domingo, 23 de outubro de 2011

CAPÍTULO VII - Na Base da Montanha

CAPÍTULO VII


   Afinal foram as três irmãs dentro da velha camioneta a caminho da vila das Lajes para visitarem Fátima. Nenhuma delas apreciava a viagem lenta que parava em cada freguesia renovando o número de passageiros a cada dez minutos. As raparigas desceram na última paragem da urbana, junto à Igreja da Matriz. Os vinte minutos de distância que levaram a chegar a casa de Fátima foi feito num silêncio absoluto. Paradas em frente à porta de madeira pintada de verde e recortada por pesadas pedras de basalto escuro que contrastava com o branco imaculado das paredes. Glória levou uns minutos até levantar a mão trémula e bater naquele badalo dourado demasiado ornamentado para uma aldeia de baleeiros.
    A surpresa de Alice ao deparar-se com aquelas irmãs devassas à sua porta foi imediatamente substituída por um ar imponente a ameaçador.
    - Que surpresa meninas! A que se deve esta visita? – Alice manteve a porta a meio caminho vigiando apenas por uma fresta.     
    - Bom dia D. Alice. – Respondeu Glória com uma calma disfarçada. – Viemos à vila comprar uma bilhas e uns açafates novos que os nossos perderam-se nas festas, sabe como é...
    - Não, não sei... Infelizmente não há disposições para festas nesta casa.
    - Pois! Nós queríamos ver a Fátima. Estamos muito preocupadas. Nunca mais soubemos nada dela...
    - Ela está na mesma. Continua doente. Deve ser ansiedade do casamento. – E num gesto que intuía uma despedida breve começou a fechar a porta despedindo-se – Infelizmente ela está agora a dormir, mas fiquem descansadas que eu digo-lhes que estiveram cá.
    Maria indignada com aquela recepção forçou o seu corpo entalando-o entre a porta de modo a assegurar-se de que ela não era fechada.
    - Eu gostava muito de lhe deixar um desenho. Talvez a D. Alice tenha a gentileza de me emprestar um lápis e um papel. – Maria deixou deslumbrar o seu melhor sorriso acompanhado por um piscar de olhos inocentes que provocaram um arrepio de raiva pela espinha acima da dona da casa que culminou num ruborizar de bochechas e num faiscar de olhos.
    E antes que aquela bruxa inventasse outra desculpa, Maria forçou a entrada e fez-se de convidada.
    - Ah! D. Alice tem a casa sempre tão riquinha. Até dá gosto, vê-se que é muito primada. Oxalá a Fátima tenha saído a si... – Maria tentava fazer conversa com aquela mulher impenetrável de modo a que ela baixasse as defesas e as irmãs encontrassem uma oportunidade de deixar alguma mensagem a Fátima. – O Doutor Francisco é um homem de sorte...
    - Tirem-se quaisquer dúvidas disso. A minha Fátima vai fazê-lo muito feliz. – Responde Alice impondo ordem em qualquer intenção duvidosa que pudesse vir daquele trio.
    Maria percebendo que não podia contar com a ajuda das irmãs que se limitavam a segui-la atónitas continuou a conversa.
    - Vai ser o casamento do ano. Não se fala de outra coisa. Eu já tenho pelo menos meia dúzia de encomendas de chapéus para essa data. Já fizeram o vestido da noiva?
    - Já está encomendado. A Fátima já fez duas provas antes de adoecer. Agora talvez vá precisar de uns ajustes uma vez que aquela rapariga está a emagrecer a olhos vistos.
    Sentia-se que a D. Alice começava a desanuviar. A conversa dos preparativos do casamento fizeram-na baixar armas, o que foi muito inteligente da parte da Maria. Glória estava tão aparvalhada com a atitude da irmã mais nova que parecia ter o cérebro parado. Foi Ana a primeira a sair daquele estado de transe.
    - Eu quero que a D. Alice saiba que nós só queremos o que é melhor para a Fátima. E se a Fátima deposita todas as suas convicções no casamento, então tem todas as nossas preces nesse sentido. – Alice sentiu um misto de alívio e desconfiança. Talvez aquela batalha estivesse ganha...
    Maria conseguiu o pedaço de papel e o lápis pretendidos. Dividiu a folha em dois. Numa das folhas desenhou um cachalote a mergulhar, com vários botes a fazer mira para o animal. Homens minúsculos de arpão apontado envergavam peitos cheios de ar e orgulho enquanto os botes balouçavam ferozmente num mar irrequieto. Estava um cenário montado à espera de uma desgraça que o desenho deixava antever. Na segunda folha, Maria deixou um recado escrito à pressa:
“ Deixa a tua janela aberta. Vais receber uma visita importante.
                                                                  Maria Ferreira, irmã da Glória”
   
    - Pronto já acabei o desenho D. Alice. Vou só enfiá-lo debaixo da porta. – E dito isto a pequena levantou-se e dirigiu-se à porta do quarto sob o olhar atento da D. Alice. Maria adoptou um passo lento mas firme dando ao momento um certo dramatismo. Passou em frente ao sofá de pele vermelho escuro onde estavam sentadas as duas irmãs piscando-lhes o olho. Roçou levemente a beira da saia preta demasiado rodada da D. Alice que se encontrava encostada à porta do quarto guardando descaradamente a porta. Mostrou o desenho à D. Alice recebendo em troca um aceno de cabeça e um inspirar mais profundo transparecendo alívio por se tratar efectivamente de um desenho. Dobrou cuidadosamente a folha e num gesto quase gracioso baixou-se e enfiou o papel debaixo da porta.
    Seguiu-se uma despedida desajeitada e quase embaraçosa conduzida pela personagem mais jovem daquele elenco. Assim que as três irmãs sentiram a porta bater nas suas costas respiraram de alívio mas não diminuíram a passada, parando apenas no adro largo da igreja onde se encostaram ao muro de pedra escuro.
    - Mas que situação mais estranha! Agora que estou mais calma é que percebo que saímos tal como entramos, sem saber de nada... – Ana deixou cair os braços sobre o corpo num gesto de impotência.
    - Jesus Cristo nos valha! Que a situação é pior do que esperávamos. O que é que devemos fazer agora? – Glória começava a mostrar desespero naquela voz que se esganiçava como se ela estivesse à beira das lágrimas.
    - Se o mundo dependesse do vosso desembaraço estaríamos todos condenados... – Maria esticou-se, encheu o peito, empinou o nariz e mostrou porque era a mais inteligente da família. – Neste exacto momento a Fátima deve estar a abrir uma fresta da janela e espera a nossa visita clandestina.
   As duas irmãs mais velhas trocaram um olhar confuso.
    - O que é que estás para aí a dizer? – Perguntou Glória desconfiada.
    - Estou a dizer que enquanto vocês duas gaguejavam e faziam figuras tristes eu meti debaixo da porta um bilhete juntamente com o desenho pedindo que a vossa amiga deixasse a janela aberta de modo a que pudéssemos lá entrar sem a D. Alice dar conta.
    Ana agarrou Maria pela cintura e fê-la rodar no ar. Rodaram tanto que acabaram por cair no meio de gargalhadas estridentes em cima dos quadrados escuros de basalto que formavam um tapete negro por entre o verde do relvado até à porta da igreja.
    - Tu és um geniozinho sua pirralha esperta – gritava Glória enquanto despenteava freneticamente os caracóis alinhados da pequena.
    Com uma nova esperança as três irmãs passearam pelas ruas da vila. Sentaram-se no porto da vila Lajes mirando a paisagem. Logo ali ao lado tinham a rampa larga onde os homens forçavam os longos e estreitos botes a entrarem no mar. Desciam a rampa fazendo os botes deslizarem água adentro e saltavam lá para dentro sem fazerem a embarcação vacilar. Os botes afastavam-se deixando à vista apenas uns longos pontos brancos. Do lado oposto espalhavam-se as casas dos pescadores e baleeiros com a escuridão e tristeza do basalto escondendo sempre uma perda próxima. Aquela população triste e sorridente, pesada e solidária encrostada na base daquela montanha imensa coberta por um verde-escuro assombroso no inverno e resplandecente no Verão ofereciam cumprimentos e acções quotidianas simples e vulgares quase felizes.
    Quando os três corações começaram a bater compassadamente e a mente se libertou do aperto, as três raparigas resolveram voltar à casa de Fátima. Subiram as escadas do balcão quase de gatas. No topo destas encolheram-se contra a parede e passaram por baixo da primeira janela. Um grito vindo do interior fez com que gelassem contento os movimentos e a respiração durante uns longos segundos. Quando se sentiram novamente seguras continuaram a deslizar pela parede até à quarta janela. Maria subiu o olhar muito a medo espreitando o interior do quarto. De repente saltou lá para dentro, correu para a porta trancando-a, voltou à janela e ajudou as irmãs a treparem lá para dentro. E finalmente suspirou de alívio.
    O quarto cheirava a jasmim e a doença. Os três pares de olhos pousaram no rosto pálido de Fátima retendo uma alegria invulgar num rosto tão descorado.
    - O que é que se passa contigo Fátima da minh’alma? – Glória foi a primeira a avançar para a amiga deixando-se cair de joelhos ao lado da cama e afagando os cabelos sem brilho da doente.
    Fátima deixou cair uma lágrima gorda que contrapunha o sorriso descarnado.
    - Vou ter com o meu Manel. E pela primeira vez, desde a sua morte estou feliz. – Enfrentando os soluços descarados de Glória e o tremer de lábios das outras irmãs, Fátima sentiu-se incompreendida – Não chorem. Esta é a minha forma de conseguir ser feliz e quero a vossa aprovação.
    - Chega desta mariquice! – Explodiu Maria expondo toda a sua indignação por alguém jovem, relativamente belo, muito inteligente e cheio de saúde, estar desta forma a fitar a morte numa atitude ingrata e até arrogante. – O que é que queres Fátima? Chamar a atenção? Pois bem, és detentora de toda a nossa atenção... Agora vou buscar comida e enfiá-la por essa goela abaixo ou não me chamo Maria Ferreira...
    E numa atitude autoritária dirigiu-se para a porta do quarto decidida a fazer o que havia acabado de prometer, quando um grito desesperado a petrificou. Todas as três arregalaram os olhos na direcção de Fátima, seguindo-se a intuição de que a D. Alice corria a passos pesados para o quarto. Sem trocarem palavras e num entendimento geral as três irmãs esconderam-se como puderam. Maria enfiou-se dentro do guarda-fato e a outras duas meteram-se atrás dos pesados cortinados. A porta abriu-se com uma ferocidade que fez estremecer cada corpo humano que aquele quarto de cama continha.
    - O que foi? Que grito foi este? Ai que me agonias!... – A D. Alice entrou no quarto e sentou-se na beira da cama de Fátima.
    - Eu não ouvi grito nenhum. – Respondeu Fátima com uma calma aparente.
    - Como assim não ouviste se o grito saiu daqui deste quarto?
    - Ai mãe! Se lhe estou a dizer que não ouvi nada...
    - Só falatava agora que me chamasses de doida. Eu sei o que ouvi! Não sou nenhhuma desregulada do juízo. – E com isto a D. Alice levantou-se e avaliou cada canto do quarto com um olhar demasiado atento. Parecendo satisfeita com o veredicto, a mulher encaminhou-se para a porta.
    - Vou buscar-te qualquer coisita para comeres, está bem? – Perguntou meio a medo.
    - Não tenho fome.
    - Vais ter de comer mais cedo ou mais tarde. Tenho uns inhames cozidos lá dentro... Devias comer um pouco.
    - Obrigada mãe, mas não tenho fome.
    O calor que a D. Alice sentiu nas entranhas traduziram-se um rubor furioso e num atirar de palavras.
    - O que é que tu queres de mim filha ingrata? Pára de te armares em doente. Isso pega com o teu pai que é um tanso, mas não pega comigo... – Enquanto gritava os braços abanavam-se como se se estivesse a afogar. – Eu sei bem que gozas da saúde de um touro. Estás a armar-te em menina mimada, mas isso não te vai levar a lado nenhum. Nem que tenha de voltar a dar-te umas palmadas nesse rabo escanzelado como quando eras garota... – E num levantar de mão austero de quem se prepara para transformar em acções as sua palavras, a D. Alice enche o peito de ar elevando o máximo possivel o punho direito deixando-o descair com toda a sua força sobre o corpo frágil de Fátima. Aquele punho gordo e pesado é agarrado no ar por uma mão forte e pálida. Os olhares das duas mulheres encontram-se e detém-se um no outro por demasiado tempo. Os olhos da D. Alice estão esbugalhados de espanto e levam tempo a estreitarem-se num olhar ameçador. Glória mantém um olhar duro e demasiado escuro invulgar naquela cara jovem e conhecidamente feliz.
- Se volta a levantar a mão a Fátima, sou eu que acerto contas consigo sua bruxa oportunista... Malvada de uma figa... Diabos te levem velha maléfica... Eu juro que te parto em pedaços e dou-te de comer aos porcos... – As ameaças de Glória tornavam-se esganiçadas e terminaram repentinamente com um estalo barulhento que sentiu na sua face rebentando imediatamente o lábio inferior num rio de sangue que depressa se alastrou no colarinho de renda branca. Os olhos da rapariga deixaram de ser duros para brotarem em lágrimas de dor.
- Nunca mais tocas na minha irmã... – Maria saltou para as costas da D. Alice e agarrou-lhe os cabelos com uma força imprópria para uma menina da sua idade. Ana espantada com aquele cenário tardou a reagir puxando a irmã mais nova de cima da dona da casa enquanto a pequena endiabrada se rebolava e espernejava numa tentativa vã de se soltar.
    Ficaram uns segundos suspensos no ar em que todas se refizeram e organizaram pensamentos. Foi a D. Alice que rompeu aquele silêncio perturbador.
    - Vou chamar as autoridades e fazer queixa de vocês sua laparosas...
    - Não vai nada, porque senão nós dizemos a toda esta freguesia que você está a matar a sua filha aos poucos... – O olhar de Gloria brilhava de fúria enquanto os seus passos pequenos e firmes eram dados de forma intimidatória na direcção da senhora da casa. – Não se atreva a fazer queixa de nós, nem se atreva a maltratar a Fátima. A partir de hoje eu venho todos os dias visitar a minha amiga e espero que a porta me seja sempre aberta com recebimentos cordiais. – Agora Glória estava com a testa encostada à testa alta da D. Alice e sibilava em tom de ameaça. – Se não se portar bem a partir de agora, eu arranco-lhe os olhos. – Dito isto Glória endireitou-se deu um beijo de despedida a Fátima com um sorriso aberto como se aquela cena toda não se tivesse passado e prometeu-lhe visitá-la no dia seguinte.

sábado, 15 de outubro de 2011

CAPÍTULO VI - Na Base da Montanha

CAPÍTULO VI

    Os açafates de pão transbordavam massa sovada e rosquilhas que eram empilhados cuidadosamente em cima do carro de bois enfeitados com um mar de rosas. O arroz doce fumegante era pulverizado com canela em pó formando desenhos apelativos de coroas e pombas, símbolos típicos das festas do Senhor Espírito Santo. Quando o sol começou a raiar as mulheres reuniram-se no império e começaram a preparar as mesas de refeição para receber a freguesia inteira e mais umas dezenas de fora.
    A missa começou à hora certa e a plateia apresentava-se nos seus melhores trajes escondendo por debaixo daquela fachada de calma o reboliço do início do dia que continuava a pairar na mente dos responsáveis pelas sopas. O marido da tia Espírito Santo foi o coroado, pois era ele o mordomo do império daquele ano. Com os joelhos assentes num coxim de cetim vermelho, os olhos fixos nos sapatos do padre Inácio em sinal de respeito, aceitou a colocação da coroa de prata em cima do seu cabelo ralo permitindo assim que o Espírito Santo descesse sobre si.
    No final da missa, à porta da igreja começaram a formar a procissão. Esta era composta por três quadrados formados por quatro longas varas seguras nas pontas por quatro pares de mãos adolescentes. No centro do primeiro quadrado encontrava-se Ana com um vestido rodado cor salmão, uma meia de renda branca que teimava em cair sobre o tornozelo e uns sapatos pretos de camurça. Os braços deixavam demarcados o esforço dos músculos ao transportar o estandarte vermelho sangue com a imagem de uma grande pomba bordada a ouro. No segundo quadrado centravam-se as três meninas mais bem arranjadas da procissão. A menina do meio, a filha da tia Espírito Santo era a rainha e trajava um vestido de seda branco com uma capa comprida da mesma cor do estandarte cheia de bordados. Aquela capa demasiado pesada dava-lhe um ar de Drácula que contrastava com o aspecto angelical da coroa de prata transportada pela mesma rainha. De cada lado da rainha caminhavam as damas envergando vestidos mais singelos e transportando o prato e o ceptro. No último quadrado Glória transportava outro estandarte com o símbolo do Império da freguesia. Entre estas quadras, mãos pequeninas e inocentes faziam esvoaçar pétalas de rosas que marcavam o caminho do Senhor Espírito Santo.
    O percurso tornou-se demasiado longo para as duas irmãs que suportavam o peso dos estandartes, e demasiado curto para a prima rainha que queria mais tempo de exibição. Enquanto a procissão percorria as ruas da freguesia iam-se juntando mais pessoas com os seus açafates de pão prometido que equilibravam em cima da cabeça com uma mestria de modelo.
    De volta às portas da igreja a filarmónica tocou o Hino das festas e as vozes elevaram-se num sentimento convicto mais profundo do que aquele sentido quando cantam o Hino Nacional:

Alva pomba que meiga apareceste
Ao Messias no rio Jordão
Estendei vossas assas celestes
Sobre o povo do órgão cristão

Vinde! Oh vinde entre nuvens de glória
Entre gente e cânticos de amor
Entre as asas de eterna vitória
E os querubins elevam o Senhor!
E os querubins elevam o Senhor!

    E com o fim do Hino ao Senhor Espírito Santo termina o festejo religioso e começa o convívio popular. A sala de Jantar do Império enche e esvazia-se vezes sem conta. Ana e Gloria servem as sopas de espírito, compostas por pão embebido num caldo de carne acompanhado por carne de vaca cozida. Glória olha nervosamente para a porta na esperança que Fátima apareça e possam falar um pouco. Desde a visita da Dona Alice que nunca mais teve notícias da amiga. É estranho este afastamento, este silêncio pesado que parece transportar um nevoeiro que torna todo o tipo de pensamentos e conclusões difusas.
    Ana começa a aglomerar os açafates de pão para que a distribuição da massa sovada e das rosquilhas comece. Ela gosta desta nova tarefa já que aqui não é obrigada a cumprimentar ninguém nem a facultar um sorriso generoso de menina inocente grata por poder servir o Império da freguesia. Perdida nas suas preocupações sente um puxão suave mas firme na beira da sua saia rodada. Apesar dos olhos tristes não consegue evitar um sorriso ao rapazito baixo com um boné enterrado na cabeça que lhe faz realçar as orelhas demasiado grandes. O miúdo descarado estende-lhe a mão fechada que Ana aceita no meio das suas duas mãos, mais num gesto mecânico do que de compreensão. É-lhe deixado um papelinho sem explicações com a mesma pressa e nervosismo com que se delega um tesouro de última hora. Ana abre o papel curiosa e sente um ardor nos olhos aliviado por um par de lágrimas discretas. Trata-se de um bilhete de Francisco.
    “Vem ter comigo às traseiras da igreja”. Um bilhete tão curto, tão pouco revelador, que lhe pesa tanto nas mãos trémulas. Tentando opor-se à sua saída da Ermida, Ana corre pelo pátio fora com o rosto corado de emoção e a respiração ofegante, sobe as escadas escuras de basalto da igreja como se voasse, contorna os cantos da igreja brancos de cal e só pára quando encontra à sua espera aquele sorriso maroto que termina numas covinhas prometedoras. Francisco está lá a sua espera. Abre os seus braços longos e este gesto é o suficiente para que Ana se deixe envolver por aquele abraço saudoso. É ali o seu mundo... Não importa as circunstâncias, os contornes mais obscuros. Ana acaba de perceber que prefere aqueles curtos momentos de felicidade do que uma falsa promessa de vida futura sem sobressaltos, vivida num marasmo constante.
    Sentados no degrau da porta da sacristia sentem o peso do momento no ar. É Francisco que corta aquele silêncio insinuante.
    - Ainda bem que vieste! É sinal que ainda tens um pouco de fé em mim… - Ana viu-lhe aquele olhar maroto cor de mel com um brilho de macho orgulhoso e não conseguiu evitar uma gargalhada sonora. Já há algum tempo que não se ria assim e como lhe estava a saber bem… Como precisava daquilo na sua vida…
    - Claro que sim doutor! Toda a minha fé reunida num só Deus. – Esta era a sua Ana. Descontraída, rindo de um futuro incerto sem exigir promessas ou compromissos. Entregava-se a ele sem questionar sem se vitimizar pelas circunstâncias. Nunca ninguém lhe dera esta estabilidade de sentimentos, esta prova de disponibilidade absoluta. Francisco não acompanhava Ana naquele riso fácil. Estava com o seu olhar preso naquele rosto perfeito demasiado moreno para a moda da altura, naquele cabelo rebelde que teimava em fugir do elástico, naqueles olhos verdes opacos e simples, naquele queixo bem definido que se impunha sobre um pescoço longo e altivo. Francisco pegou nesse rosto que lhe estava gravado na memória e aproximou-o do seu. Beijou-lhe a testa sem pressa, roçou-lhe os seus lábios sobre um olho de cada vez, deslizou a sua face pela face dela demoradamente até que encostou os seus lábios aos dela sentindo-os carnudos e quentes. Foram saboreando e explorando sem pressas os lábios um do outro como se tivessem a conhecer um novo território.
    - Ana! Estás doida? – Glória nem acredita no que vê. Mas que raio se passa com as irmãs. Andava à procura de Maria para evitar que ela se metesse em sarilhos, e afinal encontra um cenário pior. – Larga a minha irmã seu porco, nojento, ordinário. - A fúria sobe-lhe pela espinha acima e tortura-lhe a garganta que emite gritos de aviso. Arranca Ana dos braços de Francisco colocando-a atrás de si num gesto protector.
    - Eu posso explicar!... – Gemia Francisco baixinho para não enervar mais a rapariga endiabrada.
    Foi Ana que pôs fim àquele comportamento intempestivo da irmã.
    - Basta Glória! – Repreendeu Ana com um timbre seguro que fez Glória vacilar. – Se o Francisco diz que pode explicar dá-lhe pelo menos uma oportunidade para fazê-lo. – Glória fica parva a olhar para aquela Ana determinada. Onde é que está a irmã de olhos baixos, mergulhada numa tristeza infinita que tem vivido na sua casa nas últimas semanas?
    - Então desembucha homem! – Glória ainda não estava totalmente recomposta mas fez um esforço para engolir o doutorzinho.
    Francisco começou por contar como conhecera Ana, como se deixou envolver por ela, como estava neste preciso momento apaixonado por ela. 
    - Isso é tudo muito bonito, mas a realidade é que tens uma noiva, que está muito doente por sinal. O que pensas fazer relativamente a isso? Hã? Isto não é só dizer um desenrolar de disparates românticos e está tudo bem. Tens duas pessoas que estão a sofrer com esta situação. Uma é a minha melhor amiga e a outra é a minha irmã. Podes perceber que não estou lá muito satisfeita contigo. E também não estou caída de amores por ti, logo só posso chegar à conclusão de que és um canalha doutorado… - e nisto começou a bater em Francisco deixando escapar grunhidos reveladores do esforço que estava a desempenhar ao esmurrá-lo.
    Francisco segurou-lhe facilmente os punhos e olhando-a bem nos olhos respondeu com uma seriedade louvável.
    - Eu amo a tua irmã! Agora agradecia que me ouvisses, porque o que vou dizer também é importante para a Ana. – Glória deixou-se cair de rabo no degrau da porta da sacristia, vencida pelo cansaço e disposta a ouvir até ao fim. Francisco teve então a sua oportunidade de contar a sua tentativa frustrada de terminar o noivado. Contou todos os pormenores daquela noite, desde o brilho que parecia de esperança no fim do noivado que viu no olhar de Fátima até ao chilique da Dona Alice. Explicou que depois desta cena não tornou a ver Fátima. Só vai sabendo dela através da Dona Alice que lhe transmite sempre a mesma cantilena “ é a ansiedade do casamento”.
    Agora Glória deixou a raiva de lado para assumir uma postura preocupada.
    - Então a Fátima não conseguiu dizer-te se queria ou não este casamento? – Pergunta Glória pondo as ideias em ordem.
    - Não… Nem tão pouco me disse o que sentia por mim ou pelo facto de estar noiva. Nunca se manifestou nem a favor nem contra, mas eu juro que naquela noite quando eu insinuei que não queria este casamento ela mostrou-me uma nova Fátima. Era como se estivesse aliviada… Mas não conseguiu verbalizar nada disto.
    - Faz sentido Francisco…
    - O que é que faz sentido? – Perguntou Ana com uma nova esperança.
    Glória contou a Francisco o romance de Fátima e Manel, assim como o seu fim trágico. Contou a parte da história que ninguém conhecia… As tentativas de pôr fim à vida, as automutilações que Fátima infligiu a si própria resultado de todo o remorso que a acompanhava pela morte do namorado… Glória contou os horrores psicológicos a que a Dona Alice a submeteu, até que de repente Fátima apareceu-lhe noiva do filho do doutor Bruno. Contou-lhe a notícia com uma alegria falsa tentando justificar aquele acontecimento com frases feitas como “a vida continua”, “o Manel só queria que eu fosse feliz”…
    - Nós temos de falar com a Fátima. Temos de vê-la. Sabe-se lá os tormentos que ela está a passar… - Glória tinha os olhos rasos de água. Queria tanto ajudar a amiga, tirar-lhe todo o peso que esta vida injusta lhe tinha colocado aos ombros.
    Ana abraçou a irmã e sussurrou-lhe – Vamos chegar a ela custe o que custar, mas agora temos de voltar para a festa. Não podemos levantar suspeitas.
  As irmãs voltaram para a festa disfarçando o rebentamento de pensamentos e emoções que se soltavam nas suas almas. Caminhavam lado a lado sorrindo e retribuindo cumprimentos e sorrisos.
    As mãos erguidas para receber um pão de massa sovada igualava-se a um campo de girassóis virados todos para o sol. O pão chovia sobre aquele pequeno mar dando à situação uma quase interpretação bíblica. Com o anoitecer chegou o bailarico animado onde toda a família Ferreira participou activamente. Luzia e José dançavam como se de um par de garotos se tratasse. Glória desempenhava a dança do acasalamento cheia de mistério, murmúrios e risinhos malandros que a faziam corar mais do que o exigido pelo esforço das voltas da chamarrita. Até a Maria havia arranjado um par para rodopiar e estava inchada de importância por tal facto, ralhando com o pequeno rapaz sempre que este a pisava.
    Ana por seu lado era a única que estava isolada num canto absorvida por mil ideias e pensamentos que lhe invadiam a mente numa tentativa frustrada de ordenação lógica. Torcia e retorcia os dedos e mordia os lábios enquanto inventava soluções mirabolantes para a sua situação. Tinha de pensar em Fátima. Não queria de forma alguma que as suas atitudes a conduzissem para um abismo ainda maior. Mas que raio se passaria com a rapariga? Estaria ela prisioneira da própria mãe? Estaria mesmo doente? No dia seguinte far-lhe-ia uma visita acompanhada pela irmã e esperava obter assim algumas respostas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CAPITULO V - Na Base da Montanha

CAPITULO V


A cozinha dos Ferreira transborda animação e muitas mulheres, que se fazem acompanhar por aquele burburinho inevitável das risotas, segredinhos e mexericos. Glória acende o forno de lenha enquanto as restantes mulheres preparam a massa. As festas do Senhor Espírito Santo estão à porta e é preciso fazer a massa sovada para distribuir a quem queira, como recompensa pelos favores pedidos aos Santos. Este ano é a tia Espírito Santo quem oferece as sopas, pagando assim a promessa de que o marido se curasse de uma pneumonia. Como é da família, Luzia ofereceu o seu pessoal para ajudar. O José ajudará a matar as vacas e a preparar a carne, e as mulheres ajudarão na cozinha. Faltam só dois dias para a grande festança e o trabalho abunda sem nunca diminuir...
Maria anda chateada... Não queria participar naquela azáfama que lhe roubava tanto tempo... Logo agora que tinha tantos trabalhos para fazer.
- Mãezinha, posso ir para o quarto. A professora Noélia passou muitos deveres e tenho que fazê-los todos para amanhã, se não ainda apanho com a régua nas unhas... – Pede Maria com muito jeitinho e carinho tentando comprar a resposta positiva.
- Vai lá filha! Primeiro está a escola... – Luzia beija a fronte de Maria e olha-a com admiração. É tão criança e ao mesmo tempo tão responsável. É pela felicidade dela e das outras filhas que Luzia prometeu este ano dar cinquenta rosquilhas nas festas.
Maria nem agradeceu. Voltou costas e correu para o quarto. Trancou bem a porta não fosse alguém abri-la e descobrir o seu segredo... Tirou de debaixo da cama a sua mala da escola feita em madeira pelo seu falecido avô. Abriu com muito cuidado como se o seu interior guardasse um segredo e posou-a aberta em cima da cama. No interior desta mala não tinha nenhum material de estudo, apenas linhas, agulhas, tecidos, missangas... Maria tinha criado o seu próprio mini negócio como ela lhe chamava. Fazia chapéus muito bonitos. Começou com esta tarefa umas poucas semanas atrás, quando fez um chapéu para oferecer a uma amiguinha. A mãe da menina admirou muito o chapéu rosa com um véu branco e uma flor toda feita de tule branco a decorar o lado direito do mesmo e pediu a Maria que lhe fizesse um chapéu preto muito discreto, mas ao mesmo tempo chique para usar nos funerais. Maria aceitou o desafio. Primeiro pediu ao pai de João que lhe arranjasse moldes, depois desfez uma saia de seda preta que tinha para forrar o chapéu e com um dos véus que a mãe usava para levar à missa fez um véu pequeno adequado ao chapéu, e por fim fez uma rosa com arame e forrou-a com cetim branco, dando uma ar agradávelmente discreto e tirando um pouco o peso do luto. A sua primeira cliente ficou radiante com o resultado e fez da menina a sua chapeleira, recomendando-a às amigas. Maria ganhava um bom dinheiro. Tirava sempre uma pequena quantia que dava ao pai de João para que este lhe comprasse os materiais necessários, e o resto do dinheiro guardava para que um dia pudesse montar uma loja de chapéus feitos por ela. Não queria viver da terra, nem da lavoura. Sabia que as terras da família eram abundantes e que davam para garantir um bom futuro a toda a família, mas era um trabalho tão sujo... O mais complicado era manter segredo desta actividade. O pai de João prometera não dizer nada a ninguém, e as clientes só fazem as encomendas à porta da escola. No entanto, Maria sabe que corre o risco de ser descoberta e tem de estar preparada para tal. Quanto mais tarde os pais souberem melhor, pois assim tem tempo para guardar o máximo de dinheiro, não vá ficar sozinha e desamparada...
A tia Espírito Santo entra em casa dos Ferreiras com os vestidos das meninas prontos para a procissão.
- Glória!!! – Chama Luzia – leva os vestidos para o quarto e pendura-os direitinhos... Não são uma beleza?...
Glória apressa-se, pega nos vestidos com o máximo de cuidado possível e dirige-se para o quarto. Em frente à porta do quarto, Glória não consegue entrar.
- Maria!!! Abre a porta... Que fazes aí dentro trancada?
Maria apressa-se a enfiar tudo dentro da mala e envia-a para baixo da cama.
- Tem calma mulher... Parece que vais tirar o pai da forca. – Reclama Maria enquanto abre a porta.
Glória entra com os vestidos na mão, pousa-os em cima da cama e fixa Maria nos olhos.
- O que me estás a esconder, minha menina?
- Nada... Estava apenas a fazer os trabalhos de casa.
Glória olha em redor e não vê nenhum material escolar. Maria está a mentir-lhe de certeza. Nem ligou aos vestidos... Em circunstâncias normais, teria ficado histérica com os vestidos e começaria logo a inspeccioná-los, não fossem precisar de algum ajuste.
- Maria, Maria... Não gosto que me enganem... Se estás com algum problema podes dividi-lo comigo, afinal sou tua irmã, e mais do que isso, sou tua amiga.
Maria encolhe os ombros... Tem tanta vontade de lhe contar, de lhe mostrar orgulhosamente o seu trabalho, de lhe dizer que o chapéu que ela tanto admirou na última missa tinha sido obra sua. Maria abre a sua gaveta de roupa e tira de lá um lindo arranjo de flores muito pequeninas feitas em seda branca e entrelaçadas com muita harmonia formando uma tiara própria para prender um véu de noiva. Estendeu aquela pequena obra de arte à irmã.
- Gostas Glória?
- É linda!... Onde foste buscar uma coisa dessas... Deve ter custado um dinheirão... Olha só para o trabalho que aí está feito... – Glória pegou naquele objecto com uma cautela extrema.
- Fui eu que fiz... É para usares no teu casamento.
- Oh Maria! Onde é que aprendeste esta arte? Onde é que foste buscar o material? Estou tão deslumbrada quanto confusa... Era por isso que estavas trancada? Como é que pudeste fazer uma coisa tão bonita?... Tão perfeita...
- Glória! Eu preciso da tua compreensão para o que te vou contar...
Glória levantou o olhar da teara de florzinhas e fixou a irmã com preocupação.
- Sabes que falta pouco para eu terminar a escola, não sabes?
- Sim..
- Sabes que eu não gosto da vida que me espera... Eu não gosto de terras, nem de galinhas, nem de porcos, nem de vacas... Certo?
- Sim...
- Cá em nossa casa todos sabem que eu sou muito vaidosa e ágil de mãos para a costura...
- O que é que me queres dizer Maria?
- Eu já estou a preparar o meu futuro, de modo a que não passe pelo trabalho do campo.
Maria tirou a sua mala de madeira e mostrou o seu material de costura, assim como os desenhos de todos os chapéus que já tinha feito. Glória olhou desenho por desenho estupefacta.
- Tu fizeste estes chapéus? E conseguiste? Quem é que te ensinou? Não me digas que o chapéu da dona Filomena é este que está aqui no desenho... Levas dinheiro para fazê-los?... – Glória deixa-se cair em cima da cama e desabafa – tu ainda és tão novinha...
- Não sei se vou conseguir responder a todas as perguntas... Sim, eu é que fiz o chapéu da senhora Filomena, assim como todos os que estão aí desenhados... E aprendi sozinha. Eu escrevi uma carta aos tios da América e pedi-lhes que me mandassem um livro que ensinasse a fazer roupa. Eles assim fizeram, mandaram o livro juntamente com uma encomenda de roupa que o pai foi buscar ao porto das Lajes. Neste livro tem uma parte que ensina a fazer chapéus... É certo que o livro está escrito em americano e eu não precebo nada do que lá diz, mas tem desenhos que mostram os passos a seguir para se conseguir um certo resultado... Com os desenhos e com um pouco de imaginação eu faço chapéus e vendo...
- Tu vendes?... Com essa idade quem é que te paga?
- Muitas senhoras que sabem apreciar um bom trabalho...
- E como é que sabes o que deves cobrar?
- O teu futuro sogro ensinou-me que eu devo acrescentar ao dinheiro gasto com o material, o custo do tempo, o custo do trabalho e a minha margem de lucro...
- O pai do João sabia e nunca me disse nada?
- Eu é que lhe pedi segredo...
Glória sai do quarto com as sobrancelhas carregadas... Não sabe bem o que deve pensar. Atravessa as divisões da casa num passo longo e apressado, sai pela porta da cozinha sem ouvir as perguntas que as mulheres lhe dirigem e encaminha-se caminho abaixo rumo à barbearia do futuro sogro. Levava na ideia a convicção de que o pai de João estava a aproveitar-se da meninice de Maria para lucrar algum... Não havia outra explicação... Que raio! Um homem daquela idade a explorar o trabalho de uma miuda de dez anos, quase onze é certo...
- Com que direito pôs a minha irmã mais nova a trabalhar? Vá, desembuche homem...
O barbeiro fica apreensivo e com os olhos arregalados... Pronto! Tinha sido descoberto. Agora só lhe resta contar a verdade...
- Eu não pus a menina a trabalhar. Ela é que tem um talento enorme e está a tirar proveito dele, eu só a ajudo para que não faça asneiras ou para que ninguém a engane...
- Quer dizer que ela não trabalha para si?
- Claro que não! Eu sou um homem pobre, mas sou às direitas. A menina Maria é que me procurou e pediu ajuda para conseguir materiais... Eu apenas aceitei fazê-lo porque se não fosse eu a ajudá-la ela iria procurar essa ajuda noutra pessoa que poderia não ser muito séria. Eu encomendo os materiais dela juntamento com os da barbearia... E a pequena é mesmo boa naquilo dos chapéus, pois tem cada vez mais freguesas, e encomenda cada vez mais materiais...
- Ela é uma criança que já lida com dinheiro... Com negócios...
- Ela já tem quase onze anos e tem um talento que lhe dá prazer e sustento. Quantos se podem gabar do mesmo?
Glória sai da barbearia sem a revolta que transportava no peito, mas com uma confusão angustiante que lhe pesa enormemente na mente. É verdade que a pequena Maria não quer o trabalho sujo das terras, mas também é verdade que ela é muito nova... Tem talento, não pode negar... E deve dar um bom sustento, caso contrário o pai de João não a teria incentivado. Quando chegar o momento certo saberá o que fazer, e este não é o momento, basta olhar para a sua cozinha onde reina o trabalho e a boa disposição. Depois das festas do Espírito Santo, logo se vê...

sábado, 1 de outubro de 2011

CAPITULO IV - Na Base da Montanha

CAPITULO IV


Fátima estava desamparada. Preparava-se para entrar no quarto da mãe. Ia ser forte pela primeira vez na vida. Iria bater o pé, e opôr-se às intenções da mãe. Iria enfrentá-la. Fátima ergueu a cabeça, respirou fundo e entrou...
- Parece-me bastante melhor!
- És tu que me provocas isto! Dei-te tudo o que podia... Sempre fui uma exclente mãe, compreensiva, carinhosa, dedicada... Como achas que me senti quando ouvi o que o Francisco te disse? Não sei o que tens na cabeça. Nosso Senhor Jesus Cristo nos valha, que eu não mereço isto. Tu queres matar-me de vergonha? Deixares que um noivo como o Francisco termine o noivado... O que é que esta gentinha vai pensar? Já toda a vila sabe deste casamento e agora queres andar na boca do povo... Queres que te chamem despeitada? Queres ser sempre essa rapariguinha sem sal que nem um noivo consegue encantar? Acorda para a vida! Ai Jesus! Que me matas de desgosto!
- Eu não acho certo casar-me com alguém que não me quer!
-Sabes o que te digo? Antes com discretos a pecar do que com tolos a orar... Será que não sabes o que é bom para ti? Deitas fora o filho do Dr. Bruno, o melhor partido da vila! Com este casamento só ficas a ganhar. Vais ter uma vida de rainha, sem preocupações. Terás uma boa casa, poderás passear de carro. Se tiveres filhos vão agradecer-te o resto da vida pelo pai rico que lhes deste. Não sejas tonta...
- Estou espantada!... Tanta preocupação comigo!... Já que a sua única preocupação é a minha felicidade, porque é que nunca me perguntou se eu queria este casamento? Nunca me perguntou se eu estava feliz. Estou cansada de ser uma marioneta nas suas mãos...
Fátima sentiu o peito apertado e as lágrimas saltaram-lhe desesperadamente dos olhos... As palavras começaram a sair-lhe da boca num tom mais elevado, quase histérico e sem qualquer tipo de ordenação racional. Ela perdera aquela batalha, perdera as estribeiras, a postura. Perdera a razão.
Fátima saíu a correr do quarto da mãe. Apressava-se a chegar à porta de saída, que parecia afastar-se. Precisa de apanhar ar, de sair dali, de se sentir livre. As paredes aproximam-se e o corredor alonga-se. Fátima respira velozmente, e continua a correr demoradamente... Finalmente chegou à rua. A noite está calma, e o ar fresco bate-lhe ferozmente no rosto... Ela continua a correr, e só pára quando encontra o mar à sua frente. Senta-se numa rocha, e chora...
- Oh Manel!... Preciso tanto de ti! Porque é que a vida te tirou de mim? – Fátima sente- se angustiada, mas o pior é este sentimento de desamparo. Onde poderá ela encontrar apoio? Deus foi demasiado cruel quando deixou o seu Manel no mar. Ainda se lembra quando conheceu o pequeno Manel...
No primeiro dia de escola, tinha Fátima 7 anos. Os seus pais deixaram-na no meio do pátio sozinha. Ela olhou em redor e sentiu inveja dos outros meninos que corriam atrás uns dos outros sem se preocuparem com a roupa. Queria tanto conhecê-los e brincar com eles. Estava numa luta interior que não se resolvia. Contava até três para tomar coragem e ir apresentar-se. Um, dois... Três... Pronto, é agora... Dava um passo e parava. Não tinha coragem. O que pensaria a mãe? Com certeza não ficaria satisfeita, ralharia por ela ter sujado o vestido imaculado, e pior, não gostaria de saber que ela fizera amizade com aqueles meninos pobres. A professora chamou-os para dentro da sala de aula. Fátima sentou-se sozinha numa carteira dupla. Tinha a sensação de que os meninos se tinham afastado dela. Era estranho, pois sempre pensara que aquele tipo de gente tinha vontade de conhecer e de conviver com pessoas como ela. Sempre pensara que eram as pessoas de classe superior que se afastavam dos pobres, afinal a rejeitada era Fátima... O Manel chegou atrasado a essa aula e sentou-se ao lado de Fátima. Esta sentiu uma alegria enorme encher-lhe o peito. Apartir desse dia nunca mais se largaram. Manel era um bom amigo, desinteressado, sempre pronto a ajudar e a defender Fátima sem esperar nada em troca. Nunca ninguém gostara dela daquela forma... Com Manel, Fátima sentia-se desejada, sentia que a única coisa que lhe era exigida era a sua sinceridade... Fátima podia ser expontânea, podia falar primeiro e pensar depois. Com a idade, aquela amizade tão bem cultivada, transformou-se em amor. Ambos depressa perceberam a diferença e adaptaram-se muito bem à nova condição. De amigos inseparáveis passaram a amantes apaixonados, e alimentavam aquele sentimento com encontros furtivos e longamente românticos. Manel era o pilar central da vida de Fátima, era o seu conselheiro, confidente. Mas o destino de Fátima tratou de a pôr no seu lugar, de a fazer lembrar que a sua vida é invisível aos olhos de todos, que a sua vontade é desconhecida. Aquele dia fatídico fê-la lembrar da sua condição de marioneta da mãe. Fátima marcara um encontro com Manel no porto das lajes. Era costume deles despedirem-se sempre que Manel ia para o mar com os outros baleeiros, como se aqueles momentos escondidos fossem um amuleto de sorte para Manel, protegendo-o dos perigos daquelas gigantes baleias. Nesse dia Fátima não apareceu. Ficara retida em casa com visitas. Manel esperou quase uma hora, mas os outros baleeiros começaram a chegar e Manel teve que partir para a caça. Os baleeiros arrastaram os botes para a água, enfiaram-se dentro deles e começaram a remar rumo ao mar alto. O cachalote foi avistado, e os baleeiros param de remar. Preparam o arpão para ser lançado no momento oportuno. Seis botes fazem mira para o mesmo gigante. O cachalote começa a mostrar-se lentamente, e antes que consiga desaparecer, Manel lança o arpão que o atinge em cheio. A corda que liga agora o animal ao bote começa a correr. Os outros baleeiros apressam-se a lançar os seus arpões... Mas o animal sofrido e desorientado roça o bote onde estava Manel de pé a segurar a corda... Manel desequilibrou-se, bateu com a cabeça na beira do bote e afundou-se no mar. Os homens procuraram-no desesperadamente, forçavam a vista com esperança de ver um sinal, mas o sangue do cachalote cobria o mar, e as esperanças afundaram-se também...
Com a notícia da morte de Manel, Fátima perdeu toda a alegria que tinha e fez da vontade da mãe a sua orientação de vida. Soube que apartir daquele momento nunca mais se sentiria interessante, nunca mais teria uma vontade, um devaneio... Tudo perdeu o interesse... E assim se tornou noiva de Francisco quatro meses depois da morte de Manel, sem nunca dizer que aceitava este noivo, sem nunca olhá-lo nos olhos, sem nunca lhe declarar um sentimento... Apenas aceitara a vontade alheia...
Ali sozinha, encolhida, e a tremer de frio, Fátima sente-se perdida e injustiçada... Não tem vontade de voltar para casa, para o meio da confusão, da gritaria, do insulto... Talvez fosse hora de se encontrar com Manel... Talvez ele esteja à sua espera com aquele sorriso encantado e com uma hortência na mão para lhe dar. Quer voltar a ouvir aquelas gargalhadas estridentes que brotavam da sua boca sem razão aparente. E o mar está ali diante dela, tão sereno, numa espera compassada de uma vai e vem lento e absurdamente convidativo... É lá que está o seu Manel...
- Fátima! O que te passou pela cabeça? Discutiste com a tua mãe, logo agora que ela está debilitada. Nem imaginas como ela está. Quase ia desmaiando outra vez. Pediu-me para te procurar. Oh Fátima! Tu foste longe demais!... – O senhor Joaquim pegou na filha pelo braço e conduziu-a para casa num passo lento, intuindo uma conversa séria...
- Porque é que casaste com a mãe?- pergunta Fátima.
- Porque... Ora que pergunta absurda!... Porque sim.
- Foste tu que a escolheste?
- Sim.
- Estavas apaixonado?
- A tua mãe era muito bonita. Quando me casei com ela não a conhecia bem. Só sabia que era muito bonita, e dava a parecer ser uma boa rapariga, muito calma, e uma boa dona de casa. Depois de casarmos percebi que afinal ela não era nada tranquila, pelo contrário, tinha um génio impossível, mas eu habituei-me ao seu feitio... E cá estamos casados há mais de vinte anos. – Joaquim sorriu à filha num gesto confidente – Eu habituei-me a ela porque era a minha esposa, e tu deves fazer o mesmo, porque ela é a tua mãe.
Chegados a casa, a senhora Alice esperava-os.
- Onde é que te meteste? Tive de ir meia dúzia de vezes à retrete que os nervos desregularam-me os intestinos. É neste estado que me pões... Se me queres matar dá-me logo um tiro, não o faças desta forma lenta... – Alice estava com os olhos a faiscar.
- Desculpe mãe!... – Fátima não tinha forças para enfrentar aquela situação.
- Amanhã vais para o Faial passar uns tempos. Vais logo na lancha da manhã, para que não vejas o Francisco. Assim ele terá de esperar que regresses para terminar o noivado, e nós ganhamos tempo. Tenho de descobrir porque é que ele tomou esta decisão repentina. Deve haver algum rabo de saia. Alguma moça esperta que sabe que ele é um bom partido, ao contrário de algumas tontas que andam por aí...
Fátima baixou a cabeça e foi para o quarto. Deitou-se na cama e fechou os olhos de cansaço. Sentiu um arrepio suave percorrer-lhe o corpo e sem querer esboçou um sorriso, como no tempo em que tinha Manel ao seu lado. Fátima acabou de tomar uma decisão... Não vai para o Faial... E até já sabe o que deve fazer...
O dia seguinte clareou o quarto de Fátima sem a incomodar. Estava na hora de ela se levantar para apanhar a lancha, mas não o fez e deixou-se ficar na cama. Aquele quarto grande com duas janelas cobertas por pesados cortinados, com aquela cama envolta num véu, com a cómoda toda trabalhada e um espelho de corpo inteiro no canto oposto à porta, seria o único refúgio que Fátima teria a partir daquele momento, e a ideia não lhe desagradava. A senhora sua mãe iria ter uma surpresa...
- Fátima! Já estás pronta?- A senhora Alice entra no quarto sem pedir licença. – Ainda deitada?! Anda levanta-te...
- Não consigo, mãe. Estou a sentir-me muito fraca e com uma dor na cabeça que não me larga... Se me ponho de pé caio... – Fátima vai usar o mesmo método da mãe. Se ela pode ficar doente quando lhe convém, então Fátima também ficará.
- Sai já dessa cama minha menina... – Alice tira a roupa de cima da filha, agarra-lhe um braço e começa a puxá-la com toda a sua força soltando uivos de raiva...
Joaquim, ouvindo aqueles gritos enlouquecidos corre para o quarto da filha e fica estupefacto com o que vê. A queda seca de Fátima sobre o chão de soalho, não acalma a senhora enfurecida que continua a forçar a rapariga a pôr-se de pé, usando toda a sua persuasão física e psicológica, fundamentada em insultos e ameaças.
- Pára mulher que me matas a rapariga!- Joaquim agarra a esposa pela cintura e afasta-a de Fátima.
- Estás doida! Olha bem para este quadro triste, Alice! O que te passou pela cabeça?
Joaquim expulsa a mulher do quarto e ajuda a filha a deitar-se na cama. A partir de que momento é que a esposa se tornara naquele monstro impiedoso? Como é que esta evolução se deu sem que ele sequer tenha reparado? Ele sabe-o bem... Tem sempre a mente ocupada com os assuntos da Câmara, principalmente desde que o louco Mestre Quim se soltou e destruiu alguns dos candeeiros da vila, cessando assim a iluminação pública que tanto custara a Joaquim e que o tornara muito popular entre o seu povo. Joaquim preocupava-se mais com a iluminação pouco duradoura que conseguira do que com os problemas da sua casa. Tinha uma família de aparência cuidada, mas em ruínas...
Fátima fica sozinha no quarto e sorri de satisfação. Como é bom ser rebelde, impôr uma vontade e ganhar uma batalha. Não vale a pena sonhar todos os dias, sem deixar que esse sonho faça parte da nossa vida. Fátima tem agora um objectivo, e já traçou o caminho a seguir para lá chegar... Ela vai libertar-se para sempre e vai viver o sonho.
A senhora Alice sente-se como uma fera dentro de uma jaula, sem espaço de manobra, mas isto não fica assim. A filha não é suficientemente forte para enfrentá-la, daqui a pouco arrepender-se-á e fará o que a mãe lhe disser. Mas nunca a viu defender uma posição com tanta convicção. Irá a casa do Ferreira e convencerá a Glória a falar com a filha e a meter-lhe algum juízo na cabeça. Agora só precisa de um transporte até lá. O marido certamente não a levará, e a única família que também tem carro na vila das Lajes é a família de Francisco. Não tem alternativa e terá de pedir a Francisco que a leve. Só tem de arranjar um bom pretexto.
Já em frente ao consultório, Alice adopta um aspecto desconsolado, um ar cansado, e uma postura descaída, e entra.
- Bom dia Dona Helena! O Francisco está?
- Ele acabou de entrar no consultório com o pai. Quer que o chame? – A bondosa Helena estende a mão a Alice e conduz a aparente debilitada a uma confortável cadeira, sorrindo-lhe discretamente no intuito de lhe poder minimizar a dor ilusória.
- Se não se importar... Eu preciso de um favor dele... Sabe como é, ele é quase família e quando precisamos de ajuda devemos recorrer sempre em primeiro lugar aos nossos. – Alice esforçava-se por se mostrar agradável a Helena, apesar do sentimento de repugnância que lhe percorria o pensamento. Sempre desconfiara que aquela dedicação ao consultório médico da vila trazia água no bico. Nunca tal tinha visto um médico precisar de uma assistente que não percebe nada de medicina, está ali apenas para receber os doentes, como se eles não soubessem aguardar pela sua vez sem a indicação dela. Sempre desconfiara que a solteira Helena era mais dedicada ao doutor Bruno do que aos doentes, e até já partilhara esta opinião com algumas amigas, que depressa fizeram espalhar o boato infundado, e que provocou uma mágoa silenciosa em Clemência.
Francisco aproximou-se da senhora Alice admirado com a visita.
- Em que posso ajudá-la?
-Oh meu querido Francisco! A tua futura esposa está muito debilitada. Não sei o que lhe deu, mas hoje não conseguiu sequer levantar-se da cama. Parece que a tristeza se apoderou daquela alma. – Alice vê o rosto de Francisco adoptar um ar preocupado e o brilho tremido do olhar transparece remorso, exactamente como Alice desejava. Ela já lhe tinha introduzido o bichinho do arrependimento, já lhe tinha conseguido atingir a consciência, que é o ponto mais fraco dos honestos.
- Quer que fale com ela? – Francisco está receoso da resposta. Não quer enfrentar Fátima naquele estado... O que lhe dirá?
- Não!.. Queria apenas pedir-lhe que me levasse a casa do José Ferreira para falar com Glória. Como ela é a melhor amiga da minha filha, pensei que soubesse explicar-me qual o motivo deste estado melancólico...
- Claro senhora Alice! Espere aqui só um momento que eu vou avisar o meu pai.
Francisco depressa esqueceu a depressão da suposta noiva. A ideia de poder ver Ana de novo era de tal forma grande que lhe enchia a alma, o pensamento, o próprio corpo...
O caminho para S. João estava demasiado longo e o silêncio aterrador. Francisco não sabia o que dizer. Estava ao lado da mãe da sua noiva a caminho da casa da sua amada. Que situação constrangedora...
- Está a ver esta terra aqui do seu lado direito? – Pergunta Alice no intuito de tornar a sua companhia mais agradável.
- Sim! O que tem?
- O Ferreira comprou esta terra para fazer a casa da Glória. Não foi nada barata, uma vez que é o melhor terreno que existe aqui na Ribeira do Meio. O que combinaram foi que o Ferreira comprava a terra para o futuro casal, e o João juntamente com o pai fariam a casa. Glória está muito entusiasmada. Mas o casamento vai dar-se antes de a casa estar pronta, porque os noivos não querem esperar. O amor é tão bonito, não acha?
- Sim, claro!
- Acha que o problema da minha filha é ansiedade por causa do casamento?
Francisco treme por dentro, e reponde sem convicção.
- Talvez.
O silêncio voltou e segurou-se até chegarem ao portão dos Ferreira.
- Oh Lúzia! Como estás? Há tanto tempo que não nos viamos, mulher. – Alice dirige-se a Lúzia com uma intimidade falsa, como se de velhas amigas se tratasse.
- Entrem! Não estava à espera da vossa visita. Espero que não tenha acontecido nada. – Lúzia tinha um sexto sentido muito apurado. Era capaz de sentir o ar carregado de embaraço, mas principalmente de hipocrisia.
- Oh mulher, preciso muito de falar com a tua filha! A minha Fátima não está nada bem. Caíu na cama e não se levanta por nada... Também não quer comer... Está numa depressão muito depressiva, que até me doi a alma...
Neste momento, Ana entra na cozinha e pára os seus olhos nos de Francisco. Ele estava ali sentado numa banca junto ao forno do pão com uma caneca de café na mão... Ana sentiu os seus lábios florirem, o seu coração bater com mais força, e sem pensar perguntou-lhe cheia de esperança.
- Que fazes aqui?
Lúzia acabou de ver qual a origem do mau humor da filha, e Alice adivinhou qual o motivo do fim do noivado perfeito. Tem de pensar rápido, já não pode levar Glória para casa, não vá servir de pombo-correio de Fátima, ajudando-a a cometer o erro de não se casar com o jovem médico.
- Vim acompanhar a senhora Alice! - Francisco baixou os olhos. Sabia que Ana tinha pensado noutro motivo para aquela visita, e ele desiludiu-a mais uma vez. Sentia uma enorme culpa em relação a Ana, mas em simultâneo acompanhava-o o remorso pelo estado de Fátima.
Ana retirou-se da cozinha em direcção à rua num passo apressado e esquecendo a educação que a mãe lhe dera. Não quer saber mais daquela gente... Ai! Se ela ao menos pudesse sair daquele lugar...
- Ana o que tens? – Glória encontra a irmã sentada no balcão com um olhar vidrado de quem não olha nada.
- O Francisco está na nossa cozinha...
- O que veio cá fazer?
- Acompanhar a futura sogra... Acho que ela quer falar contigo.
Glória roda os braços à volta do pescoço da irmã e beija-lhe a testa. De seguida entra em casa.
- Oh minha querida Glória! Preciso tanto de falar contigo... – Alice abre os braços para receber Glória num estreito cumprimento, o qual Glória finge não perceber continuando a andar até ao lugar vago.
- A Ana disse-me que quer falar comigo. De que se trata?
- É a Fátima...
- O que tem Fátima? – Glória sente um aperto no peito, sabe bem que a amiga é muito frágil e que por vezes tem uns pensamentos estranhos em relação à vida... Deus queira que não tenha feito nenhuma asneira...
- Está de cama, mergulhada numa tristeza que faz dó. Não sei o que se passa com ela, e pensei que talvez tu me pudesses dizer...
- Não faço ideia... Vou só mudar de roupa e vou convosco à vila para falar com ela.
Alice atrapalha-se... Não pode deixar que isso aconteça... Glória saberá que Fátima quer terminar o noivado e ajudará a irmã a conquistar o médico. Afinal elas são mais velhacas do que a filha, que é honesta demais.
- Lamento, mas ela não quer falar com ninguém, nem contigo. Eu até perguntei-lhe se queria que tu lá fosses para conversarem, para ela desabafar, mas exaltou-se dizendo que não queria ninguém no seu quarto...
Glória ficou ainda mais preocupada. O que se passará na cabeça da amiga? Não deve estar a sofrer por amor a Francisco, pois Glória sabe bem que este casamento não tem qualquer fundamento sentimental... Só pode ser saudade do seu Manel, revolta por se sentir só e injustiçada.
- Estava com esperança que tivesses alguma resposta para a melancolia da minha filha, mas sendo assim, é melhor voltar para junto dela. – Alice levanta-se e despede-se das duas mulheres. Glória acompanha-os até ao carro, e antes de entrarem, pergunta a Alice.
- Não acha que será uma recaída? Afinal ela já esteve assim uma vez... Quando tudo aquilo aconteceu... Talvez o sentimento de perda tenha descido sobre ela novamente...
- Não diga disparates Glória! Fátima ama o noivo e não tem mais nada que lhe ocupe o pensamento.
Alice entra no carro sem olhar para Glória. Como se atreve? É muito mais esperta do que podia imaginar. Ainda bem que não a deixou falar com a filha, pois sujeitar-se-ia a que aquela cobra voltasse a meter o passado na cabeça de Fátima fazendo com que ela desistisse do casamento. E quem ficaria com o melhor partido da vila? A irmãzinha do meio. É uma gentalha!
Francisco olha para o balcão onde está Ana paralizada e sem demonstrar qualquer emoção.
- Espere por mim só um minuto que eu vou despedir-me da outra filha... Não é de bom-tom sair sem me despedir de todos os que estão em casa. – E sem dar a hipótese de contestação à Dona Alice foi ter com Ana.
- Não posso estar aqui muito tempo... Só quero que saibas que já falei com Fátima... Só não esperava que ela caísse nesta depressão. Na conversa que tivemos pareceu-me que também não queria este casamento e agora acontece isto... Já não estou a perceber nada... Eu não desisti de ti, Ana... Por favor não desistas de mim. – Francisco pegou-lhe na mão e beijou-a cheio de vontade.
Ana não conseguiu articular nenhuma palavra que fizesse sentido. Só conseguia olhar Francisco com a mesma admiração com que o viu descer do barco naquele dia iluminado. A vida é assim, deixa sempre uma esperança para compensar os desalentos que nos põe no caminho...