sábado, 24 de setembro de 2011

Na Base da Montanha CAPITULO I


Na Base da Montanha

CAPITULO I


Finalmente a missa terminou. Num dia de Primavera tão bonito é enfadonho passar tanto tempo dentro de um templo religioso, onde a luminosidade escasseia por entre os vitrais coloridos, e onde as palavras do padre Inácio se conjugam com o berburinho do público cristão resultando daí um incompreensível latim, que dava sono e deixava Ana profundamente deprimida.
Ana era uma rapariga de origens simples. A segunda das três filha de Lúzia e José. Lúzia, uma mulher dócil e muito dedicada à família, tinha uma proximidade das filhas invulgares entre duas gerações distintas. O pai ficava um pouco na margem desta relação, não por vontade própria, mas porque a sua função masculina de não deixar que falte nada na sua casa assim o exigia. 
Ana era feliz, mas como qualquer adolescente de dezassete anos sonhava deixar a ilha e conhecer o mundo. Não que ela não tivesse orgulho da sua ilha… Pelo contrário, ela orgulhava-se muito de morar na base da montanha mais alta do seu país,  Portugal… Mas de que lhe valia isso se não podia dizê-lo ao resto do mundo…
– Ana, vai buscar algumas favas secas para moer e fazer café… Olha que o teu pai está a chegar…– disse a mãe atarefada a preparar as papas para o almoço.
– Sabes mãe, eu aprendi na escola que no Brasil o café é feito com grãos de café. Mas aqui no Pico fazemos café com favas. Então, eu acho que não deviamos chamar café ao nosso café. Não acha mãezinha?– disse  Maria na sua doçura dos 10 anos e orgulhosa por estar na terceira classe. Mais um ano e terá tantos estudos como as suas irmãs. Assim pode acontecer que  deixem  de implicar com ela só pelo facto de ser a mais nova.
Já todos reunidos na sala de estar, para tomar o almoço, a conversa torna-se animada.
- Acham que vou viver o suficiente para assistir à passagem de milénio? – perguntou Ana.
- Claro que sim – respondeu Glória a mais velha das irmãs – já só faltam cinquenta anos.
- Não falem de tolices. Parece que não sabem que o ano 2000 significa o fim do mundo. Pensem mas é em ser umas boas meninas para não terem muitas contas a acertar no dia do Juízo Final. – Exaltou-se Luzia que era uma cristã convicta. Os seus olhos azuis quase transparentes estavam agora opacos, o que significava que não valia a pena continuar aquela conversa.
- Estava cheia de fome — disse Ana na tentativa de aliviar os ânimos — o padre Inácio devia ter em conta que o seu rebanho vai em jejum à sua missa e  ser um pouco mais rápido a chegar ao fim.
- Eu cá acho que é tolice nossa não tomar o almoço antes da missa. O padre não sabia se tinhamos comido ou não e nós podiamos comungar na mesma. — conclui Maria.
- Acabemos com a conversa. Vocês três arrumem a mesa que eu e vosso pai vamos visitar a tia Angelina…
As três irmãs gostavam imenso do domingo. Havia pouco que fazer. Apenas a lida da casa, que durava um instante se as três se organizassem.
Maria gostava de brincar com a sua boneca de trapos, que os queridos tios lhe tinham mandado da América. Gostava muito desses tios americanos apesar de não os conhecer, mas como eles mandavam roupas muito bonitas  só podiam ser boa gente. As pessoas más vestem-se mal, pois se não têm gosto pelos bons sentimentos, também não podem ter bom gosto no que diz respeito a modas. Maria, pelo contrário, ocupava o seu tempo livre cuidando da sua boneca e da sua roupa. Conhecia a moda, e como já sabia costurar ia adequando as roupas antigas, ora pondo uma fita aqui, ora pondo uns acessórios bonitos ali… Assim seria linda por dentro e por fora. O seu cabelo dourado caía-lhe em cachos sobre os ombros. Usava-o frequentemente solto, ou então apanhado com uma fita, normalmente da mesma cor da saia. A sua boca muito pequenina condizia com o seu narizinho bicudinho. Maria sofria com o desgosto de ter umas poucas sardas que segundo ela “ eram mais que as estrelas do céu “. Também tinha pena de não ter os olhos azuis da mãe. Dizia muitas vezes “herdei o pior dos dois: as sardas da mãe e os olhos castanhos vulgares do pai”.
O seu grande orgulho era o facto de poder frequentar a escola. Só tinha pena de não poder estudar para além da quarta classe. De certeza que os seus pais não a deixariam ir para o Faial continuar os estudos...  e ela que gostava tanto de ser professora… Sabia bem a vida que a esperava… Via-a todos os dias no quotidiano das irmãs. Às vezes ajudam na lida da casa, outras acordam ainda antes do amanhecer para ir para o mato mudar os animais ou ajudar na agricultura… Era tudo o que ela não queria para si. Assim só poderia vestir roupas bonitas para ir à missa ou a alguma festa. Não imaginava que um dia teria de trocar os seus lindos sapatinhos de camurça por um par de albarcas feias e desconfortáveis.
Glória aproveitava o seu domingo lendo lindos romances e suspirando em voz alta. Às vezes lia e relia à pressa bilhetinhos misteriosos, que logo escondia debaixo do colchão. Neste domingo, e como acontecia sempre que os pais saíam, resolveu dar um passeio. Todas as vezes que saía nestes passeios misteriosos levava um sorriso palerma nos lábios rosados e carnudos. Não disfarsava o seu ar ansioso. Os  seus grandes olhos castanhos adoptavam um brilho culpado, que harmonizavam com o brilho apaixonado do seu cabelo negro.
Glória estava a viver, pela primeira vez, um amor furtivo próprio dos seus dezanove anos. O eleito do seu coração era João, o filho do barbeiro. Não era um rapaz bonito, mas enchia a sua alma de um sentimento que até então lhe era desconhecido. Cabelo e olhos negros, de pele muito branca, estatura média e pouco entroncado estava longe de ser um príncipe. No entanto, Glória trocaria bem um belo príncipe por esta figura caricata. Estes são os mais belos mistérios do amor…    
Glória era uma pessoa feliz por natureza. Pedia pouco à vida e contentava-se com o que esta lhe dava. Era a única das três irmãs que herdara a imensa fé religiosa de sua mãe. Agradecia a Deus, todos os dias, por ter tido o privilégio de frequentar a escola, por ter sempre uma mesa farta na sua casa e pela família maravilhosa que lhe tinha dado. Sabia bem que naquela pequena freguesia chamada S. João, situada numa insignificante ilha dos Açores dada pelo nome de Pico, estas bençãos eram raras. E para completar toda esta felicidade, Deus ainda lhe concedia a sorte de saber o que é o amor… A sorte de saber o que é amar e ser-se amado…
    A sua única falha e que lhe perturbava muito o espírito, era o facto de ainda não ter contado à sua família que estava apaixonada. Tinha medo que os pais não aceitassem João, pelo facto de ele ser de famílias muito humildes. Pelo contrário, a sua família tinha muitas terras, tinham uma boa casa, tinham um bom nome na freguesia. Os seus pais tinham feito questão de lhe dar o máximo de estudos que a ilha permitia, não quereriam concerteza que ela se casasse com um rapaz que tinha apenas o primeiro exame. O pai de João tornou-se barbeiro, porque foi a única herança que o seu pai lhe deixara, e era a única coisa que tinha para deixar ao filho. Glória não tinha a certeza de que seus pais apoiariam a ideia de um casamento entre a filha mais velha e o filho do barbeiro.
Ana já sabia deste romance, descobriu por acaso um dos muitos bilhetes que Glória tinha guardado. Contudo, nunca lhe dissera que tinha descoberto o seu segredo. Não queria pressionar a irmã a contar-lhe. Quando ela quisesse fazê-lo havia de procurá-la.
Ana era uma rapariga muito discreta. Herdara o feitio reservado do pai. No entanto, a sua imaginação era muito activa, nunca parava. Sonhava sair da ilha e conhecer o mundo. Aprendera na escola que no continente a terra nunca acabava. Que se podia andar, andar sem nunca chegar ao mar. Quanto mais andasse, mais sitios diferentes conheceria. Era tão diferente da vida numa ilha. Ali estava limitada pelo mar. Já tinha atravessado o mar uma vez, quando foi à ilha do Faial comprar uns sapatos de camurça. Estava muito entusiasmada por sair daquela ilha. Passou lá cinco dias. Ficou encantada com a imagem da sua ilha ao longe. Era realmente uma montanha imponente, capaz de despertar sentimentos estranhos como o de medo e ao mesmo tempo de orgulho. A sua ilha vista daquele cais parecia um triângulo, cuja base se alongava sobre o mar. Era óbvio que a sua ilha tinha uma relação muito próxima com o mar. Só não conseguia adivinhar de que tipo de relação se tratava. Talvez houvesse um sentimento de paixão entre eles, como acontecia com a sua irmã Glória. Ou talvez fosse apenas uma relação de vaidade, usavam-se um ao outro. Nunca tinha visto a sua ilha com aquela beleza selvagem que agora conseguia admirar, porque também nunca a tinha visto assim toda abraçada pelo mar. Também nunca tinha achado o mar tão bonito como naquele fim de tarde, talvez porque nunca o tinha visto receber em seus braços a sua magestosa ilha, numa ternura tão pura que amolece os mais cruéis corações.
O Faial era uma ilha muito diferente da sua. Havia mais casas, e estas estavam numa disposição mais unida. Também havia mais carros e as estradas estavam adequadas a estes. Em S. João só havia três carros e não eram tão bonitos. Havia muito comércio, e depressa Ana percebeu que as pessoas não eram mais ricas por terem muitas terras. Havia meios de sobrevivência alternativos, como o comércio. Nos primeiros dias Ana gostou muito de lá estar. Mas depressa chegou à conclusão de que era uma ilha e até mais pequena do que a sua, apesar de estar mais desenvolvida. Quando acabasse de explorar tudo não restava mais nada. Não podia continuar a andar…
Fisicamente Ana era atraente. Os olhos verdes opacos contrastavam com o cabelo negro e liso. Era a mais alta das irmãs, mas a que dava menos nas vistas, uma vez que não ligava a modas, nem tinha jeito para isso. Quando Maria escolhia a sua roupa e lhe penteava os cabelos ficava “uma riqueza” como dizia a pequenota da família. Segundo Maria, Ana não devia apanhar tanto sol, pois já não era muito branca e assim ficaria ainda mais escura.
Eram duas da tarde, e Glória não havia maneira de aparecer. Os pais já tinham chegado à meia hora e estavam chateados com a situação. Ana então resolveu mentir…
- A Glória foi dar um passeio com a Fátima. Já não estavam juntas desde a última vez que ela cá veio à freguesia… já lá vai uma “macheia” de tempo.
- Oh filha, pois talvez tens razão... Mas para não me arreliarem podiam ter dito onde iam. – disse a mãe já com um ar meio zangado.
- Eu vou procurá-las. Encontro-as num instante… – ofereceu-se Maria.
- É melhor ir eu – interrompeu Ana muito depressa. Não era bom que Maria descobrisse o namoro da irmã.
- Vai a Maria, e tu ajudas-me a pôr a mesa– resolveu Luzia.
Maria saíu inchada de importância pelo facto da mãe lhe ter confiado a tarefa a ela. Não ia falhar… Se fosse preciso corria S. João de uma ponta a outra, mas não voltava para casa de mãos vazias…
- Boas tardes Zulmira! Não viu por aí a Glória? Aquela desnaturada saíu de casa depois do almoço e ainda não voltou…– perguntou Maria que já estava no fim da rua de sua casa.
- Vi-a já há muito tempo para lá da sociedade filarmónica.
Maria continuou a sua busca. Ia até à filarmónica e estava muito contente por isso. Tinha muito orgulho naquela sociedade pois tinha sido fundada pelo seu avô em 1907. Mesmo à porta estava o senhor Tarimba que lhe disse que tinha visto Glória a subir a rua do cabeço. Agora Maria estava a ficar preocupada… O que é que havia para aqueles lados que pudesse interessar num passeio? Só esperava que não estivessem no moinho abandonado. Este moinho estava em boas condições, no entanto ninguém se atrevia a usá-lo, apesar de ninguém reclamá-lo como sua propriedade. Dizia-se que estava assombrado. Há muitos anos atrás, parece que um homem se enforcou lá sem nenhuma explicação, e depois de estar já morto apareceu à sua mulher a dizer que o demónio lhe aparecera e lhe dissera que aquele moinho era propriedade sua. Aconselhou a mulher a nunca mais ir ao moinho e que não o deixasse como herança aos filhos. A mulher assim o fez. Duas gerações depois, um homem muito pobre resolveu tomar o moinho e dar-lhe alguma utilidade. Dizem que o homem desapareceu logo na primeira vez que pôs o moinho a funcionar para fazer farinha. Algumas vezes o moinho funciona durante a noite. Diz-se que é esse homem que lá desapareceu e que agora é escravo do diabo. Nessas noites o vento sopra com mais força para que a farinha se faça mais rápido. Com essa farinha faz-se o pão que o diabo amassa e que os desgraçados comem.
- Glória! Glória!… – gritava Maria já no cimo da canada, quando viu numa vinha um casal de namorados. Era lindo ver-se dois apaixonados. Aproximou-se para ver quem eram, quando de repente e para grande espanto seu, encara Glória em longas promessas de amor eterno com o filho do barbeiro. Ficou ali especada até que a irmã a viu e correu ao seu encontro.
- Oh Maria! Como é que me descobriste aqui? Não vais dizer nada aos paizinhos,  pois não? Este será o nosso segredo… – implorou Glória…
- Eu não acho certo que este namoro seja às escondidas. Porque é que o João não pediu ao pai para te poder visitar e quem sabe casar? Então João? Eu sou nova, não sou burra… Não vês que se ele te esconde é porque não quer nada sério contigo. Aposto que quando sair daqui,  vai para a “Voz do Campo” gabar-se aos amigos…–exaltou-se Maria.
- Estás enganada Maria… Eu é que não quero contar aos pais. Pelo menos por enquanto… Tenho medo da forma como podem reagir, compreendes Maria? –desabafou Glória.
- A Maria tem razão. Amanhã à noite vou a tua casa falar com o teu pai. Há-de ser o que Deus quiser – resolveu João cheio de embaraço pela situação.
- Até que enfim alguma dignidade. Eu vou apoiar-vos. Se o pai se opuser ao vosso namoro eu hei-de convencê-lo a aceitar. Hoje vou continuar a mentira da Ana e dizer que te encontrei com a Fátima – disse Maria, e voltando-se para João– e se tu não apareceres amanhã à noite conto tudo aos meus pais.
As duas irmãs voltaram para casa em silêncio. Cada uma tinha o pensamento ocupado de forma diferente, no entanto o assunto era o mesmo. Glória estava ansiosa… Como é que reagiriam os pais? Estava disposta a lutar pelo seu amor, mesmo contra a vontade da família. Ela é que tinha de decidir com quem quer passar o resto da sua vida. Se não fôr com João será infeliz e os pais não querem concerteza essa responsabilidade, por isso só podem aceitar. Havia também outra questão que lhe rondava a mente. O que é que passou pela cabeça de Ana para ter inventado um passeio com Fátima? Será que ela já sabia? Será que estava a tentar encobrir o seu romance?
Maria estava satisfeita com a situação. Nunca imaginou que a sua irmã mais velha se pudesse apaixonar. Sempre pensou que ela tinha vocação para freira… Quem diria… Depois do noivado de Glória, só faltava encaminhar Ana e depois seria a sua vez de arranjar um pretendente. Não seria concerteza o filho do barbeiro que para além de feio era pobre… O que terá visto Glória naquele rapaz? Talvez fosse simpático e respeitador… Mas isso não interessava agora… O que interessa é que daqui a nada ela poderá ter também um namorado… Isto sim é uma boa notícia…
Finalmente chegaram a casa.
- Esta doida estava a mexericar com a Fátima. E o mexerico devia ser bom, porque quando lá cheguei nenhuma delas tinha dado conta de que já era tão tarde. – disse Maria lançando um olhar cúmplice às irmãs e recebendo destas um sorriso.
Ana tinha percebido tudo. Era muito perspicaz…
Depois da refeição as quatro mulheres arrumaram a cozinha e foram descansar. Luzia pôs-se a cozer umas meias aproveitando assim a luz do dia. O seu marido resolveu dormir uma sesta e as meninas foram para o quarto. A conversa girou à volta do que tinha acontecido.
- Diz-me uma coisa Ana… Já sabias dos meus encontros?
- Na verdade já. Só não te disse porque não te quis embaraçar. Sempre achei que se precisasses de falar com alguém, tu é que devias decidir com quem e  não me quis impor como tua confidente…
- Oh Ana! Não páras de me supreender. O João comprometeu-se a pedir a minha mão amanhã à noite… Estou tão nervosa, mas ao mesmo tempo aliviada. Esta mentira estava a pesar-me muito no coração. Como achas que os pais vão reagir?
- É graças a mim que o teu amado deixou de ser covarde.– disse Maria cheia de importância o que provocou um mar de risos nas irmãs, desanuviando o ambiente…
O sol esperado estava a nascer e Glória olhava-o cheia de esperança naquele novo dia. Hoje fora a primeira a acordar. Estava energética. Ali sentada numa pedra no meio do mato, com o pai e a irmã do meio, apreciava cada momento. Não conseguia concentrar a sua atenção nos animais. Hoje nem tinha bebido uma caneca de leite ainda quente acabado de tirar da vaca. Ordenhava aqueles animais enormes sem sequer olhá-los. Ana mirava a irmã e pedia aos céus que tudo corresse bem. Hoje só passavam a manhã no mato. Quando acabaram de tirar o leite a todas as vacas foram para casa, ficando o pai sozinho, que só chegava a casa ao anoitecer.
Glória parecia uma barata tonta. Não parava quieta. Arrumava tudo e zangava-se com quem tirasse alguma coisa do lugar. A mãe desconfiou de toda aquela agitação.
- Que se passa pequena? O que é que te atormenta? Podes contar à tua velha mãe… Pára quieta um instante que me pões tonta…
Glória olhou os olhos da mãe num grito de silêncio e pediu ajuda. Deixou-se cair naquele colo quente e experiente e libertou os seus sentimentos. Finalmente chorou. Luzia limitou-se a acariciar-lhe os cabelos e esperou que a filha se abrisse com ela. Glória sentia uma enorme paz e soube que podia confiar na sua velha mãe.
- Sabe mãe, eu tenho-me portado muito mal ultimamente. As minhas acções foram pouco dignas, mas os meus sentimentos muito nobres. Eu amo um rapaz e tenho a certeza de que sou correspondida. Como é que eu sei isso? Sei, porque ele me disse, porque eu tenho-me encontrado com ele sempre que posso. Ele é pobre e quase analfabeto, sei que a mãe e o pai queriam mais para mim, mas eu acho que se me casar com este rapaz vou ter o que de mais precioso há, vou ter o amor e a felicidade…
- Já há algum tempo que desconfiava… Tu andavas com um ar suspeito, suspiravas demais e sonhavas acordada… Uma mãe sente essas coisas. Quem é esse rapaz?
- É o João, filho do barbeiro…
- Acho-o pouco digno de ti, não por ser pobre e quase analfabeto, mas por andar a esconder-te de todos,  por não ter falado logo com o teu pai como um rapaz às direitas…
- Oh mãe!… Está a ser injusta… Eu é que não quis que ele viesse cá a casa porque tinha medo que os pais não me deixassem casar com ele. Ontem quando a Maria me foi procurar eu estava na sua companhia. E ele prometeu à Maria que hoje vinha falar com o pai… Estou com tanto medo…
- Então estou muito desiludida contigo! Mas que raio de juízo fazes de mim e de teu pai? Nunca julgamos ninguém por ser pouco abastado. Se fosse um bebado ou coisa assim… Mas o rapaz até é trabalhador e honesto, pelo menos é o que parece, e eu e teu pai ficamos contentes. Só queremos que tu e as tuas irmãs sejam felizes. Não vos demos estudos para arranjarem um bom partido, mas porque queremos o melhor para as nossas meninas…
Glória abraçou a mãe num misto de remorsos e de agradecimento. Como ela tinha sido ingrata ao fazer semelhante juízo dos seus pais. Tinha de rezar muito para agradecer a Deus e também para obter perdão pelos seus pecados.
José chegou a casa mais cedo nesse dia. O trabalho tinha rendido e ele estava satisfeito. Ainda não tinha tirado a roupa suja quando Luzia o chamou para uma conversa, que pelo ar parecia séria.
- Hoje vamos ter uma visita muito especial depois do jantar.
- Quem é? Porque é que estás com esse ar de caso?
- Vamos receber um pretendente de Glória…
- Mas que pretendente? Ela ainda é muito nova para essas andanças… Era
só o que me faltava…
- Trata-se do filho do barbeiro…
- Então sempre é a sério… A nossa filha cresceu…
- Ela gosta muito deste rapaz e diz que quer aceitar a sua proposta. Tem medo que não o aceites por ser de origens humildes e por quase não saber ler nem escrever…  
- Eu realmente queria melhor para ela, mas se ela gosta dele não há nada a fazer. Ele que venha e que se mostre digno do nosso tesouro.
Luzia admirava o marido exactamente por isto. Era um homem de bons sentimentos, o melhor pai que poderia ter dado às sua filhas. Não casara com ele por amor, mas por imposição de seu pai. No entanto, era impossível não aprender a amar um homem daqueles. É mais importante o amor que nasce do respeito, do que o amor que nasce da paixão. Luzia tinha muito medo que alguma das suas filhas cedesse a este último. Era perigoso, traiçoeiro e pouco durador. Se o forçassem a durar muito transformava-se em ódio. Todavia os olhos de Glória tinham deixado transparecer um sentimento puro que não poderia ser só paixão. Agora só faltava olhar para os olhos de João e ver o que eles tinham para lhe dizer.
As três irmãs partilhavam o mesmo quarto, que nessa noite se enchia de agitação e de roupas espalhadas. Todas queriam estar lindas para a ocasião, mas não de uma forma excessiva, para não deixarem João embaraçado, pois concerteza traria uma roupa gasta, não deixando de ser a sua melhor roupa.
Alguém bateu palmas lá fora… Devia ser ele… Afinal não faltara à sua promessa. Era um homem de palavra e isso já era um bom sinal.
Maria foi a primeira a chegar à porta e abrindo-a encontrou João mais pálido do que costume…
- Entra homem… O meu pai já está à tua espera na sala…–disse Maria toda entusiasmada.
João entrou muito tímido e esperou que o mandassem sentar.
- Então o que te traz por cá, meu rapaz? –perguntou José com um ar sério que deixou o apaixonado gago.
- Eu vinha…quer dizer eu vim mesmo…eu prometi e vim…não sei bem por onde começar… nunca fiz isto antes, e ainda bem porque assim posso fazê-lo agora, apesar de que se já tivesse feito antes já saberia como fazer agora…quer dizer, não é bem fazer, mas dizer, sim porque eu não vim aqui fazer nada, mas sim pedir… Não, não fique com a ideia de que lhe quero pedir favores ou dinheiro, não é nada disso. É algo muito mais valioso do que dinheiro, é a sua filha… Eu sei que tem três, mas eu não as quero todas… não é que as outras sejam más raparigas ou feias, mas é que no meu coração só cabe uma…quer dizer eu gosto das três e concerteza terei um lugar especial no meu coração para as minhas futuras cunhadas, isto é se o senhor me permitir casar com aquela que eu amo…
E depois deste longo discurso calou-se a aguardar a resposta. José teve que fazer um esfoço para não se rir. Era de certeza um bom rapaz. Era tímido e reservado, que segundo José eram características essênciais para formar família, pois eram sinónimo de estabilidade. Finalmente José disse com um certo tom de divertimento:
- Eu ainda não consegui perceber com qual das minhas filhas pertendes casar!
- Oh! Perdoe-me senhor se não me fiz entender, mas a eleita do meu coração é Glória. –respondeu João com tanta firmeza e cheio de convicção que desmoronou qualquer dúvida que pairasse na sala em relação aos seus sentimentos por Glória.
Foi um momento muito emocionante em que Glória não pode evitar uma lágrima. Nunca sentira a felicidade tão perto. Mais um pouco e podia segurá-la com ambas as mãos.
- O que diz teu pai a isto? –perguntou José
- Dá-me todo o seu apoio. Ele acha Glória muito boa rapariga e muito digna. No entanto, preparou-me bem para esta noite, pois posso sair daqui sem aquilo que quero. Ele acha que a Glória é boa demais para mim e não vos censura se não me aceitarem para genro, pois provavelmente esperavam melhor do que o filho do barbeiro para a vossa filha.
- Alegra-me ver que a minha filha vai integrar uma família honesta e respeitadora. Não podia querer mais do que uma pessoa como tu para meu genro. Mostras ser um bom rapaz, trabalhador e principalmente mostras sentimentos muito nobres para com a minha filha. Em troca da mão dela só te peço uma coisa, que a faças feliz. Quem faz feliz as minhas filhas adoça a minha boca… Dá cá um abraço rapaz…
A felicidade pairava naquela sala de estar, iluminada por uma luz de petróleo, que não dava aquele cheiro desagradável da luz de azeite como acontecia na casa de João.
Os noivos chegaram à conclusão de que já podiam ter alcançado aquela felicidade há mais tempo, se não tivessem medo de enfrentar os problemas. É preciso ter mais fé nas pessoas, principalmente nas que nos amam…

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Capitulo XX

Capitulo XX

     Errar é humano, mas perdoar é divino… Estas palavras tomavam um sentido tão literal e físico na vida de Diana, que só o facto de uma leve sensação tardia ensombrava um pouco esta divindade. O acto de perdoar não reflecte apenas uma bênção para o perdoado, mas significa uma abertura de espírito a algo infinito, tornando todo qualquer bem-estar superior possível para aquele que tem a capacidade de perdoar. No entanto, perdão não é sinónimo de esquecimento, muito pelo contrário. O verdadeiro perdão é aquele que não implica o esquecimento das acções negativas que lhe deram origem. Esquecer é sinónimo de desaprender. E desaprender é sinónimo de que as cautelas que o nosso ser ganhou com o sofrimento provocado por actos impróprios são desmoronadas e voltamos e estar susceptíveis a permitir actos iguais. Por isso é que o perdão deve ser praticado por personalidades fortes que tenham a capacidade de perdoar sem baixar as defesas, ou corre-se o risco de entrar num ciclo vicioso de perdões repetitivos que deixam de fazer sentido. Diana era detentora de uma personalidade forte que soube tirar o melhor proveito daquele perdão.
    A sua alma sentia uma leveza até então desconhecida que se mostrava descaradamente num ar descontraído que lhe havia apagado a ruga marcada na testa. Não havia pressões, nem metas a atingir. Não havia ansiedades, nem nada a provar… Era apenas a Diana, quase sem fantasmas… E era este quase que tomava uma dimensão demasiado grande, para um facto tão pequeno…
    - Bom dia cavalheiros! – Naquela manhã Diana sentiu necessidade de tomar o pequeno-almoço num lugar amado com as pessoas que realmente faziam parte da sua vida. Guida ficou encantada com aquela visita tão matinal.
- Bom dia menina… Bons olhos a vejam! – Guida cumprimentava-a preparando uma meia de leite com o desembaraço de uma vida de experiência.
    O café estava calmo e gozava-se de um descanso atípico para um dia que prometia ser quente e convidativo a um mergulho naquelas águas limpas e de movimentos suaves. Diana sentou-se na mesa onde estavam os pescadores sem pedir licença.
- Então o que é que a donzela vai fazer hoje? – José Gaitinha falava ao mesmo tempo que mastigava a torrada que pingava manteiga pelo canto da boca.
- Depois de te limpar a boca como se faz aos bebés… - Diana pegou num guardanapo e passou-lho pelos lábios secos e gretados, animando a manhã dos restantes velhotes – Vou ao cemitério…
- Ah! Vais à campa do Bernardo? Então vou contigo! – Mário ofereceu-se depois de inalar um longo trago de um cigarro murcho.
- Não vou à campa do Bernardo! – Esta afirmação provocou um olhar espantado dos pescadores e de Guida que esperavam uma continuidade daquela constatação. – Vou visitar o meu pai. – O silêncio que se seguiu não foi uma pausa de pesar, e muito menos de respeito… Foi apenas um momento em que ninguém conseguia formar um pensamento digno de ser verbalizado.
- Então ninguém comenta? Ficaram sem língua, estes linguarudos? – Diana esforçava-se por cortar os pensamentos comuns que se pudessem estar a formar-se naquelas mentes.
- O que vais lá fazer? – Foi Manuel que com o seu ar sério formalizou a questão silenciada por todos.
- Vou meditar sobre tudo o que se passou. Vou ver se existem motivações suficientes que justifiquem tudo o que ele me fez passar!
- Acho que fazes bem! – Gaitinha, com o seu coração mole, colocou as emoções no meio dos seus lábios. – Ele tinha os seus defeitos… Mas ele também teve uma vida muito difícil Diana… Nunca teve ninguém que o ensinasse a ser bom… Nunca teve o exemplo de uma boa família…
    Diana sentiu um aperto no peito. Ainda havia um assunto que a prendia naquele passado terrível…
- É verdade Diana! – Mário continuou aquele discurso de luto que só agora estava a ser feito. – O teu pai sofreu as passas do Algarve naquela família que Deus lhe deu. Eu ainda me lembro de ele andar a roubar fruta no mercado para matar a fome… Era uma criança demasiado enfezada para a sua idade e sempre imundo…
- Foi um pobre coitado que não teve a mesma capacidade que tu Diana! – A voz grossa de Manuel deu um tom de realidade às palavras anteriores… - Ele teve uma infância terrível… Passava dias sem ir a casa com medo do que lhe podia acontecer… Não era aceite em casa nem fora dela… Nunca lhe conheci um amigo verdadeiro, só os amigos dos copos…
    Gaitinha interrompeu Manuel.
- Quando ele conheceu a Ermelinda ele mudou. Oh Diana! Parecia um novo homem… Lembro-me de vê-lo todo asseado nos bailaricos na esperança de conseguir dançar com ela… Até começou a trabalhar nas terras dos Fonseca, lembras-te Mário?
- É verdade! Eu trabalhei com ele nessa altura… Lembro-me que ele tinha a força de um touro. E era um homem digno que procurava uma oportunidade. Estava muito apaixonado pela tua mãe, e quando percebeu que era correspondido, ganhou uma nova motivação para a vida… Mas apesar de terem casado e do Zé nos primeiros meses de casamento manter a mesma atitude, a verdade é que ele voltou a refugiar-se no álcool e nunca mais vi aquele homem com quem trabalhei…
    Foi Manuel que iluminou melhor aquela questão que ainda se mostrava confusa.
- Eu acho que ele procurou uma oportunidade… Mas aquela gente dos Pereira do talho, ou seja, a família da tua mãe era de más rés… E por mais que o Zé se esforçasse eles faziam sempre questão de o humilhar e mostrar de onde é que ele vinha… E verdade seja dita que o Zé era de cabeça fraca, e o facto de não ter sido aceite por eles levou-o para uma fossa tão funda que ele nunca mais se juntou… O teu avô chegou mesmo ao cúmulo de pagar aos Fonseca para não lhe darem mais trabalho… E depois disto o Zé tomou uma grande bebedeira. O Pereira velho, aproveitou-se disso para espalhar pela ilha que o Zé tinha sido despedido porque tinha voltado aos copos, nunca mais ninguém lhe pegou para trabalhar… O Zé foi-se afundando cada vez mais na bebida e o boato tornou-se verdade…
    Diana absorveu aquela curta história e sem saber bem quais os efeitos que aquele novo conhecimento lhe provocava seguiu caminho ao cemitério.
    Diana sempre achou absurdo que aqueles terrenos estivessem ocupados pela morte. Parecia que os mortos zombavam dos vivos, naquele sitio privilegiado onde estavam sete palmos abaixo de poderem usufruir da vista fantástica que poucos lugares ofereciam. Só agora ali em frente à sepultura do pai é que ela podia apreciar o conforto que aquela beleza da natureza proporcionava a quem chorava a angústia da perda. E ela chorava a angústia da perda do pai. Chorava o facto de não ter tido tempo para resolver as coisas em vida. Chorou a certeza de não saber que sentimentos despertava no progenitor. Pedro sempre lhe dissera que o pai a afastava porque via nela a imagem e a força da falecida esposa, e não suportava ser confrontado com isso todos os dias.
- Oh pai! – Diana verbalizava as palavras em voz alta, na esperança que elas se elevassem até onde a percepção dos mortos a atingisse. – Eu sou uma mulher adulta e bem-sucedida, e tu um pobre espectro... A vida foi mais generosa comigo do que foi contigo... E começo a questionar-me se não foi porque tu, apesar de tudo, não foste melhor pai para mim do que o teu pai foi para ti... Talvez tu te tenhas esforçado e tenhas conseguido dar-me uma vida um pouco melhor do que aquela que tu tiveste... Mas o ser humano é assim... Chora só as dores que conhece. Eu chorei as minhas, e tu choraste as tuas... E nunca questionamos porquê... Tu tiveste melhores filhos que os teus pais e eu só posso pensar que foi porque, apesar de não teres tido nenhuma orientação para a família, conseguiste distinguir-te um pouco dos teus progenitores... E deste a oportunidade aos teus filhos que se distingam um pouco mais de ti... E os meus filhos e do Pedro terão a oportunidade de se distinguirem um pouco mais de nós... E isto porque fomos sempre melhorando... – Diana deixava cair lágrimas gordas, mas não soluçava. – Tenho tanta pena que a maturidade necessária para este entendimento só me tenha chegado agora. Mas eu tenho esperança que possas sentir o que me vai na alma. Tenho esperança que sintas que eu te estou a pedir desculpa por te ter dito que te odiava... E quero que sintas que te perdoo de coração todas as tuas atitudes que me magoaram... Eu não tenho vergonha das minhas raízes... E eu já não tenho vergonha de ti, porque és o meu pai... E eu recebi o meu testemunho de ti...
    Diana ajoelhou-se e depositou as rosas sobre o tampo de mármore negro... E rezou... Rezou como já há muito tempo não o fazia. E sentiu uma paz quando voltou a fixar o mar alongado a seus pés contornando dois ilhéus ao longe a acabando na encosta da ilha vizinha. Era por esta calma de espírito que ela ansiava. Todo o seu ser estava agora despido de pré-ideais ou de provas impostas a si mesma. Ela era neste momento um tronco em bruto, e podia esculpir o destino que quisesse.
    O seu rosto iluminou-se, quando em resposta a uma mão suave pousada no seu ombro voltou-se e descobriu que estava preparada para aquele futuro, sem outras restrições ou falsas prioridades... Para se seguir um novo caminho temos de fazer de volta o antigo caminho.
- Olá Diana! – O olhar ansioso que acompanhou aquele cumprimento desmoronou a última pedra de uma muralha construída pelas razões erradas e Diana preparou-se para o que o destino lhe reservava.
- Olá Duarte! – O cumprimento de Diana foi mais frio do que Duarte esperava... Ele tinha sonhado várias recepções, e em todas elas acabava com Diana a abraçá-lo efusivamente.
- O Bernardo escreveu-me uma carta antes de morrer. Só ontem é que a recebi. Ele deixou-a ao seu advogado e pediu-lhe estritamente que só me entregasse após a sua morte e numa altura oportuna para ti.
    Diana olhou-o confusa. A imagem de Bernardo ainda estava fresca na sua memória e cada alusão a ele despertava-lhe uma dor no peito. Duarte estendeu-lhe a carta num entendimento calado de que ela a deveria ler.

“Caro Duarte,

Vou passar a parte das saudações, pois no lugar onde me encontrarei quando leres esta carta, estou convencido, não existem estes tipos de formalidades.
Como já deves ter adivinhado escrevo-te, tendo como assunto principal a mulher que ambos amamos. Ela é um diamante em bruto capaz de despertar maravilhas em quem se cruza no seu caminho. Mas só os olhos mais atentos e as personalidades mais puras terão a inteligência de saber apreciá-la. E eu aprecio. Aprecio-a muito. Tanto que decidi organizar a minha vida de forma a que possa apreciá-la até ao fim dos meus dias, que adivinho ser em breve. Mas como qualquer preciosidade, ela está destinada a alguém. E esse alguém és tu.
Vou contar-te de forma resumida a mulher que reserva todo o seu amor e lealdade apenas a ti. Eu conheci a Diana num acidente em que eu lhe parti uma perna. E apesar de lhe ter provocado um mal, agradeço a Deus, todos os dias, ter-me proporcionado esse acidente. Diana deu-me a conhecer uma mulher forte e com tanta dignidade que pensei impossível num só ser humano. Ela contagiava tudo com o seu espírito de iniciativa, e sem exigir nada conseguia que todos à sua volta partilhassem dos seus projectos. É uma pessoa que não gosta de se impor, e é esta característica que faz com que ela receba tanto das pessoas que lhe dão uma oportunidade. Não existe ninguém que se tenha aberto à Diana que tenha ficado desiludido. Sempre admirei o facto de ela ter a capacidade de apaixonar as pessoas que lhe abrem o coração. Nas vidas corriqueiras temos imensa gente... Tanta, que temos a obrigação de as distinguir entre os melhores amigos, os amigos do coração, os simplesmente amigos, os colegas, os vizinhos, os conhecidos, etc. Diana tem poucas pessoas na sua vida e nunca soube fazer esta distinção. Tem os amigos que a amavam e que são amados por ela... E todos os restantes seres, são apenas os outros... Uma vez ao confrontá-la com esta situação ela respondeu-me humildemente “ a marginalidade é como um coador, as pessoas passam por nós e esforçam-se por não ficar... Só fica quem quer... E esses que querem merecem tudo de mim...”. Esta era outra virtude dela. Não deixando de ser verdade, e como qualquer verdade que se preze, existe mais verdade para além desta. Existem muitos marginais que não despertam esta paixão naqueles que lhes abrem os braços... E mesmo que despertem, a maioria não sabe alimentá-la.
Agora vou contar-te um pequeno segredo meu, que vai fazer sentires-te ridículo face a algumas conjecturas que criaste relativamente à Diana. Eu sou impotente... A Diana nunca me conheceu como um homem viril. Logo quando fizeste juízos de valor naquele beijo que viste, fizeste mal. Ela estava apenas a defender-me de quem me humilhava. E tu viraste costas a uma mulher fascinante e leal, sem sequer lhe dares oportunidade de se explicar... Tenho agora de confessar que esta foi a única vez que revelei a minha impotência que me deu um certo prazer.
E quando a Diana foi até à sua terra natal, numa altura em que evitava os seus fantasmas do passado, na esperança de te encontrar, eis que tu estavas noivo...
Se queres a minha opinião sincera, eu acho que tu não és suficientemente bom para a Diana... Mas depois de uma reflexão mais profunda chego à conclusão que não existe neste mundo ninguém suficientemente digno dela. Por isso o critério da felicidade é o único a ter em conta... E eu sei que ela só encontrará uma felicidade terna e pacifica contigo... Porque ela ama-te.
Questiono-me se tens noção do privilégio que está só ao teu alcance e vedado a todos os demais mortais.
Esta carta toda tem apenas um objectivo: dar-te um concelho. Faz as malas e aceita o prémio que a vida te oferece...

Um abraço,
Bernardo”

    Diana sentiu o peso da saudade, e o carinho da gratidão. Até na morte, Bernardo velava por ela. Os seus olhos fixaram os de Duarte e o seu corpo reagiu a esse contacto com um arrepio. Ela desejava-o tanto. Queria abraçá-lo e fazer-lhe promessas eternas…
- Agora é tarde! – Diana agora percebia como um pequeno momento de insegurança pode destruir uma felicidade que se perpetuaria pela eternidade. Se ela não tivesse hesitado no momento em que Duarte desapareceu da sua vida, teria justificado logo aquele beijo e provavelmente estariam juntos… - Tu és um homem casado…
    Duarte reagiu ao impulso que lhe palpitava nas veias de tocar em Diana e pegou-lhe na mão como fizera vezes sem conta. Conduziu-a para longe da campa do pai em silêncio. Era engraçado como o ser humano se auto destrói na sua complexidade de sentimentos mesquinhos. Todo o seu corpo reage a um simples encostar de pele, de uma forma muito mais sábia do que a sua mente que se deu ao luxo de elaborar longos processos de raciocínios destinados a justificar a distância necessária que devia manter daquela mulher. A sua alma elevava-se e tornava-se grandiosa face à possibilidade de ser merecedor do amor de Diana e os seus pêlos eriçavam-se com o seu perfume agreste que as suas narinas captavam sofregamente… Como se pode recusar tais evidências? Como podemos criticar o nosso destino se a nossa mente influenciada por uma sociedade maldosa e pouco digna se conspurca em desconfianças vãs? Pararam em frente ao jazigo de Bernardo, e Duarte colocou-se em frente de Diana obrigando-a a encará-lo. Aquele é o momento em que a expressão dos olhos tem de acompanhar a verdade das palavras.
- Eu amo-te Diana! Muito! – A proximidade dos rostos provocava um calor agradável nas faces de Diana. Esta abriu a boca no intuito de proferir um qualquer pensamento ou sentimento, mas Duarte pousou o dedo indicador sobre os lábios rosados com o intuito de silencia-la. Aproximou-se mais, juntando ambos os corpos num contacto promissor. – Deves saber que eu sou um homem disponível… Depois daquela noite que passámos juntos era impossível juntar o meu destino a outra pessoa… Eu saí naquela manhã, porque me pesava a consciência na mesma medida que o meu peito palpitava felicidade… Saí para poder voltar para ti completamente disponível… Mas tu já não estavas lá. – Diana tentou justificar-se e uma vez mais Duarte silenciou-a passando vagarosamente o dedo pelos lábios macios. – Fiquei sem saber o que fazer… Andei de um lado para o outro, ponderei demasiado o meu próximo passo e decidi, procurar-te. Conhecia-te o suficiente para adivinhar que estarias nas piscinas da Poça da Rainha… E não me enganei… - Duarte sorriu ao perceber o quão ridículo tinha sido o seu ciúme. – Mas tu estavas lá com o Bernardo…
    Os dois interiorizaram aquelas palavras durante uns momentos em que nunca desviaram os olhares. Diana então soube o que fazer a seguir. Todo o seu corpo cedeu ao instinto de seguir o rumo certo que a conduziria a um futuro verdadeiramente desejado, sem pressões ou intuitos obscuros. Afastou-se um pequeno passo de Duarte, provocando uma certa confusão neste, e ajoelhou-se.
- Duarte! Aceitas-me como tua mulher para o resto da tua vida?
    Duarte levantou-a como se ela não pesasse mais que uma pena e sem que ela conseguisse pousar os pés no chão Duarte rodopiou-a enquanto gritava efusivamente.
- Eu não só te aceito, como quero-te por toda a eternidade.
- Mas eu tenho uma condição. – Duarte ficou apreensivo e um pouco desconcertado, pousando Diana no chão e preparando-se para aceitar qualquer condição que lhe permitisse aceder a um futuro com aquela menina mulher de lábios carnudos, com uns caracóis cheios de vontades, reflectindo bem a personalidade que quem os possui. – Nunca mais tiramos conclusões precipitadas… Já percebemos que nenhum de nós é bom nisso…
    No meio daquele cenário mórbido ambos riram alto, coloriram o cinzento do cenário e agitaram aquela paisagem pacífica. Quando os dedos se entrelaçaram, os peitos se juntaram e os hálitos se confundiram, o beijo naturalizou-se numa paixão avassaladora que desaguaria num amor sereno.


                                                                                Fim

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Capitulo XIX

Capitulo XIX

    O dia a seguir a um casamento é sempre difícil de se iniciar, mas Diana era a excepção a esta regra. Levantou-se cedo e seguiu directamente para o hotel. Queria certificar-se pessoalmente que os recém-casados teriam um pequeno-almoço digno do Olimpo, antes de embarcarem na tão merecida lua-de-mel com destino às Ilhas Gregas. Diana entrou no hotel com a pressa de uma profissional dedicada e dirigiu-se directamente para a cozinha onde não resistiu aos croissants de manteiga que a sua nova cozinheira preparava com a mestria dos dinossauros da cozinha. Tratava-se de uma menina de dezanove anos proveniente de uma família degradada com seis irmãos alcoólicos e desempregados de profissão que um dia debaixo de uma chuva torrencial bateu à porta do seu gabinete no hotel e pediu ajuda. Ela escapou a todos os olhares e conseguiu esquivar-se até àquele gabinete de difícil acesso… E fê-lo sozinha… Só por este feito, Diana não conseguiu recusar a entrada da rapariga enfezada, com o maxilar inferior demasiado grande para umas feições tão singelas. A rapariga contou-lhe resumidamente que se encontrava no limiar da pobreza. Não tinha qualquer previsão de quando seria a sua próxima refeição e precisava urgentemente de trabalho. Não tinha mais do que o sexto ano, mas garantia ser muito trabalhadora… Só precisava de uma oportunidade… Estas eram as palavras mágicas que faziam despertar a compaixão de Diana. A partir daquele dia, a rapariga ficou instalada nos aposentos dos empregados do hotel. Diana percebeu desde cedo o jeito que ela tinha para a cozinha e deu-lhe a formação necessária… Foi uma excelente aposta que a deliciava todas as manhãs com aqueles pequenos croissants sempre quentes e fofos.
- Hum! O meu paladar agradece-te imensamente… - Diana formalizava sempre o mesmo elogio todas as manhãs ao qual a rapariga respondia com um sorriso de satisfação tímido mas agradado. – Quero que prepares pessoalmente um pequeno-almoço digno de um rajá para o meu irmão…
- Já está ali no carrinho. Ele já ligou a pedir que lhe fosse entregue no quarto.
    Diana inspeccionou todos os detalhes e satisfeita com o resultado empurrou o carrinho e dirigiu-se para o quarto do irmão. Bateu suavemente à porta e entrou assim que obteve a devida autorização do outro lado.
- Bom dia casal maravilha! – Diana puxou uma cadeira que estava num canto do quarto e fez intenção de se juntar a eles naquele banquete.
- Ai que romântico! Tomar o meu primeiro pequeno-almoço como casado com o emplastro da minha irmã! – Pedro provocava a irmã com um sorriso que contrariava completamente aquele afirmação.
- Também gosto muito de ti maninho. – Diana piscou um olho cúmplice a Raquel que se aproximava da mesa recheada. A refeição fez-se numa agitação animada lembrando os pormenores cómicos do casamento. O episódio que relatava o José Gaitinha a cantar em inglês foi o que mereceu maior entusiasmo pela ladainha de um linguajar inventado que ele jurava ser a língua de sua majestade. O Manuel também foi alvo de risotas pelos comentários reprovadores dos vestidos demasiado curtos ou decotes pronunciados dos quais ele não conseguia desviar os olhos gulosos. Mário esticava-se na esperança de ser notado por alguma das beldades que se passeavam na festa. O Paulo e a Guida portavam-se como um verdadeiro casal antigo nos anos de casamentos. Guida chamava a atenção de Paulo na quantidade de copos de champagne que ele já bebera e ele dando-lhe razão continuava a ingerir aquela bebida com uma ganância provocadora.
- E tu, a certa altura desapareceste com o Rúben! – Raquel aproveitou o momento em que o recente marido se retirou para o merecido banho e abordou o assunto que lhe ocupava parte da mente.
- Pois foi! – Raquel ficou desiludida com a curta resposta. Esperava que Diana começasse a desbobinar, mas teria de se esforçar mais para isso.
- E falaram do quê?
- Tu não irias acreditar!
- Experimenta-me!
- Ele pediu-me perdão! – Diana desabafou após uns segundos em que brincou deliberadamente com um bago daquela uva isabela, proveniente das vinhas imensas da ilha vizinha.
- Ele conseguiu! – Esta exclamação impensada de Raquel suscitou a desconfiança imediata de Diana.
- O que queres dizer com isso? – Raquel percebeu tarde demais o seu desabafo em voz alta. Tinha de lhe contar a verdade, apesar de estar a violar uma conduta que lhe é exigida… Mas numa verdadeira amizade, as questões mal resolvidas tornam-se trevas absurdas que dominam qualquer ponto-luz de confiança.
- O Rúben procurou a minha ajuda enquanto psicóloga. – Aquela declaração fez o queixo de Diana descair.
- Quando?
- Estava no hotel há pouco tempo. Procurou-me porque sentia que ia cometer uma loucura qualquer sem sequer conseguir definir que tipo de loucura seria ou contra quem a cometeria. Entrou no meu consultório com os olhos de um miúdo amedrontado e apenas pediu-me que o ajudasse em nome dos velhos tempos.
- Então foste tu que o aconselhaste a pedir perdão. – Diana sentia-se ultrajada e enganada. – Não foi uma atitude de dignidade mas de obediência… Ainda bem que não o perdoei! – Diana agora andava de um lado para o outro com uma mão na cintura e a outra fechada em punho que se elevava a cada silaba tónica do seu discurso.
- Tu não o perdoaste? – Raquel quase gritou esta pergunta retórica. Levantou-se e perdeu a calma. Interrompeu a caminhada inútil da amiga e encostou-lhe o dedo indicador ao nariz.
- Agora vais ouvir umas verdades. O Rúben está há meses a seguir um plano de duas consultas semanais, e a fazer um esforço sobre-humano para ultrapassar dificuldades da sua personalidade. Ele teve a humildade de perceber que estava no caminho errado e chegou sozinho à conclusão que para recomeçar a sua vida tinha de arrumar com um passado ensombrado. Ele assumiu os seus actos menos dignos e até maldosos e foi ele que percebeu que precisa do teu perdão para continuar a sua jornada… Foi ele, Diana…
- Pois ele que vá para o diabo que o coma… Se o futuro risonho dele depende de ouvir da minha boca que o perdoou, então ele vai arder num inferno de pesadelos em vida… - Diana vociferava de raiva, nem percebia bem porquê. No dia anterior, quando encarou aquela história deprimente e o pedido de desculpa de Rúben, quase tinha cedido a esse pedido. Mas havia qualquer coisa no seu espírito que não lhe permitiu essa abertura. Havia um rancor antigo… Um sentimento de que ela devia manter-se sempre alerta e havia esta incapacidade de cortar com o passado. Afinal eram estes ressentimentos o verdadeiro rastilho da sua ascensão.
- Olha Diana! Eu adoro-te! Mas tu continuas a esconder-te atrás dessa cortina de vítima…
- Não te esqueças que aquela besta assombrou a minha adolescência. Ele não é boa pessoa… É um mau carácter, um bruto, um canalha…
- És tão boa a definir personalidades! Agora vais sentar-te e ouvir-me sem me interromperes! – Ambas se sentaram novamente à mesma mesa e olharam-se descaradamente. – Quero que saibas que sou eu, a Raquel, que te vai dizer umas verdades… Sou eu, na condição de tua amiga… Sou eu, uma das pessoas que sempre esteve ao teu lado e que só te deseja o bem… E agora que tens consciência da pessoa que está à tua frente, tenho a certeza que vais interiorizar com atenção aquilo que te vou dizer… Porque eu sou uma das pessoas que te ama… E quem ama só diz o necessário… - Raquel ficou satisfeita com o acenar afirmativo da cabeça de Diana. – Tu formaste uma opinião acerca do carácter do Rúben sem conheceres todos os dados que formam a personalidade dele. E estás fechada nesse preconceito…
- Eu não sou preconceituosa… Os outros é que foram comigo! – Diana exaltou-se perante aquela acusação injusta…
- Tu, realmente foste vítima de muitos preconceitos, de uma forma atroz que ninguém merece… E esse facto tornou-te forte e deu-te motivação para alcançares tudo aquilo que tens… Mas tu és preconceituosa e estás a sê-lo com o Rúben! – Raquel levantou a mão em forma de protesto às palavras que Diana se preparava para dizer. – Sou eu que estou agora a falar… Lembras-te quando eu te conheci? Eu corri para ti aberta a conhecer-te e tu rejeitaste-me com palavras muito injustas… Isto, minha querida, foi uma agressão verbal… Tu criaste na tua cabeça uma pré- concepção daquilo que eu era… Uma betinha de merda, como tu própria me descreveste… - Diana afrouxou o olhar face ao reconhecimento das palavras da amiga. – Só temos esta amizade maravilhosa porque eu insisti e tu deste-me uma brecha para um conhecimento profundo da minha pessoa… Agora falemos do Bernardo…
- Eu adorava o Bernardo… Nunca pensei mal dele… - Diana tentava a justificação fraca dos culpados.
- Sim é verdade que adoravas o Bernardo… Mas não, não é verdade que nunca tenhas pensado mal dele… Deixa-me continuar com o meu raciocínio. Tu deixaste que o Bernardo se aproximasse de ti por oportunismo… O que não é pouco digno, pelo contrário, quase todas as pessoas abrem-se aos outros por oportunismo, mas nunca têm a decência de admitir ou sequer de o saber. Mas lembras-te daquele dia em que desceste do apartamento e encontraste no lugar de Bernardo um motorista… Lembras-te de ter rotulado o Bernardo de um menino do papá com medo de se misturar com gentalha… Chamaste-o de tantas coisas, de ricalhaço com manias de superioridade… e nenhuma delas correspondia à realidade… Isto, minha queria é preconceito, que criaste só porque ele tinha uma posição social diferente da tua… Só deixas de ter preconceito em duas situações: ou quando te abres completamente ao mundo e às suas diferenças e aceitas tudo tal qual te surge, ou quando te fechas completamente ao mundo e só crias uma opinião depois de teres todas as verdades sobre a mesa.
- Mas eu nunca magoei ninguém da forma como o Rúben fez comigo!
- Cada um lidou com os seus males à sua maneira. Tu protegeste-te assumindo um papel de vítima. O Rúben protegeu-se adoptando um papel de agressor. Talvez esta última forma de lidar com os problemas seja menos digna… Mas sabes quantos agressores têm a capacidade de perceber que estão a agir mal? Sabes quantos agressores são capazes de assumir que estão errados?... O Rúben teve essa capacidade. A capacidade de perceber que não pode apagar o passado, mas pode arrepender-se e aprender com os prejuízos disso… Tu não estás a ter a mesma capacidade…
- Que raio é que estás para aí a dizer? – Diana voltou a exaltar-se e explodiu num rio furioso de palavras. – Eu não soube lidar com o passado… Eu coloquei o passado para trás das costas e construí uma vida digna sozinha… Eu esfolei todo o meu ser para conseguir ultrapassar o passado e viver exactamente da forma inversa… Eu queimei inúmeras futilidades e vivências próprias de certas idades para enterrar este maldito passado… E sabes que mais… Olha bem para mim… Não tenho nada a ver com o meio que me pariu…
- Volta a sentar-te Diana! – Raquel manteve a calma perante aquele ataque de indignação, provocando um certo desconforto em Diana que lhe obedeceu. – Tu conquistaste muita coisa, mas nunca ultrapassaste esse teu tão odiado passado. Aliás, tem sido exactamente esse passado o principal impulsionador. Tu fazes tudo na dependência desse passado… E agora eu pergunto-te… Estás feliz?
    Diana chorou quando aquele entendimento foi aceite pela sua mente. Raquel tinha razão. Tudo o que ela queria deixar para trás tem caminhado lado a lado com ela. Todos os seus desejos foram sonhados tendo como motivo o seu passado. Todas as suas acções eram conduzidas por aquele passado que teimava em permanecer presente…
- E o que devo fazer para me libertar deste fardo? – Diana finalmente estava aberta a ultrapassar aquele fantasma que a acompanhava e a dilacerava, roubando-lhe sempre o verdadeiro prazer de cada conquista e conduzindo-a sempre para uma nova ambição que a conduziria a um novo patamar conquistado mas não saboreado.
- Para deixares de teres fantasmas deves deixá-los no seu lugar temporal… Muito lá para trás! Deixa aquele adolescente mesquinho exactamente nesse lugar que tu já passaste há muito tempo. Tens de perdoar e esquecer… Porque enquanto não o fizeres vais ter sempre a motivação de teres que provar alguma coisa que nesta data presente já não faz sentido…
    Pedro saiu do banho envolto num vapor que fazia adivinhar um banho relaxante e a boa disposição dele não merecia ser colocada em causa pelos problemas de Diana. Esta despediu-se e justificou as suas lágrimas com as saudades que sentiria deles naquelas duas semana de ausência.
    Diana trancou-se no seu escritório e forçou a sua memória a encontrar um momento em que ela tenha saboreado completamente um conquista sua… E só os momentos passados com Duarte lhe passavam à frente dos olhos. Duarte foi o único sentimento de lhe surgiu naturalmente sem ter como impulsionador aquele passado que teimava em pulsear-lhe nas veias. Duarte era a sua única conquista que não tinha aquela marca maldita. Era um sentimento que ela tinha desenvolvido apenas porque sim… Isto era tão simples que não podia ser mentira. Diana agarrou num auscultador e pediu a presença imediata de Rúben ao seu gabinete.
    A figura de Rúben surgiu-lhe mais encolhida do que costume e os seus olhos reflectiam mais uma noite mal dormida. Diana ao vê-lo mergulhado nas sombras do seu passado sentiu uma angústia solidária. Correu para o seu agressor e abriu-lhe os braços. Após uns segundos de espanto e outros de entendimento, Rúben refugiou-se naquele abraço. 
O verdadeiro perdão é aquele que se sente nas entranhas e não aquele que a nossa boca é capaz de pronunciar.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Capitulo XVIII

Capitulo XVIII

    A casa transbordava uma agitação própria dos grandes momentos. Raquel mirava-se ao espelho alheia a todo o movimento característico de última hora. Os seus braços estavam inertes e os olhos focavam a imagem daquela noiva reflectida. O vestido branco imaculado transformava-a numa verdadeira princesa cuja pequena coroa de ouro branco confirmava esse estatuto. Raquel tinha preparado aquele dia com um dinamismo casual que se encaixou no seu quotidiano de forma natural, mas só naquele momento em que visualiza a sua figura quase divina é que realizava na sua mente o passo que ia dar e sentia-se feliz. De uma felicidade calma e plena que lhe preenchia todas as suas ambições. Era uma felicidade pouco exuberante mas assertiva que não deixava espaço para dúvidas e que garantia um futuro estável. Ela que agia por impulso, que agia antes de pensar, que tinha os desejos à flor da pele, estava transformada numa mulher que sabia o que queria e que lutava por isso sem desejos precipitados. Ela tinha tido a capacidade de agarrar o futuro com que sempre sonhara. Já não era uma menina mimada à espera que as coisas se se proporcionassem, mas uma mulher que mesmo sem consciência disso lutara por merecer um pouco mais…
- Raquel, tu estás linda! – Diana sentia-se emocionada ao ver a melhor amiga a ligar o seu futuro ao irmão com uma dignidade e certeza capazes de destruir qualquer nuvem escura que se pudesse formar naquele enlace.
- Estou a ficar um pouco nervosa! Só agora é que realizei na minha cabeça o passo importante que vou dar!
- Estás arrependida?
- Nem pensar nisso! Pode não parecer, mas sinto-me feliz…
    As duas raparigas abraçaram-se longamente e partiram juntas para mais um momento marcante na vida de uma delas.
    Nada escapara aos preparos antecipados de Raquel. O altar em madeira montado à beira da piscina do hotel serviu de palco para o esperado sim. A passadeira vermelha que conduzia ao altar foi inaugurada pela noiva e só depois de confirmados os votos foi conspurcada por arroz e pétalas de rosas. O jardim amplo albergava uma tenda enorme onde estavam as mesas preparadas para o banquete. A banda tocava um reportório de músicas pré seleccionadas pessoalmente por Raquel que se derretia ao olhar para o agora marido envergando um smoking que lhe conferia um ar de James Bond. Pedro era o tipo de homem que não tinha consciência dos olhares que atraia sobre a sua figura alta e atlética, mas Raquel sabia que mesmo ali, no papel de noivo dedicado a responder com um beijo apaixonado a cada tilintar de talheres, Pedro continuava a provocar suspiros e desilusões em muitas mentes femininas.
- A minha linda esposa dança? – O sorriso que acompanhou esta proposta foi o momento que nenhuma máquina fotográfica teria a capacidade de registar, mas que ficaria gravada para a eternidade na memória de Raquel.
    A festa que aquela noite prometia não decepcionou ninguém. Diana dançou com os pescadores até não aguentar mais de dor nos pés massacrados. Desfrutou do champanhe e da música com a alma aberta aos detalhes da vida que são capazes de proporcionar prazeres quase imperceptíveis, mas que quando permitidos levam a um êxtase de bem-estar que se confunde facilmente com a verdadeira felicidade.
- A Diana não se importa de dançar comigo? – O olhar inexpressivo que acompanhou aquela proposta surpreendeu menos do que a pessoa que a formalizava. Rúben estendia uma mão insegura e não segurava o olhar no de Diana por mais de dois segundos. Diana contrariou a sua vontade primária de negação e aceitou. Afinal era um dia de alegria que não devia ser ensombrado por mágoas antigas.
- Claro! – Diana depositou a sua mão na de Rúben e dirigiram-se os dois para a pista de dança. Dançaram de uma forma mais formal do que divertida a música My Way de Frank Sinatra soberbamente interpretada pela banda contratada.
- Podemos dar uma volta pelo jardim? – Ruben segredou ao ouvido de Diana provocando nesta um arrepio. Não foi um arrepio de medo, mas de cautela, reflexo de uma relação pouco saudável que se havia criado entre os dois. Rúben pressentindo este receio tranquilizou-a. – Só preciso de falar contigo Diana. É muito importante…
- Não sei se será boa ideia!..
    Mas face a esta pequena contestação, Rúben falou com uma humildade na voz que desarmou numa fracção de segundo a muralha que Diana demorou anos a construir.
- Por favor… É mesmo muito importante para mim…
    Em silêncio Diana pegou na mão daquele homem e conduziu-o para fora da tenda. A noite estava amena, apenas uma brisa nocturna típica das ilhas arrepiava os braços desnudos de Diana. O céu mostrava-se descaradamente num esplendor de estrelas e planetas que se confundiam harmoniosamente. A lua surgia grande e próxima como se fosse fácil alcançá-la, tornando naquele momento qualquer milagre possível. Sentaram-se num banco de jardim com uns rendilhados de ferro frios virados para aquela pequena cidade que se estendia aos seus pés rumo ao mar. As luzes trémulas das casas faziam adivinhar a vidas mundanas próprias de um lugar pequeno e Diana sentiu-se tranquila.
- Eu quero pedir-te perdão Diana… - Rúben fixou um olhar arregalado de expectativa nos olhos de Diana e pressentindo a incompreensão e confusão da mente de Diana, Rúben percebeu que não seria tão fácil quanto imaginara livrar-se daquele fantasma. – Eu preciso que me perdoes Diana…
- Oh Rúben! Não gozes comigo…
- Não estás a perceber…
- Eu estou a perceber muito bem. – Diana refez-se do espanto inicial e colocou a sua mente calculista que tanto a caracterizara a funcionar. – Não precisas de fazer isso… O teu emprego só depende de um bom trabalho da tua parte… E eu realmente não tenho razões de queixa… Até podes crescer no hotel… Apesar dos rancores que guardo a teu respeito, isso não vai influenciar-te negativamente no teu trabalho… Não te preocupes…
    Perante uma falta de reacção de Rúben, Diana forçou-se a encará-lo e o que encontrou naquele rosto destorcido perturbou-a e desconcertou-a. Ela sabia lidar com o Rúben agressivo, mas as lágrimas que ele deixava rolar-lhe pela cara era uma situação que a paralisava nos movimentos e pensamentos.
- Tu não estás a perceber Diana! – Rúben esforçava-se por falar de forma coerente para que Diana o compreendesse. – Eu sonho contigo!
- O quê?!?! – Diana emitiu um pequeno guincho de estupefacção.
- Tenho pesadelos contigo! Até já tenho medo de adormecer e esforço-me por não fechar os olhos… Mas assim que lhes dou descanso é a tua face que me surge… E tu tens uma gargalhada estridente e maldosa… Assim que apareces eu sinto uma fome desgraçada. Vejo tanta comida perto de ti e esforço-me por alcançá-la mas nunca consigo e vou desfalecendo e desfalecendo e tu vais rindo e rindo cada vez mais alto…
- Que horror! Até parece que sou eu a má da fita! – Diana nem acredita no que houve. Aquele bruto ensombrou-lhe a adolescência com um pânico constante de maus trados físicos e verbais e agora queixa-se de uns pesadelozinhos dos quais ela nem é responsável…
- Oh Diana não ironizes! Por favor ouve-me… - Rúben chorava como uma criança. – Eu sou um homem adulto e com consciência suficiente para perceber que a garota a quem eu fiz a vida negra me estendeu a mão quando todos me viraram as costas nesta ilha desgraçada… Tu não sabes o que esta consciência me está a fazer… Graças a ti eu soube o que é estabilidade e graças a ti eu conheci uma pessoa que me é tão especial…
- Quem? – Diana sentia-se horrorizada com a hipótese de ser responsável por ter apresentado alguma mulher àquele canalha…
- A Marta…
- Tu nem te atrevas a fazer-lhe mal… Eu dou cabo de ti… Canalha… Estupor… - Diana sentiu a mesma vibração percorrer-lhe as veias que sentira quando enfrentou o pai e num impulso de sobrevivência que já não sentia há muito começou a agredi-lo com todas as suas forças. Só parou quando o cansaço lhe invadiu os movimentos e percebeu nesse exacto momento que Rúben não evitou um único golpe, nem ripostou. Aquele homem enorme e com uma força bruta, não agiu da forma como era esperada e o caracterizava. Diana sentia-se confusa…
- Eu amo-a… E ela retribui-me este sentimento… - Rúben encolheu-se instintivamente à espera de uma nova reacção, da mesma forma que Diana fizera centenas de vezes. Ela sentia a cabeça a latejar e o seu raciocínio teimava em flutuar acima do seu entendimento. Como não houve qualquer reacção, Rúben arriscou e continuou com a sua intenção.
- Ela é como tu… - Rúben não conseguiu evitar um novo soluço que lhe estremeceu os ombros. – Tudo o que me enojava em ti, existe na mulher que eu amo… Sabes o quão agonizante é ter consciência disto?
    Incapaz de pronunciar uma única palavra abanou a cabeça em negação. O seu espírito estava completamente estagnado e o seu corpo sem reacção. Mas a sua mente estava activa e empenhada numa compreensão que lhe parecia fora de alcance.
- Sabes o motivo que me levou a odiar-te tanto?
    Aquela noite esplendorosa reflectida num céu magnífico e numa lua que irradiava desdém na sua simplicidade sem arestas ou cantos que escondem verdades ocultas… Aquele universo estendia-se sobre a sua cabeça assistindo à sua impotência com uma satisfação brilhante que tornava uma noite agradável para os amantes.
- Nunca pensei que houvesse um motivo específico… Eu era uma marginal e vocês, pessoas normais que não me aceitavam no vosso mundo perfeito…
    A gargalhada nervosa que Rúben emitiu confundiu ainda mais a corrente que lhe atravessava o cérebro…
- Ai Diana! A vida não é assim tão simples… Eu vou contar-te o segredo da minha família e tu vais perceber que o que interessa é a fachada que cada um usa… Tal como tu agora… Estás polida, todos te aceitam… Mas quando eras uma maltrapida e estavas associada ao Zé dos Copos, todos te rejeitavam… A humanidade tem tanto de reles como de compaixão.
    Diana ouviu em silêncio a história daquele homem que ela pensou um dia conhecer intimamente e redescobriu uma nova pessoa.
   

    O pai de Rúben era um antigo chefe de finanças. Um homem respeitado e ligado à política local, de nome Diamantino. Casou-se na idade certa com uma rapariga respeitável, que não fazia nada para a sua subsistência. Vivam uma vida invejada e deleitavam-se com esse facto. No segundo ano de casamento, Diamantino e a jovem esposa Inês tiveram o primeiro e único filho, Rúben. Foi uma grande alegria para a família que se alongava para além dos jovens pais, atingindo tios, primos, padrinhos, e vizinhos. A casa deles palpitava vida e agitação traduzida num entra e sai de gente. A sua vida social era vivida em jantares maioritariamente gratuitos para eles, mas pagos pelos contribuintes. Não havia evento naquela ilha que o casal não marcasse presença. Qualquer festa era uma desculpa para estrear uma fatiota nova e exibir o melhor presente. Rúben habituou-se a esta vida que lhe proporcionava a fragilidade de um poder de cristal. Os seus dias eram passados em casa na companhia de uma ama cabo-verdiana que o acarinhava com uma ternura não correspondida. Rúben sempre vira a ama como uma subalterna e era insensível às atenções e mimos que a pobre mulher lhe disponibilizava. Ruben tinha apenas dez anos, frequentava ainda o quarto ano no único colégio da ilha, o colégio de Santo António, e estava convencido de que as meninas internas que as freiras tão generosamente acolhiam eram seres inferiores que não mereciam a sua companhia. No entanto nessa altura não alimentava mais do que uma indiferença por aquele tipo de gente e sustentava-se na teoria do pai, de que tinham o dever de ser benevolentes e caridosos com os necessitados. O pai costumava participar em muitas acções de solidariedade, principalmente no exterior da ilha. Certo dia aquele pai alto e imponente dirigiu mais do que duas palavras àquele filho que o adorava de coração e que mendigava cada pequena atenção.
- Vamos receber duas meninas internas numa instituição de caridade nesta casa. Quero que sejas cordial com elas, apesar da sua condição inferior.
- Porquê? – Perguntou Rúben na inocência dos seus dez anos, numa tentativa desesperada de alongar aquela espécie de conversa que o pai iniciara com ele. O homem de cabelo preto que começava a evidenciar umas nuances prateadas sentou-se no sofá e colocou o filho no seu colo. O pequeno ficou excitado de tanta felicidade com aquele gesto raro e ficou muito sossegado na esperança de que o pai não se cansasse dele.
- Porque nós temos de fazer o bem a quem precisa. Existe uma instituição no continente que acolhe meninas abandonadas e que quer proporcionar a elas vivências no seio de uma família exemplar como a nossa. Por isso nós vamos recebê-las durante duas semanas. – O pai voltou a pousar o filho no chão e nem por um momento leu a desilusão que lhe trespassou o olhar.
    O dia em que receberia as meninas chegou e Rúben sentiu a ansiedade do pai. O homem mal tomara o pequeno-almoço e o espaço que distanciava o sofá da janela foi percorrido vezes sem conta. A mãe pelo contrário ainda nem se tinha levantado da cama. Já passava um pouco das onzes horas da manhã quando um táxi parou à porta de casa. Diamantino levantou-se apressadamente, parou diante do espelho da entrada, ajeitou o cabelo e abriu a porta com uma calma que Rúben ainda não tivera oportunidade de ver durante esse dia.
- Sejam bem-vindas! – Diamantino abriu os braços àquelas duas estranhas e abraçou-as, provocando um ciúme repentino no filho que virou as costas às raparigas sem sequer cumprimentá-las. Afinal eram mais velhas do que Rúben imaginara. Se já era difícil brincar com meninas da sua idade, era completamente impossível fazê-lo com meninas de catorze anos.
    A primeira semana passou-se sem que Rúben conseguisse a tão desejada atenção paterna. Os dias dividiam-se entre os carinhos forçados da ama e as amarguras da mãe que se portava de uma forma estranha e tinha uma voz arrastada como se lhe fosse difícil pronunciar as palavras. Diamantino saía todos os dias de manhã com as meninas. Mostrou-lhes a ilha como um verdadeiro guia turístico e naquele dia, preparava-se para levá-las à praia. Rúben sentia uma raiva por aquelas meninas que segredavam constantemente ao ouvido do pai e emitiam umas risadinhas histéricas que provocavam tremuras no seu corpo e tinha de cerrar os punhos com toda a força até lhe passar esses ataques de nervos. Diamantino nunca o levara a passear, nunca foram à praia juntos, nunca jogaram futebol… E agora aquelas malditas que nem os pais verdadeiros souberam cativar eram detentoras de todas as atenções que deviam ser dele e só dele. Rúben tinha o nariz colado ao vidro que se embaciava e desembaciava ao ritmo da sua respiração e o coração acelerava-se a cada gesto que presenciava naquele piquenique ridículo que acontecia nas traseiras do seu próprio jardim. Esse piquenique tinha-lhe sido negado com um não seco proferido pela boca do pai e que lhe ressoava em eco na cabeça. Uma toalha xadrez imaculada estava estendida com pequenas maravilhas espalhadas, doces e salgados que lhe eram sempre vedados. Rúben sentia água na boca ao olhar para cada dentada descarada que era executada naqueles jesuítas cremosos, ao mesmo tempo que um rancor silencioso lhe percorria as veias palpitantes de fúria. Não podia contar com a mãe que dormia até ao meio-dia e desaparecia durante toda a tarde voltando quando Rúben já estava deitado. Sentia-se encurralado e o seu espírito pedia-lhe uma libertação urgente que Rúben não sabia como satisfazer. Quando o piquenique terminou, o Sr. Diamantino entrou com as convidadas e fez uma festa no cocuruto de Rúben enquanto lhe dava novas recomendações.
- Tens-te portado muito bem. Agora vamos subir um pouco para descansar… É melhor que brinques na rua. – Aquela caricia fria e o elogio não foram suficientes para acalmar as palpitações maldosas que formigavam nos punhos cerrados de Rúben. Este acompanhou com um olhar vítreo o percurso do pai até ao quarto. Passados uns extensos minutos de imobilidade, o menino seguiu o mesmo caminho que o pai acabava de percorrer. Pé ante pé para não ser descoberto, Rúben avançou como uma cobra matreira até ao quarto de hóspedes onde o progenitor tinha entrado com as meninas. Encostou o ouvido à porta e entendeu uma diversão sonora que o incomodou. Elas emitiam gritinhos abafados e risinhos estridentes, enquanto o pai arfava como se fosse um qualquer animal selvagem. Rúben rodou a maçaneta da porta com cautela e quando conseguiu uma pequena fresta estacou o seu olhar no inacreditável. Uma delas estava completamente despida, com os seios ainda pouco formados, deitada na cama e atazanava a atenção de Diamantino sacudindo-se de uma forma provocadora. A outra despia a roupa balançando-se como se houvesse alguma melodia a acompanhá-la. Diamantino já desprovido de qualquer vestimenta respondeu violentamente ao abrir de pernas atrevido da primeira. Aquele festival animalesco enjoou Rúben de tal maneira, que este se refugiou no seu quarto com a almofada a cobrir-lhe a cabeça num acto inútil de tentar aniquilar aquelas imagens e abafar aqueles sons que se elevavam na sua cabeça e no quarto ao lado. Ele não chorou… Rúben nunca mais chorou até àquele momento em que se sente fragilizado na presença de Diana.

    Diana nem acreditava no relato que acabava de ouvir. O seu instinto levou-a a abraçar Rúben e a acolher no seu colo aquele choro infantil.
- Não sabia de nada disso Rúben!... – Diana sentia-se dormente e incapaz de qualquer consolo melhor.
- A partir daí todos os anos recebíamos duas meninas durante duas semanas nas férias do verão. Até eu ter catorze anos… - Rúben soluçava e as palavras rebolavam-lhe entre a língua e as bochechas… Mas ele queria contar… Ele queria contar tudo… Para terminar com os pesadelos e seguir com a sua vida tem de ser compreendido e perdoado. E não existe perdão sincero sem que toda a verdade esteja exposta.
- Pronto Rúben acalma-te! Eu já percebi… Não precisas de continuar com essa tortura…
    Rúben endireitou-se e enxugou as lágrimas.
- Ainda não terminei a minha história… - Ele endireitou-se, limpou desajeitadamente as lágrimas e continuou o seu relato.

    O verão dos seus catorze anos foi um verão especialmente abafado, com temperaturas demasiado altas para humidades de cem por cento que provocavam um desconforto corporal traduzido num pele suada e melada. Rúben transpirava aquele clima pesado e quente numa ansiedade que previa o mesmo pesadelo dos outros verões. A visita esperada chegou na data prevista e como era de prever surgiram duas jovenzinhas com as suas risadinhas envergonhadas e com a simplicidade das rameiras. As entranhas de Rúben voltaram a volver-se como acontecia sempre que ouvia aquela banda sonora de sons guturais de sexo explícito vindos do quarto ao lado. Ele podia simplesmente sair de casa e ir para algum lugar onde não ouvisse aquele festival deprimente… Mas simplesmente não conseguia… Trancava-se sempre no quarto num silêncio tenebroso e captava cada risada, cada gemido, cada suspiro… Ele enroscava-se no chão às escuras como se quisesse que o único sentido apurado fosse a audição e chorava baixinho… Chorava de mágoa, mas principalmente chorava um rancor que crescia dentro dele e mostrava-se na forma de ódio. E ele odiava aquelas rameiras… Aquelas putas que estragavam o seu lar… Ele odiava-as… Elas tinham sido abandonadas exactamente porque não prestavam… Deviam viver eternamente afastadas das pessoas normais, ou causariam o caos por onde passassem… A tolerância de Rúben estava esgotada e a gargalhada de satisfação que o pai se permitiu foi a gota de água. Rúben levantou-se e com a alma a transbordar ódio e lágrimas na mesma quantidade, o rapaz atravessou a passos largos e pesados a distância entre os dois quartos sem a preocupação característica de ser notado. Arrombou literalmente a porta e entrou naquele cenário triste. Uma pequena loura tapou-se instantaneamente com um lençol revirado, como se nela existisse algum tipo de decência. A outra que estava numa cadeira tristemente nua e besuntada de uma maquilhagem excessiva, deixou-se assim ficar inerte à surpresa daquele acto ou apenas receosa daqueles olhos que faiscavam um ódio que ela bem conhecia.
    Após a surpresa inicial, Diamantino sorriu como se a situação lhe agradasse.
- Entra meu rapaz e faz-te homem… É para isso que este tipo de gente serve… - E com estas palavras pouco dignas de um senhor bem inserido numa sociedade falsa e corrupta, sanguessuga das fraquezas alheias, arrancou o lençol que tapava o corpo da pequena loura expondo um corpo magro e com poucas formas. Num gesto bruto abriu as pernas da rapariga na direcção de Rúben como se o convidasse a ingressar aquele acto pouco digno e degradante. O rapaz sentiu que o estômago o atraiçoava e num aperto nervoso, um impulso subiu-lhe pelas goelas e o vómito foi inevitável. Rúben fugiu a correr daquele cenário com a humilhação a pesar-lhe na dignidade. Ele correu até atingir a rua como se precisasse de ar, mas mesmo já no exterior a sua mente exigia-lhe um afastamento maior… E ele queria afastar-se, mas afastar-se tanto que aquelas imagens já não o pudessem afectar.
    Rúben só voltou a casa quando as suas pernas se recusavam a continuar e o cansaço excessivo lhe tinha adormecido a dor. O rapaz arrastou-se pela noite escura e purificadora até à entrada da sua casa, abriu a porta devagar para não acordar ninguém, adivinhando que àquela hora já estariam todos mergulhados num sono profundo. O estalo que lhe rebentou o lábio inferior foi pouco face aos olhos esbugalhados com um contorno preto que se desfazia sobre umas olheiras vincadas. A mãe gritava-lhe uma ladainha incompreensível enquanto o abanava e lhe falava com a sua cara encostada à dele sujeitando-o a um hálito amargo próprio de quem bebera demasiado.
- Ele foi-se embora por tua causa… - A mãe chorava e berrava… E Rúben tentava assimilar aquelas palavras… O pai foi-se embora supostamente porque ela não soubera manter a família unida. A esposa dele, a mulher que ele escolhera, a amada a quem um dia ele prometeu fidelidade lealdade e companheirismo, tinha criado um rebelde debaixo do seu próprio tecto. Se ela não tinha tido capacidade para desempenhar as únicas funções que lhe eram exigidas, que consistiam apenas em cuidar da casa e criar um filho obediente, então ele não podia continuar naquela casa.
    A doce Inês teve de arranjar um trabalho, o que não foi fácil, uma vez que nunca fizera nada de útil e teve de aprender a viver com um ordenado que ela considerava uma anedota. As orientações necessárias para gerir um tão curto orçamento familiar foram tomadas com a estupidez dos tolos. As aparências mantiveram-se a um custo de sopas diárias e bolachas de água e sal racionadas. A história vendida foi a de que o senhor Diamantino tinha ido para África como missionário e ela tinha ficado porque tinha um filho para criar, mas depois juntar-se-ia ao marido. As dívidas foram acumulando-se e só com a ajuda do irmão, o Dr. Carlos, foi possível sobreviver, porque na mente dos tontos o dinheiro vai para onde se mostra e não para onde se deve…