansaço que resultou num fechar de olhos que só despertou no dia seguinte.
Os dias passaram-se com Ana a percorrer as ruas da cidade sem rumo. De vez em quando aventurava-se a pedir trabalho a alguém, mas a resignação ocupara cada átomo do seu ser. Ana acabara de perceber que o mais fundo que uma pessoa pode descer na sua miséria é quando atinge a aceitação da mesma como inevitável. A resignação é o estado de espírito mais degradante que pode haver. É pior do que a fome, a tristeza, a humilhação. Quando se enfrenta o difícil com esperança, significa que ainda existe uma pouco mais para desiludir… Quando se atinge a resignação, então atingiu-se o fundo do poço.
Ana perdeu a noção do tempo. Não se lembrava de há quanto tempo andava a deambular por aquelas ruas já tão conhecidas. As pessoas já a olhavam de lado e cochichavam mexericos indignos. Ana sentia uma dor permanente no estomago. Não sabia se era fome ou outra coisa qualquer. A visão começava a desfocar-se com alguma regularidade e as pernas cediam facilmente. Ana sentiu a aragem fria que avisava o fim de mais um dia e encostou-se num banco do jardim sem se preocupar com os transeuntes que a miravam. A noite caiu fria, mas Ana já não a sentiu. O seu corpo tombou no chão, sem que Ana o notasse… a sua mente apagara-se finalmente.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
CAPÍTULO XV - Na Base da Montanha
CAPÍTULO XV
Os dias corriam debaixo de um desespero próprio de quem procura ansiosamente sem conseguir alcançar. Ana procurava um trabalho que lhe garantisse o seu sustento e da filha que crescia dentro de si. O dinheiro estava contado e dava para mais três semanas de renda, pelo que se tornava imperativo que Ana conseguisse arranjar uma solução breve. Ela percebera de uma forma perversamente cruel que o espírito de julgar demasiado depressa as pessoas é comum a toda a humanidade, não é um exclusivo dos meios pequenos. As mentes abertas à descoberta do maravilhoso que cada ser pode conter é que são raras. Ela não é apenas uma rapariga grávida sem marido. Ela é Ana Ferreira, uma menina-mulher que sabe o que é trabalhar para garantir o sustento de uma família. É um ser que ama e que gosta de ser amado. É uma pessoa que tem calos nas mãos de trabalhar a terra, que gosta do cheiro do milho acabado de cozer, que tem sonhos grandiosos e sonhos idiotas. É alguém que sabe perdoar incondicionalmente… Quantos se podem gabar do mesmo? Ela poderia voltar para o refúgio da família, mas isso seria fracassar. Estava na altura de escrever a primeira carta, mas as linhas permaneciam vazias e os olhos teimavam em turvar-se dificultando-lhe a visão. Já passaram duas semanas desde a sua chegada e ela não podia baixar os braços.
- Boa tarde! – Ana dirigia-se á sua senhoria de quem o nome não se conseguia lembrar. – Tem um minuto para falarmos?
A mulher de formas avultadas pousou o pano molhado que estava utilizar para lavar as mesas onde os inquilinos tomavam o pequeno-almoço, e concentrou o seu olhar nas faces de Ana temendo que a rapariga se tivesse metido em sarilhos.
- A senhora tem muito trabalho aqui, talvez precisasse de uma empregada… - Ana sentia-se desajeitada a falar sozinha tendo apenas um hum de vez em quando como resposta. – Eu podia trabalhar para si.
A mulher puxou uma cadeira e sentou-se deixando que as suas carnes transbordassem pela beira do banco. Abanou a cabeça e finalmente falou.
- Estás a ficar sem dinheiro?
- Sim!
- Ainda tens dinheiro para mais uma semana?
- Sim! – Ana começava a sentir uma pontada de esperança. Ela parecia interessada na situação de Ana.
- Não tens mais ninguém a quem recorrer nesta ilha?
- Não.
- Então fazemos assim… Tu pagas-me já mais uma semana e começas a trabalhar para mim na próxima semana. Tenho de fazer contas para ver o que te vou pagar… Pode ser assim?
Ana sentiu uma explosão de alegria e rodeou o pescoço farto daquela senhora a quem nunca lhe vira um sorriso. Ela teria um tecto para ela e para a filha e quando chegasse o próximo ano já não estaria grávida e inscrever-se-ia à mesma no exame sem ter de prestar favores duvidosos a um homem repugnante, incapaz de conseguir carinho de alguém de outra forma para além da chantagem.
Ana acordou no dia seguinte disposta a passear pelas ruas e disfrutar os poucos dias que tinha antes de começar a trabalhar. Desceu as escadas da pensão e dirigiu um bom dia caloroso à sua nova patroa, recebendo desta um acenar de cabeça pouco convincente. O frio fazia-se sentir na vermelhidão da ponta do nariz. Os bafos das pessoas exibiam-se em vapores e Ana rodeava a barriga num acto impensado de protecção. A manhã foi passada a vaguear de um lado para o outro. Aquela será a sua terra nos próximos tempos pelo que queria familiarizar-se o melhor possível com o seu novo futuro. Ana andou sem que a longa distância se traduzisse em cansaço e subiu o Monte Brasil que a deslumbrara desde o primeiro dia. Tratava-se de um cone abatido de um antigo vulcão já extinto, onde Ana se permitiu a uma vista de cortar a respiração. Duas baías rendiam-se ao formato daquele monte e acolhiam um mar azul brilhante e calmo que acariciava a terra com uma estima subalterna. Os ilhéus exibiam-se solitariamente desprezando novas companhias e a cidade estendia-se rendida aos encantos de um dia limpo e frio que permitia uma visão longínqua da sua ilha muito ao fundo, mostrando-se numa humilde sombra duvidosa. A saudade invadiu-lhe inconvenientemente o peito a apoderou-se da sua garganta que se libertava em soluços contínuos, que se faziam acompanhar de lágrimas gordas que rolavam no desespero da solidão. Ela estava sozinha e dependia apenas de si mesma. E esta ideia era aterradora. A vida é convenientemente fácil quando se tem o mundo aos nossos pés, mas pode ser incrivelmente cruel para todos aqueles que lutam ininterruptamente por um pequeno lugar nesse mesmo mundo.
O caminho de volta mostrou-se demasiado longo e o peso do cansaço apoderou-se das suas pernas. Ana apressou-se no regresso à pensão e assim que avistou a porta delineada por uma pedra desajeitada de basalto que contratava com as paredes alvas, Ana sorriu. Subiu as escadas em passadas pesadas e lentas e quando virou a maçaneta da sua porta verificou que esta não abria. Sentiu uma frustração por ter de adiar o seu descanso, quando o desejo pela sua cama crescia no mesmo ritmos que as suas pálpebras teimavam em descair. Ana olhou à sua volta procurando uma solução milagrosa que lhe abrisse aquela porta teimosa. Nesta busca visual, encontrou a sua mala deposta ao lado da porta do quarto e depois de um momento de estranheza sentiu um receio aflitivo apoderar-se de todos o seu ser. Ana pegou na mala pesada e desceu as escadas esquecendo o cansaço. Pousou a mala em frente ao pesado balcão gasto pelo tempo onde histórias várias estavam entranhadas nos riscos abundantes e impróprios.
- O meu quarto está trancado e a minha mala estava no corredor… - Ana fitava a sua senhoria com uns olhos verdes esbugalhados que ansiavam um esclarecimento rápido e a sua mente rezava a Deus para que ela lhe dissesse que tinha sido um erro.
- Sim! – Foi a única resposta que aquela mulher lhe deu.
- Como assim, sim? – Ana sentia as bochechas incharem de indignação a as suas veias da fronte começavam a latejar. – Vai mudar-me de quarto, é isso?
- Não! – Aquela serenidade das respostas revolvia uma inquietação crescente no rancor de Ana.
- Eu tenho mais uma semana paga para além desta…
- Não me parece!
Ana perdeu a pouca paciência que lhe restava e descarregou naquela mulher todos os seus rancores e receios reprimidos. Agarrou o colarinho daquela senhora deformada pela abundância de gorduras e gritou-lhe bem perto das suas faces redondas e coradas.
- Sua maldita! Vadia! Não são pessoas como eu que sujam o mundo… São pessoas como tu que tornam todo o tipo de convivência humana impossível. Eu amei, e foi este o meu pecado… Mas tu roubaste uma mulher sozinha e grávida e abandonaste-a a uma sorte negra… Vai para o diabo que te carregue sua gorda virgem… O pecado que eu cometi é por ti muito desejado, mas o pecado que tu cometas é por mim repugnado…
Ana pegou na sua mala e saiu rumo à rua e à incerteza com a dignidade de uma aristocrata. Assim que soube que a pensão já não estaria nas suas costas, Ana deixou que a sua miséria surgisse numa plenitude de um desespero gritante e profundo. Porque poucos conhecem a verdadeira profundeza que o desespero pode ter. Aquele desespero que apaga todas a hipóteses, que encolhe todas as escolhas, que elimina todas as esperanças. Aquele desespero que só se faz acompanhar por uma medo de tudo, porque a única coisa que verdadeiramente nos pertence é o nada. Um desespero atroz que tira tudo o que de básico e intuitivamente se possui até o ar que se respira se torna difícil de adquirir. Um desespero que se faz acompanhar pela miséria da rejeição de um tecto, de uma moeda, de um prato de comida, de um carinho. O desespero e a miséria quando se fundem tornam a divindade e a potencialidade de um ser humano, numa curta e previsível mortal existência. E as ideias de uma morte lenta e gloriosa começa a ser o único conforto de uma vida triste, e a mesquinhice de assistir ao mal dos outros torna-se o único motivo para sorrir… A miséria não tem uma receita eficaz, e quando um ser humano mergulha nos limites desta miséria e deste desespero o resto do mundo deixa de ter planos para esse individuo e esse individuo deixa de ter esperanças nesse mundo.
CAPÍTULO XIV - Na Base da Montanha
CAPÍTULO XIV
As entranhas revolviam-se de uma forma que lhe parecia impossível e expulsavam compulsivamente tudo o que se encontrava alojado no estômago de Ana. O mar fustigava aquela embarcação que era agora demasiado pequena e o sal entranhava-se na sua pele como a água se entranha na terra. As horas daquela viagem pareceram-lhe dias e quando finalmente teve a ilha pretendida no seu horizonte, Ana não teve forças para sorrir.
Apesar do seu estado débil, Ana pegou na sua mala e saiu do barco. A primeira sensação que teve foi de imensidão. Aquele porto nada tinha de parecido com os portos da sua ilha. A azáfama era muito mais ligeira e as cabeças misturavam-se sem que lhe fosse possível personalizar cada individuo. A cidade erguia-se logo por cima do porto, como se o fosse abafar, e as escadas ingremes que Ana fixava naquele momento pareciam-lhe intermináveis. A subida foi-lhe quase tão penosa como a viajem de barco e o seu desejo de chegar depressa à pensão onde ficaria instalada aumentava a cada degrau.
No cimo das escadas, que agora não lhe pareciam tão penosas, Ana permitiu-se um deslumbre. As ruas palpitavam trocas comercias, trocas de palavras, trocas de vivências e ninguém parecia reparar demasiado tempo em ninguém. Era o lugar ideal para ela que queria passar despercebida. No meio de tantas casas e de tanta vida, as pessoas não deviam ter tempo para olhar duas vezes para a sua condição e comentar a falta da aliança no dedo. Ana só via tanta gente junta nas festas do Sr. Espírito Santo. Mas ali era um dia normal que reunia todas aquelas pessoas em tarefas quotidianas. O cheiro a mar voltou a entranhar-se nas narinas e revolveram-lhe o estômago apressando-a no seu objectivo de encontrar uma cama. Ana tirou um papelinho do bolso com o nome e morada da pensão e pediu indicações a uma senhora de cabelo branco apanhado de forma desajeitada por uns ganchos demasiado grandes. O sorriso que acompanhou as indicações deixou à vista uma falta significativa de dentes.
- Se subires esta canada e virares à direita no cimo dás logo com a pensão.
- Obrigada! – Ana fez um esforço para retribuir o sorriso caloroso que recebia da senhora.
- Vai ser uma menina!
Esta afirmação deixou Ana um pouco perplexa. Ainda não pensara no seu bebé com um sexo definido e agora tinha naquele olhar cansado rodeado por rugas de sabedoria a certeza de que aquela mulher tinha acertado. Ela teria uma menina. Uma menina que seria só sua…
A pensão era simples mas asseada. As paredes do quarto deixavam transparecer humidade nos cantos e disfarçavam mal as paredes de pedra mal caiadas. A cama estreita, uma cómoda e uma cadeira com pernas disformes contabilizavam a totalidade do seu conteúdo.
- Tem de pagar a semana sempre adiantado. – A dona da pensão era uma mulher com um corpo abundante que parecia transbordar por debaixo da saia demasiado rodada. O peito pesado movia-se debaixo de uma camisa contrabalançando o rebolar das ancas.
- Claro! Aqui tem o dinheiro para a primeira semana! – Ana esticou o dinheiro àquela mulher constantemente ofegante que o contava cuidadosamente como se tivesse dificuldades na soma.
- Quando é que o seu marido vem? – A mulher não conseguiu conter a sua curiosidade.
- Não tenho marido! Vou ficar aqui sozinha. Vou inscrever-me no exame para entrar no magistério… Vou ser professora. – Ana profetizou aquele futuro que ela buscava com uma ansiedade desmedida, mais para se convencer a si mesma do que à dona da pensão, recebendo da mulher um encolher de ombros desmotivador. Assim que a porta do quarto se fechou e Ana se sentiu finalmente sozinha deixou-se cair na cama e adormeceu até ao dia seguinte.
O dia amanheceu cedo numa nova esperança. Ana encheu uma bacia de água fervida e equilibrou-a até à intimidade do seu quarto. Depois de se lavar, vestiu um vestido azul-escuro com uma gola muito bem engomada em renda e prendeu o cabelo num coque sem que deixasse escapar algum cabelo mais rebelde. Ana mirou-se naquele espelho tosco que tinha por cima da cabeceira e aprovou o seu visual discreto e um pouco conservador. Parecia uma professora e essa ideia fê-la sorrir.
Ana desceu as escadas da pensão a saltitar e dirigiu-se à pequena cozinha para beber um pouco de leite e comer um pão com queijo. Depois de saciada saiu da pensão dirigindo um sorriso afectuoso á dona da pensão e recebendo em troca um revirar de olhos. Quando Ana encontrou o ar frio da manhã fechou os olhos e deixou que os raios de sol lhe aquecessem o espirito naquela manhã fria de inverno. O papel com a morada do magistério estava guardado na palma da sua mão como se se tratasse de um tesouro. Ana começou a andar sem rumo apenas observando o que no dia anterior não tinha sido devidamente apreciado. Assustou-se com a buzina de um carro preto que quase a atropelara. Ali ela teria de se deslocar sempre em cima dos passeios, uma vez que os carros eram abundantes. As casas encostadas umas às outras delineavam as ruas em calçada. Não se via ruelas em terra batida e tudo parecia muito asseado. As pequenas varandas eram ornamentadas com flores variadas em vasos cuidados para o efeito. Ana anda até chegar à Praça velha. Os seus olhos deslumbraram-se com a grandeza daquela obra. A calçada da praça era ornamentada em granito banco e basalto preto, formando desenhos que Ana tinha medo de pisar. À volta da praça espalhavam-se altos postes com um vidro em cima como se fossem lanternas. Ana aproximou-se e inspeccionou aquelas altas lamparinas lembrando-se da explicação que Francisco lhe dera sobre a electricidade. Ana sentiu um aperto no peito ao lembrar-se daquela noite e fechou os olhos visualizando as feições de Francisco bailando a chamarrita com ela naquele baile de uma freguesia simples. O sentimento continuava a palpitar-lhe nas veias e percorria-lhe o corpo descaradamente provocando-lhe agonias várias. A imagem do jovem médico invadia-lhe a mente e enchia-lhe o peito de sensações. Os olhos rasaram-se com uma água saudosista e fixaram o Monte Brasil que impunha o seu verde naquela paisagem citadina. Ana forçou-se a ultrapassar a saudade súbita que lhe invadira a alma e concentrou-se no seu futuro. Apertou o papel na palma da mão e seguiu rumo ao magistério. O edifício apresentou-se à sua frente numa sequência previsível das casas que se multiplicavam alvas com contornos de basalto. Ana entrou a medo e deparou-se com um corredor escuro com o chão de soalho. Ao fundo uma secretária escura de carvalho preencheu os receios de Ana que avançou vagarosamente fixando. Não se encontrava ninguém para a receber.
- Está aí alguém? – Perguntou Ana num tom de voz baixo como se tivesse receio de acordar alguém. Incentivada pela falta de resposta Ana avançou um pouco mais e espreitou por uma porta entreaberta onde descobriu uma senhora de cabelo branco curto que se equilibrava sobre um banco vacilante estivando-se numa tentativa de alcançar uma pasta de arquivo na última prateleira. Ana prevendo que aquela acção seria mal sucedida aproximou-se mesmo a tempo de seguras a senhora antes de esta cair.
- Oh! – A senhora rondava os cinquenta anos de idade e tinha uns olhos pequenos e astutos que se perdiam numas faces redondas e fogueadas. – Muito obrigada minha querida! – A mulher alisou a saia cinzenta com as palmas da mão e recolheu a pasta pretendida do chão com um ar triunfante. – Então! O que a traz por cá? – A mulher observava agora Ana com um olhar avalista que se demorou na barriga proeminente.
- Quero inscrever-me para fazer o próximo exame de acesso ao curso de professora. – Ana sentia as pernas a tremerem-lhe, mas a voz saiu límpida e clara, não deixando dúvidas do assunto que a fizera enfrentar um mar revolto de inverno.
- Claro querida! Vou encaminhá-la para o gabinete do professor Martins. – A mulher entrelaçou o seu braço no braço de Ana conduzindo-a pelo corredor em direcção a uma escada que subiram sem pressas. De frente à porta pretendida a mulher entrou sozinha, deixando Ana à espera. Quando a porta se voltou a abrir a mulher piscou um olho cúmplice a Ana. – Podes entrar minha querida!
O gabinete era mais pequeno do que Ana imaginara e encontrava-se apinhado de pastas, livros e resmas de folhas. Uma secretária pesada e escura alongava-se em frente a uma janela alta que deixava entrar a luz descaradamente. Um homem debruçado sobre a secretária observava Ana por cima de uns óculos redondos que lhe assentavam na ponta do nariz. Como o homem não lhe dirigira palavra Ana avançou na sua direcção e apresentou-se de forma cordial.
- Bom dia! Eu sou a Ana Ferreira! – Ana esticou a mão no intuito de cumprimentar, mas como o homem não mexeu um único músculo, Ana baixou a sua mão, esticou um pouco mais o queixo e sentou-se sem pedir licença numa atitude desafiadora. – Quero inscrever-me no exame de admissão ao curso de professora.
- O próximo exame é só em Maio! – A resposta seca acompanhada por aquele olhar que não piscava deixou Ana desprotegida por uns segundos.
- Muito bem! Eu vim da ilha do Pico de propósito para isto! Gostava de ter mais alguma informação!
- O seu marido ficou no Pico ou veio consigo? – A pergunta mordaz foi feita com um desviar de olhos para o dedo anelar de Ana.
- Não tenho marido?
- Então está simplesmente gorda? – Ana sentiu-se estremecer perante aquele comentário infeliz.
- Eu não tenho problemas de peso graças a Deus! Estou grávida! Este é um facto fácil de se constatar mesmo para mentes mais atrasadas. – Ana não conseguiu evitar a ironia que resultou num primeiro movimento de músculos daquele homem que se levantou, contornou a secretária e depositou-se ao lado de Ana.
- Estás grávida e sem marido?
-Sim!
O homem que começava a ter de lidar com a calvície disfarçando-a com um puxar de cabelo do lado oposto que o tornava ridículo, aproximou-se mais de Ana.
- És uma mulher fácil e bonita! Isso pode ser um ponto a teu favor!
Ana sentiu-se humilhada naquele comentário, mas a sua garganta apertou-se impedindo uma resposta afiada de sair. Tinha de se conter. Enfrentaria aquela humilhação e outras tantas desde que conseguisse atingir o seu objectivo. É fácil humilhar aqueles que supostamente estão numa posição frágil. É fácil e cobarde. E quem se esconde neste tipo de atitude é porque sofre de maiores fragilidades escondidas e dissimuladas por atitudes superiores e cruéis.
- O próximo exame é em Janeiro, mas não temos tempo suficiente para te avaliar convenientemente até lá, não concordas?- Ana permanecia rígida e muda face ao roçar das pontas dos dedos amarelas do tabaco pela sua face. – Mas se te portares bem até Maio então poderás fazer o teu exame! – O olhar lascivo aproximou-se de Ana que lhe sentiu um bafo pestilento que ofegava sobre a cova do seu pescoço. Ana não aguentou mais e levantou-se libertando um punho fechado sobre a virilha do professor Martins que rugiu de dor. Ana não fez um movimento de arrependimento, nem esticou uma mão para ajudar aquele homem que rebolava de dor. Simplesmente saiu. Quando passou pela secretária despediu-se convenientemente.
- Talvez seja melhor levar gelo ao professor Martins! – Ana leu um olhar risonho de aprovação na cara redonda daquela mulher que lhe dirigiu um suave sorriso.
sábado, 17 de dezembro de 2011
obrigada
Peço desculpa publicar esta mensagem no meio do livro. Sei que esperavam um novo capitulo. Mas tenho de partilhar esta boa nova com quem gosta de ler o que eu escrevo. A corpos editora vai publicar o meu primeiro romance. Estou muito feliz e queria partilhar esta felicidade convosco. O meu muito obrigada a todos aqueles que se deleitam com as minhas histórias.
domingo, 11 de dezembro de 2011
CAPÍTULO XIII - Na Base da Montanha
A barriga proeminente própria dos cinco meses de gestação partilhou a harmonia de uma ceia natalícia onde reinou a fé, a amizade, o amor, mas principalmente a lealdade. Porque o que une as relações humanas é a lealdade. Uma relação profissional desleal acaba. Uma amizade que engana termina. Um amor que mente magoa. A lealdade é o alicerce de qualquer tipo de relação. Não existe confiança onde a lealdade é inexistente, e não existe relação sem confiança. Aquela humilde família vítima de acusações e maledicências era abençoada com este nobre sentimento e protegiam-se uns aos outros sem oportunismos escondidos. Aqueles pais acarinhavam as suas três meninas sem esperarem falsos orgulhos que pudessem abanar e desfilar perante olhares alheios. Eles amavam desmedidamente sem cobranças ou desilusões. Simplesmente amavam… Amam…
A mesa sustentava uma ceia rara naquela casa. As papas de aveia deram lugar a um guisado de carne acompanhado com batata assada. O arroz doce ainda fumegava e derretia-se dentro das bocas deixando o rasto do sabor da canela. As filhós davam o retoque final naquele banquete. Ao contrário do tradicional nenhum deles foi à missa do galo. O assunto nem foi comentado naquela família. Todos perceberam que cometeriam aquele pecado em conjunto para protegerem Ana de qualquer tipo de humilhação. Até Luzia parecia aceitar esta falha com uma certa normalidade. Para compensarem rezaram em conjunto à imagem do Menino Jesus que tinham num Altar que fazia lembrar uma pirâmide onde se destacava a alvura das toalhas de linho que cobriam cada degrau e os napperons delineados de hábeis rendas. A imagem do Menino Jesus marcava a passagem de duas gerações, mas continuava a aquecer os corações daqueles que a adoravam. O corpo deitado com os bracinhos inclinados para um céu distante, os pés cruzados e uns olhos brilhantes que pareciam compreender a partilhar a mesma esperança daquela família. O altar enchia-se de laranjas e tangerinas que significavam as oferendas que Lhe faziam e neste cenário não podia falta a quadra que partilhava do mesmo aroma e numa só voz cantarolavam.
- Ó meu Menino Jesus,
A sua capela cheira
Cheira a cravos, cheira a rosas
Cheira a flor de laranjeira!
- Que Deus abençoe a minha irmã Ana e o bebé! – Maria foi a primeira a verbalizar em voz alta o seu pedido. Todos interiorizaram aquelas palavras inocentes e rezaram para que essa prece se elevasse e se tornasse prioritária junto àquele Deus misericordioso.
- Eu peço a Deus que proteja e ampare a minha família como eles estão a fazer comigo neste momento em que tanto preciso. Peço a Deus que lhes estenda a mão e os eleve numa nobreza de sentimentos que só alguns são capazes. – Ana fechou os olhos e sentiu cada palavra que a sua garganta expulsava. – Rezo para que a minha irmã Glória usufrua da felicidade de um longo casamento com este marido bom que lhe colocaste no seu caminho. Rezo para que continues a iluminar a alma brilhante da minha irmã Maria para que ela siga a sua vocação e para que continue justa e bondosa nos seus actos. Rezo para que os meus pais não sofram descriminações por minha causa que ultrapassem as suas forças.
A noite aquecida pelo forno a lenha que mantiveram aceso na cozinha manteve-se num ritmo caloroso e simpático sem ligar a tristezas ou sofrimentos antecipados. Estavam todos a despedirem-se de Ana que partiria no primeiro dia de Janeiro para a ilha da Terceira rumo a um futuro incerto. Ela inscrevera-se no exame de aferição para a escola do magistério, mas foi-lhe recusado fazer o exame da sua própria ilha devido à sua condição. Esta palavra ainda ensombrava as ideias de Ana… Condição… Era esta a palavra usada para se referirem à sua gravidez. Não era uma condição digna de exemplo a futuros alunos. Uma professora devia ser irrepreensível em todas as suas acções de modo a que os seus alunos a tomem por exemplo. Esta era a afirmação mais ridícula que já tinha ouvido. As crianças deviam olhar para o seu exemplo de frente e retirarem as suas próprias conclusões, só assim teriam capacidade de avaliar os seus próprios actos e consequências de forma consciente. Deviam saber avaliar os possíveis resultados das suas escolhas. Deviam aprender a enfrentar as consequências e deviam inspirar-se nela para verem que não são obrigadas a caírem num buraco negro que lhes sugará a alma e as forças sempre que agirem em desconformidade com as regras. E Ana não pode ter agido de forma tão errada. Ela não se arrepende de ter amado para além do entendimento superficial do amor. De se ter entregado sem perspectivas ou cobranças. Sem esperar ser recompensada por isso, porque amar desmesuradamente é entregar sem esperar nada em troca e ela sabia que era capaz de tal acto. E todos queriam fazê-la acreditar que estava a ser castigada por isso. Como poderia acreditar em semelhante coisa, se foi neste exacto momento que mais se sentiu amada e amparada pela sua família. Foi nesta circunstância que ela percebeu que o amor que os seus lhe dispensavam era incomensurável. E foi nesta loucura que Deus a abençoou com uma criança que ela tanto desejava. A vida é feita de contrastes e balanços. Para possuirmos o benefício de uma felicidade plena, temos de ter a capacidade de a contrabalançar com algum sofrimento, mas só depende de cada um dar mais importância ao momento de felicidade ou ao sofrimento que a vida teve que impor para manter a ordem das coisas.
Os dias finais daquele ano passaram-se sem que Ana saísse de casa ou recebessem qualquer visita. Fora daquelas paredes só os pais e irmãs eram alvo de olhares de soslaio e de comentários murmurados. Ana sabia que estava a ser poupada a semelhantes constrangimentos, mas mesmo fechada ela sabia… Ela sentia as malícias. Ouviu os pais comentarem que o marido de Glória se metera numa briga na Voz do Campo para a defender de comentários perversos. Sabia que a tia Espirito Santo inventara uma desculpa para dissimular o parentesco que a unia à família. Os vizinhos partiam para o mato sem esperarem pelo pai como era costume fazerem. Mas o que mais a magoava era o silêncio de Francisco… Nunca mais ouve uma palavra um bilhete um sinal. Ele pô-la fora da sua vida e fechou-lhe a porta na cara, sem uma justificação ou uma esperança. Ana ainda sentia uma pontada de desilusão e mágoa da rejeição, mas no seu íntimo sabia que a longo prazo ela seria a beneficiada. Ela usufruiria sozinha do fruto daquela relação e Francisco ficaria privado do seu próprio filho, e só Deus sabia o peso que a sua consciência carregaria quando o desejo de disfrutar daquilo que ela desfrutará um dia, lhe cair sobre a memória e atemorizar-lhe o arrependimento.
A última noite naquela casa suportava a saudade antecipada e o tempo parecia curto para absorver todas as palavras, olhares, e gestos que lhes seriam negados nos próximos meses. Glória passaria aquela noite na casa dos Ferreira com o marido de forma que não conseguia afastar a sua mão da irmã. Roçava os seus dedos pálidos nos braços de Ana e acariciava-lhe a barriga constantemente. Maria refugiava-se no ângulo do cotovelo de Ana e enterrava o seu nariz entre o peito e a barriga da irmã tentando reter o cheiro que tanta falta lhe faria. Luzia confirmava e reconfirmava as malas da filha garantindo que não lhe faltava nada, mas os olhos enublados não lhe facilitavam o trabalho. José tentava inalar um pouco de ar forçando aquela garganta que teimava em fechar-se. Ele admirava a filha, a força interior de que ela dispunha naturalmente, a justiça nos seus actos e o discernimento das suas decisões. Ela enfrentaria um futuro incerto sem garantias de sucesso, sem facilidades ou facilitismos, apenas com um punhado de desejos e um lar para onde poderá sempre voltar. José já sentia orgulho naquela menina mulher que de queixo erguido iria enfrentar sozinha novas oportunidades e novas derrotas, mas no seu íntimo José sabia que se havia alguém neste mundo capaz de conseguir algo positivo de uma situação desastrosa, esse alguém seria a sua filha Ana. Deus só coloca problemas na medida da capacidade de quem os deve resolver. Cabe a cada um saber lidar com essa dificuldade e conseguir uma nova situação mais confortável e fortalecida.
- Vinha um coelhinho
Da roça a passear
Encontrou uma coelhinha
Com quem logo quis casar
Minha querida minha doce
Minha linda coelhinha
Vim falar-te de amor
Com intenção de seres minha…
Maria já dormia sob o efeito da voz de Ana que lhe contava pela última vez ladainhas sussurradas para embalar a irmã. Ana deixou que os seus olhos se fechassem e sonhassem com um futuro promissor contrário a todas as previsões que mentes limitadas pudessem intuir.
Quando o dia amanheceu, o frio foi o primeiro sinal físico que Ana sentiu e só depois o beijo carinhoso de Maria que a mirava com uns olhos inchados e vermelhos denunciadores de algum tempo de sofrimento. O momento da despedida começara e Ana sentiu um aperto no ventre. A criança que transportava mexia-se fazendo com que a sua barriga ondulasse provocando uma gargalhada nervosa nas duas irmãs. Aquela criança era uma dádiva naquela família e ninguém se atrevia sequer a sentir o contrário.
As primeiras rotinas fizeram-se num silêncio penoso que carregava preocupações e expectativas, desejos e receios. Ana despediu-se de cada divisão da casa e com uns olhos secos de sofrimento que contrariavam o coração. Saiu para o pátio de terra batida absorvendo pela última vez o terreno dianteiro onde o milho verde lhe acenava. Glória chegou mesmo na altura em que fechavam o portão exterior.
Foram todos na velha camioneta. Ana sentia-se grata pela família que Deus lhe tinha dado. Contaram-se história, recordaram-se momentos que não precisavam de ser verbalizados para evitar o seu esquecimento. Discutiram vivamente o futuro de Maria, concordando em uníssono que não passava pelo trabalho duro da terra. Maria descrevia-se como uma futura mulher independente que abusaria do batom, provocando uma gargalhada geral, mal entendida pelos restantes passageiros que miravam com um desdém maldoso aquela família pouco resignada á vergonha que os assombrava.
O cais borbulhava uma vida colorida em passagens apressadas de encomendas de última hora, os últimos conselhos e os últimos abraços sentidos. O barco de Ana já se encontrava atracado, mas o embarque ainda tardava. Luzia afagava-lhe o rosto como se o quisesse memorizar para além do olhar. José sentia uma dormência nos olhos e um aperto na garganta por saber que estava abrir mão da sua menina. Maria e Glória apoderaram-se de cada braço da irmã e falavam as duas ao mesmo tempo, arrancando promessas de cartas frequentes e uma visita no Verão. João mantinha-se ao lado da esposa apoiando a cunhada prenha e solteira sem vergonhas e com um orgulho próprio por fazer parte daquele pequeno mundo familiar. Ana recebia aquelas atenções sem embaraços aproveitando todas elas como forma de compensar os próximos meses. Os seus olhos passeavam de cara em cara recolhendo o máximo de memórias para seu consolo futuro, quando pousaram ao acaso na figura de Francisco. Ele continuava alto e com uma aspecto poderoso envergando um fato impecavelmente vincado, coberto por um sobretudo muito sofisticado que lhe caia de uma forma agradavelmente desleixada. Ana sentiu que o seu coração parava. O seu ventre deu um salto ao reconhecer o progenitor. Ele estava acompanhado por uma mulher alta e esguia de cabelo preto lustroso curto que lhe emoldurava uma cara redonda e atrevida. Trocavam pequenas carícias dando-lhes um toque casual. Aquela mulher transpirava um ar citadino e sofisticado com o qual Ana não podia competir. Envergava uma camisola justa que lhe evidenciava uns seios redondos e promissores que se esvaiam numa cintura fina. A saia favorecia-lhe a curva das ancas e tronava-a mais esguia com umas curvas perfeitas. A maquiagem tornava-lhe os seus traços doces e perfeitos como se fosse uma boneca de porcelana. Agora percebia de uma forma cruel que não tinha significado nada para Francisco. Ela era apenas uma conquista interessante, que lhe causou a adrenalina da caça.
- Estás bem Ana? – Glória percebeu o motivo daquele olhar longínquo.
- Estou! Não te preocupes!
- Aquele filho-da-mão! Eu havia de lá ir e obrigá-lo a ter alguma dignidade nas ventas. – José sentia a raiva fervilhar-lhe nas veias. A filha cometeu um erro e está a pagar um preço cruel. Aquele canalha cometeu o mesmo erro e anda a namoriscar com uma bisca qualquer.
- Tem calma pai! Este é um momento nosso. Não vamos estragar a nossa despedida! – Ana tentava transmitir uma tranquilidade que não sentia. Neste exacto momento sentia-se principalmente humilhada. Mas queria aproveitar os últimos minutos com aqueles que verdadeiramente lhe interessam.
Maria lia indignação no olhar de todos quando miravam de soslaio Francisco. Sabia que todos tinham vontade de o magoar de alguma forma, mas eram adultos e tinham de ser ponderados. Mas ela era apenas uma criancinha. E as criancinhas podem fazer coisas que os adultos não podem… Afinal são apenas crianças. E com esta razão do seu lado, Maria dirigiu-se ao jovem médico sem que a família percebesse a sua falta e puxou-lhe suavemente a manga do sobretudo. Francisco desviou o olhar por cima do seu ombro e a primeira sensação que teve foi a imagem de Ana nos seus olhos. O aperto que sentiu no peito fê-lo apertar o colarinho da camisa. E antes que a sua mente pudesse desenvolver mais alguma ideia, Francisco deparou-se com a segunda sensação. Uma dor aguda na canela resultante de um pontapé demasiado certeiro para uma miúda de onze anos que neste momento corria a sorrir de prazer para junto da irmã. Maria sentia-se vingada.
Francisco não conseguia desviar os olhos de Ana. E sentiu um pouco de desilusão ao ver que ela não estava com um ar de sofrimento. Este era um pensamento egoísta, mas magoava-o muito pensar que ela já não sofria por ele. A barriga dela era exibida descaradamente e acertou-lhe como uma flecha. Ela era forte e determinada, o tipo de mulher que não se rendia facilmente, com um riso fácil que lhe atingia a alma. E ele sentia saudades dela. Sentia tantas saudades dela. Porque é que as coisas não eram simples? Porque é que as pessoas tinham de julgar tão facilmente? Ele sabia que era a sua reputação que estava em jogo e na altura não podia arriscar. Mas talvez as pessoas pudessem ver as coisas de forma diferente. Se ele fizesse parecer um acto heróico da sua parte, munido por um grande amor, as pessoas talvez se rendessem a uma linda história de amor e ainda sairia com a sua imagem reforçada… Para além de poder ficar com a sua Ana. Num impulso provocado por esta corrente de esperanças, Francisco dirigiu-se ao seu futuro num passo determinado.
- Ana! – Francisco sentiu que a emoção de a ter ali tão perto de si lhe transtornava as ideias. O seu olhar continuava quente, e ela mordiscava o lábio inferior de uma forma ingenuamente sedutora. – Posso falar contigo?
- Eu tenho um barco para apanhar e estou a despedir-me da minha família! – Ana foi mais dura do que imaginou que conseguiria e sentiu um formigueiro de trinfo invadir-lhe as entranhas quando viu um brilho de espanto e receio traspassar o olhar de Francisco.
- Como assim? Vais ao Faial? – Francisco começou a sentir o seu coração acelerar o ritmo cardíaco de uma forma louca e as suas mãos ficaram dormentes.
- Não! Vou mudar-me para a Terceira! – Ana sorriu-lhe condescendentemente. Francisco agarrou-lhe os braços com uma força excessiva e deixou que o medo se reflectisse sem vergonha nos seus olhos baços e lacrimejantes.
- Não podes! Não quero que vás!
- Estás a ser ridículo Francisco! – Ana começava a não sentir-se tão segura, mas tinha de ser forte. Ela não quer um futuro com uma pessoa fraca que vive em função dos pensamentos e julgamentos alheios. Ela quer alguém que olhe para ela e que esqueça o resto do mundo. Ela quer alguém capaz de enfrentar a humanidade para defendê-la. Ela quer alguém que viva para ela em primeiro lugar e que disfrute do resto do mundo ao seu lado. Se Francisco fosse capaz disso… então ela não hesitaria.
- Por favor não vás Ana! Eu imploro-te! – Francisco deixou que o desespero rolasse pelas suas faces e a voz apertada se soltasse. – Fica comigo Ana. Vamos enfrentar isto juntos! Eu já pensei em tudo! Eu achava que as pessoas iam julgar-me apontar-me o dedo, mas podemos transformar isto numa história de amor. Vamos derreter os corações destas gentes com a nossa história e depois todos vão aceitar a nossa relação… Para mim é mais do que claro que tu me mereces… Que estás à altura de alguém como eu, independentemente do que os outros dizem…
Aquelas palavras magoaram mais Ana do que todas as atitudes ou falta delas até àquele momento. Ana encheu o peito e mostrou uma dignidade que ficou gravada na memória, no coração, na alma de Francisco…
- Largue-me doutor Francisco! – Francisco deixou cair as mãos alheio às nódoas negras que deixara impressas nos braços de Ana. – Tu estás equivocado nesse teu raciocínio. Não sou eu que não estou à tua altura. És tu que não me mereces. – Francisco levou algum tempo a processar aquelas palavras. Ana pegou-lhe na mão a pousou-a sobre a sua barriga. A resposta àquele toque foi um pequeno pontapé, como se tivesse reconhecido o progenitor.
- Apresento-te o meu filho! Aquele que tu ajudaste a gerar! – Ana afastou novamente a mão de Francisco E abraçou-o sem remorsos. Afinal ele não era o culpado. Ele amava-a e ela sabia que sim, mas se uma forma que não servia na vida dela. Francisco apertou Ana nos braços sem perceber bem o que se estava a passar, até ao momento em que Ana lhe sussurrou ao ouvido.
- Adeus Francisco! Eu amo-te, mas tu és demasiado fraco para mim…
Francisco sentiu o seu mundo ruir e a dor do entendimento instalou-se desconfortavelmente no seu peito. Os seus olhos não se desviaram daquela criatura que tinha movido os alicerces da sua vida enquanto ela se despedia de uma família humilde que a apoiava com uma capacidade superior que ele não soubera ter. Ana subiu para o barco e debruçou-se acenando pela última vez àqueles que ela amava. Francisco não desviou o olhar na esperança de merecer um último aceno que não lhe foi dedicado.
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