sábado, 22 de outubro de 2016

Capitulo XI - Os Donos da Vida

Capitulo XI 


   

 Miguel entrou no Hotel Açores Lisboa conhecedor do caminho. O sorriso caridoso que a recepcionista lhe dirigiu, fê-lo endireitar-se, mas foi o pensamento dela que o tocou. Nunca tinha suscitado pena em ninguém. E naquele momento aquela rapariga com uma longa noite de trabalho pela frente sentia compaixão por ele. “Coitado, deve ter tido um dia difícil. Não lhe gabo a sorte”. Miguel sorriu com o pensamento daquela rapariga de estatura baixa e um pouco redonda e abanou a cabeça com a ironia da situação. Ela que tinha de trabalhar para sustentar sozinha um filho adolescente traquina que lhe dava muita despesa e dores de cabeça, não invejava a sorte dele, que é um Deus na terra.
Miguel subiu sozinho no elevador e quando chegou ao quarto, sentiu uma familiaridade que só aquele hotel lhe conseguia proporcionar. As plantas que cobriam a fachada transmitiam a sensação de calma e harmonia de uma grande família camponesa. O conforto interior do quarto quase o obrigava a descalçar os sapatos Stefano Bemer, feitos à mão e por medida, a enfiar uns chinelos confortáveis e um roupão quente, a sentar-se junto à varanda e a ler o jornal diário sem pressa. Miguel ligou a cafeteira para aquecer água e fazer um chá. Que chá usaria Cristiano para esta angústia que sentia? Sorriu perante esta interrogação involuntária. Tinha gostado do homem. Era um homem sério como já não conhecia há muito tempo nos cenários da política. Miguel optou por um chá de tília. Sentou-se na poltrona sabiamente colocada em frente à janela e esticou as pernas sobre uma mesinha que teria outra utilidade qualquer. Bebericou o chá quente e deitando a cabeça para trás, fechou os olhos. Tinha demasiada informação a rondar-lhe a mente e não conseguia organizá-la.
Em momentos muito pouco vulgares, como este, questionava-se sobre a necessidade do ritual de yesod. Depressa varria esta incerteza da sua mente. Este ritual permitia acesso ao subconsciente de todos. E os Donos do Mundo têm de ter acesso a toda a informação necessária de forma a poderem proteger a humanidade o melhor possível. O Homem é um ser auto destrutivo, mas utiliza formas de destruição encobertas e complexas sempre com o falso justificativo de preservar o homem de bem. São a sua principal ameaça. E é aqui que a ordem tem um papel fundamental. Têm de manipular o mundo para que o ser humano, criado à imagem de Deus, não deixe de existir. A humanidade é o projecto de Deus, e ele e os seus irmãos são os seus soldados. Têm de ter acesso às mentes alheias de forma a poderem antecipar, preparar e manipular acontecimentos.
O ritual era assim essencial para a missão da ordem. De trinta em trinta anos tinha de ser executado. O mestre indicava a escolhida. Tratava-se sempre de alguém sensível, com uma percepção para além do corriqueiro. Charlotte era assim. Tinha uma sensibilidade, uma premonição que não sabia usar. Era doce e inocente. Conheceu-a havia já sessenta anos. Ela era ruiva com uma pele branca como o leite e umas sardas que a desgostavam. Viu-a nas ruas de Londres desamparada e a desfalecer abraçada pelo fumo que inundava a cidade.



Decorria então o ano de 1952. Mais concretamente o dia 5 de Dezembro de 1952. Londres palpitava vida naquela manhã fresca e calma. O frio cortante obrigava a passos apressados nas ruas. Todos cobriam-se com camadas de roupa quente sem ligar a modas. O frio era mais incomodativo do que a aparência. Miguel lembra-se de passear ao longo do rio Tamisa. O céu azul e permissor de um sol longínquo não aquecia os necessitados. Almoçou uma sopa quente num café escuro e preparou-se para o que o esperava. Reviu as feições redondas de Charlotte na sua mente de forma a reconhecê-la quando chegasse o momento. No final da tarde daquele início de Dezembro, a temperatura baixou abruptamente e cada um se refugiou na quentura dos brasidos das suas casas. Um nevoeiro cerrado desceu sobre a cidade e depressa se transformou numa cortina de fumaça perfurada por uns insistentes raios de sol formando colorações florescentes nunca antes vistas naquela cidade. Não fosse o sinistro daquele negrume abrasador que obrigava ao uso de lenços sobre o nariz e a boca, e os londrinos teriam apreciado com gosto este fenómeno. E então o íntimo perverso do homem sobrepôs-se ao civilizado que era obrigatório num quotidiano domesticado. A escuridão trouxe consigo atropelamentos e acidentes em que os culpados desapareciam no meio da neblina e as vítimas sucumbiam perante a falta de auxílio. As pilhagens deram lugar à monotonia da vida corriqueira de Londres e o fumo cada vez mais negro e denso era cúmplice dos culpados. Todos corriam. Todos tossiam. Todos se protegiam. Ninguém auxiliava quem precisava. Foi neste cenário que Miguel encontrou Charlotte, com um lenço de um branco conspurcado amarrado à volta da face. Os olhos pretos arregalavam-se na esperança de ver um pouco mais além. Encolhida sobre si mesma desviava-se como podia dos carros tresloucados e dos ladrões de ocasião. Miguel correu para ela e envolvendo-a nos seus braços mesmo antes de ela desmaiar e carregou-a até o seu hotel.
Miguel descaiu o corpo na poltrona de forma a encostar a cabeça, e fechou os olhos regressando a esta doce lembrança de Charlotte.
Ela estava esticada em cima da cama gigante do hotel quando abriu os olhos com esforço como se tivesse a acordar de um longo sono. Miguel gostou daqueles olhos pequenos e perspicazes que percorreram o quarto antes de se depositarem nele. Ela disfarçou o medo numa atitude autoritária. Levantou-se de um salto e uma nuvem de poeira saltou com ela.
- Quem és tu? – Foram as primeiras palavras que Miguel ouviu da sua boca. A sua voz era rouca e arrastada.
- Sou o teu salvador. – Miguel sorriu-lhe e gostou da tremura que lhe provocou. – Estavas desmaiada no meio da rua. Não te podia deixar no meio desta confusão que se abateu sobre Londres.
Ela aproximou-se da janela e afastou o pesado cortinado. Sobressaltou-se com o que viu. Lojas e casas saqueadas. As pessoas apressavam-se de um lado para o outro. Não havia diferença entre os passeios e a estrada. Todos se atropelavam. Os transportes públicos estavam parados e abandonados. As pessoas usavam máscaras de gás como nos tempos da grande guerra.
- Estamos a ser alvo de um ataque químico? – Este era um medo herdado da guerra. Era uma realidade camuflada que a Europa esperava a qualquer momento.
- Não! – Miguel continuava a olhá-la. Era baixa e um pouco redonda demais para o seu gosto. Mas havia algo nela que lhe suscitava interesse. Os pensamentos dela pareciam um furacão à solta. Ela pensava em inúmeras coisas ao mesmo tempo, e Miguel tinha dificuldade em acompanhá-la. Mas o que o podia ajudar, ele já tinha captado. Ela tinha uma baixa auto-estima. Sentia-se atraiçoada pelo seu corpo redondo e pelas sardas. Era carente… Era uma presa fácil. E Miguel sorriu perante este pensamento.
- Então o que se passa? O que significa este fumo?
- Ninguém sabe. Surgiu assim do nada. – Miguel sentou-se numa cadeira de vime que estava ao lado da janela. – Moras aqui perto?
Charlotte olhou-o desconfiada. Ela sentia-se atraída por aquele homem de imagem forte, mas também sentia um arrepio de aviso. Miguel sentia a sua desconfiança e então deixou descair um pouco os ombros, tornando-se menos imponente e sorriu-lhe afavelmente, roçando uma quase humildade que lhe era tão pouco característica.
- Tens alguém lá fora à tua espera? Precisas de avisar alguém?- Miguel levantou-se graciosamente e colocou-se ao lado da rapariga olhando para aquele cenário de guerra que a vista da janela lhe oferecia. A diferença das suas alturas estava evidenciada e Charlotte sentiu-se pequena na sua estatura e na sua pessoa. – Acho que não é prudente sair.
Ela sorriu-lhe um sorriso envergonhado baixou os olhos e deu a resposta que Miguel já conhecia.
- Não tenho ninguém à minha espera. – Ela finalmente olhou-o nos olhos e Miguel soube que tinha a sua missão cumprida.
Charlotte olhou-se ao espelho e envergonhou-se pelas roupas gastas e sujas. Miguel antecipando este seu medo de desiludi-lo, encheu a banheira com água morna e deixou-a à vontade para se arranjar. Ela entrou na casa de banho e fechou a porta. Olhou pela primeira vez para o luxo. Nunca tinha estado dentro de uma casa de banho. Vivia em East End, ou seja, no que sobrou dos bombardeamentos da Grande Guerra. Vivia com gente que mal conhecia onde as crianças mirravam de frio e fome e os adultos apodreciam em vida. Lia a vida das damas em cartas para se sustentar e era muito procurada, mas sempre mal paga. Tinha uma sensibilidade para ler a alma dos outros que entorpecia e entretinha os fúteis. E assim se arrastava nos dias que compunham a triste melodia da sua vida. Mal podia acreditar que estava naquele hotel, na companhia daquele homem distinto. Sabia, sentia que ele tinha segundas intenções com ela. Mas ela também teria segundas intenções. Se voltasse para a rua morreria no meio do caos. Ali estava protegida e num conforto desconhecido. Viveria aqueles momentos e guardá-los-ia num recanto da sua memória de forma a reconfortá-la quando voltasse para a realidade e a miséria que a esperavam. Tomou um banho demorado. Descobriu o cheiro agradável a alfazema que emanava do sabonete. Esfregou o cabelo emaranhado como se fosse um tapete velho. E quando saiu da banheira olhou-se com um pouco mais de orgulho ao espelho. Vestiu a camisa de noite que Miguel lhe tinha deixado delicadamente em cima de um banco. A camisa de seda contornava os seios de forma sedutora e ela sentiu-se mulher pela primeira vez. Saiu corada e um pouco a medo, mas ganhou um pouco mais de confiança quando Miguel lhe dirigiu um olhar aprovador. Tinham à sua espera um tabuleiro com bolos e chá e Charlotte rendeu-se nesse exacto momento.
- Nem pareces a mesma Charlotte. – Ela abriu muito os olhos e voltou a fechar a sua cortina de desconfiança.
- Eu ainda não te disse o meu nome.
Miguel percebeu que tinha cometido uma gafe. Mas nada que o atrapalhasse. Olhou-a profundamente nos olhos e disse lentamente para que a sua mente absorvesse esta nova e alterada verdade.
- Claro que me disseste. Quando nos apresentámos há pouco. – Fez uma pausa verificando que esta informação se instalava no seu cérebro. – Eu disse que era Miguel e tu disseste-me que te chamavas Charlotte.
Charlotte riu alto e sem pudor.
- Claro que sim… Desculpe. Ainda estou um pouco confusa com tudo o que está a acontecer.
- É melhor descansares. – Miguel levantou-se da mesa cortês. – Parece que não há mais quartos no hotel. Por isso é melhor ficares aqui na cama e eu durmo na poltrona.
Charlotte levantou-se atrapalhadamente da mesa entornando o chá e provocando um riso involuntário em Miguel. Ele gostou desta nova liberdade e desta espontaneidade que ela lhe provocava.
- Nem pense nisso senhor Miguel. Eu estou habituada a dormir em qualquer canto… O senhor é que fica na cama… - Ela soprou uma mecha de cabelo revolto que teimava em tapar-lhe o olho direito. – Acredite que este chão é o maior conforto que já conheci em toda a minha vida.
Miguel sabia daquela realidade que ela lhe descrevia. Mas dita pela boca suave de Charlotte parecia demasiado cruel.
- Hoje és a rainha deste castelo Charlotte. Vais dormir nesta cama e não se fala mais nisso.
Pegou-lhe ao colo como se ela não pesasse mais do que uma almofada, aconchegou-a na cama, cobriu-a e depositou-lhe um beijo demorado na face. Charlotte fechou os olhos e deixou escapar uma lágrima libertadora, tocando uma parte do espírito de Miguel que ele desconhecia.
Miguel demorou a adormecer, apreciando o sono profundo daquela pequena ruiva de gestos brutos e linguagem fácil. Ela merecia o mundo, mas só tinha um punhado de nada. Era uma sobrevivente que ele começava a admirar. Finalmente fechou os olhos e voltou a sorrir um sorriso não premeditado.
O dia surgiu sem o acompanhamento da claridade desejada. Londres continuava mergulhada na escuridão, mas agora o fumo tinha um odor a dióxido de enxofre e uma coloração esverdeada. Miguel encostou-se à ombreira da porta desconfortável. Charlotte depositou-se ao lado dele sem olhar para a rua.
- Pareces preocupado.
Ele olhou-a sem pudor. Ela parecia uma selvagem, com o cabelo todo revirado e os olhos inchados. Então Miguel sucumbiu pela primeira vez a um impulso animal que desconhecia. Pegou-lhe pela cintura e beijou-a de uma forma mais possessiva do que amorosa. Ela correspondeu, apesar da evidente falta de experiência. De forma apressada, ele fê-la colocar as suas pernas à volta da sua cintura. Rodopiou com ela assim enroscada e envolvida naqueles beijos animalescos e finalmente atirou-a para cima da cama. Ela olhou-o com paixão e de forma permissiva.
Miguel sentiu o sangue ferver ao vê-la assim vulnerável na sua cama. O ritual tinha de ser bem executado e a luxuria nem sempre era uma boa ajudante. Então fechou os olhos com força e apertou a cana do nariz com o polegar e indicador da mão direita. Respirou fundo e afastou-se.
- Peço-lhe desculpa pela minha inexperiência. – Os olhos da rapariga estavam dilatados e húmidos reflectindo a humilhação que sentia.




Passados todos aqueles anos, Miguel ainda a recordava com carinho e sentia um peso no peito e uma dor na alma sempre que se lembrava de Charlotte, a sua doce Charlotte que lhe oferecera o melhor de si e que acabou desprezada. Miguel abriu os olhos. Não se permitia recordar para além dos momentos bons. Recordar tudo fazia-o sentir um incómodo nas entranhas que não sabia identificar.

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